- Sumário
- Informação sobre o requerimento do director e empresários do Teatro de S. Carlos para fechar o teatro (7 de Dezembro de 1819)
- Ano
- 1819
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Intendência Geral da Polícia, Livro XVIII, ff. 176-177
[1819]
Dezembro, 7
Reino
Senhor,
O director e sócios da empresa do Real Teatro de S. Carlos pretendem no requerimento junto que, visto não terem chegado de Itália os actores que mandaram vir para continuarem a sua nova empresa, Vossa Majestade lhes permita que possam fechar o mesmo teatro, enquanto a chegada dos novos actores, que pouco mais poderão tardar, os não habilita para satisfazerem dignamente aquilo a que se comprometeram, e formarem o plano de assinaturas para o ano próximo futuro.
Sendo Vossa Majestade servido ordenar-me que informe, interpondo o meu parecer a este respeito, ordenei ao Corregedor do Bairro Alto, inspector do dito teatro, que exigisse dos suplicantes a prova do que alegavam, a fim de conhecer se estavam compreendidos em omissão, ou se o facto era da classe daqueles que excedem as combinações humanas, por considerados e bem dirigidos que tenham sido os meios postos em prática para conseguir-se o bom êxito de qualquer diligência, e recebendo do dito inspector a informação da cópia junta, com o documento original que a acompanha, não posso deixar de conformar-me com a opinião do Ministro informante, para que os suplicantes sejam atendidos no que pretendem, porquanto mostrando eles, pelo mencionado documento que fizeram escriturar a nova companhia em Itália, e que os actores sairam do porto de Génova com direcção para este reino, em o dia 13 de Outubro do presente ano, é manifesto que a falta não lhes pode ser imputável, por depender inteiramente das eventualidades da navegação, que sendo geralmente incerta, o é muito mais no mar mediterrâneo com semelhante estação, como
todos sabem. Poderiam os suplicantes, calculando como deviam, com tais incertezas, ter cuidado nisto mais antecipadamente para que não se desse o caso de chegar o tempo de findar o ano da sua empresa que termina hoje, e não ter vindo a companhia dos novos actores, mas atendendo-se a que foi somente por aviso de 31 de Agosto que Vossa Majestade houve por bem prorrogar-lhes a licença para continuarem a empresa por outro ano, parece que não pode atribuir-se-lhe omissão, porque antes de prorrogada a licença, incertos de obtê-la, não podiam prudentemente empenhar-se em ajustes de nova companhia, e depois que a obtiveram, não é pouco ter feito escriturar e embarcar a mesma companhia em Itália a 13 de Outubro.
De fechar-se o teatro, como os suplicantes pretendem, não resulta inconveniente algum. Não há assinantes que tenham direito a exigir a continuação das representações cénicas, porque as suas assinaturas acabavam, e uma tal cessação devendo ser por muito pouco tempo, salvo se algum desastre aconteceu ao navio em que vem a companhia embarcada, é preferível ao embaraço de continuarem os suplicantes a fazer trabalhar a companhia incompleta que têm presentemente, e que por isso mesmo, não podendo satisfazer a
espectação, tem ocasionado no teatro o desgosto dos espectadores, provocando desordens.
Em consequência do referido, parece-me que os suplicantes merecem ser deferidos, não por forma de ordem que mande fechar o teatro, porque isso os autorizaria a desligarem-se dos empenhos que têm contraído com a parte da companhia escriturada neste reino, mas por via de permissão para fazerem o que eles mesmos pedem pelas razões que alegam. E se, como é natural, a outra parte da companhia que vem de Itália, contando já mais de cinquenta dias de viagem, chega em breve tempo, que não poderá exceder ao restante do mês corrente, o teatro se deverá novamente abrir. É verdade que neste intervalo os suplicantes gozaram sem utilidade pública dos auxílios que Vossa Majestade lhes tem concedido, mas é também evidente que tais auxílios não podem suspender-se pelo intervalo de poucos dias, tendo apenas lugar, como é da minha opinião, que se suspendam, quanto à paga dos camarotes do Governo, da Polícia e do Senado, cujo preço, satisfazendo-se aos trimestres, no que agora começa a decorrer, se deverão abater rateadamente os dias em que o teatro estiver por este motivo fechado.
Vossa Majestade ordenará o que for servido.
Lisboa.
