- Sumário
- Requerimentos e licenças relativos ao processo de impressão de sonetos e três dramas (4 de Dezembro de 1798, 14 de Dezembro de 1798), seguidos de parecer negativo do censor (28 de Julho de 1799) e despacho de aprovação para a impressão de um drama pastoril (30 de Julho 1799)
- Ano
- 1799
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 34, doc. 65
Os três sonetos e dramas de que trata esta petição nada tem pelo que pertence à Jurisdição Ordinária
Lisboa, 4 de Dezembro de 1798
Diz o P. António da Silva Pio que ele intenta imprimir os sonetos e os três dramas inclusos, e como sem serem vistos e licenciados por Vossa Excelência Reverendíssima não o pode fazer, portanto, pede a Vossa Excelência Reverendíssima a licença do estilo e costume, com a possível brevidade para saírem à luz pública ainda este presente ano, como pretende o reverendo suplicante.
Espera receber mercê.
Aprovados os papéis de que trata esta petição para poderem ser impressos pelo que toca a este t ribunal.
Lisboa, 14 de Dezembro de 1798
X X
O P. António da Silva Pio Pato
Manda a rainha nossa senhora que o censor régio Francisco Xavier de Oliveira veja a obra inclusa e a remeta a esta Mesa com o seu parecer.
Lisboa, 6 de Junho de
Godinho Francisco Castelo
Espera receber mercê.
O P. António da Silva Pio Pato
Reimprima-se o drama pastoril, por despacho de 30 de Julho de 1799, e escusados de todo os manuscritos
Senhor,
Eis que escapando, ou dos ferros do cárcere de Xabregas, ou das palhas do hospital dos doidos, mascarado com o fingido nome do P. António da Silva Pio Pato, e de cada
vez mais enfermo da sua teimosa verse-mania, aparece segunda vez na cena o façanhoso Frei António da Madre de Deus Carquejo, pedindo licença a r ainha nossa senhora para imprimir um a pequena colecção de grandes destemperos, abortos da sua fantasia in forme e desordenada. Consta pois a dita colecção de dois sonetos aos faus tíssimos anos de Sua Majestade e d’outro mais aos da sereníssima senhora infante D. Maria. Daqueles, o primeiro já
foi em outra ocasião censurado por mim e reprovado. Ora, se a loucura do autor não estivesse tão demons trada, deveria ser asperamente re preendido por faltar ao decoro de Sua Majestade, oferecendo-lhe tão indignos v ersos; porém, a moléstia que lhe tem afectado o cérebro o livra de culpa e pena. A estas três vezes catorze trovas segue-se um "Panegírico Dramático de S. João Baptista dedicado a os sereníssimos príncipes de Portugal, reais senhores... delícias do
reino e exemplares da modéstia e da cristã religião; tios de Sua Majestade e suas altezas reais e soberanas des tes reinos de Portugal e dos Algarves, etc.etc." Segue-se a dedica tória, tão extravagante e exótica como o título; e de sorte que ela enver gonha mais do que obsequia as al tas personagens, a quem é dirigida. Porquanto o incenso no túribulo deste frade degenera em pez e em breu e noutras resinas que mais sufocam que perfumam. Vem a leme
disto um "Drama régio, para o dia de reis", igualmente rídiculo e indecente, no qual os Magos, adorando Deus recém nascido, usam daquelas expressões carinhosas com que as amas costumam acalentar as crianças a quem dão leite; quais são: "meu menino", "meu bem", "meu amor", etc. Todas estas obras são marcadas com o mesmo cunho; todas dão bem a conhecer que a mola real da cabeça do autor está de todo arru mada. Pela qual razão eu absoluta mente
as condeno como injuriosas à nossa nacional literatura. Excepto, contudo, o drama pastoril sobre o natal do menino Deus, que o suplicante pretende reimprimir, não só em atenção à autoridade que o aprovou, mas também porque não parece trabalhado na mesma oficina; talvez o escrevesse em algum dos seus lúcidos interval os ou antes da sua completa e rematada loucura; porém, to davia,
sem a dedicatória manuscrita que o autor lhe ajunta de novo. Vossa Alteza, entretanto, mandará o que for servido.
Lisboa, 28 de Julho de 1799
Soneto 1º
Da estirpe santa bragantina augusta,
Do tronco soberano produzida
Da primeira Maria esclarecida
O dia de anos canto. É coisa justa.
