- Sumário
- Reiteração da proibição da impressão da comédia Telégono na Trácia ou Exemplo do Amor e da Amizade (23 de Março de 1772)
- Ano
- 1772
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 8, nº 9
- Comentário
- O primeiro parecer é de 5 de Março
- Menções
- Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 274-275: 275
A comédia que tem por título Telégono na Trácia ou Exemplo do Amor e Amizade, ainda não há um mês que foi por mim censurada e reprovada formalmente com as subscrições dos dois senhores deputados, que me foram nomeados por adjuntos. Como quem a quer imprimir, ou não teve
notícia desta censura ou, se a teve, quis agora ver se por surpresa alcançava a licença já uma vez negada, torno a votar que esta comédia não merece imprimir-se, porque ao autor lhe faltam todos os dotes e qualidades que são necessárias neste género de composições. Ele pôs à testa do drama uma protestação, para se inculcar muito católico e religioso, que só ela bastava para qualificar o pouco ou nenhum fundo de doutrina que possui. O estilo é sumamente afectado, como o das comédias espanholas e, ao mesmo tempo, cheio de expressões que não são portuguesas, como na página 2 - "Por mostrar que de tão nobres raizes vegetei, nas vossas determinações tenho constituído o fruto de todos os meus interesses". E na página 3 - "O impensado arbítrio del-rei em adjectivar os nossos desposórios". Não são menos ridículas as metáforas de que ele faz o seu capital, como na página 18 - "Antes aquelas mesmas ondas, que agitadas dos contrários ventos nos elevavam a observar de perto as estrelas; mas abatiam ao mesmo tempo e nos obrigavam
a distinguir com a vista no fundo das águas o próprio centro das areias" -, e na página 19 - "Não uma nau, que como ludíbrio dos ventos, aborto infeliz das ondas e universal escândalo da natureza não experimentasse", etc. Que direi, finalmente, da indecência com que o autor, em uma comédia, cujo objecto principal é um rei com duas princesas suas filhas; ele nos representa estas princesas com um carácter tão indigno do seu alto nascimento que, vindo-as visitar dois príncipes estrangeiros, elas antes de lhes falarem, lhes perguntam a eles mesmos quem são, para saberem que tratamento lhes hão-de dar. E namoradas para logo dos dois príncipes, entram cada uma com seu a formar o enredo do drama, que podemos chamar um conjunto de inverisimilhanças e de impropriedades. Do que tudo resulta que esta comédia, não somente se não deve imprimir, porque é indigna, mas também para não suceder tornarem com ela a esta Real Mesa, se deve nela suprimir e não se entregar
a seu autor.
Lisboa, 23 de Março de 1772
António Pereira de Figueiredo
Frei Joaquim de Santa Ana e Silva
Frei Francisco Xavier de Santa Ana
A Comedia que tem por titulo
Telégono na Thracia, ou Exemplo
do amor e amizade, ainda não ha
hum mez, que foi por mim
censurada, e reprovada formalmente
com as subscripções dos dous
Senhores Deputados, que me forão
nomeados por Adjuntos. Como quem
a quer imprimir, ou não teve
noticia desta censura, ou se a teve,
quis agora ver se por surpreza
alcansava a licença já húa vez
negada: Torno a votar, que esta
Comedia não merece imprimirse,
porque ao Author lhe faltão todos os
dotes e qualidades, que são necessarias
neste genero de composições. Elle
poz a testa do Drama húa Protes-
tação, p.ª se inculcar muito catholico
e religioso, que só ella bastava
para qualificar o pouco ou nenhum
fundo de doutrina, que possue. O
estilo he summam.te affectado, como o
das Comédias Hespanholas; e ao mesmo
tempo cheio de expressões que não são
Portuguezas, como na pag. 2. Por
mostrar que de tão nobres raizes ve-
getei, nas vossas determinações tenho
constituido o fructo de todos os meos
interesses. E na pag. 3. O impensado
arbítrio del Rey em adjectivar os
nossos despozorios. Não são menos
ridiculas as metaforas de que elle
faz o seo Capital. Como na pag. 18.
Antes aquellas mesmas ondas, que agitadas
dos contrarios ventos nos elevavão a
observar de perto as estrellas; mas
abatião ao mesmo tempo e nos obri-
gavão a distinguir com a vista no fundo
das aguas o proprio centro das aréas.
E na pag. 19. Não huma nâo, que como
ludibrio dos ventos, aborto infeliz das
ondas, e universal escandalo da natureza não
experimentasse. &.ª que direi finál-
mente da indecencia com que o Author
em húa Comedia, cujo objecto princi-
pal he hum Rey bom duas Princezas
suas Filhas; elle nos reprezenta
estas Princezas com hú
caracter tão indigno do seu alto nas-
cimento; que vindo-as vizitar
dous Princepes estrageiros, ellas
antes de lhes fallarem, lhes per-
guntão a elles mesmos quem são, p.ª
saberem que tratamento lhes hão de
dar. E namoradas p.ª X dos
dous Princepes, entrão cada húa
com seo a formar o enredo do
Drama, que podemos chamar hum
Conjuncto de inverisimilhanças e
de impropriedades. Do que tudo
resulta, que esta Comedia não só-
mente se não deve imprimir, por-
que he indigna; mas tão bem p.ª
não suceder tornarem com ella
a esta Real Meza, se deve
nella supprimir, e não se en-
tregar a seo Author. Lisboa, 23
de Março de 1772.
Antonio Per.ª de Fig.do
Fr. Joaq.m de S.ta Anna e S.ª
Fr. Fran.co X.er de S.ta Anna