- Sumário
- Requerimentos, licenças e pareceres relativos ao processo de impressão de Ifigénia (entre 8 de Maio e 2 de Setembro de 1798)
- Ano
- 1798
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 33, doc. 3 (a)
Requerimento de Manuel António Monteiro para impressão da tragédia Ifigénia
1798
Requerimento de Manuel António Monteiro que pretende imprimir a tragédia intitulada Ifigénia
X
Volta ao Editor a fl. 4
Respondido a fl. 10
Aprovado o manuscrito de que trata esta petição para poder ser impresso pelo que toca a este tribunal.
Lisboa, 8 de Maio de 1798
X X X
Senhora,
Diz Manuel António Monteiro que ele, suplicante, pretende imprimir a tragédia intitulada Ifigénia e como o não pode fazer sem licença de Vossa Majestade,portanto, pede a Vossa Majestade seja servida conceder a pedida licença na forma do estilo.
Espera receber mercê.
Requerimento de Manuel António Monteiro para a concessão da segunda licença de impressão de Ifigénia
A tragédia de que trata esta petição nada tem pelo que pertence à Jurisdição Ordinária.
Lisboa, 11 de Junho de 1798.
A. Arcebispo de Lacedemónia
Ilustríssimo Eminentíssimo Senhor
Diz Manuel António Monteiro que ele, suplicante, pretende imprimir a tragédia intitulada Ifigénia cuja já obteve licença junta e como para obter a segunda licença precisa despacho de Vossa Eminência, portanto pede a Vossa Eminência seja servido conceder-lhe a licença pedida na forma do costume.
Espera receber mercê.
Requerimento de Manuel António Monteiro para a concessão da terceira licença de impressão de Ifigénia e parecer do respectivo censor
Manda a rainha nossa senhora que o censor régio Francisco Xavier de Oliveira veja a obra inclusa e a remeta a esta Mesa com o seu parecer.
Lisboa, 19 de Junho de 1798.
Gama
Henriques
Senhora,
Diz Manuel António Monteiro que ele, suplicante, pretende imprimir a tragédia intitulada Ifigénia, cuja obteve as licenças juntas como se vê pelos documentos que apresenta e como para a ordem de a imprimir precisa de beneplácito de Vossa Majestade, portanto pede a Vossa Majestade seja servido conceder a licença na forma do estilo.
Espera rreceber mercê.
Dei extracto e o manuscrito ao editor em 18 de Agosto de 1798
Senhora,
Esta tragédia intitulada Ifigénia que o suplicante pretende imprimir não contém doutrinas erróneas
contrárias dos nossos dogmas; nem tão pouco máximas opostas ao serviço de Vossa Majestadee corruptoras da boa moral; além disso, posto que não dê maior honra à nacional literatura, também é certo que a não desacredita, e muito mais sendo comparada com outros dramas escritos em linguagem que correm impressos e que se tem representado nos nossos públicos teatros, os quais dão claramente a conhecer que os nossos filológicos conhecimentos têm marchado com passos de pigmeu neste género de escritura. Conheço que é uma obra mediana que tem defeitos, mas a par deles se descobrem
belezas que dão glória ao seu autor. Mas, todavia, se ela concorresse para o prémio da nossa Academia Real das Ciências, seria absolutamente reprovada, porquanto ali só se laureiam as obras mestras, as obras primas da arte e do engenho; contudo, se os escritos deste género fossem os únicos que se devessem imprimir, bastaria em Lisboa uma só oficina tipográfica. Pela qual razão parece justo que Vossa Majestade conceda ao suplicante a graça que pede, riscando estes dois versos da cena 2ª, Acto 3. página 46:
Tem a Religião poder imenso
Nos corações das gentes ignorantes.
Esta proposição é escandalosa e mal soante mas, contudo, eu a aprovarei se o autor me mostrar que S. Agostinho, S. Jerónimo e todos os mais padres, tanto da igreja latina como grega, foram ignorantes. Porque se nos corações destes grandes homens não tivesse imenso poder a religião, nunca as suas imagens se colocariam nos altares dos nossos templos e nunca mereceriam o nosso público, religioso culto.
Eu estou plenamente persuadido de que quanto maior é o talento do homem, e quanto mais vastos forem os seus estudos, tanto mais forte será o poder que nos seus espíritos há-de ter a religião. David, aquele rei profeta, que com tanta prudência governou o povo d’Israel, homem segundo o coração de Deus, não precederia dançando a Arca da Aliança nem do seu duplicado crime faria tão áspera penitência, se a religião o não dominasse e não tivesse no seu espírito soberano ascendente. Do mesmo modo Salomão, o
mais sábio de todos os homens, não edificaria o riquíssimo Templo de Jerusalém, se da sua alma não fosse a religião suprema condutora. Além disso, entre as grandes personagens que pelos seus escritos se têm ilustrado na república das letras, sem dúvida alguma merecem o mais distinto lugar Arnaud, Pascal, Polignac, Tenelon, Bossuet e Rollin; pois todos estes famosos homens ajuntaram ao seu vasto saber o mais profundo respeito à religião.
