Sumário
Relação das festas que se fizeram em Pernambuco pela feliz aclamação do mui alto e poderoso rei de Portugal, D. José I, nosso senhor, do ano de 1751 para o de 1752 (1753)
Ano
1753
Localização
Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (2-11-6-20, nº 21); Biblioteca Nacional de Portugal (L. 3329//7 A.; RES. 1350//1 P. = F. 4415; F. 6870)
Impresso
Lisboa, na oficina de Manuel Soares, 1753

Relação das festas que se fizeram em Pernambuco pela feliz aclamação do mui alto e poderoso rei de Portugal, D. José I, nosso senhor,  do ano de 1751 para o de 1752 , sendo governador e capitão general destas capitanias o ilustríssimo e excelentíssimo senhor Luís José Correia de Sá, do conselho de sua majestade, etc.

Por Filipe Neri Correia, oficial maior da Secretaria do Governo e secretário particular do mesmo ilustríssimo e excelentíssimo senhor governador.

 

Lisboa, na oficina de Manuel Soares, ano de 1753.

Com todas as licenças necessárias.

 

 


 

Relação das festas que se fizeram em Pernambuco pela feliz aclamação do muito alto e poderoso rei de Portugal, D. José I, nosso senhor, do ano de 1751 para o de 1752.

 

Determinando o ilustríssimo e excelentíssimo senhor general dar princípio às precisas e inescusáveis demonstrações do seu alvoroço na sempre feliz aclamação do nosso augustíssimo monarca, o senhor D. José I, e desejando que


chegassem ao céu as nossas rogativas antes que na terra se ouvissem vivas e aclamações, preferindo os actos de piedade aos de alegria, escreveu logo aos prelados das religiões desta Praça do reino e cidade de Olinda para que estes com seus religiosos fizessem preces e orações a Deus pela vida, aumento e progressos de sua majestade, dirigindo os passos deste glorioso empenho com tão acertada ordem como bem o manifestam as suas discretas e judiciosas cartas, que fielmente vão copiadas neste lugar para maior clareza desta narração. [...]

 


[...]

Passados alguns dias se entrou na manufactura de um sumptuoso tablado, ou edifício, em que se haviam representar três comédias que sua excelência ordenou se pusessem logo prontas, cuja diligência encarregou ao grande curioso Francisco de Sales Silva, o que ele soube bem desempenhar, não só em

 


pôr hábeis as pessoas que haviam entrar, mas em compor para elas discretas loas e engraçados bailes.

Por conta de Miguel Álvares Teixeira (curioso militar da artilharia) correu a estrutura do tablado e pinturas, de que deu tão boa conta que não puderam já os professores da Arquitectura Civil falar nele sem respeito nem os pintores de perspectiva sem espanto.

Armou-se o tablado defronte das janelas de palácio, que como da parte que olha para o Recife correm dos lados  duas galerias, ficou formando uma grande e bem desafogada plateia.

Tinha a fachada daquele bem delineado edifício 50 palmos de altura e 60 de largo, e de boca do arco grande (que era como os mais de volta abatida) 24 de alto e 32 de largo, e o fundo em que trabalhavam os bastidores 37 e da corrediça grande até à boca do arco para fora onze, excepto o grande vão, que servia de vestuário. Por cima da cornija principal corria uma varanda de balaústres à romana, alternados com suas quartelas, com vasos de flores nos extremos e no meio um pedestal, sobre que descansavam as armas reais

 


portuguesas fabricadas em vulto, como a mais obra da varanda. Arrematava o tecto pela parte exterior uma boa tarja tecida de instrumentos militares, e nos cantos, com duas esferas, os claros da frontaria eram pintados de pedra cor de rosa anodoada  de branco, os balaústres de encarnado mais purpúreo, os pés direitos, cornija, pedestal, quartelas e os arcos fixos de pedra verde, e da mesma cor era também pintada a corrediça que arrematava esta primeira cena. Nela se viam as armas de sua excelência em cima de uma peanha, que estava debaixo de uma bem  fingida e curiosa cúpula, que carregava sobre quatro colunas encarnadas de ordem coríntia. Fechava a boca do tablado uma grande cortina branca semeada de flores e a occhiesta, que era obra de volta, servia de base a este admirável frontespício.

