- Sumário
- Parecer favorável para impressão de duas tragédias de de Voltaire e das tragédias Pedro Grande e O tambor nocturno; O Romance de Cavalaria, de Mayer, e A Aspasia, e parecer desfavorável para a impressão da obra Les avantures des plus jolies femmes de l'age present (10 de Julho de 1788)
- Ano
- 1788
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 14, nº 38
Senhora,
Examinei quarenta comédias de vários autores franceses e com diversos títulos, que me foram distribuídas. À excepção de duas tragédias de Voltaire, em que tudo é bom e heróico; a tragédia de Pedro Grande; outra, chamada O tambor nocturno, que imita o poema de Homero, ou Ulisseia, posto que muito desfigurado; todas as mais bem mostram quanto se vai a estragar o gosto na França, na vulgaridade destas composições modernas e, não obstante dizerem que se representaram nos teatros públicos e reais, apenas tem de bom em algumas pintarem o carácter das figuras. Mas como são vícios comuns, sim os pintam, mas não os reformam. Contudo, não lhe achei coisa contra os costumes, religião e Estado. E assim, sou de parecer que corram, para que vejam os escrupulosos e murmuradores das nossas composições deste género, que não só em Portugal se imprimem frioleiras. Os dois volumes, que se intitulam Teatro de Companhia, contêm algumas peças dramáticas, em que os seus autores se empenham em pintar ao vivo pequenas acções, se bem que pouco interessantes; as pinturas têm seu merecimento, pouca moralidade e menos invenção. Mas as tragédias de Voltaire, que neles se acham, nada têm que se despreze. Pode permitir-se a sua lição.
O Romance de Cavalaria ou Le damoisel sans nom, por Monsieur Mayer: o seu herói é um cavalheiro, que a sua principal empresa é vingar a morte de seu pai e sucede ser o matador o mesmo pai da sua dama; tem sua variedade de lances, mas despido daquele sabor que se faz preciso a semelhantes obras para não serem fastidiosas, mas em nada ofende a sua lição.
A Aspasia é outro romance francês em dois volumes, traduzido de inglês, que talvez no original tenha mais algum merecimento, porque propõe muitas acções abomináveis para ensinar o leitor a fugir do mau, assim como muitas virtuosas para se abraçar o bem, nos diversos lances da vida. O enredo é bom, mas na tradução se acha a falta de conexão na diversidade dos sucessos que narra e só reina o brilhante falso de uma frase afectada, prova do mau gosto que se vai introduzindo nestes copistas; não instrui, mas não ofende sua leitura e se pode permitir.
Os dois tomos que contêm — Les avantures des plus jolies femmes de l’age present — estão escritos no mesmo ou pior gosto e afectação de frase. Este defeito é quase já vulgar nestas composições de novelas, em que os autores só se empenham em pintar algumas cenas do natural, mas sem doutrina nem moralidade,
tudo apóstrofes, tudo reticências, etc., e o pior é que muitos destas são provocativas à sensualidade, por mais que se pretenda afectar o amor natural e honesto, na familiaridade dos dois sexos. Sou de parecer que seja proibida a lição destes dois volumes. Foram do mesmo parecer os deputados adjuntos.
Lisboa, Conferência de 10 de Julho de 1788
António de Santa Marta Lobo da Cunha
Frei Luís de Santa Clara Póvoa
Pascoal José de Melo
Snra
Examinei quarenta comedias de Varios Authores Fran-
cezes, e com diversos Titulos, q me foráo destribuidas: á
excepçáo de duas Tragedias de Volter, em q tudo he
bom, e heroico: a Tragedia de Pedro Grande: outra cha-
mada o Tambor Nocturno q imita o Poema de Home-
ro, ou Ulicea, posto q m.to disfigurado, todas as mais
bem mostráo quanto se vai a estragar o gosto na Fran-
ca na vulgarid.e destas compoziçóes modernas: e não ons-
tante dizerem, q se reprezentaráo nos Teatros publicos
e Reais, apenas tem de bom em algumas pintarem
o carather das Fguras: mas como sáo vicios comuns,
sim os pintáo mas náo os reformáo. Com tudo náo
lhe achei couza contra os costumes, Religiáo, e Estado; e
assim sou de parecer, q corráo, p.ª que vejáo os escrupulo-
zos, e murmuradores das nossas compoziçóes deste gene
ro, q náo só em Portugal se imprimem frioleiras.
Os dous volumes q se intituláo: Teatro de Companhia:
contem algumas Pessas Dragmaticas, em q os seus Autho-
res se empenháo em pintar ao vivo pequenas Acçóes,
se bem que pouco interessantes: as pinturas tem seu
merecim.to, pouca moralid.e e menos invençáo: Mas
as Tragedias de Volter, que nelles se acháo nada tem
q se despreze. Pode permetirse a sua Liçáo.
O Romance de Cavalaria: ou Le Dmaoisel sans Nom
por M.r Mayer. o seu Heroe he hum Cavalheiro q a sua
principal empreza he vingar a morte de ser Pai, e
socede ser o matador o mesmo Pai da sua Dama: tem
sua varied.e de Lances, mas despido daquelle sabor, que
se faz precizo a similhantes obras, p.ª não serem fastidi-
ozas: mas em nada offende a sua Liçáo.
A Aspacia he outro Romance Francez em dous volumes
traduzido de Ingles que talves no Original tenha mais
algum merecim.to: porq propoem m.tas acçóes abomina-
vens, p.ª ensinar o Leitor a fogir do máo, assim como
m.tas virtuozas p.ª se abraçar o bem, nos diverços Lan-
ces da vida: o enredo he bom, mas na traduçáo, se
acha a falta de coneçáo na diversid.e dos socessos que narra,
e só reina o brilhante falço de huma
fraze affectada, prova do máo gosto, q se vai introduzin-
do nestes copistas: não instrue, mas não offende, sua
Leitura, e se pode permitir.
Os dous tomos, q contem = Les avantures des plus jolies
Femmes de L’age present = estão escriptos no mesmo, ou
pior gosto, e affectaçáo de fraze: este deffeito he quazi
já vulgar nestas compoziçóes de Novellas, em q os Au-
thores só se empenháo em pintar algumas Scenas
do natural mas sem doutrina nem moralidade;
tudo apostrofes, tudo reticencias, &.ª e o pior hé q m.tos destas
sáo provocativas á sensualid.e: por mais, q se perten-
da affectar o amor natural e honesto, na famaliarid.e
dos dous sexos. Sou de parecer, q seja prohibida a Li-
çáo destes dous volumes. forão do mesmo parecer os
Deputados adjuntos. Lx.ª Conferencia de des de Ju-
lho de 1788.
Antonio de S.ta M.ta Lobo da Cunha
Fr. Luiz de S.ta Clara Povoa
Pascoal Joze de Mello