Sumário
Informação sobre a pretensão de os actores do Teatro da Rua dos Condes, à falta de empresário, manterem a licença de 6 casas de sortes (3 de Outubro de 1808)
Ano
1808
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Intendência Geral da Polícia, Livro IX, ff. 257v-258

Outubro, 3

Reino

Senhor,


Os actores do Teatro Nacional da Rua dos Condes, não achando empresário, e não podendo, por falta de recursos próprios, conservar a dignidade e lustre que convém àquele teatro, requereram e obtiveram de Monsieur Lagarde a faculdade de abrir 6 casas de sortes com o prémio de 12 por 100%, 10 a favor do teatro, e 2 a benefício do Cofre da Polícia.
Conhecendo os mesmos actores que aquele estabelecimento caducava com o Governo e autoridade sobre que se estribava, me requerem a conservação daquela faculdade, pois que d’outro modo não pode conservar-se o teatro em acção. Parece que o seu exercício é actualmente duma absoluta necessidade, convém à dignidade de uma capital que nela haja o entretenimento dalgum espectáculo público. Esta


necessidade é tanto maior ao presente, quanto é luzido e numeroso o Corpo da Oficialidade de uma esquadra e de um exército, que vieram de mãos dadas ajudar a restabelecer a independência destes reinos. Aos mesmos nacionais é necessário entreter com os divertimentos teatrais, e quando cena oferece, como agora, dramas que avivam a memória dos gloriosos feitos dos senhores reis de Portugal e da nação, e mostram o quadro da glória que mereceu toda a península unida contra a invasão de uma nação bárbara que a invadia, então sem dúvida se inflama o ardor bélico de uma nação em todos os séculos heróica.
Sei que as casas de sortes são as que entre todas as loterias merecem menos a confiança pública. Elas admitem fraudes e o lucro das suas extracções sai regularmente da classe ínfima do povo, a quem a esperança de pequenos prémios incita, as mais das vezes, a uma despesa estéril, mas não havendo actualmente outros recursos de que se possa lançar mão para a conservação do teatro, eles parecem estar no caso de ser interinamente conservados. Juntamente com o teatro, interessa à polícia e ò asseio da capital, pois que a administração avara de Monsieur Lagarde não só deixou o Cofre vazio e individado, mas a abegoaria da limpeza quase sem cavalgaduras e sem bois, por perecerem à fome.
Vossa Alteza Real determinará o que for servido.
Lisboa.

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Outubro 3        Os Actores do Theatro Nacional da Rua                   Senhor
R.no                      dos Condes, não achando Emprezario, e não poden=

do por falta de recursos proprios conservar a di=

gnidade, e lustre que convem aquelle Theatro,

requererão e obtiverão do M. Lagarde a faculd.e

de abrir 6 Cazas de Sortes com o premio de

12 por 100,, 10 a favor do Theatro, e 2 a beneficio

do Cofre da Policia.

Conhecendo os mesmos Actores, que aquelle

establecimento caducava com o Governo, e autho=

rid.e, sobre que se estribava, me requerem a con=

servação da quella faculd.e; pois que d’outro modo

não pode conservarse o Theatro em acção. Pare=

ce, que o seu exercicio hé actualmente d’huma

asolucta necessidade convém á dignidade de

huma Capital, que nella haja o enterteni=

mento d’algum espetaculo publico. Esta


necessid.e hê tanto mayor ao prezente, quanto

tanto mayor ao prezente, Luzido, e nume=

roso o Corpo da Officialidade de huma esquadra,

e de hum Exercito, que vierão de mãos dadas aju=

dar a restablecer a independencia destes Reynos.

Aos mesmos Nacionaes hê necessario entreter

com os divertimentos Theatraes; e quando scena

offerece, como agora, dramas que avivão a me=

moria dos gloriosos feitos dos Senhores Reys de

Portugal, e da Nação, e mostrão o quadro da

gloria que mereceo toda a Peninsula uni=

da contra a invasão de huma Nação barbara

que a invadia então sem duvida se infla=

ma o ardor belico de huma Nação em todos

os seculos heroica.

Sey que as Cazas de Sortes são as que

entre todas as loterias merecem menos a confi=

ança publica. Ellas admittem fraudes, e o lu=

cro das suas extraçoens sahe regularmente da

Clace infima do povo, a quem a esperança

de pequenos premios incita as mais das

vezes a huma despeza esteril, mas não ha=

vendo actualm.te outros recursos de que se possa

Lançar mão para a conservação do Theatro, elles

parecem estar no cazo de ser interinamente

conservados. Juntamente com o Theatro interessa

a Policia; e o asseio da Capital pois que a admi=

nistração avara do M.Lagarde não só deixou

o Cofre vazio, e indevidado, mas a abegoaria da

Limpeza quasi sem Cavalgaduras, e sem

boys, p.r perecerem a fome.

V. A. R. determinará o que for servido.

 

Lisboa