Sumário
Parecer sobre peças de Manuel de Figueiredo, com licença para impressão de A Grifaria, A Mocidade de Sócrates, O Acredor, Os Censores do Teatro, As Irmãs, tradução de O Cid, de Corneille, e censura de Marido que Encenta o Queijo (28 de Abril de 1776)
Ano
1776
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, caixa 9, nº 24
Comentário
O despacho manda emendar apenas o título da obra Marido que enceta o queijo.
Menções
Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 282-373: 313; 317; 322; 332-333; 348-349

Foram-me distribuídas por esta Real Mesa, para a censura, quatro peças dramáticas com que Manuel de Figueiredo pretende continuar o seu teatro.
A primeira se intitula A Grifaria, epopeia cómica-dramática-heróica.

Toda a invenção desta obra está em imaginar uma fábula com maior naturalidade e verisimilhança dos passos, sucessos, conduta e carácter de todas as pessoas e comparsas que nela falam, as quais, preocupadas de um vaidoso entusiasmo de se conformarem com os arruinados costumes do século, conspiram contra a rigidez e severidade dos antigos, a que chamam Grifaria. Mas  ele descobre os meios de que se vale este novo costume, ou moda, que bem examinados vêm a ser a mais bem traçada invectiva contra a mal entendida e pretendida civilidade destes tempos, ridicularizando tudo que nela se costuma encontrar vicioso.

Mas como o carácter deste autor é falar sempre com modéstia e sem escândalo, e ele figura a cena no globo da lua e até nomeia os actores com uns nomes estranhos a toda a personalidade, e se esta pode suceder, que a haja na semelhança de alguns factos idênticos, a este mesmo fim se encaminha a moralidade. Finalmente, conclui o último canto, fazendo ver o efeito da mesma moralidade na heróica resolução com que a mesma dama, que fez o argumento contra a Grifaria, ela mesma se conspira contra os prejuízos do século e repreende a liberdade a que pretendiam conduzi-la.

É a segunda peça intituldada A Mocidade de Sócrates.
O seu argumento é dar uma ideia dos riscos e paixões da mocidade e, fortalecendo-a com estes exemplos de desengano e experiência, vai  a suprir


o que comummente falta na educação do homem novo, a quem os mesmos pais raras vezes dão bom exemplo, especialmentenaquela idade da loucura das paixões, quandoa natureza sai como desbocada dos castos limites da inocência.

A terceira é a comédia intitulada Acredor.
A fábula desta comédia é um retrato do que sucede na adversidade de um homem rico e depois quebrado, de cuja ruína se valem os mesmos devedores para se levantarem sobre a sua infelicidade, entre a qual não falta algum espírito de compaixão que se comova. Se bem que (como ele pinta) estes costumam ser ou tão grandes, que envergonham com a oferta, ou tão humildes, que não ficam os bons ofícios mais que em desejos. Só nesta comédia introduz o autor um criado com o carácter de  gracioso. Mas ele o desempenha, não com aquela pedantaria com que alguns tradutores os ingeriram nas óperas, adulterando-as com ridicularias estranhas ao argumentoda fábula, e acrescentando com injúria da nação, que compõem conforme o gosto do teatro português.

A quarta é uma tradução do Cid, de Corneille.

Este drama que, sendo entre os eruditos tão famoso para o seu autor como o Édipo para Sófocles, desafiou contudo a crítica de Scudéry e a conjuração literária de toda a Academia Real de Paris, autorizada não menos que pela pessoa do Cardeal Richelieu. Porém, ou por ser mais fácil melhorar o inventado, ou porque o advertido Figueiredo lhe examinou os lunares [sic], ele os soube evitar aperfeiçoando em tudo o original, especialmente  no cenário e na  indecência da bofetada que um fidalgo dera no


pai  do mesmo Cid. Mas, ainda assim, não pôde melhorar o repetido enfado com que a própria dama, amante de Cid e destinada para sua esposa, pedia ao Rei o mandasse justiçar.

Com este drama pretende também imprimir duas cartas que lhe servem de prólogo. Ambas estão, na verdade, muito eruditas e nelas se discorre nas belezas da poética e do teatro, com individual anatomia desta arte.

