Sumário
Parecer favorável à concessão de licença de representação da tragédia Mafoma ou Fanatismo (4 de Março de 1776)
Ano
1776
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, caixa 9, nº 14
Comentário

A deliberação, igualmente favorável, sobre a representação da tragédia tem a data de 4 de Março, que deve ser erro por 14 de Março; o requerimento para licença de representação e o registo do despacho para o censor remontam a 12 de Fevereiro de 1776. Pelo registo da localização da obra e pela respectiva data de aprovação (novamente 14 de Março), a tradução pode ser atribuída a José Basílio da Gama.


Na verdade, a tragédia Mafoma ou O fanatismo, de Voltaire, foi alvo de diferentes traduções e de vários processos na Real Mesa Censória, como é reforçado pelos seguintes dados adicionais, e até pela própria variação a que o título foi sujeito: em 1770, e posteriormente, também em 1783 e 1784, há registo do despacho para o censor, com diferentes resultados (suprimida no primeiro e aprovada nos restantes dois); em 1779, uma tradução da tragédia integrou o espectáculo em benefício da actriz Teresa Joaquina, conforme notícia manuscrita e impressa do mesmo.


Há ainda a considerar, na Torre do Tombo, um manuscrito da Tradução do Mafoma com despacho para impressão a 25 de Fevereiro de 1785, que origina uma edição no mesmo ano. No entanto, para além desse, devem ser considerados mais três testemunhos manuscritos: um de 1786 (COD. 1381//5), outro de 1795 (COD. 1388//2 = F.R. 17), ambos na Biblioteca Nacional de Portugal, e mais um sem ano na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (TC 765).

Menções
Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, p.134

Tragédia intitulada Mafoma ou Fanatismo

 

Pede António Pinto de Carvalho licença para se representar esta tragédia e, lendo eu esta obra, achei que tem suficiente merecimento para obter a licença que pretende, porque consta daquela acção em que Mafoma dá princípio à sua infame seita, introduzida com a mais execranda superstição de fazer crer a um filho que era ordem do céu  fazer lícito o juramento de que ele mesmo fosse assassino de seu próprio pai  para que, acabando com Zopiro, Rei de Meca, a idolatria, tivesse cabimento a sua seita. A acção, ainda que de si execranda, ele a faz parecer insigne, pela raridade e fundamento da religião com que a propõe, e o fim trágico, incitando a piedade e terror, que são as leis da tragédia, descobrem o detestável do impostor. Este é o meu parecer visto que também não tem coisa que se oponha à fé e regalias do Estado.
Foram do mesmo parecer os deputados adjuntos.

Mesa, 4 de Março de 1776 

António Santa  Marta  Lobo da Cunha  

Frei Francisco Xavier de Santa Ana Fonseca

 António Veríssimo de Larre

 

 

 

Image 1435

Tragedia intitulada Mafoma ou Fanatismo

 

Pede Antonio Pinto de Carvalho Licença p.ª se reprezen-

tar esta Tragedia: E lendo eu esta obra achei, que

tem sufficiente meressim.to p.ª obter a Licença, que

pertende. Porque consta da quella Acção em q’

Mafoma dá principio á sua infame seita intro-

duzida com a mais exacranda superstição de

fazer crer a hum Filho q’ era ordem do Ceo fazer

Licito o juram.to de q’ elle mesmo fosse Acessino de

seo proprio Pay: p.ª que acabando com Zopiro Rei

de Meca a Idolatria tivesse Cabim. to a sua seita.

A Acção, ainda q’ de si exacranda, elle a faz paresser

insigne, p.la raridade, e fundam.to da Religião com

q.a propoem: e o fim trágico incitando a piedade

e terror, q’ são as Leis da Tragedia, descobrem

o detestavel do Impostor. Este he o meo paresser

Visto que tambem não tem couza q’ se opponha

á Fe e Regalias do Estado. Foram do mesmo paresser

os deputados adjuntos. Meza 4 de Marco de 1776.

 

Antonio S.ta M. ta Lobo da Cunha 

Fr. Fran.co X.er de S.ta Anna Fon.ca

Ant.º Verissimo de Larre