Sumário
Fragmentos da impressão de Rinaldo d’Aste ou o Morto Vivo (incompleto)
Ano
s.a.
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, Caixa 324 e Caixa  451
Comentário
O documento encontra-se repartido pelas caixas 324 (págs. 1-4; 13-47) e 451 (págs. 5-12)  da Real Mesa Censória, na Torre do Tombo. É possível que se trate do Drama copiado por António José de Oliveira (cód. 1395 da Bilbioteca Nacional de Portugal), eventualmente da autoria de Giuseppe Carpani para a ópera de Marcos Portugal. Do mesmo texto, há uma edição biblingue, impressa na Oficina de Simão Tadeu Ferreira, «Da reppresentarsi nel Reggio Teatro di S. Carlo, della Principessa nel felicissimo giorno natalizio di Sua Altezza Reale la Serenissima Signora D. Carlota Gioacchina, Principessa del Brasile &c. &c. &c. Li 25 aprile 1799»

RINALDO D'ASTE

OU

O MORTO VIVO

 

Drama de um acto só, em música

ao gosto moderno

para se representar no

Teatro da Rua

dos Condes

este Carnaval de 1795

traduzido do idioma italiano

por ***

 

Lisboa

Na oficina de António Rodrigues Galhardo

 


 
[Branca]
 

Actores
 
Clelieta - O senhor Vitorino José Leite
 
Rinaldo - O senhor António Manuel Cardoso
 
Fiorina - O senhor Francisco Manuel Madeira
 
Berto - O senhor José dos Santos
 
D. Honório - O senhor José da Silva
 
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A acção é praticada nas casas situadas sobre os muros da cidade de que D. Honório é Governador.

A música é do senhor Marcos António Portugal.
 
A cena é do senhor Gaspar José Raposo, pintor e maquinista actual do dito teatro.
 

 
 
 
                                     ACTO I

  

                                     CENA 1

 

Esta representa uma sala destinada aos estudos e artes liberais de Clelieta. Nela haverão cinco portas, duas em cada lado, e uma  no meio, a qual é fechada por uma cancela de ferro, e porta de vidraça por dentro de cima a baixo. As outras quatro conduzem a vários aposentos. Três destas são praticáveis, e uma, isto é, aquela do gabinete situado no fundo, à mão mão direita, terá um óculo por cima. A outra que lhe faz frente poderá ser só fingida, e o dito óculo terá postigos que se abram para dentro. O aposento de Clelieta estará desta parte e o de D. Honório da oposta. Entre as duas portas do lado direito se verá uma chaminé com todo o preciso para se lhe acender fogo. Entre as  do esquerdo, uma janela rasgada, que a seu tempo se abre. Por esta se deixará ver o campo coberto de geada e pela porta do meio alguma parte interna da cidade que, ao ir cerrando-se


a noite, se alumiará com os candeeiros. Vários desenhos, papéis, livros, modelos por uma e outra parte espalhados ornam e preenchem a sala. Junto da janela estará colocado o cravo. Mais atrás, um cavalete com um quadro principiado. No meio, uma mesa pequena onde estará uma guitarra e vários papéis de solfas. Entre a dita mesa e a chaminé corre um tapavento que, principiando do fundo da cena circunda a porta do gabinete e a chaminé e, enconstado ao dito, próximo à mesa, se vê outro cavalete com o retrato de Rinaldo ainda por acabar, coberto de um pano verde. Um relógio de sala estará posto sobre a chaminé, das ombreiras da qual nascerão umas serpentinas que hão-de estar preparadas de velas, que se acendem a seu tempo. (1)

 

                Clelieta

 

Doce melancolia

vem habitar-me o peito

 

 

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(1) Ao levantar-se o pano se verá Clelieta sentada ao cravo. Enquanto canta e se acompanha se vai fazendo noite e entra Fiorina com uma vela acesa. Chega-se à chaminé, faz uma fogueira e acende as velas.


e teu cruel efeito

me cause triste horror.

 

                FIORINA

 

Amável alegria

vem ser meu grato objecto

e com brilhante afecto

me influe alegre humor.

 

                CLELIETA

 

Ah que este extinto amante

Ma[i]s não retornará.

 

                FIORINA

 

Dum vivo prevalei-vos

que o morto suprirá.

 

                CLELIETA

 

De ter doce alegria

esperança em mim não há

 

                FIORINA

 

Eu sei que inda há remédio

e ique sto bastará.

 

FIORINA – Ai, senhora, que frio! Vede como a neve continua a cair. Sei que já são cinco horas e que o vosso tutor está chegando por instantes.

 

CLELIETA – Não há dúvida.

 

FIORINA – Fazeis-me compaixão. A música e a pintura, que deveriam alegrar-vos, vos entristecem cada vez mais.

 

CLELIETA – Ah, como posso alegrar-me na falta de  


meu querido pai e no poder de um tutor indiscreto? O conforto das minhas penas...ah!.... (1)

 

FIORINA – Bem entendo a causa desse vosso suspiro. Este Rinaldo d’Aste, que andais pintando...

 

CLELIETA – Ah, Fiorina, ele já não existe.

 

FIORINA – Mas quem sabe se já é morto?

 

CLELIETA – As provas são infalíveis.

 

FIORINA – E eu penso esta notícia espalhada artificiosamente pelo vosso tutor, que vos vê com olhos...

 

CLELIETA – Veja como lhe parecer, porém capacite-se de que o meu coração jamais poderá ser seu. Ai, dilectíssimo amante! Amabilíssimo Rinaldo.