Eu,
entretanto, presumo que o autor se enganou escrevendo "religião" em lugar de "superstição", porque esta, na verdade, governa despoticamente os homens de pequeno espírito, sem educação, sem talentos e sem estudos. Ela é a que os persuade a tomar por deveres religiosos certas formalidades e práticas externas, como: terços garganteados, romarias a S. Macário e à Senhora das Barraquinhas. Ela é a que os faz encasquetar de que não morrem repentinamente se todos os dias recitarem o credo em cruz e de que, sem mais obra alguma expiatória,
ficam justificados na presença de Deus se acompanharem sete anos a fio a procissão dos Passos da Graça. Ela é a que os obriga a reputar artigo de fé a existência d’umas imaginárias sanguexugas humanas chamadas bruxas, que se nutrem do sangue das crianças, porém, que uma espada nua à cabeceira do berço e uns triângulos, a que chamam sinos salomões, atados no cinto dos recém-nascidos, os livram dos diabólicos e mortais insultos desta terrível, mas quimérica espécie de morcegos com forma humana. Etc., etc., etc.
Contudo, para se
evitarem dúvidas, quer seja ou não o engano do autor, parece justo que se risquem para sempre os dois versos.
Vossa Majestade, contudo, mandará o que for servida,
Lisboa, 6 de Agosto de 1798
Francisco Xavier d’Oliveira
Requerimento de Manuel António Monteiro para a concessão de licença após as emendas estipuladas pelo censorAos vinte e dois dias do mês de Agosto de mil setecentos noventa e oito, me foi dada a petição adiante com o extracto e manuscrito e sua resposta assinada pelo editor; que tudo se segue. Joaquim Ferreira dos Santos o escrevi
Junte a Censura.
Lisboa, 22 de Agosto de 1798
X X
Diz Manuel António Monteiro que ele, suplicante,entregou no régio Tribunal do Desembargo do Paço uma tragédia original intitulada Ifigénia, cuja foi Vossa Majestade servida vir com uma cota do sábio censor para se emendarem dois versos, cujos o suplicante fez, obedecendo aos reais preceitos, e como para a imprimir precisa que Vossa Majestade haja por bem concerder-lhe licença, portanto, pede a Vossa Majestade seja servida conceder ao suplicantea pedida licença na forma do estilo. Espera receber mercê.
Manuel António Monteiro
Extracto da censura feita à tragédia Ifigénia e resposta do editorExtracto da censura feita à tragédia intitulada Ifigénia, que pretende imprimir Manuel António Monteiro
Devem riscar-se os dois versos da cena 2.ª, Acto 3. pag. 46:
Tem a religião poder imenso
Nos corações das gentes ignorantes
Porquanto esta proposição é escandalosa e mal soante, e pode presumir-se que o autor se enganou, escrevendo "religião" em lugar de "supersitição", porque esta, na verdade, governa despoticamente os homens de pequeno espírito, sem educação, sem talentos e sem estudos. E para se evitarem dúvidas, seja ou não engano do autor, parece justo que se risquem para sempre os dois versos.
A esta censura deve responder o editor no termo de trinta dias que que começam a correr da data deste.
Lisboa, 18 de Agosto de 1798
José da Silveira Zuzante
O editor está pela censura e convém em que se substitua a palavra "superstição" à palavra "religião" ou, aliás, se risquem os dois versos:
Manuel António Monteiro
Parecer do censor relativo à concessão de licença de impressão
E fiz tudo concluso. A Mesa do Desembargo do Paço,
dito o escrevi
X para deferir à vista da resposta retro
Torne ao censor, por despacho de 31 de Agosto de 1798, proferido no Manuscrito.
Senhora,
Como o suplicante corrigiu ou riscou os versos censurados, parece justo que Vossa Majestade lhe conceda a licença que pede.
Lisboa, 2 de Setembro de 1798
Francisco Xavier d’Oliveira
Informação sobre a entrega do manuscrito para impressão
Mandou-se entregar à parte o manuscrito com o despacho que já tinha proferido em 31 de Agosto de 1798, para se poder imprimir riscando-se o - Não teve efeito e torne ao censor – que se lhe tinha acrescentado no mesmo dia.
