- Sumário
- Parecer negativo sobre o entremez O Estudante Macaco (4 de Fevereiro de 1771)
- Ano
- 1771
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 7, nº 7
- Comentário
- O requerimento para obtenção de licença de impressão do entremez, com despacho para o censor, encontra-se na caixa 19, nº 95. O registo de entrada do entremez, com descarga de volta, consta do Livro 11, f. 147v. O registo do despacho, com respectivo registo do regresso, consta do Livro 4, f. 260. O manuscrito que acompanhou o requerimento encontra-se na Caixa 290, nº 1633
- Menções
- Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 256-258: 256
O entremez, que tem por título O Estudante Macaco, é por todos os princípios indigno de se imprimir e ainda de se representar, porque além de insulso e inverosímil, é escandaloso e blasfemo. O assunto é uma mulher casada que às escondidas do marido tratava com um estudante, e sucedendo bater o marido à porta, quando os dois amantes estavam desfrutando o divertimento a que o mesmo marido dera ocasião com a sua ausência, o estudante, por conselho da amiga, se finge santo, e pondo-se em cima de uma banca como em altar, dali fala à sua devota , dali a abraça, dali lhe promete o seu favor contra o marido. E ela, em correspondência, se oferece ao fingido santo, para tudo o que for do seu gosto, dizendo entre outras orações a seguinte:
Meu peito para descanso,
E o meu corpo para altar
Vos dedico, Santo meu. Não é necessária maior reflexão para se conhecer a petulância do autor do entremez e a leveza de quem pediu licença, para ele se
imprimir. Lisboa, 4 de Fevereiro de 1771.
António Pereira de Figueiredo Frei Joaquim de Santa Ana e Silva Frei João Baptista de São Caetano
O Entremez que tem por ti-
tulo, O Estudante Macaco, he por
todos os principios indigno de se
imprimir, e ainda de se representar.
Porque àlém de insulso e inverosimel
he escandalozo e blasfemo. O assumpto
he húa mulher cazada, que ás escondi-
das do marido tratava com hún Estu-
dante: e sucedendo bater o marido
á porta, quando os dous amantes
estavão desfrutando o divertimento,
a que o mesmo marido dera occasião
com a sua auzencia: o Estudante por
conselho da amiga se finge Santo,
e pondose em cima de húa Banca
como em Altar, dalli falla á sua
devota , dalli a abraça, dalli lhe pro-
mete o seu favor contra o marido:
e ella em correspondencia se offere-
ce ao fingido santo, para tudo o
que for do seu gosto, dizendo entre
outras orações a seguinte:
Meo peito para descanso,
E o meo corpo para altar
Vos dedico, Santo meo.
Não he necessaria maior reflexão,
para se conhecer a petulancia do Au-
thor do Entremez, e a leveza de
quem pedio licença p.ª elle se im-
primir. Lisboa 4 de Fevr.º de 1771.
Antonio Per.ª de Fig.do
Fr. Joaquim de S.ta Anna e S.ª
Fr. João Bap.ta de S. Caet.º