Sumário
Parecer desfavorável à impressão da tradução da comédia O Senhor de Pourceaugnac, de Molière (29 de Outubro de 1770)
Ano
1770
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, caixa 6, nº 122
A comédia intitulada O Senhor Porconhaço, que quer imprimir José de Santo Albim, é no seu original francês uma das melhores do teatro da sua nação. Foi composta pelo Terêncio de França, monsieur Molière, e diz Peraut [Perrault], nos Elogios dos Homens Ilustres, que ela e a do Peão Gentil-Homem foram concebidas na ideia de ridiculizarem, ou aqueles filhos que desdenham os ofícios de seus pais, ou aqueles vilões que se metem a gentis-homens, vivem em uma inteira ociosidade, ficam inúteis à república, té a si próprios.

Uma comédia deste carácter deve ser bem traduzida, e qualquer coisa que se lhe acrescente, mutile, ou mude, a não ser por mão bem hábil, a pode estropiar e corromper.


Ora esta parece-me estar nesses termos. Principia a comédia de Molière por uma serenata em verso francês, o tradutor lha substitue outra em letra italiana, e boa, mas que não é nem os versos franceses, nem a sua tradução. Na cena II do primeiro acto põe uns versos italianos, que são de Molière, mas impróprios para o caso da tradução, pois Molière queria ridiculizar um francês, por isso põe na boca de dois italianos a palavra – monsu–, que é a com que eles insultam aos franceses, mas esta palavra não tem aplicação alguma para um português. Na Cena II do segundo acto representa o original a Porconhaço consultando dois letrados, e como Porconhaço era francês, também


os letrados lhe respondem em francês. O tradutor finge dois letrados que respondem em italiano a um português, e em Lisboa, o que ofende todas as leis de verosimilidade; acrescenta o tradutor muitas falas, que se não acham no original, e ultimamente acaba a comédia com um casamento com que ficam coroados todos os vícios das figuras dela, quando no original francês se dificulta este casamento, e se deixa ficar escuro o seu fim, para não parecer aprovar-se o vício.

Estes são os defeitos que acho enquanto à tradução, mas como o teatro deve ser uma das coisas mais bem reguladas, e tratado com a maior circunspecção, devo lembrar-me de duas coisas, que aqui ocorrem:


primeira, o tratar-se a Molière com o título de senhor – do senhor Molière –, diz o tradutor. Em França, onde o título de Monsieur é quase comum,

ou transcende a muitos estados; reparou-se em que se desse a Molière, como diz o autor da sua vida; parecia-me que em Portugal onde o tratamento, título de Senhor, é característico de pessoas de distinta nobreza, se não devia prodigalizar a Molière; segunda, Molière fez herói do seu drama a um advogado de Limoges, cidade de França, cabeça de uma província do mesmo nome, considerável pelos cavalos que nela se criam , e pelo comércio de bestas. O tradutor substitui-lhe um morgado da Beira natural de Lamego,


pintando-o mais ridículo que se pode fazer, contra toda a verdade, o que tão-somente é capaz de fazer desprezíveis, ridículos e odiosos os cavaleiros das províncias, embaraçando-lhe os casamentos com as senhoras da Corte, no que alguns perderão fortunas, outros não adiantarão a sua nobreza e interesses, e virá finalmente esta comédia, que foi ideada com o desejo de emendar um vício, a causar grandes danos, pelo que foram também os deputados adjuntos de parecer que se suprimisse.
Em Mesa, 29 de Outubro de

1770


Frei João Batista de São Caetano
Frei Joaquim de Santa Ana

Frei Francisco Xavier de Santa Ana 

 

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A comedia intitulada = o Snr. Por =

conhaço = q quer imprimir Joze

de S.to Albin, he no seu original

Francez huma das milhores

do Theatro da sua Nação: foi

composta pelo Terencio de

França monsieur Moliere;

e diz Peraut nos Elogios dos

homens illustres, q ella, e a do

Peão Gentil home forão con-

Cebidas na ideya de redicu-

Lizarem ou aqueles filhos

q desdanhão os officios de seus

Pays, ou aqueles villoes, q se

metem a Gentis homens, vive

em huma inteyra ociosid.e

Ficão inuteis a republica,

te asi proprios.

Huma Comedia deste ca-

racther deve ser bem tra-

duzida, e qualquer couza,

q se lhe acrescente, mutile, ou

mude, a não ser por mão bem

habil, a pode estropiar, e cor-


romper. Ora esta pareceme

estar nesses termos. Princi-

pia a Comedia de Moliere

por huma serenata em ver-

so Francez, o traductor lha

substitue outra em Letra

Italiana, e boa, mas q não

he nem os versos Francezes, n?

a sua traducção: na Cena II

do pr.º Acto, poem huns ver-

sos Italianos, q são de Moliere,

mas improprios p.ª o caso da

traducção; pois Moliere que-

ria ridiculisar hum Frances,

por isso poem na boca de dous

Italianos a palavra = monsu =

q he a com q elles insultão

aos Francezes; mas esta pala-

vra não tem aplicação alg?a

p.ª hum Portugues: Na Cena II

do segd.º Acto reprezenta o o-

riginal a Porconhaço con-

sultando dous Letrados, e como

Porconhaço era Frances, tam


bem os Letrados lhe respondem

em Frances; o traductor tinge

dous Letrados, q respondem

em Italiano a hum Portu-

guez, e em Lx.ª, o q offende

todas as Leis, de verosimilid.e:

acrescenta o traductor m.tas

fallas, q se não achã no origi

nal, e ultimam.te acaba a

Comedia com hum casam.to

com q firão coroados todos

os vicios das figuras dela; qd.º

no original Frances se difi-

culta este Casam.to; e se deixa

ficar escuro o seu fim p.ª

não parecer aprovarse o

vicio.

            Estes são os defeitos

q acho emq.to a traducção; mas

como o theatro deve ser huma

das couzas mais bem regula-

das, e tratado com a mayor cir-

cunspecção, devo lembrarme

de duas couzas, q aqui ocorrem:


primeyra, o tratarse a Moliere

com o titulo de senhor = do

senhor Moliere = dis o tradu-

tor. Em França onde o titulo

d Monsieur he quasi commum

ou transcende a m.tos estados, re-

parouse em q se desse a Mo-

liere, como diz o Author da

sua vida; pareciame, q

em Portugal onde o trata-

m.to, titulo de Senhor he

caractheristico de pessoas de

distinta nobreza, se não de-

via prodigalizar a Moli-

ere: seg.ª; Moliere fez

heroe do seu Dragma a hum

Advogado de Limoges, cida-

De de França, cabeça de h?a

Provincia do mesmo nome,

consideravel pelos cavalos

q nela se crião, e pelo Comer-

cio de bestas; o traductor subs-

tituelhe hum morgado da

Beyra natural de Lame-


go, pintandoo mais ridiculo,

q se pode fazer, contra tda

a verdade, o q tam som.te he ca-

pas de fazer despresiveis, ridi-

culos, e odiosos os cavalleyros

das Provincias, imbaraçando =

lhe os casam.tos com as snr.as

da Corte, no q algums per-

dirão fortunas, outros não a-

diantarão a sua nobreza, e in-

teresses, e vira finalm.te

esta Comedia, q foi edeada

com o dezejo de emendar h?

vicio a cauzar grandes

dannos: pelo q forão tamb? os De

putados adjuntos de parecer, q

se suprimisse: em Meza 29 de

8.bro de 1770.

            Fr. joão Bap.ta de S. Caetano

            Fr. Joaquim de S.ta Anna

            Fr. Fran.co X.er de S.ta Anna