Sumário
Reflexões sobre o restabelecimento do teatro do Porto em três cartas de Ricardo Raimundo Nogueira (1778)
Ano
1778
Biblioteca/Arquivo
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Cota
Sala Jorge de Faria - J.F. 4-9-5
Comentário
Manuel Carlos de Brito transcreve apenas as cartas segunda e terceira.
Menções
Manuel Carlos de Brito, Opera in Portugal in the eighteenth century, Cambridge University Press, 1989, pp. 191-197

Folha de rostoReflexões sobre o restabelecimento do Teatro do  Porto .

Em três cartas d e Ricardo Raimundo Nogueira.

1778


Primeira CartaPrimeira Carta

 

Meu prezado amigo. Quando eu não tivesse outros motivos para estimar a cidade do Porto, mais que o ter nela um amigo de tanto merecimento, este só me obrigaria a lembrar-me sempre com saudade dessa terra, e a interessar-me vivamente por tudo quanto lhe dissesse respeito. Mas eu devo estimar a sua pátria ainda por outras razões. Assisti, no Porto, muitos anos, aí passei com gosto o melhor tempo da minha vida, e os seus patrícios me trataram com uma hospitalidade de que nunca poderei esquecer-me. Todas estas razões me obrigam a considerar-me como um de seus concidadãos e, por consequência, a julgar como próprios os interesses da sua pátria. Este é o motivo que me incita a dizer-lhe, muito por extenso, o que sinto sobre o ponto que vossa mercê me diz se agita aí presentemente, a respeito do restabelecimento do teatro. Questão que a vossa mercê parece duvidosa e que, quanto a mim, é fácil de decidir.
Pergunta vossa mercê se é útil que, na cidade 


do Porto, haja um teatro? Eu respondera que sim, e as razões que tenho para assim o julgar, são as que vou a dizer-lhe. Todos sabem que os homens doutos têm altercado, muitas vezes, a questão se as representações teatrais são úteis ou perniciosas, e ainda nos nossos dias vimos dois grandes literatos disputarem este ponto com a maior veemência. Mas, a dizer-lhe a verdade, assento que quem pensar desapaixonadamente sobre esta matéria há-de conhecer que a diversidade de opiniões nasce aqui mais dos acidentes do que da substância, e que o ponto essencial é pouco duvidoso. Quero dizer, ninguém duvida que um teatro correcto, em que se representem os vícios e defeitos dos homens, de modo que os espectadores os aborreçam, e em que se inculque a beleza da virtude, é muito útil à sociedade. Os que assistem à representação destas peças cobram insensivelmente um grande horror aos defeitos que veêm ridiculizar no teatro, e a zombaria que o cómico faz dos viciosos é, muitas vezes, tão eficaz como os eloquentes discursos com que os oradores evangélicos os combatem nos púlpitos. Digo


que é tão eficaz, não porque nas comédias se inculque a moral tão solidamente, nem com tanta força e majestade como nos sermões, mas porque a instrução se comunica aí insensivelmente, e os homens que entraram no teatro só com tenção de se divertirem, saem para fora aborrecendo os defeitos que viram escarnecer. Bem sei que os dramas que se representam em muitos teatros são inteiramente tecidos de lances de amor, e alguns deles cheios de equívocos indecentes, e representados por actores que, para conseguirem o aplauso da plebe, se esquecem muitas vezes das regras do decoro e do respeito que se deve ao público, pondo de sua casa mil visagens ridículas, e mil expressões grosseiras e indecorosas. Quando os espectáculos são deste género, ninguém pode negar que eles mais servem de corromper os costumes, e de estragar os corações da gente moça, do que de lhes fazerem algum bem. Mas este vício não é do teatro, nem da arte cómica, é sim do autor que escreve as comédias, ou dos que as representam, e desta sorte não há coisa alguma, por melhor que seja, de que se não possa fazer um péssimo


abuso. A espada, que na mão do soldado defende a pátria, na do assassino se volta contra os seus mesmos cidadãos.
Talvez dirão os antagonistas do teatro que estes defeitos, bem que não sejam da essência das representações, contudo, a experiência mostra que se encontram, e encontrarão sempre em todos os teatros. E que este teatro correcto, de que falamos, em que unicamente se inculque a sã moral e se fulmine o vício, é uma República de Platão, que nunca existiu senão na imaginação dos que a descrevem. Mas eu me atrevo a dizer que eles se enganam. Nós temos um grande número de comédias que nos pintam com vivíssimas cores o horror do vício e a formosura da virtude. O incomparável Molière, no século passado, e, no presente, o célebre veneziano Carlos Goldoni, publicaram muitas peças cheias de sentimentos de virtude, de honra e de probidade. Quem poderá ver representar OAvarento, sem que se persuada que a avareza é um vício detestável? O Tartufo, sem que aborreça a hipocrisia? O Pai de família, sem que compreenda quais são as obrigações de um bom pai e de um bom marido?


OMentiroso, sem que abomine a mentira?
A experiência é a melhor prova desta verdade. Quando Molière pôs as suas comédias no teatro, viu-se em França uma reforma notável nos defeitos que elas censuravam, e entrou-se a mofar tanto dos peraltas, das mulheres que afectavam uma instrução imprópria do seu sexo e dos homens ordinários enfronhados em fidalgos, que estes vícios entraram, desde então, a diminuir conhecidamente.
Cuido que tenho mostrado que um teatro bem regulado é útil, porque corrige os costumes, escarnece o vício, exalta a virtude, e ensina as obrigações da vida humana. A esta razão acrescentarei outras, talvez de menor peso, mas que também me parecem muito atendíveis.
Digo, pois, que o teatro é proveitoso, em quanto é um espectáculo que convoca os cidadãos, e os ajunta em um mesmo lugar. É certo que não há coisa mais conducente para o bem da sociedade do que a boa harmonia e estreita união de seus membros. E como se poderá melhor promover esta sociabilidade, se não o dando aos cidadãos muitas ocasiões de se verem, de se


conhecerem e de se tratarem? Uma mesma casa ajunta, nas noites de comédia, infinitas pessoas e famílias, a quem seus respectivos negócios, interesses e amizades separam em todo o mais tempo. O acaso, que os obriga a serem ali vizinhos, os dá a conhecer uns aos outros, aperta mais os laços da sociedade, e muitas vezes trava entre eles novos conhecimentos e amizades. Ali se destrói, em grande parte, aquela soberba com que a nobreza costuma olhar para os sujeitos de inferior qualidade, e o acanhamento, e baixa submissão com que estes de ordinário fomentam suas ridículas e extravagantes pretensões. Ali adquirem as pessoas de um e outro sexo aquela civilidade afável, mas modesta, aquela facilidade e desembaraço nas palavras e nas acções, que caracterizam, no mundo, os sujeitos bem educados.
Além disto, é também certo que o teatro, sendo qual eu o quisera, é uma honesta dissipação do espírito, que muitas vezes pode apartar os que o frequentam de se entregarem a divertimentos prejudiciais e criminosos. Em todas as terras há muitas pessoas, a quem o génio, a abundância, ou


o ridículo prejuízo do nascimento não deixam ter outra ocupação mais, que a de se divertirem. Ainda os homens laboriosos necessitam de algum passatempo, com o qual desafoguem o espírito dos cuidados que o oprimem, reparem as forças atenuadas pela demasiada aplicação, e cobrem vigor para voltarem aos seus empregos. É claro, pois, que a todos estes será de grande proveito acharem sempre pronto um divertimento público, aonde a beleza do espectáculo os diverte, e os instrui, e a concorrência de uma multidão de gente os alegra, e lhes distrai o pensamento dos cuidados do dia. E não é isto melhor do que irem arriscar o dinheiro e o sossego na mesa do jogo, ou passarem o tempo em prazeres ainda mais infames e vergonhosos? Conheço que há muita gente que, sem ir ao teatro, se diverte em passatempos igualmente honestos. Mas nem por isso deixa de ser verdade que na República se devem promover todos os divertimentos inocentes, para que na sua variedade achem os diversos génios em que se entreter, e estejam mais livres da tentação de se entregarem a prazeres vedados, danosos e indecentes.