1798 1
Requerimento de Manoel Antonio Monteiro
que pertende imprimir a Tragedia intitulada
Efigenia
X
V.ta ao Editor a fl. 4
Respond.º a fl. 10
Aprovado o Manuscripto de que trata esta petição
para poder ser impresso pelo que toca – Senhora –
a este Tribunal. Lisboa 8 de Maio de 1798 2
X X X
Diz Manoel Anto-
nio Monteiro que elle supp.te pertende imprimir
a Tragedia intitulada Efigenia e como o não pode fazer
sem licença de V. Mag.de portanto:
P. a V. Mag.de
seja servida conceder a pedida
Licença na forma do Estillo
E. R. M.ce
A Tragedia de q’ trata Ill.mo Emt.o Sn.r
esta petição nada tem 3
pelo q’ pertence a Juris-
dicção ordinaria. Lisboa
11 de Junho de 1798.
A Arcebispo de Laced.ª
Diz Manoel Antonio Monteiro
que elle supp.te pertende imprimir a Tragedia
intitulada Efigenia cuja ia obteve licenca junta
e como p.ª obter a segunda Licenca perciza des
pacho de V. Em.a Portanto
Pede a V. Em.a seja
servido conceder lhe a Lic.ª
pedida na forma do
Costume.
E. R. M.ce
Senhora
Manda a Rainha N. Snr.ª q’ o Censor Regio
Fra.co X.er de Olivr.ª veja a Obra incluza e a remeta
a esta mesa com o seu parecer. Lx.ª 19 de Junho de 1798.
4
Gama Henriques
Responda o Editor no termo de trinta dias
Lx.ª 11 de Agosto de 1798
Diz Manoel Anton
io Monteiro que elle supp.te pertende im
premir a Tragedia entitulada Efigenia cuja
obteve as licenças juntas como se ve pelos
documentos que Aprezenta e como p.ª a horden
de a imprimir perciza de Beneplacito de
V. Mag.de portanto
P. a V. Mag.de
seja servido conceder
a Licença na forma
do Estillo
Dey Extracto e o MS
ao Editor em 18 de
Agosto de 1798 Senhora
Esta Tragedia intitulada Ifigenia que o su
plicante pertende imprimir não contem
doutrinas erroneas contra
E. R. M.ce
rias dos nossos dogmas; nem tão pouco maximas
oppostas ao Serviço de V. Mag.de e corruptoras da bôa
Moral; alem disso, posto que não dê maior hon-
ra à Nacional Literatura tão bem he certo
q’ a não desacredita, e muito *mais sendo comparada
com outros Dramas escritos * ê lingoagê que correm impres-
sos e que se tem representado nos nossos publicos
Theatros, os quaes dão claramente a conhecer que
Os nossos filologicos conhecimentos tem marcha-
do com passos de pigmêo nêste genero de es-
critura. Conheço que he húa obra mediana que
tem defeitos, mas a par delles se decobrem be-5
lesas que dão gloria ao seu Author. Mas todavia
se ela concorresse para o premio da nossa A-
cademia Real das Sciencias seria absolutamen-
te reprovada; porquanto alli só se laureão as O-
bras mestras, as Obras primas da arte e do en-
genho; contudo se os Escritos dêste genero fossem
os unicos que se devessem imprimir, bastaria
em Lisboa húa so Officina Tepografica.
Pela qual
rasão parece justo, que V. Mag.de concêda ao Suppli-
cante a graça que pede, riscando estes dous Versos
da Scena 2ª, Act. 3. pag. 96.Tem a Religião poder imênso
Nos corações das gentes ignorantes.
Esta proposição he escandolosa e mal soante
mas contudo eu a-approvarei se o Author me
mostrar que S. Agustinho, S. Jeronimo e todos os
mais P.P. tanto da Igreja Latina como gre-
ga forão ignorantes. Porque se nos corações des-
tes grandes homês não tivesse imênso poder
a Religião, nunca as suas imâges se collocarião
nos Altares dos nossos templos, e nunca merecerião o nosso
publico, religioso culto.Eu estou plenamente persuadido de
que quanto maior he o talento do homem,
e quanto mais vastos forem os seus estu-
dos, tanto mais forte sera o poder que nos-
seus espiritos ha de ter a Religião. Da-
vid, aquelle Rei Profeta, que com tanta
prudencia governou o Povo d’Israel, ho-
mem segundo o coração de Deus, não
precederia dançando a Arca da Alli-
ança nem do seu duplicado crime
faria tão aspera penitencia, se a
religião o-não dominasse, e não ti-
vesse no seu espirito soberano ascen-
dente. Do mesmo modo Salomão omais sabio de todos os homês não edi-
ficaria o riquissimo Templo de Jerusa-
lem, se da sua alma não fosse a Re-
ligião suprema conductora.
