- Sumário
- Parecer desfavorável para a impressão da comédia Selva de Diana (30 de Julho de 1770)
- Ano
- 1770
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 6, nº 78
- Comentário
Há registo de entrada da comédia a 27 de Julho de 1770, com descarga de volta a 30 de Julho do mesmo ano, e registo de localização, e ainda um manuscrito no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, com data de 30 de Julho de 1770. Existem dois folhetos da comédia, um de 1758 (s.l., s.i., TC 737) e outro de 1785 (Lisboa, oficina de Domingos Gonçalves, TC 236 e TC 452 ), na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.
- Menções
- José da Costa Miranda, «Acerca do teatro espanhol em Portugal (século XVIII): alguns apontamentos críticos da Mesa Censória», sep. de Bracara Augusta, t. 32, fasc. 73-74 (85-86), Jan.-Dez. de 1978, pp. 13-14; Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 244-250: 245
A comédia Selva de Diana, que pretende imprimir Manuel Amado Coelho, é uma daquelas más produções com que o génio castelhano corrompeu os seus teatros, e que hoje se abominam em toda a Europa. Principia por uma loa, ou relação, segundo eles lhe chamavam, em que só se vêem encadeados uns poucos de hipérboles, continua por um enredo conhecidamente quimérico, misturado com as frioleiras e indecências de um chocarrão, ou bobo, e acaba com uns casamentos mal convindos, sem acção, sem moral e sem outro fim mais do que o de corromper
a mocidade que a ouvir representar.
Os espanhóis tiveram a glória de que o seu Cervantes foi o primeiro que fez conhecer, renovar o gosto das composições cómicas e trágicas da antiga Grécia, mas eles também foram os primeiros que o chegaram a estragar, e 'té Molière, que lho quis emendar, contraiu alguns defeitos que eles lhe comunicaram, pelo que é hoje afiançado que o modelo do teatro, ou se há-de buscar nos originais gregos, ou em cópias que não sejam de Castela. Deixo de notar os defeitos da versificação, os das regras do drama e as da tradução desta comédia, por me parecer supérflua maior análise de
uma obra, que é o que acima disse, pelo que sou de parecer que se suprima. Foram do mesmo parecer os deputados adjuntos.
Lisboa, 30 de Julho de 1770
Frei João Baptista de São Caetano Frei Francisco de Sá Frei Joaquim de Santa Ana
A Comedia = Selva de Diana =
q pertende imprimir M.el
Amado Coelho, he hua da
quelas mas produccções com q
o genio castelhano corrom-
peo os seos teatros, e q hoje
se abominão em toda a Euro-
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Loa, ou relação seg.º elles
lhe chamavão, em q so se vem
encadeados huns poucos de
hiperboles; continua por
hum enredo conhecidam.te
quimerico, misturado com
as frioleiras, e indicencias
de hum chocarrão, ou bobo
e acaba com huns casam.tos
mal convindos, sem acção,
sem moral, e sem outro fim
mais do q o de corromper
a mocid.e q a ouvir reprezen-
tar.
Os Espanhoes tiverão a glo=
ria de q o seu Cervantes foi
o p.ro q fes conhecer, renovar
o gosto das compozições comi
cas, e tragicas da antiga Gre
cia, mas elles tambem forão
os p.ros q o chegarão a estragar,
e te Moliere, q lho quis
emendar, contrahio alguns
defeitos, q elles lhe comuni-
carão: pello q he hoje afian-
zado, q o modelo do theatro
ou se ha de buscar nos origi-
naes gregos, ou em copias
q não sejão de Castela.
Deixo de notar os defeitos
da versificação, os das regras
do dragma, e as da traducção des-
ta Comedia: por me parecer
superflua mayor analise
de huma, obra q he o q acima disse
pelo q sou de parecer, q se su-
prima: forão do mesmo parecer
os deputados adjuntos: Lx.ª 30 de
Julho de 1770.
Fr. João Bap.ta de S. Caet.º
Fr. Fran.co de Sá
Fr. Joaquim de S.ta Anna