Compunha-se o teatro de três vistosas cenas, uma firme e duas volantes, com cinco ordens de agradáveis e deliciosas vistas: a primeira, que era de sala real com soberbos, elevados pórticos de estilo moderno, estava admiravelmente adornada de bufetes, espelhos, quadros e ricos cortinados de damasco carmesim, guarnecidos de ouro, e no fim um

 


bem lançado pavilhão do mesmo damasco com forro azul e seu remate como de talha dourada, tanto ao natural que houve pessoas que lhe custou a persuadir-se que era pintura; a segunda de colunatas de ordem toscana, fingidas de pedra vermelha e assentadas com tal arte que, feridas com os reflexos das luzes, fazia um tão agradável enleio que se não podia bem perceber se aquela vista continuava por todo o comprimento da casa, pelo grande fundo que representava, e o que fazia parecer ainda maior a extensão era porque a mesma obra que mostravam os bastidores continuava na corrediça do fim que arrematava em um pequeno arco por onde se descobriam uns imperceptíveis horizontes. Duas das vistas ambas eram de jardim, mas com a diferença de ser um fechado e outro aberto. No primeiro se divisavam por entre as grades diferentes e peregrinas castas de flores e no segundo bem debuxados canteiros, que arrematavam no princípio de um ameno prado, regado de cristalinas águas, que saíam de um excelente chafariz. A quinta, e última, que era composta de rudes arvoredos (em que o autor tanto se excede), ninguém se atrevia apartar os olhos dela sem repugnância.

 


Todos estes jogos de bastidores tinham suas corrediças correspondentes que lhe serviam de fundo e de divisão às cenas.

Movia-se insensivelmente este artefacto por um sarilho oculto que parecia impraticável à suavidade e destreza com que em um instante, e ao mesmo tempo, se ocultava uma vista e aparecia outra. O mesmo sucedia com as luzes, quando era preciso escurecer o tablado, porque com o mesmo repente com que se apagavam se acendiam, sem haver mais demora que a de levantar ou abaixar uns pesos a que estavam sujeitas as portas dos candeeiros, que, como estavam assentados de sorte que se não podiam ver os movimentos, fazia esta destreza uma grande confusão aos assistentes.

O tecto do tablado era de arcos de volta abatida como os da primeira cena, e como estavam assentados em perspectiva, seguindo a mesma figura dele que ia em diminuição (segundo a regra) de qualquer lugar seguiam todos.

Compunham-se estes de festões de flores desencontrando-se uns dos outros, de sorte que nesta mesma desordem estava a galanteria daquele bem matizado pavilhão de flora.

 


Era o pavimento de um agradável xadrez verde escuro, claro e mais claro, de maior a menor, que, ajudado das meias tintas, representava uma grande longitude.

O frontispício estava cheio de luzes ocultas com que se deixava bem lograr a obra exterior dele e, ao mesmo tempo, alumiavam insensivelmente a plateia.

Concluída a obra, ensaiadas as comédias, cuidou logo sua excelência no ornato das figuras, para o que escreveu à câmara do Recife a seguinte carta:

 

Carta aos oficiais da câmara do Recife

 

Para que em toda a parte se conheça que esta capitania de Pernambuco, assim como se assinalou sempre na defesa dos domínios do seu soberano, se distinguiu no aplauso da coroação do seu monarca, ordenei que depois de darmos com o Te Deum graças a Deus pela mercê de nos dar um rei com tantas virtudes que está prometendo encher ao seu reino, e conquistas, de felicidades se fizessem no pátio deste palá- 


cio umas comédias como o permitisse o estado da terra, e porque é justo que esse senado concorra para o complemento desta festividade ao menos com algum trabalho, visto que a falta de rendimentos em que se acha o impossibilita para outro género de despesa, correrá por conta de vossas mercês vestirem as figuras que hão de entrar nas ditas comédias e bailes, procurando para este fim o meio que julgarem menos pesado a este povo, etc.