Finalmente, a publicidade e liberdade dos espectáculos é outro motivo que os faz recomendáveis. Os naturais de uma cidade têm todos as suas particulares sociedades, aonde podem procurar o divertimento. As razões do parentesco, da vizinhança e da amizade lhes facilitam a comunicação de muitas pessoas, em cuja companhia podem passar as horas destinadas para o recreio. Mas o forasteiro, que chega de novo a uma terra, aonde é pouco ou nada conhecido, de que modo poderá divertir-se decentemente, se se não valer dos espectáculos públicos, a que todo o homem é admitido pelo seu dinheiro? Esta comodidade traz consigo uns poucos de proveitos. O estrangeiro entretém-se, e nas cidades, como o Porto, conhece a gente da terra e se faz conhecido.
Eis aqui, meu amigo, o que me ocorre, à primeira vista, sobre a utilidade do teatro, a que poderia acrescentar outras razões, se a minha preguiça, e a sua paciência o permitissem. Tais são o exemplo das nações civilizadas, aonde não há cidade notável sem, ao menos, um teatro, o proveito que se pode tirar das


peças bem escritas, e representadas para a pureza da linguagem, e para a exactidão e graça da pronunciação, de que principalmente nas províncias é tanta falta, etc.

 

Em conclusão, eu procurei mostrar-lhe que o teatro é útil: 1. Porque reforma os costumes. 2. Porque aumenta a união entre os cidadãos. 3. Porque os civiliza. 4. Porque os livra de se entregarem a passatempos ilícitos. 5. Porque é um divertimento cómodo, e proveitoso para os estrangeiros. Se vossa mercê meditar sobre estas razões, julgo que se convencerá da verdade delas, e as corroborará com outras de não menos peso.
Resta-me satisfazer às outras duas perguntas da sua carta, a saber: que género de peças se deveriam representar nessa cidade? E como o teatro deve ser regulado? Reservemos estes dois pontos para outra vez, porque nem eu tenho agora tempo para escrever mais, nem vossa mercê terá paciência para suportar a leitura de uma carta já tão dilatada, e enfadonha. Deus guarde a vossa mercê, etc. 



Segunda CartaSegunda Carta

 

Meu prezado amigo. Procurei mostrar na minha carta do correio passado que o Porto necessitava de um teatro; segue-se vermos que género de peças se devem representar nele; quero dizer, se será útil conservar as duas companhias de Ópera e Comédia, que aí representavam alternadamente; ou se bastará que fique uma só, e qual há-de ser esta? Se convém a uma cidade populosa que haja nela um teatro, como creio que já mostrei, é sem questão, que sempre se deve começar pelo teatro nacional: e só depois de termos boas representações na nossa língua, nos poderemos lembrar de pôr na cena obras escritas em um idioma estrangeiro, e ajudadas com as belezas da música.
Digo, pois, que no Porto deve haver um teatro português. Mas não me satisfaço que ele seja destinado unicamente para comédias: quisera que também


aí se representassem tragédias, as quais arrancassem aos espectadores lágrimas de compaixão, e lhes mostrassem a beleza e majestade da virtude no meio das calamidades. Se a Comédia nos aponta os defeitos da vida comua que fazem os homens ridículos na sociedade, representando-nos esses vícios com cores, que nos provocam a risa; a Tragédia, oferecendo-nos em espectáculo, umas vezes o preverso abatido e aterrado pela mão de uma providência, que zomba dos vãos projectos da iniquidade; e outras o homem justo, lutando com a desgraça e sempre firme entre a universal ruína, grava altamente em nossos peitos o amor da virtude, o horror do vício, a constância nos infortúnios, a moderação na prosperidade.

Admirem pois os espectadores os funestos efeitos de uma ambição desordenada e de um espírito de vingança na Rodeguna; contemplem o merecido castigo da tirania na Athalia; tremam de horror ao ver o fanatismo induzir um filho a cravar o punhal no peito de seu mesmo pai no Mahomet; estremeçam vendo


a enganada Mérope levantar o braço para tirar a vida a aquele filho, a quem tanto amava, e por cujo respeito unicamente queria viver; deplorem o infortúnio da triste Zaira, vítima infeliz dos injustos zelos de um amante, de quem apenas as ordens de seu pai e de seu Deus a podem separar. Volte o espectador sensível para casa com os olhos ainda mal enxutos daquelas lágrimas que fazem honra à humanidade, e do que ouviu no teatro colha máximas úteis e saudáveis que lhe ensinem a não se desviar da estrada direita da honra e da virtude, tanto na próspera como na adversa fortuna.

Mas parece-me que o estou ouvindo perguntar-me para que gasto o tempo em persuadir a utilidade das tragédias, se em português não há composições desse género que possam pôr-se no teatro? Porém, meu amigo, a dificuldade não é invencível: assim é que os nossos poetas se não aplicaram a escrever semelhantes dramas, e se exceptuarmos a Castro do nosso imortal António Ferreira, podemos dizer afoitamente, que não há Tragédia

Portuguesa comparável com as dos mestres, assim antigos como modernos. Porém, nós temos já na nossa língua algumas versões muito sofríveis de várias tragédias francesas, e aí no Porto vi representar algumas das de Voltaire assaz bem traduzidas. Se o público entrasse a interessar-se por estas representações, estou certo que brevemente veríamos outras muitas traduções; e se os directores do teatro recompensassem dignamente a fadiga dos tradutores, assento que teriam muito com que suprir a todas as representações. Finalmente, é bem provável, que esta protecção viesse a avivar os engenhos portugueses com quem a natureza certamente não foi escassa; e quem sabe se Portugal poderia algum dia jactar-se de ter também os seus Corneilles e os seus Racines?

Mas pergunto: e que comédias temos portuguesas de origem capazes de se porem nos teatros? Eu cuido que a falta é igual à das tragédias; e bem que o número das comédias traduzidas seja mais considerável, contudo, a maior parte delas estão tão desfiguradas nas versões, que

seria de desejar se traduzissem novamente em línguagem mais pura, para que os espectadores não vão ao teatro aprender a falar com termos impróprios e a servir-se de expressões bárbaras e alheias da nossa língua.

Haja, pois, no Porto um Teatro Português, em que se façam tragédias e comédias escolhidas, procurem-se cómicos excelentes que as representem com propriedade e decência; as cenas sejam do melhor desenho, os vestidos acomodados aos papéis e nas tragédias, especialmente, sejam ornados com a riqueza e magnificência que os caracteres trágicos demandam. Mas que diremos do Teatro Italiano? As óperas certamente têm muitos apaixonados; e qual é o homem sensível que se não interessa por uma boa música? O Teatro Italiano parece também ter nessa cidade a preferência em razão da sua antiguidade. Mas, apesar de todas estas razões, direi o que entendo: no Porto não deve haver Teatro de Óperas Italianas. Não duvido, que muitos dos seus patrícios se escandalizem de ouvir proferir

esta proposição; que uns zombem do meu mau gosto e outros se compadeçam da minha ignorância. Mas antes que pronunciem a sentença, peço-lhes que oiçam as razões que me movem a sentir assim, e pode ser que então mudem de conceito.

A Ópera é de todos os espectáculos teatrais o mais magnífico e luzido. Deixemos a questão, se ela é, ou não, uma composição monstruosa e irregular, pois que não é este o ponto que agora tratamos. O certo é que o incomparável Metastásio nos deixou composições de indizível merecimento neste género, as quais eternizarão o seu nome enquanto a Poesia tiver estimação entre os homens. As óperas deste grande mestre são maravilhosas em todo o sentido: elas estão cheias de máximas de virtude e probidade, e ainda as mesmas cenas amorosas respiram sempre um amor puro e inocente. Mas não basta só a bondade do drama. A Ópera, mais que todas as outras representações, demanda um aparato de grande custo e de extraordinária magnificência. Actores

excelentes, que representem e cantem com toda a perfeição, orquestra soberba, vestuário rico e elegante, comparsas magníficas e numerosas, um teatro espaçoso e bem iluminado e, finalmente, tudo quanto a Poesia, a Música, e a Pintura têm mais capaz de fazer um espectáculo grande, magnífico e brilhante.