Alem dis-
so entre as grandes personagês que pe-
los seus escritos se tem illustrado na
Republica das Letras, sem duvida al-
gûa merecem o mais distinto lugar
Arnaud, Pascal, Polignac, Tenelon, Bos-
suet e Rollin; pois todos estes famo-
sos homês ajuntarão ao seu vasto sa-
ber o mais profundo respeito à Reli-
gião.
Euentretanto presumo que o Author se en-
ganou escrevendo Religião em lugar de
superstição, porque esta na verdade go-
verna despoticamente os homês de peque-
no espirito sem educação sem talentos
e sem estudos. Ella he a que os persuade
a tomar por deveres religiosos certas for-
malidades e praticas externas, como: Ter-
ços garganteados, romarias à S. Maca-
rio, e a Snrâ das Barraquinhas. Ella he
a que os faz encasquetar de que não mor-
rem repentinamente se todos os dias
recitarem o Credo em Cruz e de que
sem mais obra algûa expiatoriaficão justificados na presença de De-
us se acompanharem sete annos a fio
a Procissão dos Passos da Graça. Ella
he a que os obriga a reputar artigo de
fé a existencia d’hûas imagenarias san-
guexugas humanas chamadas bruxas,
que se nutrem do sangue das creanças,
porem que hua espada nùa à cabeceira
do berço, e hús triangulos a que chamão
sinos salomões tados no cinto dos recem-
nascidos, os livrão dos diabolicos e mor
taes insultos desta terrivel mas qui-
merica especie de morcegos com forma
humana &.a &a &a
Comtudo para se-8
evitarem duvidas quer seja ou não
o engano do Author, parece justo que
se-risquem para sempre os dôis
versos.
V. Mag.de comtudo mandara o que
for servida,
Lx.ª 6 de Agosto de 1798
Francisco Xavier d’Oliveira
Aos vinte e dois dias do mez de Agosto de mil cete
centos noventa e oito, me foy dada a petição adian
te com o Extracto e Manuscripto e sua resposta
assinada pelo Editor, q’ tudo se segue . JoaquimFerreira dos Santos o escrevi
Junte a Cen sura. Lx.ª 22 de Agosto de
1798 9
X X
Diz Manuel Antonio Montr.º
que elle sup.te entregou no regio Tribu
nal do Dezembargo do Passo huma
Tragedia Original Intitulada Ifige
nia cuja foi V. Magd.e servida vir
com huma cota do sabio sençor p.ª se
emendarem dous versos cujos o sup.te fes
obdecendo aos Reaes perceitos e como p.ª
a empremir perciza que V. Magd.e haja
por bem concerderlhe Licenca portanto
P. A V. Magd.e seja
servida conceder ao sup.te
a pedida Licenca na forma
do Estillo
Manoel Antonio Monteiro
E. R. M.ce10
Extracto da censura feita a tragedia inti-
tulada – Efigenia – que pertende imprimir
Manoel Antonio Monteiro
Devem riscarse os dois versos da scena 2.ª Act 3.
pag. 46 =
“Tem a Religião poder imenso
“Nos coracões das gentes ignorantes
Por quanto esta proposição hé escandaloza
e mal soante e pode prezumirse que o Autor
se enganou escrevendo Religião em lugar de
supersitição, porq.’ esta na verdade governa
dispoticamente os homens de pequeno espirito
sem educação, sem talentos e sem estudos. E pa-
ra se evitarem duvidas, seja ou não engano do
Autor parece justo que se risquem para sem-
pre os dois versos.
A esta censura deve responder o
Editor no termo de trinta dias que
{ que começão a correr da data deste. Lx.ª
18 de Agosto de 1798
Joze da Silvr.ª Zuzante
O Editor está pella Censura, e Convem em que
se substitua a palavra superstição á palavra -
Religião – ou alias se risquem os dous versos:
Manoel Ant.º Monteiro
E fiz tudo concluso a Meza do Des. do Paço
d.º o escrevi
x p.ª defrir ávista da Respta retro
Torne ao censor p.r Desp.º de 31 de Agosto de
1798 proferido no MS
Senhora
Como o Supplicante corregio ou ris
cou os versos censurados parece jus-
to q’ V. Mag.de lhe conceda a Licença,
que pede. Lx.ª 2 de Setembro de 1798
Francisco Xavier d’Oliveira
Mandouse entregar á parte o Ms com o
Desp.º q’ já tinha proferido em 31 de
Agosto de 1798 p.ª se poder imprimir
riscandose o - Não teve effo e torne ao cen-
sor – q’ se lhe tinha acresecentado no m.mo dia.