S.r
Dezbr.º 7 O Director e Socios da Empreza do Real Teatro
de S. Carlos pertendem no Requerimento junto
Reyno que visto não terem chegado de Italia os Actores que
mandárão vir para continuarem a sua nova Em-
preza, V. Mag.e lhes permita que possão fechar o mes-
mo Theatro, em quanto achegada dos novos Acto-
res, que pouco mais poderão tardar, os não habilita
para satisfazerem dignamente aquilo aque se-
comprometterão, e formarem o Plano de assinatu-
ras para o anno proximo futuro.
Sendo Vossa Magestade Servido ordenar-
me que informe interpondo omeu parecer aeste
Respeito, ordenei ao Corregedor do Bairro Alto Ins-
pector do dito Theatro, que exigisse dos Sup.es apro-
va do que allegavão, afim de conhecer se es-
tavão comprehendidos em omissão, ou se ofacto
era da Classe daquelles que excedem as combi-
naçoens humanas por conciderados, e bem diri-
gidos que tenham sido os meios postos emprac-
tica para conseguir se obom exito de qual-
quer delligencia, e recebendo do dito Imspec-
tor a Informação da Copia junta com o docu-
mento original que a acompanha,não posso deixar
de conformarme com a opinião do Ministro Infor-
mante para que os Sup.es sejão attendidos noque
pertendem; por quanto mostrando elles pelo men-
cionado Documento que fizerão escripturar a
nova companhia em Italia, eque os Actores
sahirão do Porto de Genovacom direcção para
este Reyno em odia 13 de Outubro do presen-
te anno, he manifesto que afalta não lhes po-
de ser imputavel por depender inteiramente
das eventualidades da navegação, que sendo
geralmente incerta o he muito mais no Mar
Mediterraneo com semelhante Estação como
todos sabem: poderião os Sup.es calculando
como devião com taes incertezas ter cuidado nis-
to mais antecipadamente para que não
se desse ocazo de chegar o tempo de findar o-
anno da Sua Empreza que termina hoje,
e não ter vindo a Companhia dos Novos Ac-
tores, mas attendendose a que foi somen-
te por Avizo de 31 de Agosto, que Vossa
Mag.e Houve por bem prorogarlhes ali-
cença para continuarem a Empreza por
outro anno, parece que não pode atribuir-
selhe Omissão porque antes de prorogada
a licença, incertos de obtela, não podião pruden-
temente empenharse em ajustes de nova
Companhia, e depois que a obtiverão não
he pouco ter feito escripturar, eembarcar
amesma companhia em Italia a 13 de
Outubro.
De fexarse o Teatro, como os Su-
p.es pertendem, não resulta inconveni-
ente algum: não ha assignantes que
tenhão direito aexigir a continuação
das Reprezentaçoens scenicas, porque
as suas assignaturas acabávão ehuma
tal cessação devendo ser por muitopou-
co tempo, salvo se algum desastre
aconteceo ao navio emque vem a
Companhia embarcada, he preferivel
ao embaraço de continuarem os Sup.es
afazer trabalhar a companhia incomple-
ta que tem prezentemente, e que por isso
mesmo não podendo satisfazer a espec-
tação, tem occazionado no Theatro o disgosto
os Espectadores provocando desordens.
Em consequencia do Referido pare-
ceme que os Sup.es merecem ser deferidos,
não por forma de Ordem que mande fechar
o Teatro, porque isso os authorizaria a desliga-
remse dos empenhos que tem contrahido com
aparte da Companhia escripturada neste
Reyno, mas por via de permissão para fa-
zerem oque elles mesmos pedem pelas Ra-
zoens que allegão; e se, como he natural, a
outra parte da Companhia que vem de I-
talia, contando já mais decincoenta dias
de viagem, chega em breve tempo, quenão
poderá exceder ao restante do mes corrente
o Theatro se deverá novamente abrir: he ver-
dade que neste intervalo os Sup.es gozarão
sem utilidade publica dos auxilios que
V. Mag.e lhes tem concedido, mas he tão bem
evidente que taes auxilios não podem
suspenderse pelo intervalo depoucos dias,
tendo apenas lugar, como he da minha opi-
nião, que se suspendão, quanto à paga
dos Camarotes do Governo, da Policia, e do
Senado, cujo preço satisfazendose aos tri-
mestres, noque agora começa a decorrer
se deverão habater rateadamente os dias
emque o Theatro estiver por este mo-
tivo fechado.
V. Mag.e Ordenarà oque for Ser-
vido.
Lisboa