Foram-me também distribuídas outras três peças do mesmo autor, a saber:
A comédia intitulada Marido que enceta o queijo. Para declarar o argumento desta fábula, se vale Figueiredo da ficção que discorre em muitos países, para se explicar a raridade da satisfação da sua sorte entre os casados, supondo que no céu está um queijo para o partir aquele casado, que em sua vida se não arrepender de seu estado, e que por isso ainda não está por encetar. Mas querendo agora o autor dar uma ideia de um bom casado, fez esta fábula, não sei  se com muita felicidade para o desempenho do título, porque ele introduz um marido, pobre oficial tão esquecido de sua honrada mulher e família, que consome o tempo, a fazenda e a liberdade com a torpe correspondência de uma meretriz. A pobre mulher, ainda que prudente, se finge ignorante do seu mau estado e indigno procedimento, mas é com medo de que o dito marido a não espanque. Ora, é certo que semelhantes casados não poderiam levar a  vida muito conformes, quando para figurar


esta mútua paz do matrimónio não faltariam outros argumentos mais significantes. Contudo, em semelhante matéria tem toda a ciência e o cenário, especialmente em a noite que representa um alcaide em casa de licori, não se podia representar com mais decência, para não escandalizar os espectadores com o que supõe esta cena.

Outra comédia intitulada Os Censores do Teatro.

Neste drama confessa Figueiredo que, assim como para a composição do seu Dramático Afinado se valeu do material que com os seus reparos lhe ministraram os críticos, assim também no presente drama não entra com mais cabedal que a disposição da fábula. Mas está ela com tanta argúcia ideada, que não sei  que se possa achar original de uma invectiva tão prudente, tão erudita e tão enérgica contra os pseudo-críticos de algum autor. Quem chegar a examiná-la com reflexão, há-de conformar-se com este meu sentimento.

Enfim, ele agradecido aos inteligentes das belezas do bom poema, e irritado da displicência com que o povo olha para as suas composições, faz pôr em acção e figurar na cena as insiginificantes críticas que lhe formavam, e assim os ridiculariza, aludindo ao lema que serve de alma a toda a empresa, e diz: "Felizes seriam as artes se delas se não metessem a julgar mais que os professores."

A última é a tragédia intitulada As Irmãs.

Sabe muito  bem Figueiredo que a agnição costuma ser, na arte poética, um dos mais nobres


incidentes, que pode fazer mais patético o poema trágico, e sendo tão raros os assuntos que na nossa história se podem escolher para semelhantes composições, não se esqueceu o nosso autor de achar os três mais significantes que na mesma história se encontram para excitar os três afectos da tragédia nos corações dos espectadores, quais são a fábula da sua Ósmia, para excitar o horror; a castástrofe da Senhora  Inês de Castro, para mover a piedade; e a presente tragédia das Irmãs, para provocar o terror. Ele desempenha o carácter da rainha D. Leonor Teles debaixo de uma política tão astuciosa, que não é outra hipocrisia da sua razão de Estado, com que as nossas histórias nos descrevem o dominante despostismo com que prevalecia sobre o coração do monarca seu marido. Valendo-se da sua viva astúcia para fazer atribuir a sua fraqueza à inocente e virtuosa irmã, até conduzi-la ao ódio do infante D. João, seu oculto marido, e a fazer  vítima da sua inconsiderada preocupação.

Finalmente,todas estas obras poéticas de Figueiredo, os discursos que lhe servem  de prólogo, são dignas de um singular apreço e nesta parte farão o crédito da Nação, e até o vulgo, quando menos preocupado, lhe fará esta justiça.

E como nada contém que se oponha aos dogmas da religião, bons costumes, regalias do Estado e leis de Sua Majestade, sou de parecer se lhe conceda a licença que pede.

Conforma-se a Mesa, exceptuando a comédia intitulada Marido que enceta o queijo


que  fica reservada para se emendar.
Lisboa, em Conferência de 28 de Abril de 1776.

António de Santa Marta Lobo da Cunha
Frei José da Rocha
Frei Luís de Santa Clara Póvoa

 

Image 1436
Image 1437
Image 1438
Image 1439
Image 1441
Image 1442

 

Foram-me destribuidas por esta Real Meza p.ª a Cen-

sura quatro Pessas Drammaticas com que M.el

de Figueiredo pertende continuar o seo Theatro.

A 1.ª se intitula a Grifaria Epopeya Comi-

ca Drammatica Heroica.