 

FIORINA – Quanto me pesa não chegar a conhecê-lo!

 

CLELIETA – Pois eu to farei ver naquele retrato que dele estou tirando, obra em que mais o coração emprego do que a própria mão.

 

FIORINA – E agora é que tenho mais vontade de o ver. Ah, descobri-mo, por favor.

 

CLELIETA – Sim, observa-o (2). Merecia que eu o amasse, ou não? Dize.

 

FIORINA – Oh, como era gentil! Como se mos

 

 

 

 

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(1) Suspirando; (2) Descobre-lhe o retrato.

 


tra cheio de perfeições! Desculpo, senhora, o vosso sentimento, e eu o fizera outro tanto se me achasse nas vossas circunstâncias. Mas parece-me que sinto gente.

 

CLELIETA – Ah, não quisera que fosse o meu aborrecível tutor.

 

FIORINA – Não, senhora, é o nosso Berto, jardineiro deste castelo.

 

 

                     CENA II

 

Berto, que trará um capacete adornado na mão e o põe sobre a mesa, e os ditos.

 

BERTO – Senhora Clelieta, eis aqui o capacete que me vós me mandastes procurar. O patrão não vem cá esta noite.

 

CLELIETA – Oh, noite feliz! Meu Berto, eu te fico obrigada.

 

BERTO – E que vos parece? Olhai, foi por um célebre acaso que vos pude servir.

 

CLELIETA – E porquê?

 

BERTO – É preciso que eu vos conte. Encontrei em certa locanda o criado de um oficial que, apesar do mau tempo, prosseguia a sua jornada pelo vizinho bosque, que é bastantemente infestado de ladrões. O lacaio com o pretexto de ferrar o cava


lo deixou ir o patrão e veio provar a preciosa pinga. Ali nos pusemos a chicarar e neste tempo divisei que sobre a sua mala levava aquele capacete. Pedi-lhe mo emprestasse, o que ele, ao princípio, recusou. Mas como eu lhe pagava o vinho, e este era daquele de conciliar amigos, com a condição de lho restituir mo emprestou por uma hora.

 

FIORINA – Por uma hora só?

 

CLELIETA – Como poderei pintá-lo à luz de uma vela? As cores não se podem ver próprias de noite.

 

FIORINA – Pois amanhã as emendareis.

 

CLELIETA – Não dizes mal. Vamos continuá-lo.

 

BERTO – Oh, quanta vontade tenho de vos ver pintar!

 

FIORINA – E tu podes ajudá-la.

 

BERTO – Olá, com muito gosto (1).

 

CLELIETA – Espera, que fazes? Deixa-te de tal (2).

 

FIORINA – Coitado! Deixai-o servir de modelo.

 

CLELIETA – Dizes bem.

 

BERTO – De modelo? Então que hei-de eu fazer para servir de modelo?

 

 

 

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(1) Vai pegar em um pincel; (2) Tira-lhe o pincel.


FIORINA – Agora o verás. Pega neste cavalete. Devagar, olha a guitarra de teu amo (1).

 

BERTO – Oh! Isto lá que importa?

 

FIORINA – Está bem. Põe-te assim direito para seres um galante, belo e perfetíssimo modelo (2).

 

                FIORINA

 

Berto, olá!

 

                BERTO

 

                     Estou pronto.

 

                FIORINA

 

                                            Olá.

olahr fero e fonte altiva.

 

                BERTO

 

Olhar fero! Assim?

 

                FIORINA

 

                                  Vai bem.

 

                AS DUAS

 

Já parece um general.

 

                BERTO

 

Isso é pouco, eu mais mereço

me fazei sequer Marechal.

 

                FIORINA

 

Menos bulha, ó capitão.

Estar direito e firme. Olá!

 

                CLELIETA

 

Guia, Amor, o meu pincel

grata esta alma te será.

 

                BERTO

 

Aqui estou qual torreão

que na guerra armado está.

 

                FIORINA

 

Volta mais essa cabeça.

 

                BERTO

 

Assim?

 

 

 

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(1) Ele ajuda a trazer o cavalete para defronte da Clelieta; (2) Fiorina lhe põe o capacete na cabeça, o põe em atitude e Clelieta vai preparando na palheta as tintas.


                FIORINA

 

             Belo.

 

                BERTO

 

                            Assim?

 

                FIORINA

 

                                          Bem está

mas não bulas c’o pescoço.

 

                BERTO

 

Mas se já me dói este osso.

 

                FIORINA

 

O modelo onde se firma

sempre imóvel deve estar.

 

                BERTO

 

Ao pé d’olhos femininos

ninguém pode sossegar.

 

                AS DUAS

 

Bravo, bravo, belo, belo

és um ótimo modelo

podes ir jádescansar

 

                BERTO

 

Se o reatrato está tão belo

estimai um tal modelo

e podeis sempre pintar.

 

CLELIETA – Tenho enfim concluído, podes retirar-te.

 

BERTO – Ora ouvi: se quereis um modelo que nunca bula consigo deveis mandá-lo fazer de pedra (1).

 

FIORINA – Sinto rumor na rua. Vai-te, vai-te.

 

BERTO – Se não tendes mais pr[ec]isão do capacete, quero dá-lo a quem mo emprestou.

 

CLELIETA – Sim, toma (2).

 

 

 

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(1) Tira o capacete e o põe sobre a mesa; (2) Dá-lhe dinheiro e ele pega no capacete.

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