- Sumário
- Parecer negativo sobre a tradução da ópera Linceu e Hipermestra, de Metastásio (1 de Agosto de 1769)
- Ano
- 1769
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 5, nº 98 - 1
- Comentário
- Veja-se o registo de entrada desta ópera com descarga de volta.
- Menções
- Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 247-250: 248-249
A ópera intitulada Linceu e Hipermestra, que se diz traduzida em português do original italiano de Metastásio, é indigna de se imprimir pelos grandes absurdos e frioleiras que contém e que eu julgo foram todas forjadas no corrupto cérebro do tradutor. Que mais absurdo que formar dos passos da Escritura e dos dogmas mais sagrados da nossa religião, as insulsas graciosidades de Murteiro e Escopeta? Como na página 13: "Não sei já quando deste incêndio apurado terei a glória de ver aquela semideusa La Cayal, que aparecendo-me nesta terra, me pareceu coisa vinda do céu. Queira Plutão que à pena do sentido se não diga a pena do dano, pois já que morro com a culpa de adorá-la, não quero ser condenado a não vê-la". E na página 27: "Senhora, fujamos com o Senhor Linceu para o seu Reino do Egipto, antes que este Herodes dê cabo dos inocentes que restam." E na página 62: "Olha, morre comigo e iremos muito anjinhos ao céu". Que coisa mais insulsa, que os seguintes equívocos que se vêm na página 81:
"Olha, Escopeta, deixa-te de consultas, que para mim não há justiça, porque se a venho buscar ao Desembargo do Paço, tu a cada passo me estás embargando; se a busco na mesa da tua consciência, tu sem consciência me deixas em jejuns da minha ventura". Que direi das impropriedades que se encontram nesta tradução? Como na página 18: "Não é heroicidade esperar o golpe, podendo dirimir o estrago". E na página 55: "Não descansa a ira no peito odioso. Não vale o reduzir a soberba ao moderado da prudência para ver tranquilo o meu inquieto espírito. Mas como? Se um cruel faz simpatia, como o desassossego a operação da iniquidade".
Por todos os títulos, pois, julgo esta tradução indigna de sair à luz.
Lisboa, 1 de Agosto de 1769
Frei Inácio de São Caetano
António Pereira de Figueiredo
Frei Luís do Monte Carmelo
A Opera intitulada, Linceo e Iper-
Mestra, que se diz traduzida em Por-
tuguez do Original Italiano de Me-
tastasio hé indigna de se imprimir,
pelos grandes absurdos e frioleiras
que contem, e que eu julgo forão
todas forjadas no corrupto cerebro
do Tradutor. Que mais absurdo,
que formar dos Passos da Escritura
e dos Dogmas mais sagrados da
nossa Religiaó, as insulsas gracioci-
dades de Murteiro e Escopeta? Como
na pag. 13. Naó sei ja quando
deste incendio apurado terei a gloria
de ver aquella Semideosa La Cayal,
que aparecendome nesta terra me pa-
receo cousa vinda do Ceo. Queira
Plutaó, que à pena do sentido se
naó diga a pena do danno;
pois já que morro com a Culpa
de adoralla, naó quero ser conde-
nado a naó vella. E na pah. 27.
Senhora, fujamos com o S.r Linceo
para o seo Reino do Egypto, antes
que este Herodes dè cabo dos in-
nocentes que restaó. E na pág. 62.
Olha, morre comigo, e hiremos
Muito anginhos ao Ceo. Que coisa
Mais insulsa, que os seguintes
Equivocos, que se vem na pag. 81
Olha Escopeta, deixate de consultas, que
para mim naó ha justiça: porque se
a venho buscar ao Dezembargo do Paço,
tu a cada passo me estas embargando;
se a busco na meza da tua consciencia,
tu sem consciencia me deixas em
jejuns da minha ventura. Que direi
das impropriedades que se encontráo nesta
Traducçaó? Como na pag. 18. Naó he
heroicidade esperar o golpe, podendo
dirimir o estrago. E na pag. 55. Naó
descansa a ira no peito odioso. Naó
valle o reduzir a soberba ao mode-
rado da prudencia, para ver tranquillo
o meo inquieto espirito. Mas como?
Se hum cruel faz simpatia, como
O dezasocego a operação da iniquidade.
Por todos os titulos
pois julgo esta traducçaó indigna
de sahir a luz. Lisboa, 1 de
Agosto de 1769.
Fr. Ignacio de S. Caet.º
Antonio Per.ª de Fig.do
Fr. Luiz do Monte Carmelo.