Sumário
Folheto do bailado Os dois irmãos Militares (1791)
Ano
1791
Localização

Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc.588)

Comentário
O exemplar da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc.588) encontra-se falho de rosto
Impresso
Lisboa, na oficina de Simão Tedeu Ferreira, 1791

 

Ao Respeitável Público de Lisboa.

Carlos Bencini

 

Quando vou expor as minhas fadigas aos amáveis senhores portugueses, bem que até aqui não aparece sobre  cena com vantagem minha, como desejava, confesso ser-lhes muito obrigado pelos duplicados motivos de gratidão, e de justiça, por me terem tolerado com uma universal paciência. Nasce o primeiro daquele sincero afecto de reconhecimento, que devo à sua afabilidade. Deriva-se o segundo do merecimento de uma nação oculta, e sensível, cujo gosto, e delicadeza não se satisfaz com os vulgares espetáculos. Por isso elegi os argumento dos dois Irmãos Militares, escolhendo aquelas acções teatrais, que possam preencher o desejo de cumprir obrigações, que tenho contraído. Na esperança pois de um benigno acolhimento me

 


 

entrego inteiramente ao afecto deste generoso público, cuja índole dócil me promete o mais favorável êxito.

 


 

Argumento.

 

Foram desde a tenra infância José e Luís aplicados ao exército das armas por seu pai José Plekovitz, infundindo-lhes aquele valor, e intrepidez, com que um animoso soldado deve fielmente servir o seu soberano. Para maiormente costumar os ditos filhos à glória, e fazer-lhes conhecer o temor do seu inimigo, os conduzia consigo ao campo, aonde em um ataque foram pelos contrários de tal forma derrotados, que os que escaparam com vida, se viram constrangidos a fugir, como sucedeu ao dito José Plekovitz, que então ocupava o posto  de major, ficando privado dos seus amados filhos, que amargamente chorou por muito tempo. Estes vendo-se sem o pai, que já consideravam morto, foram aprisionados pelo inimigo, e alistados em um tambor, e o outro em pífaro. Mas chegados ao uso da razão tentaram,  desertar, e o conseguiram , vagando por muitos reinos. Chegados à idade um de vinte anos, o outro de vinte e dois, assentaram praça em um regimento do império austríaco, aonde o seu pai já muito avançado em anos tinha passado tinha passado ao posto de general. Serviam estes irmãos sem conhecer o dito seu pai, nem este a seus filhos. José por motivos de amor desertou uma noite, em que estava de sentinela à barraca do coronel. Foi logo preso, e condenado a ser

 


 

arcabuzeado, porém o general enchendo-se de compaixão por aquele miserável, quis que vivesse, ao que muito se opunha o bárbaro coronel Loivizck, chegando ele mesmo a sair do campo, e a ir pessoalmente informar o imperador, do qual obteve ordem por escrito para que fosse punido com pena de morte. Quando o general recebeu esta ordem, tinha já reconhecido o seu amado filho por um sinal, que desde a sua infância conservava no peito, e por isso lhe foi mui sensível a notícia, pois se via dele privado logo que o chegara a conhecer. A tal ordem correu precipitadamente Luís a implorar a graça de o sacrificarem à morte para salvar a vida ao seu querido irmão, mas o bárbaro coronel inexorável praticou a crueldade de querer que Luís fosse quem arcabuzeasse seu próprio irmão. O pai preocupado dos sentimentos de uma grande paixão recorreu ao imperador, dizendo-lhe que tinha descoberto ser o delinquente seu filho, em favor do qual pedia piedade, cuja graça obteve. No acto que conduziam o miserável José à morte, chega correndo arrebatadamente Sílvia e logo um correio trazendo dois papéis , um com o perdão do soberano, que encheu de consolação  o pai, e livrou o filho, e o outro com ordem para ser preso o coronel, desautorizado, e privado de insígnias militares, pelas barbaridades, que praticava, sendo muito considerável a de querer que Luís fosse quem arcabuzeasse o próprio irmão.

 


 

Personagens.

O General José Plekovitz, pai não conhecido.

Senhor Luís Chiaveri.

 

José e Luís, soldados rasos, filhos desconhecidos.

Senhor Carlos Bencini.

Senhor Francisco Citterio.

 

O coronel Rodrigo Loivizck, homem severo e bárbaro, aborrecido de toda a tropa.

Senhor José Prússia.

 

O cabo de esquadra.

Senhor Pedro Bedotti.

 

 Silvia, amante, e prometida esposa de José.

Senhor João Bianciardi.

 

Isabel, amante de Luís.

Senhor Luís Belluci.

 

O pai de Sílvia, rico feitor.

Senhor Luís Secchioni.

 

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