Doze lustros e mais (e está robusta)
Já conta a soberana, cuja vida Sua Majestade conta
Foi 'té 'qui do supremo defendida; hoje 63 anos de idade
Porém dum modo que dizer me assusta
Oh! Dia de anos! Dia consagrado
Ao júbilo da lusa monarquia,
Que o príncipe governa, o bem amado.
Viva hoje, viva sempre a grã Maria;
E o seu nome amanhã seja cantado
Frei António da Mãe de Deus Carquejo Algarbiorum Provincia Canebat Anno Domini MDCCXCVIII die XVIII Decembri
Soneto
Da estirpe santa bragantina augusta,
Do tronco soberano produzida
Da primeira Maria esclarecida
O dia de anos canto. É coisa justa.
Treze lustros já quase (e está robusta) Sua Majestade conta
Conta hoje a soberana, cuja vida felizmente hoje 64 anos
Foi 'té 'qui do supremo defendida;
Bem que do modo, que dizer me assuta
Ah! Dia de anos! Dia consagrado
Ao júbilo da lusa monarquia,
Que o príncipe governa, o bem amado.
Viva pois, viva sempre a grã Maria;
O seu nome amanhã seja cantado
Deste modo convida o autor toda a nação portuguesa
Frei António da Mãe de Deus Carquejo cantava recluso no Convento de S. Francisco de Xabregas aos 17 de Dezembro de 98
Soneto
* Camões Lusíadas. Canto
2º, Est.
Lusa nação, preclara descendência
* De Lisias, Luso ou Baco generosos
Cantai hoje a Maria, venturosos,
O mais nobre louvor por excelência.
Oh! soberano nome por essência,
Pois Maria os vassalos faz ditosos
Quando aos seus grandes títulos pomposos
Seu nome augusto dá correspondência
Se Maria senhora significa
(Que o interpretam assim livros sagrados,
* Como bem Damasceno o testefica)
Sejam pois a Deus louvores dados;
Que a Maria primeira bem se aplica
'Té por seu nome sermos dominados.
*Damascus Liber. 4 De
Orthodoxa Fide
De Frei António da Mãe de Deus Carquejo, aos 18 de Dezembro de 1798. Dia do nome de Sua Majestade
Soneto
Infanta augusta minha protectora
Delícias de Portugal, e bem amada
Os vossos anos... vida desejada
Eu sempre cantarei, minha senhora
Hoje sessenta e dois fazeis. Quem fora
Homero, Píndaro, ou Tália honrada;
Que então tangendo a cítara dourada
Eu melhor dobraria a voz sonora.
Supra pois, sereníssima, o desejo
Nesta humilde oblação, que vos dedico,
Com grande afecto, mas dobrado pejo,
Mas se a vontade e eu só vos sacrifico
Frei António da Mãe de Deus Carquejo
Bem confiado em vós, senhora, fico.
Escusado. Lisboa, 30 de Julho de 1799 X X X X Soneto 2.º Vive a infanta augusta e dilatados Anos felizes conta sua alteza; Maria Ana, (que augusto nome!) prez Já doze *lustros ter bem empregados. *Sua Alteza faz Felizmente pois sejam celebrados hoje 61 anos Hoje os anos da infanta portuguesa, Que sendo o assombro fiel da natureza Nós ficaremos bem aventurados. Vivei, pois, soberana, pia e santa justa, imortal, e não vos ofendendo Meus cantos escutai, preclara infanta; Enquanto digo os anos, que ides tendo, Aceitai deste dia em glória tanta A eterna escravidão, qu’ enfim vos rendo.
De Frei António da Mãe de Deus Carquejo, pregador em a Província de S. Francisco dos Algarves
X X X X
.
Os tres sonetos e
Dramas de q’ trata esta Ex.mo, e R.mo Snr.’