Suposto isto, se os portuenses têm possibilidade e valor para sustentarem uma Casa de Ópera com todas estas circunstâncias, digo que me parece muito bem que eles a estabeleçam. Este divertimento tem razões que o fazem recomendável. A magnificência do espectáculo arrebata os olhos, a suavidade da música encanta os ouvidos; o grande número de professores de música de todo o género que as óperas demandam introduz o bom gosto desta arte e facilita aos curiosos os meios de a aprenderem. Mas a dizer a verdade, meu amigo, duvido muito, que na sua pátria possa estabelecer-se uma Casa de Ópera, como
ela deve ser. Não me meto a averiguar se o Porto pode ou não pode sustentar um Teatro Italiano; o certo é que se pode, não quer. No tempo em que eu aí estive, vi que apesar da protecção mais empenhada, não se fazia uma ópera digna de se ver. Alguma vez se arrojaram a representar óperas heróicas; mas como as executavam? Nenhum dos actores sabia sustentar com decência um papel sério; o vestuário era indigno e velho, as cenas quase sempre as mesmas, as comparsas pobres e miseráveis. Eu não sei se Vossa Mercê se lembra ainda do muito que nos provocou a risa ver uma mulher de nenhum merecimento fazer o papel de Eneas na Dido Desprezada. Essas bocas profanas desfiguravam indignamente as divinas composições do insigne Metastásio e dos grandes mestres que reduziram a música suas admiráveis óperas. Não confundamos, contudo, o bom com o mau. Eu sei que no seu teatro têm uma ou outra vez aparecido figuras de merecimento, das quais se não deve entender o que tenho dito.

Viam-se, pois, os tais cómicos obrigados a representar quasi sempre óperas joco-sérias, a que os italianos chamam Burletas, e ainda nessas manquejavam sumamente, porque nunca havia mais de um actor digno de se ouvir; e houve muito tempo, em que nenhum deles sabia do seu ofício. Além do que um teatro de Burletas assento que não tem outro merecimento mais que o da música, quando ela é boa, porque as composições deste género são as mais absurdas e insípidas que se podem imaginar; e, por consequência, parece-me, que é melhor ouvir em uma sala a um músico eminente, do que ir ao teatro ouvir cantar despropósitos, e alguns deles muito mal cantados.

De tudo venho a concluir: que o Porto não pode, ou não quer, sustentar dois teatros completos, um português, e outro italiano com a perfeição que deve ser; que é melhor ter um só teatro bom, e perfeito, do que dois maus, quais eram os que até agora aí havia. Que, por consequência, devem Vossas Mercês
cuidar em os reduzir ambos a um só, e com a mesma despesa com que até agora sustentavam um mau teatro Italiano e um Português medíocre, ou talvez com menos, devem estabelecer um teatro português óptimo, que os divirta e instrua, que faça honra à sua cidade e mostre o bom gosto de seus cidadãos. Mas agora vejo que já escrevi mais do que queria. Fiquemos aqui. Deus guarde a Vossa Mercê, etc.

Terceira CartaTerceira Carta

 

Meu prezado amigo. Somos chegados à última parte das nossas reflexões sobre o Teatro do Porto, e temos hoje para ver como este teatro deve ser regulado? Neste ponto, meu amigo, de nenhum modo posso acomodar-me ao sistema, que aí atè agora se tem praticado. A liberdade é privilégio tão essencial ao homem que só lhe pode ser coarctada quando assim o demanda uma necessidade inevitável, e só quanto esta necessidade o pede. Ora eu não vejo que haja necessidade alguma de obrigar a gente a dar dinheiro a comediantes, a quem não tem vontade de ouvir.

Os abusos que se praticavam no Porto a este respeito são intoleráveis. Deixe-me apontar sumariamente os mais notáveis. Façamos, porém, justiça, e sem incorrermos na censura de ingratos, saibamos reconhecer os benefícios e advirtamos que as melhores intenções são muitas vezes mal sucedidas, por se

quererem alcançar por caminhos errados.

A ilustre pessoa que protegia o seu teatro, foi dada pelo céu ao Porto para o fazer feliz. Ele não tem outro disvelo mais que o bem de seu povo, a quem ama como filhos. Entre outras muitas providências, com que tem trabalhado na felicidade e segurança dos portuenses, justamente assentou que o estabelecimento de um teatro fixo podia ser de grande utilidade para civilizar essa cidade, para instruir os seus moradores e para a condecorar e fazer estimável aos estrangeiros. Estas ideias são tão louváveis, que o Porto só por isto lhe deveria um agradecimento eterno quando não tivesse mais relevantes motivos para o considerar como seu pai e protector.

Tendo, pois, diante dos olhos um fim tão acertado, persuadiu-se que o teatro nunca poderia conservar-se sem um fundo certo, e para lho estabelecer mandava todos os anos falar  àquelas pessoas que lhe pareciam capazes de poder suportar essa despesa, e lhes pedia tomassem lugares
fixos por ano de cadeira, ou camarote. Cuido que não é necessário muita lógica, para conhecer, que as pessoas daquela qualidade, quando pedem com empenho, mandam. E qual seria em Portugal o homem que se atrevesse a dizer que não a semelhante recado? A isto acrescentava uma singular protecção para com os cómicos, e um código de regulamentos muito extraordinários para o teatro, no qual estava disposto que Pedro se devia sentar naquele lugar e Paulo neste; que o que tomava uma cadeira por ano a não poderia emprestar uma noite ao seu amigo; que o dono de um camarote não poderia brindar com ele uma família a quem desejava obsequiar, se não em certas circunstâncias, e com certas limitações, e outras leis desta natureza. E como nenhuma legislação pode subsistir sem magistrados que a façam executar, tinha esta também os seus executantes, os quais, julgando-se com um poder igual ao de seu amo, e não tendo na realidade as mesmas ideias, praticavam mil insolências, insultando muitas vezes as pessoas de bem, e desatendendo quem muito lhes parecia. E como

eram ministros, de quem não havia apelação nem agravo, não havia remédio se não obedecer prontamente a todas as suas sentenças.

Deste procedimento resultavam os inconvenientes seguintes 1. Eram obrigadas a assinar muitas pessoas que não podiam, e outras que não queriam. 2. O teatro era muito pior do que havia de ser, se houvesse liberdade. 3. O número dos espectadores era pouquissimo. Deixe-me ver se lhe mostro isto.

Digo 1. Que eram obrigados a assinar muitos que não podiam, e outros que não queriam fazer esta despesa. Uns dos assinantes certos da Ópera eram os Desembargadores dessa Relação, e os outros ministros da cidade. Vossa Mercê sabe muito bem que um Desembargador do Porto tem cento e oitenta mil réis de ordenado líquido; quero que um extravagante com o resto de seus emolumentos faça em tudo trezentos mil réis anuais. Como é possível que um ministro, que necessariamente se há-de tratar como homem de bem, com um
rédito tão pequeno, coma, vista, pague a criados e aluguel de casa, e lhe sobejem seis ou sete moedas, para gastar na Ópera, beneficios etc. Não falemos dos militares; esses são pobres por natureza e toda a economia do mundo não basta para os fazer subsistir só com o soldo que recebem. As pessoas que vivem de suas rendas muitas vezes estão carregadas de grandes dívidas, e só por meio do governo mais exacto podem sustentar as suas casas. Finalmente, os mesmos homens de negócio não têm, talvez, a opulência que o mundo julga; e quantas vezes, por não ficarem mal, desperdiçariam desta sorte o dinheiro de seus credores?  Aqui temos muita gente que não pode assinar, há outra muita que não quer. Vossa Mercê ouviria a infinitos dizerem que não faziam gosto algum de gastarem semelhante dinheiro e que assinavam por não se atreverem a dizer que não; e com efeito muitos destes mostravam que não mentiam, pois que, apesar de serem obrigados a pagar o lugar, nem uma só vez o iam ocupar.
Digo em segundo lugar; Que o Teatro era muito pior do que havia de ser, se
houvesse liberdade. A razão é clara. Os cómicos estavam altamente protegidos: logo no princípio do ano tinham a certeza de um fundo infalível que supria os seus salários e as mais despesas do teatro. Ficavam, por consequência, independentes dos espectadores, os quais, ou eles representassem bem ou mal, lhes haviam de pagar pontualmente. Postos nesta independência, cuidavam em desfrutar o benefício com o menor trabalho possível. Faziam pouquíssimas óperas novas; representavam com negligência; mutilavam as peças miseravelmente e, quando lhes parecia, omitiam as melhores árias e os papéis mais interessantes. Se um actor tinha de memória algum recitado ou ária que aprendera quando estudava música, metia-o aonde quer que se lhe antojava, ainda que entrasse ali como Pilatos no Credo. Umas vezes havia danças entre os actos, e outras não, e às vezes as faziam tais, que melhor seria as não houvesse. Mas o dinheiro era sempre o mesmo, o pobre espectador não ousava abrir a boca e, para parecer homem da Corte, via-se muitas vezes na necessidade de elogiar todos estes despropósitos. Porém, vamos

adiante.