Toda a invensão desta Obra está em imaginar huma

Fabula com maior naturalid.e e Verissimilhança

dos passos, sucessos, conducta, e carather de todas as

Pessoas, e Comparssas, que nella falam: As quais pre-

ocupadas de hum vaidozo enthusiasmo de se conforma-

rem com os arruinados costumes do seculo, conspiram

contra a regidez, e severidade dos antigos, a que chamam

Grifaria. Mas  elle descobre os meios de que se valle

este novo costume, ou moda, que bem examinados vem

a ser a mais bem traçada invectiva contra a mal en-

tendida, e pertendida Civilidade destes tempos, redi-

culisando tudo, q’ nella se costuma encontrar vicioso.

            Mas como o carather deste A. he falar sempre

com modestia, e sem escandalo; e elle figura a scena

no globo da Lua e ate nomea os Acthores com huns

nomes estranhos a toda a Personalidade; e se esta pode

soceder, que a haja na similhança de alguns factos iden-

ticos, a este mesmo fim se encaminha a moralidade.

Finalm.te conclue o ultimo Canto fazendo ver o effeito

da mesma moralidade na heroica resolução com q’ a

mesma Dama, q’ fez o argumento contra a Grifaria, ella

mesma se conspira contra os perjuizos do seculo, e repre-

hende a liberdade a que pertendiam conduzila.

He a 2.ª Pessa intituldada A Mocidade de Socrates.

O seu argumento he dar uma ideia dos riscos e pai-

choes da mocidade; e fortalecendo-a com estes exem-

plos de desengano, e experiencia, vai a suprir

                                                              o que


Supprir o que comumente falta na educação do homem

novo; a quem os mesmos Paes raras vezes dão bom

exemplo, especialm.te naquella idade, da loucura  das

paichões, q.do a natureza sae como desbocada dos cas-

tos limites da inocencia.

A 3.ª he a comedia intitulada – O Acredor: A Fabu-

la desta Comedia he hum retrato do que socede na

adversidade de hum Homem rico, e depois quebrado, de

Cuja ruina se valem os mesmos devedores p.ª se levan-

tarem sobre a sua infelicidade; entre a qual não

falta algum espirito de compaichão, q’ se comova:

Se bem (q’ como elle pinta) estes costumam ser, ou

tão grandes, q’ envergonham com a offerta, ou tão hu-

mildes, q’ não ficam os bons officios mais q’ em dezejos.

Só nesta Comedia introduz o A. hum creado com

o carather de  grasiozo: Mas elle o dezempenha, não

com aquella pedantaria com q’ alguns Traductores

os ingeriram nas Óperas, adulterando-as com ridicula-

rias estranhas ao Argum.to da Fabula; e acressentan-

do com injuria da Nação: q’ compoem conforme o

gosto do Theatro Portuguez.

A 4.ª he huma Traducção do Cid de Corneille:

Este Dramma, q’ sendo entre os eruditos tão fa-

moso p.ª o seo A., como o Edipo p.ª Sofocles, de-

safiou com tudo a Critica de Scudery, e a Conjuração

Litteraria de toda a Academia Real de Pariz, auctori-

zada não menos, que pella Pessoa do Cardeal Rechelieu.

Porem, ou por ser mais facil milhorar o inventado,

ou porque o advertido Figueiredo lhe examinou os

lunares, elle os soube evitar aperfeiçoando em

tudo o original, especialm.te  no scenario, e na

indecencia da bofetada q’ hum Fidalgo dera no


no Pai  do mesmo Cid: mas ainda assim não poude

milhorar o repetido enfado com que a propria

Dama amante de Cid, e destinada p.ª sua Espoza,

pedia ao Rei o mandasse justissar.

Com este Dramma pertende tambem empremir

duas Cartas, que lhe servem de prologo: ambas estão

na verdade m.to eruditas e nellas se discorre nas bel-

lezas da Poetica, e do theatro, com individual anatomia

desta Arte.