Petição nada tem pelo que
Pertence á Jurisdição Ordinaria
Lisboa, 4 de Dezembro de 1798
A. Arcebispo Diz o P. Antonio da S. Pio, q’ elle intenta imprimir os
de Laced.ª Sonetos, e os tres Drammas incluzos, e como sem serem
vistos, e licenciados por V. Ex.ca R.ma não o pode fazer;
portanto
P. A V. Ex.ca R.ma a l.ca
do estillo, e costume com a possivel
brevidade p.ª sahirem á luz publica
ainda este prezente anno, como perten-
de o R.do Supp.te
Aprovados os papeis de que trata esta – Senhora –
petição para poderem ser impressos pelo que toca a este
Tribunal. Lx.ª 14 de Dezr.º de 1798
X X
Diz Antonio Pio da Silva que elle perten-
de fazer imprimir os Sonetos e os tres Drammas
incluzos, e como p.ª isso preciza de Lecenca de
V. Mag.e; portanto
P. a V.ª Mag.e se digne con
ceder lhe a d.ª Lecenca.
O P. Antonio da Silva Pio Pato
Manda a Rainha N. Snr.ª que o Censor Regio Fran
cisco X.er de Olivr.ª veja a obra incluza e a remeta a esta
Meza com o seu parecer. Lx.ª 6 de Junho de 1799
Godinho Fr co Castello
Diz o P. Ant.º da Silva Pio Pato, q’
elle quer imprimir e reimprimir o ultimo dos
Papeis incluzos;e porq.o não pode fazer sem a
L.ca de V. Mag.de; portanto tendo já as incluzas,
humildem.te
P. a V. Mag.de seja ser-
vida conceder-lha na forma do esti-
llo com a possivel brevid.e
O P. Antonio da Silva Pio Pato E. R. M.ce
Senhor
Reimp.e o Drama Eis que escapando ou dos ferros do carcere
Pastoril p. Desp.º de de Xabregas ou das palhas do Hospital
30 de Julho de dos doidos, mascarado com o fingido nome
de todo os Ms.
da vez mais infermo da sua teimosa
verse-mania apparece segunda vez na-
scena o façanhoso Fr. Antonio da Madre
de Deus Carquêjo, pedindo licença a
Rainha Nossa Senhora para imprimir
húa pequena collecção de grandes des-
temperos, abôrtos da sua fantesia in-
forme, e desordenada. Consta pois adi-
ta collecção de dôis Sonetos aos faus-
tissimos annos de S. Mag.de e d’outro mais
aos da serenissima senhora Infante
foi em outra occasião censurado
por mim e reprovado. Ora se a loucura
do Author não estivesse tão demons-
trada deveria ser asperamente re-
prehendido por faltar ao decoro de S.
Mag.de offerecendo-lhe tão indignos
Versos; porem a molestia que lhe tem
affetado o cerebro o livra de culpa,
e pena. A estas três vezes quatorse
trovas segue-se hú – Panegirico Drama
tico de S. João Baptista – dedicado
- Aos Serenissimos Principes de Por-
Reino e Exemplares da modestia e
da Christan Religião; Tios de S. Mag.de
e S.S. Altezas Reaes, e Soberanas dês-
tes Reinos de Portugal e dos Algar-
ves & & & . Segue-se a Dedica-
toria tão extravagante e exotica
como o titulo; e de sorte que ella enver-
gonha mais do que obsequia as Al-
tas Personagés, a quem é dirigida;
porquanto o incenso no thuribulo
dêste Frade, degenera em pêz, e
em breu e noutras resinas que mais
disto hú – Drama Regio, para o dia
de Reis – igualmente rediculo, e inde-
cente, no qual os Magos adorando
Deus recem nascido usão daquellas
expressões carinhosas, com que as a-
mas costumam acallentar as crian-
ças a quem dão leite; quais são: meu
menino , meu bem, meu amor, &
Todas estas obras são marcadas com
o mesmo cunho; todas dão bem a
conhecer que a mola real da cabê-
ça do Author está de todo arru-
mente as condeno como injuriosas
à nossa Nacional Literatura.
Excep-
to contudo o Drama Pastoril sobre
o Natal do Menino Deus, que o suppli-
cante pertende reimprimir; não só
em attenção à Authoridade que
o approvou, mas tão bem porque
não parece trabalhado na mesma
officina; talvez o escrevesse em
algú dos seus lucidos interval-
los ou antes da sua completa e
rematada loucura; porem to- davia sem a Dedicatoria manus- crita que o Author lhe ajunta de novo. V. Alteza entretanto mandará o que for servido. Lx.ª 28 de Julho de 1799
Soneto 1º
1.º 4.º Da Estirpe Sancta Bragantina Augusta,
Do tronco soberano produzida
Da Primeira Maria Esclarecida
O Dia de Annos Canto. Hé coiza justa.