Digo ultimamente que o número dos espectadores era pouquíssimo. Nem podia deixar de acontecer assim. O pouco merecimento das representações desanimava a uns; outros não podiam levar à paciência a falta de liberdade que havia no teatro, tão oposta ao que sabiam se praticava em outros teatros mais polidos; outros receavam ser insultados, e a muitos ouvi referir casos sucedidos na Casa da Ópera a pessoas de bem, protestando que nunca iriam lá expôr-se a ser descompostos publicamente; outros, finalmente, que talvez frequentariam o teatro se os deixassem em liberdade, faziam timbre de lá não entrarem, por isso mesmo que os tinham obrigado a assinar.

Eis aqui as más consequências, que nasciam daqueles meios violentos, não obstante dirigirem-se estes a um fim tão justo, e acertado. Mas espere, que ainda me esquecia a chusma de benefícios que no seu teatro se concediam, não só às figuras, mas ainda aos mais inferiores membros dele. Lembro-me, que um ano

foram vinte, e tantos. A maior parte destes bons beneficiados tinham protecções eficazes. Fazia-se o lançamento, e os que haviam sido multados, fossem ou não fossem à função, vinham prontamente entregar a porção em que os tinham taxado. E como era possivel, que um teatro semelhante tivesse jamais frequência de espectadores?

Meu amigo, o primeiro móvel de um divertimento público deve ser a liberdade. Esperem os actores todo o lucro do seu merecimento e logo veremos como eles procuram agradar ao público, e trazê-lo ao teatro. Então representarão frequentemente peças novas, trabalharão pelas executar com perfeição, variarão de vestidos e de cenas, e finalmente procurarão com a novidade conciliar a vontade do povo, em quem unicamente têm toda a esperança. O espectador não deve também ser incomodado no teatro; este é um prazer que ele compra com o seu dinheiro e de que quer gozar à sua satisfação. Pelo que todas as vezes que não perturbar o sossego, e boa ordem, que aí deve reinar, qualquer outro constrangimento é injusto, e não pode deixar de o afugentar e fazer-lhe perder o gosto de voltar a semelhante lugar. A liberdade dos teatros

em muitas cidades civilizadas passa a excesso, e em Londres, Paris, Veneza, se vêem todos os dias os espectadores dar pateadas aos actores maus e atirar-lhes com laranjas, e maçãs. Eu não quero tanta liberdade; porém, de nenhuma sorte posso aprovar o constrangimento que no Porto se praticava.

Sei perfeitamente que alguns dos portuenses querem defender a justiça, ou ao menos a necessidade do sistema, que reprovo. Dizem que nessa cidade seria impossível conservar-se um teatro se o deixarem inteiramente à discrição do público; que na Casa da Ópera aparecia muito pouca gente, alem dos assinantes, e que ainda muitos destes, não obstante pagarem os lugares por ano, não assistiam a uma só representação.

Mas estas razões não me convencem. O Porto é uma cidade muito populosa, os seus moradores correm facilmente aos divertimentos públicos; e se fugiam do teatro, não era porque aborrecessem os espectáculos, era sim pela violência, com que assinavam e pelo pouco merecimento do que lá havia que ver. Provo isto com a experiência. Vi representar aí muitas peças

que tiveram sempre um concurso inumerável. Nas noites de benefício, em que havia de ordinário mais variedade, e maior cuidado em agradar, enchiam-se os camarotes e a plateia. E qual era a razão disto? Nenhuma outra mais do que achar o povo divertimento nessas ocasiões e não o achar nas Óperas, e Comédias, que ordinariamente se representavam.

Haja, pois, no teatro um director, ou empresário, de juízo, que saiba conhecer o gosto do público, e lisonjeá-lo; esforcem-se os actores, trabalhem por agradar; conceda-se uma liberdade racionável; desterrem-se as acções despóticas; e eu lhe prometo que o teatro se encha, que os espectadores se interessem, e que os comediantes ganhem dinheiro.

Se depois de se praticar tudo isto, mostrar ainda assim a experiência que o teatro se não pode sustentar sem essa violenta protecção (o que me parece impossível) eu diria, então, que é melhor não haver no Porto tal divertimento do que ser sustentado pela força e pelo constrangimento.

Porque não sei que pessoa alguma tenha o direito de pôr um tributo ao povo para sustentar uma tropa de comediantes, de que ele não gosta. Além do que, se os espectáculos do teatro não são de paixão dos seus patrícios, o mais a que os poderão obrigar é a que paguem, mas não a que frequentem; e, por consequência, semelhante teatro oprimiria o público, não lhe causaria utilidade alguma e só seria bom para os cómicos, a quem não pesaria ganhar dinheiro com pouco trabalho. Não cesso, pois, de insistir em que a liberdade deve ser a primeira regra neste caso. Por força ninguém se instrui, nem se diverte.

Eis aqui, meu amigo, o que me lembra dizer-lhe a respeito do restabelecimento do teatro dessa cidade. O Porto tem sujeitos muito doutos e prudentes que discorrerão sobre este ponto infinitamente melhor. Eu disse-lhe ingenuamente o que sentia com aquela lisura e sem ceremónia que pede a nossa amizade. Estimarei que as minhas reflexões mereçam a sua aprovação, pois só então terão para mim algum valor. Deus guarde a Vossa Mercê, etc.
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Folha de rostoReflexoens

sobre

O restabelecimto do Theatro

Do Porto.

Em tres cartas.

De Ricardo Raimundo Nogueira.

1778

Primeira Carta Primeira Carta

 

Meu presado amigo. Quando eu não ti-
vesse outros motivos para estimar a Cid.e do
Porto, mais que o ter 'ella hum amigo de
tanto merecim.to, este só me obrigaria a lem-

brar-me sempre com saudade d’essa terra,

e a interessar-me vivam.te por tudo quanto

lhe-dissesse respeito. Mas eu devo estimar

a sua patria ainda por outras rasoens. Assis-

ti no Porto muitos annos, ahi passei com gos-

to o melhor tempo da minha vida; e os seus pa-

tricios me-tratarão com huma hospitalidade,

de que nunca poderei esquecer-me. Todas es-

tas rasoens me-obrigão a considerar-me

como hum de seus Concidadãos, e por conse-

quencia a julgar como proprios os interes-

ses da sua patria. Este he o motivo, que

me-incita a dizer-lhe muito por extenso o

que sinto sobre o ponto, que V. M. me-diz

se-agita ahi presentem.te a respeito do res-

tabelecimento do Theatro; questão que a V. M.

parece duvidosa, e que quanto a mim he

facil de decidir.

Pergunta V. M.: Se he util que na Cidade


do Porto haja hum Theatro? Eu respondera,

que sim; e as rasoens, que tenho p.ª assim

o julgar, são as que vou a dizer-lhe. Todos

sabem, que os homens doutos tem alter-

cado muitas vezes a questão, se as repre-

sentaçoens theatraes são uteis, ou pernicio-

sas, e ainda nos nossos dias vimos dois gran-

des Litteratos disputarem este ponto com

a maior vehemencia. Mas, a dizer-lhe a

verd.e; assento, que quem pensar desapai-

xonadam.te sobre esta materia ha-de conhe-

cer, que a diversid.e de opinioens nasce aqui mais

dos accidentes, do que da substancia, e que o pon-

to essencial he pouco duvidoso. Quero dizer; nin-

guem duvida que hum Theatro correcto, em q.

se-representem os vicios e deffeitos dos ho-

mens de modo, que os espectadores os-abor-

reção, e em que se-inculque a belleza da

virtude, he muito util à sociedade. Os que

assistem à representação destas peças co-

brão insensivelm.te hum grande horror aos

deffeitos, que vem ridiculisar no theatro, e

a zombaria, que o Comico faz dos viciosos, he

muitas vezes tão efficaz, como os eloquen-

tes discursos, com que os Oradores Evan-

gelicos os combattem nos pulpitos. Digo


que he tão efficaz, não porque nas Come-

dias se-inculque a moral tão solidam.te;

nem com tanta força, e majestade, como

nos Sermoens; mas porque a instrucção se-

communica ahi insensivelm.te, e os homens,

que entrarão no Theatro sò com tenção de

se-divertirem, sahem p.ª fora aborrecendo

os deffeitos, que virão escarnecer. Bem

sei que os dramas, que se-representão

em muitos theatros são inteiram.te tecidos

de lances de amor, e alguns d’elles cheios

de equivocos indecentes, e reprezentados por

actores, que p.ª conseguirem o applauso

da plebe, se esquecem muitas vezes das

regras do decoro, e do respeito, que se-deve

ao publico, pondo de sua caza mil vizagens

ridiculas, e mil expressoens grosseiras, e

indecorosas. Quando os espectaculos são

d’este genero, ninguem pode negar, que elles

mais servem de corromper os costumes, e de

estragar os coraçoens da gente moça, do que

de lhes-fazerem algum bem. Mas este vi-

cio não he do Theatro, nem da Arte Comica,

he sim do Autor, que escreve as Comedias,

ou dos que as representão; e d’esta sorte

não ha coisa alguma, por melhor que seja,

de que se não possa fazer hum pessimo


abuzo. A espada, que na mão do soldado de-

fende a pátria, na do assassino se volta

contra os seus mesmos Cidadãos.