 Em cumprimento da referida carta se valeram os camaristas das ordens régias, encarregando aos ofícios mecânicos aquela diligência. Porém, como alguns, mais por pobreza de ânimo que de bens, entraram a fazer afectados requerimentos, logo sua excelência lhe deferiu, exonerando-os, para o que escreveu à câmara a seguinte carta:

 

Carta para os oficiais da câmara do Recife

 

Como me consta que a maior parte dos oficiais a quem vossas mercês obrigaram a concorrer para o ornato das figuras, ou por ambição ou por necessidade, se quei-


xam uns e se pretendem isentar outros, não bastando para lhe fazer voluntária e gostosa esta contribuição nem a moderação com que vossas mercês a arbitraram nem o motivo da festividade, se me faz preciso dizer a vossas mercês que mandem logo chamar a todos os principais dos ofícios e lhe declarem que por ordem minha os desobrigam de toda a despesa e trabalho, e farão toda a diligência para mandarem que se restitua outra vez a quem pertencer qualquer parcela por mínima que seja que para este fim se tenha dado, e para que se não confundam as queixas com os aplausos, tenho tomado o acordo de encarregar este trabalho a pessoas que cuidam ao mesmo tempo na satisfação do meu empenho e no crédito da sua pátria, etc.

 

Logo que algumas pessoas souberam que sua excelência estava menos satisfeito daquela não esperada novidade, se vieram gostosamente oferecer, julgando cada um por favor a eleição que se fez no capitão Nicolau da Costa Leitão, que bem mostrou no desempenho a sinceridade do seu oferecimento.

É o proceloso Inverno tão ingrato nesta costa que não permitiu que se fizessem

 


as comédias senão no ano de 1752. A primeira que era La ciencia de reinar representou-se na noite do dia 14 de Fevereiro, a segunda Cueba y castillo de amor na noite de 16 e a terceira, e última, La piedra filosofal na de 18 do dito mês de Fevereiro de 1752.

Representaram-se finalmente com geral aplauso e admiração, desempenhando os curiosos que entraram nelas o acerto da eleição.

Omito os primores em particular e o capricho com que foram executadas, por não alterar a ordem que levo.

Seria, porém, justamente arguido, se não fizesse aqui uma pequena ostentação do mais luzido e majestoso espectáculo que podia lembrar ao gosto que era ver (no princípio de cada uma das comédias) abrir aquela grande cortina que fechava a boca do tablado, aonde achavam os olhos tanto em que empregar-se que se acabava de cantar o tono e ainda a vista não ficava satisfeita, não sei se pelo muito que tinha em que ocupar-se, se porque a suavidade das vozes e harmonia dos instrumentos lhe divertia as operações visuais.

Compunha-se aquele bem debuxado e lindo painel de quatro coros de música

 


com trinta e tantas figuras ricamente adornadas, em que entravam quatro rabecões, doze rabecas, duas trompas e dois abuaci, e tudo o mais vozes, a que fazia compasso com toda a galhardia a primeira dama.

A solfa das comédias era composta pelo mesmo autor da do Te Deum e tão admirável como sua.

O auditório era o mais nobre e o mais luzido destas capitanias. O excelentíssimo e reverendíssimo senhor bispo assistiu só à primeira comédia, porque as suas indisposições lhe não deram lugar de dilatar-se mais tempo na companhia do ilustríssimo e excelentíssimo senhor general, sem embargo da extremosa assistência com que foi tratado aqueles dias.

Concluiu-se o festejo com três sucessivas noites de fogo, e na última se despediu o reverendo padre mestre Alcântara de sua excelência com uma boa serenata.

Estas obsequiosas oblações e encarecidos sinais do contentamento, para que todos olhavam com respeito e admiravam com pasmo, moveu de sorte os ânimos de todos que nem ainda aqueles que se escusaram deixaram de conhecer a falta em que os fez cair a sua pusilanimidade, querendo-a imputar uns aos outros

 


e os que o sério do estado e o grave dos empregos lhe não dava lugar a concorrer pessoalmente para este festival empenho, não podendo suportar o fogo em que sentiam abrasar seus leais e amantes corações, romperam em métricos aplausos, mostrando bem que o fumo do incenso não ofusca o simulacro.

[…]

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