Sumário
Informação sobre o encerramento de casas de jogo afectas ao teatros (7 de Março de 1805)
Ano
1805
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Intendência Geral da Polícia, Livro VIII, ff. 114v-115v

1805

7 de Março.

 
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de Vila Verde,

 
Procurando-me, em dias desencontrados, Francisco António Lodi, e seu sócio Luizello, italianos, falei ao primeiro Francisco António Lodi, e me apresentou a participação que  passo às mãos de Vossa Excelência (a), e conhecendo eu o fim a que ela se propunha, mandei fechar as casas que o dito empresário me indicou, as quais pertenciam aos Teatros da Rua dos CondesBelém e três mais, que por concessão régia se tinham facilitado, uma destas ao franciscano, que fazia as viagens a Espanha, cuja graça vendeu a um capelista para ter a dita casa de sortes, a qual foi obtida por rogativas do ilustríssimo e excelentíssimo Conde do Ega; outra às recolhidas do rego; e outra concedida também a uma viúva.
Repetiu Francisco António Lodi em procurar-me segunda vez, e me entregou a memória inclusa (b), e como o príncipe regente nosso senhor, pelas circunstâncias presentes, deve tomar na sua alta consideração este objecto, e deliberar sobre este negócio, porque Vossa Excelência, melhor do que ninguém, conhece que a corte de Lisboa deve ter um teatro


decente, e com tal esplendor e brilhantismo como estava o de S. Carlos, pois além dos muitos motivos que podia trazer à memória de Vossa Excelência, uns dos mais essenciais é ter em que se entretenha a mocidade, e não irem para as casas de jogos e pecaminosas, nem para outras assembleias, onde se tratem discursos sobre matérias que lhes não devem importar. Estes três objectos são os que me obrigam, pelo lugar que tenho a honra de reger de Intendente Geral da Polícia da Corte e Reino, a rogar a Vossa Excelência que queira representar ao augusto príncipe regente nosso senhor o que refiro, a fim de o tomar na sua alta consideração, pois em uma corte como a de  Lisboa, se faz indispensável haver o Teatro Italiano, visto as maiores cortes da Europa, as mais polidas e civilizadas o terem, como digo, por aquelas outras razões também, que deixo à alta penetração de Vossa Excelência, e até serve o teatro à polícia, quando a esta seja


necessário corrigir alguns costumes que se não devem consentir, lançando mão de os mandar meter em ridículo na cena, anonimamente e em geral, para assim conseguir evitar que os estrangeiros se riam de verem que há estes ou aqueles costumes que não caracterizam a civilidade de uma nação, tal como a portuguesa, e que se devem separar dela por este modo, sem ser necessário recorrer às autoridades. E a experiência me tem mostrado conseguir, por este meio, em algumas ocasiões, evitar os ditos maus costumes, sem antepôr a autoridade do lugar que tenho a honra de reger.

O que o príncipe regente nosso senhor resolver sobre esta matéria há-de ser o mais justo e acertado, sendo de notar que o  tempo é curto e insta a deliberação.
Lisboa.

Image 249
Image 250
Image 251

         
 1805
                                                                        Ill.mo Ex.mo S.r

7 de Março      Procurando-me, em dias dezencon-     Conde de Villa

trados, Francisco Antonio Lodi, e        Verde

seo Socio Luizello Italianos; falei

ao primeiro Fran.co Ant.º Lodi, e

me aprezentou a Participação, que

passo ás maons de V. Ex.ª (a); e

conhecendo eu o fim a que ella se

propunha, mandei fexar as Cazas,

que o dito Empressario me in-

dicou, as quaes pertencião aos Theatros

da Rua dos Condes, Bellem; e

tres mais, q.’ Por Concessão Regia

se tinhão facilitado; huma destas

ao Franciscano, que fazia as Viagens

a Hespanha, cuja Graça vendeo

a hum Capelista p.ª ter ter a dita Caza

de Sortes, a qual foi obtida por ro-

gativas do Ill.mo e Ex.mo Conde do

Ega; outra ás Recolhidas do rego;

e outra concedida tambem a h?a

Viuva.

Repetio Francisco An-

tonio Lodi; em procurar-me segunda

vez, e me entregou a Memoria

incluza (b), e como o Principe

Reg.te N. S.r, pelas circunstan-

cias prezentes, deve tomar na

Sua Alta Consideração este objecto,

e Deliberar sobre este negocio;

porque V. Ex.ª, melhor do que

ninguem conhece que a Corte

de Lisboa deve ter hum Theatro


decente, e com tal esplendor, e

brilhantismo, como estava o de

S. Carlos; pois alem dos muitos

motivos; que podia trazer á me-

moria de V. Ex.ª, huns dos mais

essenciaes, hé ter, em que se en-

tretenha a mocidade, e não hi-

rem para as Cazas de jogos, e

pecaminozas, nem p.ª outras

assembleas, onde se tratem discur-

sos sobre materias, que lhes não

devem importar: estes tres objec=

tos são os que me obrigão, pelo

Lugar, que tenho a honra de

reger de Intendente geral da

Policia da Corte e Reino, a rogar

a V. Ex.ª que queira reprezentar

ao Augusto Principe Regente

N. S.r o que refiro, a fim de o

tomar na Sua Alta Consideração;

pois em huma Corte, como a de

Lisboa, se faz indispensavel haver

o Theatro Italiano, visto as maiores

Cortes da Europa, as mais polidas

e civilizadas o terem, como digo,

por aquellas outras razoens tam-

bem, que deixo á alta penetração

de V. Ex.ª, e athé serve o Theatro

á Policia, quando a esta seja


necessario corregir alguns costumes

que se não devem consentir, lan-

çando mão de os mandar meter

em ridiculo na Scena, anoni-

mamente, e em geral; p.ª assim

conseguir evitar que os estrangeiros

se rião de Verem que há estes,

ou aquelles costumes, que não

caracterizam a Civilidade de h?a

Nação, tal como a , Portugueza, e q.’

se devem separar della, por este

modo, sem ser necessario recorrer

ás Authoridades; e a experiencia

me tem mostrado conseguir, por

este meio, em algumas occaziões

evitar os ditos máos costumes, sem

antepôr a Authoridade do Lugar,

que tenho a honra de reger.

O que o Principe Reg.te

N. S.r rezolver sobre esta ma-

teria há de ser o mais justo e

acertado, sendo de notar que o

tempo hé curto, e insta a Delibe-

ração.

Lx.ª