Talvez dirão os antagonistas do theatro,

que estes deffeitos, bem que não sejão da essen-

cia das representaçoens, com tudo a experien-

cia mostra, que se-encontrão, e encontràrão sem-

pre em todos os theatros; e que este theatro

correcto, de que falamos, em que unicam.te se-

inculque a sãa moral, e se-fulmine o vicio,

he huma Republica de Platão, que nunca

existio, se não na imaginação dos que a des-

crevem. Mas eu me-atrevo a dizer, que

elles se-enganão. Nòs temos hum grande

numero de Comedias, que nos-pintão com vivis-

simas cores o horror do vicio, e a formo-

sura da virtude. O incomparável Moli-

ere no seculo passado, e no presente o ce-

lebre Veneziano Carlos Goldoni publicárão

muitas peças chêas de sentimentos de virtu-

de, de honra, e de probidade. Quem poderá

ver representar o Avarento, sem que se

persuada, que a Avareza he hum vicio de-

testavel? O Tartufo, sem que aborreça a hy-

pocrisia? O Pay de família, sem que compre-
henda quaes são as obrigaçoens de hum

bom pay, e de hum bom marido? O Menti-


Mentiroso, sem que abomine a Mentira?

A experiencia he a melhor prova des-

ta verd.e Quando Moliere poz as suas Co-

medias no theatro vio-se em França huma

reforma notável nos deffeitos, q. ellas censura-

vão, e entrou-se a mofar tanto dos paraltas,

das mulheres, que affectavão huma instrucção

imprópria do seu sexo, e dos homens ordina-

rios enfronhados em Fidalgos, que estes vícios

entràrão desde então a diminuir conhecida-

mente.

Cuido que tenho mostrado, que hum Theatro

bem regulado he util, porque corrige os costu-

mes, escarnece o vicio, exalta a virtude, e

ensina as obrigaçoens da vida humana. A

esta rasão acrescentarei outras, talvez de

menor pezo, mas que tão bem me-parecem

muito attendiveis.

Digo pois, que o theatro he proveitoso, em

quanto he hum espectáculo, que convoca os

Cidadãos, e os ajunta em hum mesmo lu-

gar. He certo que não ha coisa mais

conducente p.ª o bem da sociedade do que a

boa armonia, e estreita união de seus mem-

bros: e como se-poderá melhor promover

esta sociabilidade, se não o dando aos Cidadãos

muitas occasioens de se verem, de se co-


conhecerem, e de se-tratarem? Huma mes-

ma caza ajunta nas noites de Comedia in-

finitas pessoas, e familias, a quem seus res-

pectivos negócios, interesses, e

amisades separão em todo o mais tempo:

O acaso, que os-obriga a serem ali visi-

nhos, os dà a conhecer huns aos outros, a-

perta mais os laços da sociedade, e muitas

vezes trava entre elles novos conhecimentos,

e amisades. Ali se-destroe em gran-

de parte aquella soberba, com que a nobre-

za costuma olhar para os sujeitos de in-

ferior qualidade e o acanham.to, e baixa sub-

missão, com que estes de ordinário fomen-

tão suas ridiculas,  e extravagantes perten-

çoens. Ali adquirem as pessoas de hum,

e outro sexo aquella civilid.de affavel, mas mo

desta, aquella facilidade, e desembaraço nas

palavras, e nas acçoens, que caracterisão

no Mundo os sujeitos bem educados.

Alem disto he tão bem certo, que o theatro,

sendo qual eu o quisera, he huma honesta

dissipação do espirito, que muitas vezes po-

de apartar os que o frequentão de se-entrega-

rem a divertimentos prejudiciaes, e criminosos.

Em todas as terras ha muitas

pessoas, a quem o genio, a abundancia, ou


o ridiculo prejuízo do nascimento não dei-

xão ter outra occupação mais, que a de

se-divertirem: ainda os homens laboriosos

necessitão de algum passatempo, com o qual

desafoguem o espirito dos cuidados, que o

opprimem, reparem as forças attenuadas

pela demasiada applicação, e cobrem vi-

gor p.ª voltarem aos seus empregos. He

claro pois, que a todos estes serà de gran-

de proveito acharem sempre prompto hum

divertimento publico, aonde a belleza do es-

pectaculo os diverte, e os instrue, e a concur-

rencia de huma multidão de gente os-alegra,

e lhes distrahe o pensamento dos cuidados do

dia. E não he isto melhor do que irem

arriscar o dinheiro, e o socego na meza do jo-

go, ou passaram o tempo em prazeres a-

inda mais infames, e vergonhosos? Co-

nheço, que ha muita gente, que sem ir ao the-

atro se-diverte em passatempos igualmen-

te honestos: mas nem por isso deixa de ser

verdade que na Republica se-devem pro-

mover todos os divertimentos innocentes, pa-

ra que na sua variedade achem os diversos

genios em que se-entreter, e estejão mais

livres da tentação de se-entregarem a

prazeres vedados, damnosos, e indecentes.


Finalmente a publicidade, e liberdade dos

espectáculos he outro motivo, que os-faz re-

commendaveis. Os naturaes de huma Cida-

de tem todos as suas particulares socieda-

des, aonde podem procurar o divertimento.

As razoens do parentesco, da visinhança,

e da amisade lhes-facilitão a communi-

cação de muitas pessoas, em cuja companhi-

a podem passar as horas destinadas pa-

ra o recreio. Mas o forastei-

ro, que chega de novo a huma terra, aonde

he pouco, ou nada conhecido, de que modo po-

derà divertir-se decentemente, se se não va-

ler dos espectaculos publicos, a que todo o

homem he admittido pelo seu dinheiro? Esta

commodid.e traz consigo huns poucos de pro-

veitos. O Estrangeiro entretem-se, e nas

Cidades, como o Porto, conhece a gente da ter-

ra, e se faz conhecido.

Eis aqui, meu amigo, o que me occorre à

primeira vista sobre a utilidade do Thea-

tro, a que poderia acrescentar outras ra-

soens, se a minha perguiça, e a sua paci-

encia o permittissem: taes são, o exem-

plo das Naçoens civilisadas, aonde não

ha Cidade notavel sem, ao menos, hum

theatro; o proveito, que se pode tirar das


peças bem escritas, e representadas para

a pureza da lingoagem, e para a exactidão

e graça da pronunciação, de que principal-

mente nas Provincias he tanta falta, &.ª

 

Em conclusão, eu procurei mostrar-lhe,

que o theatro he util. 1. Porque reforma

os costumes. 2. Porque augmenta a união

entre os Cidadãos. 3. Porque os civilisa.

4. Porque os-livra de se-entregarem a

passatempos illicitos. 5. Porque he hum di-

vertimento commodo, e proveitoso para os

Estrangeiros. Se V. M. meditar sobre es-

tas razoens, julgo que se-convencerà da

verdade d’ellas, e as corroborarà com ou-

tras de não menos pezo.

