- Sumário
- Parecer desfavorável para a impressão e representação da tragédia Atreu e Tieste, de Crébillon (13 de Agosto de 1770)
- Ano
- 1770
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 6, nº 85
- Menções
- José Timóteo da Silva Bastos, História da Censura Intelectual em Portugal, Lisboa, Moraes, 2ª ed., 1983, pp. 92-93 (1ª ed., Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926); Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 234-239: 236-237
Monsieur Crébillon foi um poeta francês que floresceu neste século e morreu em Paris, em 1762, célebre pelos seus costumes e génio, pelas suas fortunas e desgraças e pelas suas composições. Elas o fizeram reputar, geralmente, o terceiro poeta trágico de França. A que agora se pretende imprimir traduzida, é o chefe de obra das de Crébillon, e em que ele mostrou todo o seu talento, de sorte que excedendo Crébillon a todos naquela parte a que chamam o «terrível», nesta igualou também o «patético» dos mais poetas. O papel de Atreu é a coisa melhor que tem aparecido sobre o teatro e que se sustenta e se anima em todas as suas partes; a cena do reconhecimento é admirável, a da taça a mais trágica; Filisteno forma um contraste perfeito a Atreu. Alguns franceses dão precedência a esta tragédia de Crébillon à de Séneca júnior, ao que eu nunca subscreverei. A segunda cena da de Séneca parece-me conter mais moral do que toda a tragédia de Crébillon e o servo de Séneca vale mais do que o Filisteno de Crébillon, além de que naquela só reluz o intento da verdade, quando em Filisteno se pode atribuir muito ao excesso do amor a Teodemia. E melhor seria que Crébillon desse a sua tragédia sem os episódios do amor, como fez Séneca, o que conhecem os mesmos franceses, e só o desculpam dizendo que ele nisto se acostumara às fealdades ridículas da ternura, a que
o público estava acostumado. Este é o merecimento da tragédia quanto eu sou capaz de julgar. A sua tradução não é fiel, nem boa. Em muitas partes não chegou o tradutor a perceber o sentido do original, em outras traduziu o natural e o simples, de que o autor abunda e que todos nele reconhecem, por um modo que o deixou não só baixo, mas desprezível. E seria bem que a primeira tragédia de um tão célebre autor só se imprimisse em Portugal bem traduzido.
Enquanto à sua representação, mais me parece própria para um país em que prevaleça uma democracia decidida, do que uma monarquia regulada. Julgo-a arriscada para se representar diante de um povo que muitas vezes não é capaz de distinguir entre um monarca e um tirano. Ela foi representada dezassete vezes em Paris, mas o autor não teve muita razão para se gloriar do sucesso. Uma grande parte do povo lhe julgou o coração tão mau como o de Atreu. Pelo que me parece que, ainda permitindo-se a impressão de alguma tradução de Crébillon que fosse boa para o uso e ensino de alguns leitores, se não devia pôr no teatro, donde se devem alongar os motivos dos escândalos, ainda dos pusilânimes. Do mesmo parecer foram os padres mestres deputados adjuntos.
Em Mesa, 13 de Agosto de 1770
Frei João Baptista de São Caetano
Frei Joaquim de Santa Ana e Silva
Frei Manuel da Ressurreição
Tragedia intitulada Atreo, r Tyeste de
Monsieur de Cribillon.
Mr. Cribillon foi hum Poeta Francez q flore=
ceo neste seculo, e morreo em Pariz em 1762,
celebre pelos seus costumes, e genio, pelas suas for=
tunas, e disgraças, e pelas suas composições; ellas o
fizerão reputar geralm.te o terceiro Poeta tragi=
co de França. A que agora se pertende imprimir
traduzida he o Chefe de obra das de Cribil=
lon, e em q elle mostrou todo o seu talento,
de sorte que excedendo Cribillon a todos na
quella parte, a q chamão o Terrivel, nesta igua=
lou tambem o Patetico dos mais Poetas: o
papel de Atreo he a cousa melhor q tem
apparecido sobre o Theatro, e q se sustenta, e
se anima em todas as suas partes: a Scena
do reconhecim.to he admiravel, a da Taça a
mais tragica: Filisteno forma hum contras=
te perfeito a Atreo: alguns Francezes dão pre=
cedencia a esta Tragedia de Cribillon á de
Seneca junior, ao q eu nunca subscreverei; a
segunda Scena da de Seneca parece-me conter
mais moral do q toda a Tragedia de Cribil=
lon, e o servo de Seneca vale mais do q o
Filisteno de Cribillon; alem de q naquella so
reluz o intento da verdade q.do em Filisteno
se pode attribuir m.to ao excesso do amor a
Teodemia; e melhor seria q Cribillon desse a
sua Tragedia sem os Epizodios do amor, como
fez Seneca; o q conhecem os mesmos France=
zes, e so o disculpão dizendo q elle nisto se a=
costumara ás fialdades rediculas da ternura, a q
o publico estava acostumado.
Este he o merecim.to da Tragedia quanto
eu sou capaz de julgar; a sua traducção não
he fiel, nem boa; em m.tas partes não chegou
o traductor a perceber o sentido do original,
em outras traduzio o natural, e o simples de
q o Author abunda, e q todos nelle reconhecem,
por hum modo q o deixou não so baixo, mas
desprezivel;e seria bem q a primeira Tragedia
de hum tão celebre Author so se imprimi-se em
Portugal bem traduzido.
Em q.to á sua Reprezentação mais me
parece propria p.ª hum Paiz em q prevaleça
h?a Democracia decedida, do q h?a Monar=
chia regulada: julgo-a arriscada p.ª se repre=
zentar diante de hum povo q m.tas vezes não
he capaz de distinguir entre hum Monarcha,
e hum tiranno: ella foi reprezentada dezasete
vezes em Pariz, mas o Author não teve m.ta razão
p.ª se gloriar do sucesso; huma grande parte
do povo lhe julgou o coração tão mao como o de
Atreo: pelo q me parece q ainda permittindo-se
a impreção de alg?a traducção de Cribillon, q
fosse boa, p.ª o uzo, e ensino de alguns leitores,
se não devia pôr no Theatro, donde se devem alon=
gar os motivos dos escandalos ainda dos pusil=
lanimes: do mesmo parecer forão
os P.es M.es Deputados adjuntos.
Em Meza 23 de Ag.º de 1770.
Fr. João Bap.ta de S. Caet.º
Fr. Joaquim de S.ta Anna e S.ª
Fr. M.el da Resurreição