2.º 4º Doze lustros e mais (e está robusta)
Já conta a soberana, cuja vida S. Mag.de conta hoje
Foi thequi do Supremo defendida; LXIII Annos de Ida
Porem d'hum modo, que dizer me assusta de
4º 3.º Oh Dia de Annos! Dia consagrado
Ao Jubilo da Luza Monarchia,
Que o Principe governa, o Bem Amado.
2.º 3.º Viva hoje... viva sempre a Grão Maria;
O seu nome ámenhaã seja cantado
Por mim. Que honra! Que Gosto! Que alegria!
Já foi visto e censurado;
ficou todavia por descuido
na minha mão.
Da Estirpe Sancta Bragantina Augusta
Do Tronco soberano produzida
Da Primeira Maria Esclarecida
O Dia de Annos Canto. He coiza justa.
Treze lustros já quasi (e está robusta)
Conta hoje a soberana, cuja vida S. Mag.de conta
Foi thequi do Supremo defendida; felixm.te hoje 64
Bem q’ do modo, que dizer me custa annos
Ah Dia de Annos! Dia consagrado
Ao Jubilo da Luza Monarchia,
Que o Principe governa, o Bem Amado.
Viva pois, viva sempre a Grão Maria;
O seu nome ámanhaã seja cantado
Por nós. Que honra! Que Gosto! Que alegria!
o Author toda a
Nação Portuguesa
Fr. Ant.o da Mãe de D.s Carquejo cantava recluso no Conv.to
de S. Fran.co de Xabregas aos 17 de Dezembro de 98
Soneto
Luza Nação Preclara Descendencia
Camoens Luz. Cant. De Lizias, Luzo ou Bacho Generozos
2ºEst.Cantai hoje a Maria Venturozos
O mais nobre Louvor por excellencia
Oh Soberano nome por essencia
Pois Maria os vassallos faz ditozos
Quando aos seus grandes titulos Pompozos
Seu nome Augusto dá correspondencia
Se Maria Senhora significa
(Que o interpretão assim Livros Sagrados,
Damas. Lib. 4 de Como bem Damasceno o testefica)
Orthdoxa Fide Sejão pois a Deus Louvores dados;
Que a Maria Primeira bem se applica
The por Seu Nome sermos Dominados.
De Fr. Antonio da Mâe de D.s Carquejo aos 18
de Dezembro de 1798. Dia do Nome
Soneto
Infanta Augusta Minha Protectora
Delicias de Portugal, e Bem Amada
Os Vossos Annos... vida dezejada
Eu sempre cantarei, Minha Senhora
Hoje secenta e dois fazeis. Quem fora
Homero, Pindaro, ou Thalia Honrada;
Que então tangendo a citara dourada
Eu milhor dobraria a voz sonora.
Supra pois, Serenissima, o dezejo
Nesta humilde oblação, q’ vos dedico,
Com grande affecto, mas dobrado pejo,
Mas se a vontade e eu só vos sacrifico
Fr. Antonio da Mâe de D.s Carquejo
Bem confiado em vós, senhora, fico.
Canebat Qui Supra, recluzo em S. Fran.co de Xabregas aos 7
De Outubro de 1798.
cuzado. Lx.ª 30 de Junho de 1799.
X X X X
Soneto 2.º
1ª 4.ª Vive a Infanta Augusta, e dilatados
Annos Felizes conta Sua Alteza;
Maria Anna, (que augusto Nome!) préza
Já doze *lustros ter bem empregados. *Sua Alteza faz
2ª 4ª Felizmente pois sejão celebrados hoje 61 annos
Hoje os Annos da Infanta Portugueza,
Que sendo o assombro fiel da natureza
Nós ficaremos bem aventurados.
1º 3º Vivei pois Soberana, Pia, e Santa
Justa, Immortal, e não Vos offendendo
Meus Cantos escutai, Preclara Infanta;
Emquanto digo os Annos, que Hides tendo,
2º 3º Acceitai deste Dia em gloria tanta
A eterna escravidão, q’ emfim vos rendo.
De Fr. Antonio da Mãe de Deus Carquejo, Pregador em a Prov.ª de S. Fran.co dos Algarves
cuzado. Lx.ª 30 de Julho de 1799