Resta-me satisfazer às outras duas per-

guntas da sua Carta, a saber; Que ge-

nero de peças se-deverião representar

n’essa Cidade? e, como o Theatro deve ser

regulado? Reservemos estes dois pontos

para outra vez; porque nem eu tenho a-

gora tempo para escrever mais, nem V. M.

terà paciencia para supportar a leitura

de huma Carta já tão dilatada, e en-

fadonha. Deos guarde a V. M. &.ª

 



Segunda CartaSegunda Carta

 

Meu presado amigo. Procurei mostrar
 na minha Carta do correio passado, que o
 Porto necessitava de hum theatro; segue-se
 vermos, que genero de peças se devem re-
presentar n’elle; quero dizer, se serà util
 conservar as duas companhias de Opera, e
 Comedia, que ahi representavaõ alternadament-
e; ou se bastarà que fique huma só, e qual
 ha-de ser esta?


Se convem a huma Cidade populosa, que
 haja n’ella hum theatro, como creio, que
 jà mostrei, he sem questaõ, que sempre se
 deve começar pelo theatro Nacional: e sò de-
pois de termos boas representaçoens na nos-
sa lingoa, nos poderemos lembrar de pôr
 na scena obras escritas em hum idioma
 estrangeiro, e ajudadas com as bellezas da
 Musica.


Digo pois, que no Porto deve haver hum
 theatro Portuguez. Mas naõ me satis-
faço, que elle seja destinado unicamente
 para Comedias: quizera que taõ bem


 ahi se representassem Tragedias, as quaes
 arrancassem aos espectadores lagrimas de
 compaixaõ, e lhes mostrassem a belleza,
 e majestade da virtude no meio das cala-
midades. Se a Comedia nos aponta os def-
feitos da vida commua, que fazem os homens
 ridiculos na Sociedade, representando-nos es-
ses vicios com cores, que nos provocaõ a ri-
za; a Tragedia offerecendo-nos em espec-
taculo, humas vezes o preverso abattido
 e atterrado pela maõ de huma Providen
cia, que zomba dos vaõs projectos da ini.
quidade; e outras o homem justo lutan-
do com a desgraça, e sempre firme entre
 a universal ruina; grava altamente em
 nossos peitos o amor da virtude, o horror do
 vicio, a constancia nos infortunios, a mo-
deraçaõ na prosperidade.

Admirem pois os espectadores os funes-
tos effeitos de huma ambiçaõ desordenada,
 e de hum espirito de vingança na Rod-
eguna; contemplem o merecido castigo da
 tyrannia na Athalia; tremaõ de horror
 ao ver o fanatismo induzir hum filho
 a cravar o punhal no peito de seu mes
mo pay no Mahomet; estremeçaõ, vendo


 a enganada Merope levantar o braço para
 tirar a vida a aquelle filho, a quem tanto
 amava, e por cujo respeito unicamente que-
ria viver; deplorem o infortunio da tris-
te Zayra victima infeliz dos injustos zelos
 de hum amante, de quem apenas as or-
dens de seu pay, e de seu Deos a podem
 separar. Volte o espectador sensivel pa-
ra caza com os olhos ainda mal enxutos
 d’aquellas lagrimas, que fazem honra à
 humanidade, e do que ouvio no theatro co-
lha maximas uteis, e saudaveis, que lhe
 ensinem a naõ se desviar da estrada di-
reita da honra, e da virtude tanto na pros-
pera, como na adversa fortuna.

Mas parece-me que o estou ouvindo per-
guntar-me, para que gasto o tempo em
 persuadir a utilidade das Tragedias, se em
 Portuguez naõ ha composiçoens d’esse ge-
nero, que possaõ pôr-se no theatro? Po-
rem, meu amigo, a difficuldade naõ he in-
vencivel: Assim he, que os nossos Poe-
tas se naõ applicàraõ a escrever semelhan-
tes dramas, e se exceptuarmos a Castro do
 nosso immortal Antonio Ferreira, pode-
mos dizer afoitamente, que naõ ha Tragedia


 Portugueza comparavel com as dos Mes-
tres assim antigos, como modernos.  Po-
rem nòs temos jà na nossa lingoa algumas
 versoens muito sofriveis de varias Trage-
dias Francezas, e ahi no Porto vi represen-
tar algumas das de Voltaire assaz bem
 traduzidas. Se o publico entrasse a in-
teressar-se por estas representaçoens, estou
 certo, que brevemente veriamos outras mui-
tas traducçoens; e se os Directores do thea-
tro recompensassem dignamente a fadiga
dos traductores, assento que teriaõ muito, com
que suprir a todas as representaçoens.
Finalmente, he bem provavel, que esta pro-
teçaõ viesse a avivar os engenhos Portugue-
es, com quem a natureza certamente naõ foi
escassa; e quem sabe se Portugal poderia
algum dia jactar-se de ter taõ bem os seus
Corneilles, e os seus Racines?

Mas pergunto; e que Comedias temos Por-
tuguezas de origem capazes de se pôrem
 nos Theatros?  Eu cuido que a falta he igu-
al à das Tragedias; e bem que o numero
 das Comedias traduzidas seja mais conside-
ravel, com tudo a maior parte d’ellas es-
taõ taõ desfiguradas nas versoens, que se-


ria de desejar se traduzissem novamente
 em lingoagem mais pura, para que os es-
pectadores naõ vaõ ao theatro aprender a fa-
lar com termos improprios, e a servir-se de ex-
pressoens barbaras, e alheas da nossa lingoa.

Haja pois no Porto hum Theatro Portuguez,
em que se façaõ Tragedias, e Comedias escolhi-
das: procurem-se Comicos excellentes, que
as representem com propriedade e decencia;
as scenas sejaõ do melhor desenho; os vesti-
dos accommodados aos papeis, e nas Trage
dias especialmente sejaõ ornados com a rique-
za, e magnificencia, que os caracteres Tragi-
cos demandaõ.


Mas que diremos do Theatro Italiano?  As
Operas certamente tem muitos apaixonados;
e qual he o homem sensivel que se naõ in-
teressa por huma boa musica?  O Theatro I-
taliano parece taõ bem ter n’essa Cidade a
preferencia, em razaõ da sua antiguidade.
 Mas a pezar de todas estas ra-
zoens, direi o que entendo: No Porto naõ
 deve haver Theatro de Operas Italianas.
Naõ duvido, que muitos dos seus patri-
cios se escandalizem de ouvir proferir


 esta proposiçaõ; que huns zombem do meu
 mao gosto; e outros se compadeçaõ da mi-
nha ignorancia.  Mas antes que pronun-
ciem a Sentença, peço-lhes que oiçaõ as ra-
zoens, que me movem a sentir assim, e po-
de ser que entaõ mudem de conceito.

A Opera he de todos os espectaculos thea-
traes o mais magnifico, e luzido. Deixe-
mos a questaõ, se ella he, ou naõ, huma com-
posiçaõ monstruosa, e irregular, pois que naõ
 he este o ponto que agora tratamos.O
 certo he que o incomparavel Metastasio
 nos deixou Composiçoens de indizivel me-
recimento neste genero, as quaes eterni-
saraõ o seu nome em quanto a Poesia ti-
ver estimaçaõ entre os homens.  As O-
peras d’este grande Mestre saõ maravi-
lhosas em todo o sentido: ellas estão
chêas de maximas de virtude, e probidade,
e ainda as mesmas scenas amorosas
 respiraõ sempre hum amor puro, e in-
nocente.  Mas naõ basta sò a bonda-
de do drama.  A Opera, mais que todas
 as outras representaçoens, demanda hum
 apparato de grande custo, e de extraor
dinaria magnificencia.  Actores excel-


lentes, que representem, e cantem com
 toda a perfeiçaõ, orquestra soberba, ves-
tuario rico, e elegante, comparsas mag-
nificas, e numerosas, hum theatro espaço-
so, e bem illuminado e finalmente tudo
 quanto a Poesia, a Musica, e a Pintu-
ra tem mais capaz de fazer hum es-
pectaculo grande, magnifico, e brilhante.

Supposto isto; se os Portuenses tem
 possibilidade, e valor para sustentarem
 huma Caza de Opera com todas estas
 circunstancias, digo que me parece m.to
 bem que elles a estabeleçaõ. Este di-
vertimento tem razoens, que o fazem
 recommendavel.  A magnificencia do es-
pectaculo arrebata os olhos; a suavidade
 da musica encanta os ouvidos; o gran-
de numero de Professores de musica de
 todo o genero, que as Operas demandaõ,
 introduz o bom gosto d’esta Arte, e fa-
cilita aos curiosos os meios de a apren-
derem.


