Sumário
Relação das festividades ocorridas em Beja para celebrar o nascimento da princesa Dona Maria (Maio-Junho de 1793)
Ano
1793
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, cx. 365, nº 4377(69)
Comentário
Trata-se dos festejos pelo nascimento de Maria Teresa de Bragança (29 de Abril de 1793)
Relação da celebridade com que o excelentíssimo e reverendíssimo senhor Bispo de Évora solenizou e aplaudiu naquela cidade o faustíssimo nascimento da sereníssima senhora Dona Maria, princesa da Beira.

Logo que o excelentíssimo e reverendíssimo senhor Bispo de Beja recebeu a muito desejada notícia do felicíssimo nascimento da sereníssima princesa da Beira, a senhora Dona Maria, a mandou anunciar ao público por muitas descargas de foguetes que foram seguidas com o repique geral dos sinos de todas as igrejas, nas quais se cantou no mesmo dia, em virtude da ordem do mesmo excelentíssimo e reverendíssimo prelado, o Te Deum, por cada uma das colegiadas e comunidades regulares. Nas três noites sucessivas se iluminaram todas as ruas, havendo algumas iluminações enobrecidas de pinturas engenhosas, com símbolos e alegorias relativas a seu augustíssimo objecto, decifradas estas com elegantíssimas inscrições igualmente próprias e muito análogas. Para este fim, tinha precedido o aviso do Senado da Câmara por bando público, que foi de um bem agradável espectáculo, pois o formavam todos os oficiais da administração pública da cidade, vestidos de luzida gala, e montados em cavalos lindamente ajaezados, sendo precedidos de uma galante e divertida Guarda de Máscaras. É para notar que não se impondo pena alguma para tão festiva e justa demonstração de gosto, nenhum morador daquela cidade deixou de patentear a seu prazer e alegria, e havendo concorrido inumerável gente para verem as máscaras que, com suas engenhosas e bem lembradas habilidades faziam agradável diversão, não houve a mais leve desordem, o que bem prova a polícia, com que os magistrados régios mantêm os povos daquela cidade na mais


harmoniosa ordem pública, para cujo digníssimo desempenho tanto conspira o virtuosíssimo exemplo de seu excelentíssimo prelado.

No terceiro dia se congregou o Senado da Câmara com todo o clero de uma e outra ordem, presidido de sua excelência reverendíssima, e na Igreja Catedral, exposto o Santíssimo Sacramento, se cantou o Te Deum com a mais plausível solenidade, sendo frequentíssimo o concurso dos assistentes.

Determinando, pois, o excelentíssimo e reverendíssimo senhor Bispo daquela diocese o dia 13 de Maio, afortunadíssimo dia em que o augustíssimo princípe nosso senhor conta seus felicíssimos anos, para celebrar com o seu clero uma soleníssima Acção de Graças, no dia 12 participou por carta esta sua determinação ao Senado da Câmara daquela cidade, o qual, com toda a Nobreza, quis mostrar a admirável harmonia e inteligência em que aquelas ovelhas vivem com o seu pastor, a quem amam como seu pai, com a mais sensível ternura. Portanto, continuaram com muito prazer as iluminações naquela e na seguinte noite, fazendo na primeira uma vistosa cavalgata, que serviu de grande regozijo pelo número, riqueza e asseio dos cavaleiros, sendo seguidos estes de três formosos Carros de triunfo, em que iam duas danças, instrumentos, músicos e muitos poetas que, nos lugares públicos, repetiam obras muito dignas do seu augustíssimo assunto.

No dia determinado, que foi o 13 de Maio, concorreu o mais luzido e o mais numeroso ajuntamento de um e outro sexo que na riqueza e compostura bem mostravam serem os fiéis e leais vassalos portugueses. Autorizava este fidelíssimo ajuntamento todo o clero de ambas as ordens, a Câmara e Magistrados em corpo. Tal era a ordem e portamento de tão numeroso concurso que não se fizeram necessárias as guardas de soldados que guarneciam as portas da Catedral. Celebrou pontifical o excelentíssimo prelado, tendo precedido antes à distribuição da sua pastoral sobre o espírito e motivos daquela Acção de Graças, a qual pastoral mandara em Lisboa com antecipação apresentar a Sua Majestade, e a suas altezas reais, os princípes nossos senhores, e infantes, aos Ministros de Estado e a toda a corte. Pregou o Vigário-geral do Bispado, o reverendo doutor António José de Oliveira, e na oração mostrou sua vasta doutrina e erudição. Acabada a missa de pontifical, se cantou o Te Deum, tudo com acompanhamento de uma bem harmoniosa e concertada música, tendo sido convocados para este fim alguns instrumentistas da Catedral de Évora. Sendo a música do Te Deum composta de propósito para esta solenidade.

Na tarde deste dia se fez com muito luzimento o Bando, em que o doutor Corregedor presidente, e os Deputados do Celeiro Comum, mandaram publicar os cinco dias da festa de igreja e praça, que hão-de começar a 16 de Junho, para celebrarem a afortunadíssima sucessão com que o céu nos tem favorecido. Aos quais

se hão-de seguir os que o Senado da Câmara tem disposto ao mesmo glorioso fim.

Tendo o excelentíssimo prelado o pensamento de instituir uma academia eclesiástica, com o importantíssimo fim de ter a seu cuidado a pureza da religião, fazendo exame da sua observância, e tendo a seu cargo receber as consultas e dúvidas de todas as paróquias para serem respondidas nas sessões ordinárias, quis em aplauso e celebração dos anos de sua alteza real, o sereníssimo princípe nosso senhor, e do nascimento da sereníssima senhora princesa Dona Maria nossa senhora, fazer a sua publicação na tarde desta solenidade. Junto ò mesmo luzido concurso se deu principio a uma obra, de que se esperam proveitosíssimos frutos, tanto para o bem da igreja, como do estado. Repetiu sua excelência reverendíssima um discurso de erudição profundíssima, e de muito delicada eloquência, com que suspendeu em admiração, por três quartos de hora, todos os assistentes. Foi o objecto a necessidade desta instituição, e para o seu desempenho quanto era útil a sucessão da monarquia portuguesa que nesta ocasião se celebrava. Além desta oração disse sua excelência reverendíssima riquíssimas e eruditíssimas composições de outro género, em aplauso do felicíssimo nascimento da nossa amabilíssima princesa. E depois se seguiram os académicos ordinários, repetindo composições sobre assuntos relativos ao seu instituto, fazendo igualmente muito particular menção do muito sublime objecto, como principal motivo desta solenidade. Os mesmos académicos ordinários, e outros extraordinários, que faziam o número de dezassete, repetiram excelentes obras em prosa e verso na língua vulgar, latina, e em muitas outras, repetindo-se em tradução medida e solta aquelas das línguas menos conhecidas, como Grega, Hebraica, Arábiga e Inglesa. Durou este formosíssimo Acto mais de cinco horas, sem que cansasse os espectadores, mas antes tendo-os sempre atentos, pelo prazer e admiração que lhes causava tão discreta maneira com que aquele doutíssimo prelado realçava o seu público reconhecimento de amor e vassalagem a seus amabilíssimos princípes e senhores. A repetição era intermediada com harmoniosos coros de música e de letras próprias da soleníssima festividade.

 

Lisboa. Na oficina de Simão Tadeu Ferreira.

Com licença da Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros
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