- Sumário
- Parecer favorável sobre a comédia O Poeta Refinado, censurada em cinco versos (20 de Junho de 1774)
- Ano
- 1774
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 8, nº 10
- Comentário
- O autor da comédia examinada é Manuel de Figueiredo.
- Menções
- Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 294-296
A comédia intitulada O Poeta Refinado é obra do mesmo autor de outra que já se aprovou nesta Real Mesa, e tem por título Os Perigos da Educação, e persuadido e informado o mesmo poeta que esta fora representada pelos cómicos do Teatro do Bairro Alto, e ouvida com menos bom sucesso do que pedia e se esperava do merecimento da dita comédia, ideou na que apresenta uma inocente crítica e tão engenhosa, que ela é uma constante apologia do bom gosto, génio e novidade, com que desempenha o carácter de semelhantes composições.
Pois confessando-se ele cúmplice de alguns insignificantes defeitos que lhe apontaram, faz ao mesmo tempo ver que toda esta impostura é nascida do mau gosto e prejuízos em que o vulgo do auditório tem reposto o teatro português, negando-lhe aquele decoro em que ele se podia conciliar com a doutrina dos padres, e ser uma viva escola da observância das leis e bons costumes.
Mas ainda quando procura esta justa defesa, ele soube propor um arbítrio dentro todo dos limites da modéstia, qual foi a fábula que ideou para formar toda a indivisível acção deste presente drama, em que os mesmos cómicos que representaram a comédia criticada e alguns inspectores que lhe assistiram, lhe vêm pôr em rosto os defeitos que lhe impuseram, e o desgosto de se reputar como
caída aquela estimável peça de teatro. Ele se reveste de um entusiasmo poético que o reduz a um frenesi de desconsolação, e que o obriga, já a desmaiar-se, já a enloquecer, já a arrebatar-se, e nesta variedade de transportes é que umas vezes se lisonjeia de que a mesma infelicidade de serem mal entendidos sucedera a muitos dramas dos melhores poetas, outras vezes invicta a posteridade para dar valor a semelhante peça de teatro, e outras se resigna e espera que as brilhantes primícias com que na mocidade portuguesa vai nascendo a luz de melhores estudos no presente século, venham depois a pôr em retirada os prejuízos que agora embaraçam este verdadeiro conhecimento do que deve ser o teatro.
Por esta razão se chama O Poeta Refinado, tanto para se justificar que a comédia que novamente compõe é porque o provocam, como para evitar qualquer suspeita de sátira, pois ainda quanto diz em sua defesa são expressões de uma imaginativa que ele supõe arruinada, pela preocupação do desgosto de ver caída a sua comédia.
Enquanto ao artifício que observa na composição desta é o mesmo e com a mesma inimitável felicidade que já observei nas outras deste autor. A fábula é uma acção natural, verosímil, própria do carácter da comédia. A sua unidade ainda nos episódios é tão conexa e indivisível, que parece raro, como em uma só cena fixa e única se possa introduzir tanta variedade de interlocutores sem confusão e aí
fabricarem toda invenção do drama.
Tem a singularidade de saber entreter os inspectores judiciosos sem as bagatelas, e chacorrices dos graciosos, e de saber abster-se das lânguidas práticas de amores e seus perigosos lances e afectos, e, o que é mais, a nobreza e arte com que sustenta o carácter de qualquer personagem dos seus dramas. E, finalmente, a naturalidade com que além da pureza e cadência do verso, usa de uns sentidos suspensos e períodos partidos, mas de tal sorte eles vão buscar o seu nexo e final sentido, que falam os interlocutores ao mesmo tempo sem confusão, cada qual conclui o seu pensamento, e fica sempre salva a harmonia e medida do verso. E será ele, na verdade, capaz de restaurar o bom gosto do teatro português como o grande Corneille, o de França, no tempo de Luís, o Grande.
Porém, como o mesmo poeta confessa que abomina qualquer aparência de sátira, faço reparo na passagem em que ele, procurando por um ouvinte da comédia criticada, diz assim:
Não viram lá Carunfio? Esse lapónio
Que chegou há seis meses, não conhecem?
Pois entende-se...É grande Rábula
Tentado cós teatros; muito gordo
Mui alto, mui vermelho, espadaúdo...etc.
E como ainda que encobre o nome lhe faz esta pintura, poderá ser que haja sujeito que se proporcione e a quem acomodem esta semelhança e se julgue por sátira, razão porque sou de parecer se risquem estes cinco versos.
E foram do mesmo parecer os deputados adjuntos.