Mas a dizer a verdade, meu amigo, du-
vido muito, que na sua patria possa es-
tabelecer-se huma Caza de Opera, como


 ella deve ser.  Naõ me metto a averi-
guar, se o Porto pode, ou naõ pode sus-
tentar hum Theatro Italiano; o certo he
 que se pode, naõ quer. No tempo, em
 que eu ahi estive, vî que a pezar da
 protecçaõ mais empenhada, naõ se fazia
 huma Opera digna de se ver. Alguma
 vez se arrojaraõ a representar Operas
 Heroicas; mas como as executavaõ?  Ne-
nhum dos Actores sabia sustentar com de-
cencia hum papel serio; o vestuario era
 indigno e velho; as scenas quasi sempre
 as mesmas; as comparsas pobres, e mi-
seraveis. Eu naõ sei, se V.M. se lem-
bra ainda do muito que nos provocou
 a risa ver huma mulher de nenhum me-
recimento fazer o papel de Eneas na

Dido despresada. Essas bocas profa-

nas desfiguravaõ indignamente as di-

vinas composiçoens do insigne Metas

tasio, e dos grandes Mestres que reduzi

raõ a musica suas admiraveis Ope

ras. Naõ confundamos com tudo o

 bom com o mao. Eu sei que no seu the-

atro tem huma, ou outra vez appare-

cido figuras de merecimento, das quaes

 se naõ deve entender o que tenho dito.


Viaõ-se pois os taes Comicos obrigados

 a representar quasi sempre Operas jo-

coserias, a que os Italianos chamaõ Bur

lettas, e ainda nessas manquejavaõ sum-

mamente, porque nunca havia mais de

 hum Actor digno de se ouvir, e houve m.to

tempo, em que nenhum d’elles sabia do

 seu officio. Alem do que hum theatro

 de Burlettas assento que naõ tem outro

 merecimento mais que o da musica, quando

 ella he boa, porque as composiçoens d’este

 genero saõ as mais absurdas, e insipidas,

 que se podem imaginar; e por consequen

cia parece-me, que he melhor ouvir em

 huma Sala a hum Musico eminente,

 do que ir ao Theatro ouvir cantar des

propositos, e alguns d’elles muito mal

 cantados.

 

De tudo venho a concluir: Que o Porto

naõ pòde, ou naõ quer, sustentar dois

theatros completos, hum Portuguez, e ou-

tro Italiano com a perfeiçaõ, que de-

ve ser; Que he melhor ter hum sò the-

atro bom, e perfeito, do que dois maos,

quaes eraõ os que atè agora ahi havia.

 Que por consequencia, devem V.M.es


cuidar em os reduzir ambos a hum sò,

 e com a mesma despeza, com que até

agora sustentavaõ hum mao theatro I-

taliano, e hum Portuguez mediocre, ou

talvez com menos, devem estabelecer

hum theatro Portuguez optimo, que os

divirta, e instrua, que faça honra à

sua Cidade, e mostre o bom gosto de

seus Cidadaõs. Mas agora vejo,

que ja escrevi mais do que queria: fique-

mos aqui. Deos guarde a V.M. &.cª

Terceira CartaTerceira Carta

 

Meu presado amigo. Somos chega-

dos à ultima parte das nossas refle-

xoens sobre o Theatro do Porto, e temos

hoje para ver; =Como este theatro de

ve ser regulado? N’este ponto, meu

amigo, de nenhum modo posso accomo-

dar-me ao systema, que ahi atè agora

se tem praticado. A liberdade he privile-

gio taõ essencial ao homem, que sò lhe

pode ser coarctada quando assim o deman-

da huma necessidade inevitavel, e sò quan-

to esta necessidade o pede. Ora eu naõ

vejo, que haja necessidade alguma de obri-

gar a gente a dar dinheiro a Comediantes,

a quem naõ tem vontade de ouvir.

 

Os abusos, que se praticavaõ no Porto a

este respeito, saõ intoleraveis. Deixe-

me appontar summariamente os mais no-

taveis. Façamos porem justiça, e sem

incorrermos na censura de ingratos, sai-

bamos reconhecer os benefícios, e advir-

tamos, que as melhores intençoens saõ

muitas vezes mal succedidas, por se


quererem alcançar por caminhos errados.

 

A illustre pessoa, que protegia o seu the-

atro foi dada pelo Ceo ao Porto, para

o fazer feliz. Elle naõ tem outro disvelo mais

que o bem de seu povo, a quem ama como

filhos. Entre outras muitas providencias,

com que tem trabalhado na felicidade, e segu-

rança dos Portuenses, justamente assentou

que o estabelecimento de hum theatro fixo

podia ser de grande utilidade para civilizar

essa Cidade, para instruir os seus morado-

res, e para a condecorar, e fazer estimavel

aos estrangeiros. Estas idêas saõ taõ lou-

vaveis, que o Porto sò por isto lhe deveria

hum agradecimento eterno quando naõ tives-

se mais relevantes motivos para o conside-

rar como seu pay e protector.

 

Tendo pois diante dos olhos hum fim taõ

 acertado, persuadio-se que o theatro nunca

poderia conservar-se sem hum fundo cer-

to, e para lho estabelecer, mandava todos

os annos falar a aquellas pessoas, que

lhe pareciaõ capazes de poder supportar

essa despeza, e lhes pedia tomassem lugares


fixos por anno de Cadeira, ou Camarote.

Cuido que naõ he necessario muita Logica, p.a

conhecer, que as pessoas d’aquella qualidade,

quando pedem com empenho, mandaõ. E

qual seria em Portugal o homem, que se

atrevesse a dizer que naõ a semelhante

recado?  A isto accrescentava huma sin-

gular protecçaõ para com os Comicos, e

hum Codigo de regulamentos muito extraor-

dinarios para o Theatro, no qual estava dis-

posto, que Pedro se devia sentar n’aquel-

le lugar, e Paulo n’este; que o que tomava

huma Cadeira por anno a naõ poderia em-

prestar huma noite ao seu amigo; que o do-

no de hum Camarote naõ poderia brindar

com elle huma familia, a quem desejava

obsequiar, se naõ em certas circunstancias, e

com certas limitaçoens, e outras Leis d’es-

ta natureza. E como nenhuma Legis-

laçaõ pòde subsistir sem magistrados,

que a façaõ executar, tinha esta taõ bem

os seus executantes, os quaes julgando-

se com hum poder igual ao de seu amo,

e naõ tendo na realidade as mesmas idêas,

praticavaõ mil insolencias, insultando m.tas

vezes as pessoas de bem, e desattenden-

do quem muito lhes parecia. E como


eraõ Ministros, de quem naõ havia ap-

pellaçaõ, nem aggravo naõ havia remedio

se naõ obedecer promptamente a todas as

suas Sentenças.

 

D’este procedimento resultavaõ os incon-

venientes seguintes - I. Eraõ obrigadas a

assinar muitas pessoas, que naõ podião, e

outras, que naõ querião. 2. O theatro e-

ra muito pior do que havia de ser, se houves-

se liberdade. 3. O numero dos especta-

dores era pouquissimo. Deixe-me ver

se lhe mostro isto.

 

Digo I. Que eraõ obrigados a assinar mui-

tos, que naõ podião, e outros que naõ que-

rião fazer esta despeza. Huns dos assi-

nantes certos da Opera, eraõ os Desem-

bargadores d’essa Relaçaõ, e os outros Mi-

nistros da Cidade. V.M. sabe muito bem,

 que hum Desembargador do Porto tem cen-

to e oitenta mil reis de ordenado liquido;

quero que hum Extravagante com o resto

de seus emolumentos faça em tudo trezentos

mil reis annuaes. Como he possivel,

que hum Ministro, que necessariamente se

ha-de tratar como homem de bem, com hum


redito taõ pequeno, coma, vista, pague a cri-

ados, e aluguel de caza, e lhe sobejem seis

ou sete moedas, para gastar na Opera,

beneficios &.ca. Naõ falemos dos Milita-

res; esses saõ pobres por natureza, e toda a

economia do mundo naõ basta para os fa-

zer subsistir sò com o soldo, que recebem. As

pessoas, que vivem de suas rendas, muitas

vezes estaõ carregadas de grandes dividas, e

sò por meio do governo mais exacto podem

sustentar as suas cazas. Finalmente os

mesmos homens de negocio naõ tem talvez

a opulencia, que o mundo julga; e quantas

vezes, por naõ ficarem mal desperdiçari-

aõ d’esta sorte o dinheiro de seus credores?

