- Sumário
- Parecer favorável para impressão da tradução da tragicomédia O pastor fiel (26 de Maio de 1788)
- Ano
- 1788
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 14, nº 34
Senhora,
Pretende Tomé Joaquim Gonzaga imprimir a tradução que fez da tragicomédia italiana, do Cavalheiro Guarini, intitulada O pastor fiel. Esta obra, que no seu original se pode avaliar por uma das mais agradáveis, brilhantes e poéticas na ordem pastoril, não deixou, contudo, de ter seu encontro, por isso mesmo que a beleza das expressões amorosas se fazem as mais sensíveis e tocantes nos corações feridos de semelhantes paixões. E muito mais pela força de entusiasmo com que Guarini, na cena 4ª, introduz a Amarilli como blasfemando de santa lei, que nos proíbe o irmos como qualquer bruto em desafogo das nossas paixões, quando assim nos instiga a natureza. Mas o tradutor salva este ardor poético, explicando que a barbaridade da lei, de que fala Guarini, é a lei da Arcádia, que destinava para esposos duas almas, que ambas fugiam e aborreciam o consórcio, porque conclui sujeitando as paixões da natureza à santa lei da honestidade. Em o resto das expressões, além de terem a unção e fogo da poesia, todas são modestas e purificadas ainda da lânguida ternura que pode ofender a delicada sensibilidade de algum leitor. E, por isso, a julgo digna da licença que pede. Assim pareceu à Mesa.
Conferência de 26 de Maio de 1788
António de Santa Marta Lobo da Cunha
Frei Luís de Santa Clara Póvoa
Pascoal José de Melo
Snra
Pertende Thome Joaquim Gonzaga impremir a Tradu-
çáo q fez da Tragicomedia Italiana do Cavalhr.º Guarini
intitulada O Pastor Fiel.
Esta obra que no seu original se pode avaliar por
huma das mais agradaveis, brilhantes, e poeticas na ordem Pas-
toril, náo deichou com tudo de ter seu encontro, por isso mesmo
que a beleza das expreçóes amorozas, se fazem as mais sensi-
veis, e tocantes nos coraçoes firidos de similhantes paichoés.
E m.to mais, pela forsa de enthusiasmo, com q Guarini na
Scena 4ª entruduz a Amarilli, como blasfemando de S.ta
Lei, q nos prohibe o hirmos como qualquer bruto em dezafogo
das nossas paixóes, q.do assim nos instiga a natureza.
Mas o Traductor salva este ardor Poetico, explicando
q a barbarid.e da Lei, de q falla Guarini, he a Lei da Arcadia
q destinava p.ª Espozos duas Almas q ambas fugiáo, e abor-
reciáo o Concorcio; porque conclue sogeitando as paixóes da
natureza á S.ta Lei da honestid.e Em o resto das expre-
ções, alem de terem a unçáo e fogo da poezia, todas sáo mo-
destas, e purificadas ainda da Languida ternura q pode
offender a delicada sensibilid.e de algum Leitor: e por isso
a julgo digna da Licença q pede. assim pareceo á Meza
Confer.ª de 26 de Mayo de 1788.
Antonio de S.ta M.ta Lobo da Cunha
Fr. Luiz de S.ta Clara Povoa
Pascoal Joze de Mello