Mesa, 20 de Junho de 1774
António de Santa Marta Lobo da Cunha
Frei José da Rocha
Frei Luís do Monte Carmelo
A Comedia intitulada O Poeta Refinado hé
obra do mesmo Auctor de outra, q’ já se appro-
vou nesta Real Meza, e tem por titt.º Os Perigos
da Educação: e persuadido, e informado o mesmo
Poeta, que esta fora reprezentada pelos Comicos do
Teatro do Bairro Alto, e ouvida com menos bom soces-
so do que pedia, e se esperava do merecim.to da d.ª
Comedia, ideou na q’ aprezenta, huma inocente
Critica; e tam engenhoza, que ella he huma constante
Apologia do bom gosto, genio, e novid.e, com q’ dezempe-
nha o Carather de Similhantes Compozições.
Pois confessando-se elle cumplice de alguns in-
significantes deffeytos, q’ lhe apontaram, faz ao mes-
mo tempo ver, que toda esta impostura he nacida do
máo gosto, e prejuizos, em que o Vulgo do Auditorio
tem reposto o Teatro Portuguez; negandolhe aquelle
decoro, em que elle se podia conciliar com a doutrina
dos Padres, e ser huma viva escola da observan-
cia das Leis, e bons Costumes.
Mas ainda, qd.º procura esta justa defeza,
elle soube propor hum arbitrio dentro todo dos li-
mites da modestia; qual foy a Fabula, que ideou p.ª
formar toda a indivizivel Acçáo deste prezente drag-
ma: em que os mesmos comicos, que reprezentaram
a Comedia Criticada, e alguns Inspectores q’ lhe
assistiram lhe vem por em rosto os deffeytos que
lhe impozeram, e o disgosto de se reputar como ca
Cahida aquella estimavel Pessa de teatro; elle se reveste
de hum antoziasmo poetico, q’ o ruduz a hum frenezi de
desconçolação, e q’ o obriga, já a desmayarse, já a enloquesser
já a arrebatarse, e nesta varied.e de transportes, he q’
humas vezes se lizongea de que a mesma infelecid.e de se-
rem mal entendidos socedera a m.tos Dragmas
dos milhores Poetas: outras vezes invicta a Postered.e
p.ª dar valor a similhante Pessa de teatro; e outras
se rezigna, e espera, que as brilhantes primicias com
que na mocidade Portugueza vay nacendo a Luz
de milhores estudos, no prezente Seculo, venhão depois
a por em retirada os prejuizos, q’ agora embarassão este
verd.º conhecimento do que deve ser o Theatro.
Por esta razão se chama - o Poeta refinado - : tan
to p.ª se justificar, q’ a comedia q’ novam.te compoem he
porq’ o provocam; como p.ª evitar qualquer suspeyta
de Satira; pois ainda q.to diz em sua defeza são ex-
preções de uma imaginativa, q’ elle suppoem arrui-
nada, pela preocupação do disgosto de ver cahida a
sua Comedia.
Em q.to ao artificio, q’ observa na
Compozição desta, he o mesmo, e com a mesma inemitavel
filicid.e que já observei nas outras deste Autor. A Fabu-
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la he huma Acção natural, propria, verossimel do
Carather da Comedia: a sua Unidade, ainda nos epi-
zodios he tão conexa, e indivizivel, q’ paresse raro, como
em huma só Scena fixa, e unica se possa introduzir tan-
ta Varied.e de Interlocutores sem confuzão; e ahi fabrica-
fabricarem toda invenção do dragma.
Tem a singularid.e de saber intreter os Inspectores
judiciozos sem as bagatellas, e chacorrisses dos Graciozos;
e de saber absterse das Languidas praticas de amores, e
seos perigozos Lances, e affectos. E o q’ he mais a nobreza
e arte com que sustenta o Carather de qualquer Personagem
dos seos Dragmas: e finalm.te a naturalid.e com q’ alem
da pureza, e Cadencia do Verso, uza de huns sentidos
suspensos, e periodos partidos, mas de tal sorte elles
vam buscar o seo nexo, e final sentido, q’ falam os
Interlocutores ao mesmo tempo sem confuzão, cada
qual conclue o seu pensam.to; e fica sempre salva a
armonia, e medida do Verso: e será elle na verdade
capaz de restaurar o bom gosto do Teatro Portuguez
como o grande Corneille o de Franca no tempo de Luiz o
grande.
Porem como o mesmo Poeta confeça que
abomina qualquer aparencia de Satira, fasso reparo
na paçage, em q’ elle procurando por hum ouvinte da
Comedia Criticada diz assim -
Naó viram lá Carunfio? esse Laponio
Que chegou há seis mezes, não conhessem?
Pois entende-se...Hé grande Rábula
Tentado cós teatros; m.to gordo
Mui alto, mui vermelho, espadaudo...&.ª
E como ainda que encobre o nome lhe faz esta píntura,
poderá ser que haja sogeito, q’ se proporcione, e a q.m
acomodem esta similhança, e se julgue por Satira:
razão porq sou de paresser se risquem estes sinco versos.
e foram do mesmo paresser os Deputados adjuntos.
Meza 20 de Junho de 1774.
Antonio S.ta M.ta Lobo da Cunha
Fr. Jozé da Rocha Fr. Luiz de Monte Carm.º