   Aqui temos muita gente, que naõ po-

de assinar, ha outra muita, que naõ quer.

V. M. ouviria a infinitos dizerem que naõ

faziaõ gosto algum de gastarem semelhan-

te dinheiro, e que assinavaõ por naõ se a-

treverem a dizer que naõ; e com effeito m.tos

d’estes mostravaõ, que naõ mentiaõ, pois

que a pezar de serem obrigados a pagar o

lugar, nem huma só vez o iaõ occupar.

 

Digo em segundo lugar; Que o Theatro

era muito pior do que havia de ser, se


houvesse liberdade. A razaõ he clara.

Os Comicos estavaõ altamente protegidos:

logo no principio do anno tinhaõ a certeza

de hum fundo infallivel, que supria os

seus salarios e as mais despezas do thea-

tro. Ficavaõ por consequencia independen-

tes dos espectadores, os quaes, ou elles repre-

sentassem bem, ou mal, lhes haviaõ de pa-

gar ponctualmente. Postos nesta independen-

cia cuidavaõ em desfrutar o beneficio com o

menor trabalho possivel. Faziaõ pouquis-

simas Operas novas; representavaõ com ne-

gligencia; mutilavaõ as peças miseravelmente,

e quando lhes parecia omittiaõ as melhores

Arias, e os papeis mais interessantes. Se

hum Actor tinha de memoria algum recita-

do ou aria; que aprendera, quando estuda-

va musica, mettia-o aonde quer que se lhe –

antojava, ainda que entrasse ali como Pila-

tos no Credo. Humas vezes havia danças

entre os actos, e outras naõ, e às vezes as

faziaõ taes, que melhor seria as naõ hou-

vesse. Mas o dinheiro era sempre o mes-

mo, o pobre espectador naõ ousava abrir

a boca, e para parecer homem da Corte vias-

se muitas vezes na necessidade de elogiar

todos estes despropositos. Porem vamos a-


diante.

 

Digo ultimamente; Que o numero dos es-

pectadores era pouquissimo. Nem podia dei-

xar de acontecer assim. O pouco merecimento

das representaçoens desanimava a huns; ou-

tros naõ podiaõ levar à paciencia a falta

de liberdade, que havia no theatro, taõ opposta

ao que sabiaõ se praticava em outros thea-

tros mais polidos; outros receavaõ ser insul-

tados, e a muitos ouvi referir cazos sucedi-

dos na Caza da Opera a pessoas de bem pro-

testando, que nunca iriaõ là expôr-se a ser

descompostos publicamente; outros finalmen-

te, que talvez frequentariaõ o theatro, se os

deixassem em liberdade, faziaõ timbre de

là naõ entrarem, por isso mesmo que os

tinhaõ obrigado a assinar.

 

Eis aqui as màs consequencias, que nas-

ciaõ d’aquelles meios violentos, naõ obstan-

te dirigirem-se estes a hum fim taõ jus-

to, e acertado. Mas espere que ainda

me esquecia a chusma de beneficios, que

no seu theatro se concediaõ naõ sò às figu-

ras, mas ainda aos mais inferiores mem-

bros d’elle. Lembro-me, que hum anno


foraõ vinte, e tantos. A maior parte d’es-

tes bons beneficiados tinhaõ protecçoens effi-

cazes. Fazia-se o lançamento, e os que haviaõ si-

do multados, fossem ou naõ fossem à funcçaõ,

vinhaõ promptamente entregar a porçaõ, em que

os tinham taxado. E como era possivel,

que hum theatro semelhante tivesse jamais

frequencia de espectadores?

 

Meu amigo, o primeiro movel de hum diver-

timento publico deve ser a liberdade. Esperem

os Actores todo o lucro do seu merecimento, e logo

veremos como elles procuraõ agradar ao publico,

e traze-lo ao theatro. Entaõ representaràõ fre

quentemente peças novas, trabalharàõ pelas exe-

cutar com perfeiçaõ, variaràõ de vestidos, e de

scenas, e finalmente procuraràõ com a novidade con-

ciliar a vontade do povo, em quem unicamen-

te tem toda a esperança. O espectador naõ

deve taõ bem ser incommodado no theatro; este he

hum prazer, que elle compra com o seu dinheiro,

e de que quer gozar à sua satisfaçaõ. Pelo que

todas as vezes que naõ perturbar o socego, e boa

ordem, que ahi deve reinar, qualquer outro cons-

trangimento he injusto, e naõ pòde deixar de

o afugentar, e fazer-lhe perder o gosto de voltar

a semelhante lugar. A liberd.e dos Theatros


em muitas Cidades civilizadas passa a exces-

so, e em Londres, París, Veneza, se vem

todos os dias os espectadores dar pateadas aos

Actores maos, e atirar-lhes com laranjas, e

maçaãs. Eu naõ quero tanta liberd.e porem

de nenhuma sorte posso approvar o constran-

gimento, que no Porto se praticava.

 

Sei perfeitamente, que alguns dos Portuenses

querem defender a justiça, ou ao menos a ne-

cessidade do systema, que reprovo. Dizem que

nessa Cidade seria impossível conservar-se hum

theatro, se o deixarem inteiramente à discriçaõ

do publico; que na Caza da Opera apparecia

muito pouca gente, alem dos assinantes,

e que ainda muitos d’estes, naõ obstante pa-

garem os lugares por anno, naõ assistiaõ a

huma sò representaçaõ.

 

Mas estas razoens naõ me convencem. O

Porto he huma Cidade muito populosa, os seus

moradores correm facilmente aos divertimentos

publicos; e se fogiaõ do theatro, naõ era porque

aborrecessem os espectaculos, era sim pela violen-

cia, com que assinavaõ, e pelo pouco merecimento

do que là havia que ver. Provo isto com a ex-

periencia. Vi representar ahi muitas peças,


que tiveraõ sempre hum concurso innume-

ravel. Nas noites de beneficio, em que havia

de ordinario mais variedade, e maior cuida

do em agradar, enchiaõ-se os Camarotes, e

a platêa. E qual era a razaõ d’isto? 

Nenhuma outra mais do que achar o povo

divertimento n’essas occasioens, e naõ o a-

char nas Operas, e Comedias, que ordinariam.te

se representavaõ.

 

Haja pois no theatro hum Director, ou Im-

presario de juiso, que saiba conhecer o gos-

to do publico, e lisongea-lo; esforcem-se os

Actores, trabalhem por agradar; conceda-se

huma liberdade raccionavel; desterrem-se as

acçoens despoticas; e eu lhe prometto que

o theatro se encha, que os espectadores se

interessem, e que os Comediantes ganhem

dinheiro.

 

Se depois de se praticar tudo isto, mostrar

ainda assim a experiencia que o theatro se

naõ pode sustentar sem essa violenta pro-

tecçaõ; (o que me parece impossivel) eu

diria entaõ que he melhor naõ haver no

Porto tal divertimento, do que ser sustentado

pela força e pelo constrangimento. Por-


que naõ sei que pessoa alguma tenha o

direito de pôr hum tributo ao povo pa-

ra sustentar huma tropa de Comediantes, de

que elle naõ gosta. Alem do que, se os es-

pectaculos do Theatro naõ saõ de paixaõ

dos seus patricios, o mais a que os poderàõ

obrigar he a que paguem, mas naõ a que

frequentem: e por consequencia semelhan-

te theatro opprimiria o publico, naõ lhe cau-

saria utilidade alguma, e sò seria bom p.a os

Comicos, a quem naõ pezaria ganhar dinhei-

ro com pouco trabalho. Naõ cesso pois de

insistir em que a liberdade deve ser a pri-

meira regra neste caso: por força ninguém

se instrue, nem se diverte.

 

Eis aqui, meu amigo, o que me lembra

dizer-lhe a respeito do restabelecimento do the-

atro d’essa Cidade. O Porto tem sujeitos

muito doutos, e prudentes, que discorreràõ so-

bre este ponto infinitamente melhor. Eu dis-

se-lhe ingenuamente o que sentia com aquella

lizura, e sem ceremonia, que pede a nossa a-

misade. Estimarei, que as minhas reflexo-

ens mereçaõ a sua approvaçaõ, pois sò

entaõ teraõ para mim algum valor. Deos
guarde a V.M.&.cª