Sumário
Folheto do bailado Vénus e Adónis (1790)
Ano
1790
Localização

Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc.588); Biblioteca Nacional de Portugal (F.R. 737; RES.6237//1 P.).

Impresso
Lisboa, Oficina de José de Aquino Bulhões 1790

Programa da dança intitulada Vénus e Adónis. Invenção e direcção de António Chianfaneli, para se dançar no Teatro do Salitre.

 

Lisboa, na Oficina de José de Aquino Bulhões.

Ano 1790.

Com a licença da Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros

 


 

Personagens

Vénus. Philipe Cezarinho.

 

Adónis. José Benvenute.

 

Marte. António Chianfaneli.

 

Cupido, as três Graças, Génios de Amor.

 

Caçadores e Caçadoras.

 


 

Programa

 

Lugar delicioso na ilha de Chipre, junto à praia do mar. De um ladoalta montanha, praticavel, e coberta de verdura, da outra parte o palácio de Adónis.

 

Adónis precedido dos seus caçadores, encontrando-se com os insulanos, ordena a todosque dêm princípio ao venatório exercício. A este mesmo

 


 

tempo concorrem as caçadoras, e dando sinais de que estão prontas a cumprir as suas leis, formam para alegrá-lo e diverti-lo uma virtuosa e concertada dança. Na qual também Adónis com os seus caçadores entram a dançar. Eis que logo logo são suspendidos com os clamores de venatórios instrumentos, e se dividem todos, indo findicar o motivo deste clamor. Adónis volta a cena e as caçadoras feridas de amor por ele o circundão a fim de entrete-lo. Seguido dos caçadores, e insulanos, se vê fugir um servo, que eles pretendem ferir, mas só de Adónis a seta o prostra em terra morto. A destreza de Adonis é por todos aplaudida, e para melhor manifestarem  o seu júbilo,

 


 

traçam outra pequena dança. Adónis suspende e lhes manda que se retirem. Assim o cuprem. Ele ficando só se encosta à praia para melhor gozar a branda viração com que favónio respira, e ali mesmo adormece.

 

Aparece Vénus acompanhada de Cúpido, e das três Graças, e dos Génios amorosos, em uma concha surcando as águas, e chegando à praia, desembarcam todos. E apenas pisam a terra e começºao a dançar.

 

Vénus, ao passo que se entretem brincando com o filho, fere a mão na flexa de ouro, que tem o dom de introduzir

 


 

mas sabendo da mesma, que ela se prendeu em doces amorosos laços com Adónis, lhe rendem prostrados a devida homenagem.

Em recompensa desta submissão, a deusa lhes promete o seu favor. Ele lhe formam um trono de flores. Sobre ele colocada a deusa com o seu amado, ordena dança do prazer em que ela não se esquiva entrar com o seu Adónis. Repentino estrépito põem tudo em confusão. Vénus avista Marte, que sobre um carro rodando pelo cume do monte, nele para para descer ao plano. Vénus aflita com a presença do deus, procura esconder Adónis mas não se lembra do modo. Ora o recomenda às Graças, ora aos amores, e ora aos insulanos, finalmente o

 


 

entrega aos caçadores, para  que consigo conduzão a outro lugar. Os Insulanos os seguem juntamente com os Amores. Vénus se deixa ficar com as três Graças, em cuja presença recebe o belicoso Nume. Este sendo recebido pela deusa, (ainda não restabelecida) com displicência, lhe pergunta a causa de tão indiferente acolhimento.

As Graças porém buscão com a sua meiga docilidade distrair Marte. Tiram-lhe as armas, penduram-nas num tronco, e com grinaldas adornam o severo deus, dando com esta máxima tempo a que Vénus se restitua da pesada aflicção. A deusa com fingidos agrados, e zelosas suspeitas procura iludir a Marte, e o consegue,

 


 

ficando ele capacitado das suas ardilosas lisonjas. Adónisporém impaciente por ver a sua amada, fugindo aos caçadores, vem a encontrar-se com este desconhecido, e formidável rival, contra quem intenta vinganças, e vendo as armas pendentes do trono, com astúcia pretende ganhá-las  . Vénus observa, e admira a sua incauta temeridade, o embaraça e repreende. Mas em vão, pois Adónis que interpreta esta diligência em abono do seu rival, se torna mais furioso, persistindo no empenho de acometê-lo. Marte a quem as Graças destramente divertiam, para que observasse  o que entre os dois amantes se tratava, se desvia delas voltando-se para a deusa, a qual prontamente o

 


 

 atende, deixando Adónis entregue às Graças, as quais prendendo-o com festões de flores, o conduzem com custo a outra parte.

O som de guerreiras trombetas que ao longe se escuta, obriga a Marte a que abandone imediatamente a deusa. Ela se finge assaltada de uma amorosa aflicção, queixando-se amargamente do pouco afecto com que Marte a deixa por seguir as armas. O crédulo Nume se desculpa, e procura as suas armas, as quais por mando de Vénus as Graças lhe entregam. E com as enganadoras demonstrações de amor que a deusa lhe afigura, o Nume se retira satisfeito e gostoso.

Vénus manda chamar o seu Adónis, o qual vem acompanhado

 


 

dos caçadores, e dos nsulanos. Apenas ele chega, Vénus lhe diz que são erradas as suspeitas zelozas que o assassinam, e por efeito so seu júbilo formam uma agradável dança. Marte voltando de improvizo, surpreende a deusa entre os braços do seu amado objecto. Furioso arremeça contra o mancebo rival, querendo matálo. Em vão todos pretendem suspender-lhe o furor. Debalde  Vénus ministra astuta as lisongeiras artes de enganosa carícia entrepondo-se a defender o seu amante, pois Marte com desapiedado golpe tira a vida ao desgraçado do mancebo, e se retira deixando a todos horrorizados. Com este trágico espetáculo a deusa horrorizada pretende contra si mesma conspirar-se,

 


 

a não ser suspendida pelas Graças. Arremeça-se sobre o exangue, e semivivo corpo de seu amado, e sobre ele espalha  copioso pranto. E ele se muda numa flor chamada anémola. Cupido com ar risonho se deixa ver, mostrando como se apraz  dever a Mãe aflita. Todos a ele correm, rogando-lhe  venha consolar a triste deusa. Ele se avizinha, porém ela de si o aparta, e lhe chama cruel, e inhumano.

Chora inconsulável, e o cristal de suas lágrimas chega em fim a enternecer o filho. O qual a um aceno faz com que a ilha se mude em seu templo, onde aparece Vénus e Adónis adornado de flores entre as Graças, e Génios amorosos. Vénus corre alegre a abraçar o doce

 


 

objecto: os dois amantes mutuamente dão sinais de excessivo contentamento, outra vez prometendo um ao outro puro amor inextinguível. Todos os mais transportados de júbilo, dando sinais de alegria, principiam a dança.

 

Fim

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