Foram-me tambem destribuidas outras tres Pes-

sas do mesmo Author: A Saber

A Comedia intitulada – Marido, q’ enseta o queijo – :

Para declarar o argumento desta Fabula se valle

Figueiredo da Ficção, que dizcorre em m.tos Paizes

p.ª se explicar a raridade da satisfação da sua

sorte entre os Cazados: suppondo, que no Ceo está

hum queijo p.ª o partir aquelle cazado, que em sua

vida se não arrepender de seo estado; e que por isso

ainda está por ensetar. Mas querendo agora

o A. dar huma idea de hum bom Cazado fez

esta fabula, não sei,  se com m.ta felicid.e, p.ª o dezem-

penho do tittolo. Porque elle introduz hum

Marido pobre official tão esquecido de sua hon-

rada Molher, e familia, que consome o tempo, a

fazenda e a liberdade com a torpe corresponden-

cia de huma Meretriz: a pobre Molher ainda que

prudente, se finge ignorante do seo máo estado

e indigno procedimento, mas he com medo de que

o d.º Marido a não espanque. Ora he certo que

similhantes cazados não poderiam levar a

vida m.to conformes: Quando p.ª figurar esta


esta mutua paz do matrimonio não faltariam

outros argumentos mais significantes. Com tudo

em similhante materia tem toda a sciencia, e

o scenario especialm.te em a noute, q’ reprezenta hum

Alcaide em Casa de Licori, não se podia reprezen-

tar com mais decencia, p.ª não escandalizar os especta-

dores com o que soppoem esta scena.

Outra Comedia intitulada: Os Censores do Theatro:

Neste Dramma confessa Figueiredo, q’ assim como

p.ª a composição do seo Drammatico afinado

se valeo do matireal que com os seos repáros lhe

ministraram os Criticos, assim tambem no pre-

zente dramma não entra com mais cabedal, que

a dispozição da Fabula: Mas está ella com tanta

argucia ideada, q’ não sei, q’ se possa achar origi-

nal de huma invectiva tão prudente, tão erudita

e tão energica contra os Pseudocriticos de algum

Author. Quem chegar a examinalla com reflexão

 hade conformarse com este meo sentimento.

Enfim elle agradecido aos intelligentes das bel-

lezas do bom Poema, e irritado da displicencia com

que o Povo olha p.ª as suas compozições, faz por em

Acção, e figurar na Scena as insiginificantes Cri

ticas, q’ lhe formavam, e assim os ridiculisa, aludin-

do ao Lema, q’ serve d’alma a toda a empreza, e

diz – Felices seriam as Artes, se dellas se não me-

tessem a julgar mais que os Professores –.

A ultima he a tragedia entitulada – As Irmans

Sabe m.to  bem Figueiredo, q.’ a Agnição costuma

ser na arte poetica hum dos mais nobres In-


Incidentes, q’ pode fazer mais patetico o Poema

Tragico: e sendo tão raros os assumptos, q’ na nossa

historia se podem escolher p.ª similhantes com-

posições, não se esqueceo o nosso Author de achar

os tres mais significantes, q’ na mesma historia

se encontram p.ª excitar os tres affectos da Tra-

gedia nos corações dos Espectadores; quais são: A

Fabula da sua Ósmia p.ª excitar o horror: A Catas-

trophe da S.ra D.Ignez de Castro p.ª mover a piedade:

e a prezente tragedia das Irmans p.ª provocar o

Terror. Elle dezempenha o Carather da Rainha

D. Leonor Telles debaicho de huma politica tão astu-

Cioza, q’ não he outra hipocrezia da sua razão de

Estado, com q’ as nossas historias nos descrevem o

domminante dispotismo com que privalecia sobre

o coração do Monarca seu Marido: Valendose da

sua viva astucia p.ª fazer atribuir a sua fraqueza

á inocente e virtuoza Irmam, até conduzilla ao

Odio do Infante D. João seo oculto marido; e a fa-

zer  victima da sua inconciderada preocupação.

Finalm.te todas estas obras poeticas de Figueiredo

e os discursos, que lhes servem  de Prologo são dignas

de hum singular apresso, e nesta parte farão o cre-

dito da Nação; e até o Vulgo, q.do estiver menos preo-

cupado lhe fará esta justiça.

E como nada contem q’ se opponha aos dogmas da Re-

Ligião, bons costumes, Regalias do Estado e Leis de S. Mag.e

Sou de paresser se lhe conceda a Licença q’ pede.

Conformouse a Meza exceptuando a Comedia

intitulada – Marido que enseta o queijo –


que  fica rezervada p.ª se emendar. Lx.ª

em Conferencia de 28 de Abril de 1776.

           Antonio S.ta M.ta Lobo da Cunha

Fr. José da Rocha

Fr. Luiz de S.ta Clara Povoa