Sumário
Folheto da tragédia Megara (1767)
Ano
1767
Localização
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc. 583); Biblioteca Nacional de Lisboa (L. 5586 P.; L. 45740 P. = F. 7882)
Comentário
Contém a Dissertação sobre a tragédia (I-XCI).
Impresso
Lisboa, na Oficina Patriarcal, 1767

Megara, tragédia, que o mais respeitoso obséquio e inalterável agradecimento consagra à ilustríssima e excelentíssima senhora Condessa de Oeiras.

 

Lisboa, na Oficina Patriarcal, 1767.

 

Com as licenças necessárias.

 

Vende-se na loja de Jorge Rei e Companhia ao Poço Novo.

 


 

 Ilustríssima e excelentíssima senhora,

 

Fôra em mim temeridade o adornar este drama com o respeitado nome de vossa excelência, se uma das mais singulares virtudes não fosse quem me incitasse a atender menos à modéstia e grandeza de vossa excelência que à memória de tantas graças e de tantos benefícios que à benignidade de vossa excelência sou devedor. Permita-me, pois, excelentíssima senhora,  que me atreva a oferecer a vossa excelência a tragédia Megara, como público monumento do meu devido agradecimento.  Que importara que a alma sentisse os afectos da gratidão, se não pudesse eternizá-los?


Se o público conseguir alguma utilidade com o meu trabalho, se a obra que dou à luz merecer algum aplauso, completos ficarão meus votos, porque assim transmitirei o meu reconhecimento à posteridade mais remota.

Amparar o perseguido, beneficiar o benemérito, patrocinar o desvalido é a origem mais pura da verdadeira glória, a única digna de vossa excelência, a que mais poderosamente move seu coração benigno, a virtude entre as muitas que em vossa excelência resplandecem que mais realça a sua alma nobre. É bem verdade que esta admirável virtude é hereditária na ilustre casa de vossa excelência e em seu sangue a vincularam seus preclaros ascendentes. Tréveris o publica; Tréveris que tem a honra de nomear os esclarecidos progenitores de vossa excelência, entre os filhos excelsos que a imortalizam. Quantos heróis, quantos varões famosos contam seus Anais até o ano de 1188, em que a família de vossa excelência passou para os estados do imperador! Cena mais magnífica se abre desde então aos olhos do mundo admirado. No ano de 1247 se distingue entre os bispos de Vormes pelas suas virtudes, pelo seu talento, pelo zelo de pastor, que lhe inflamava a alma santa, pela ternura de pai, que lhe alentava o terno peito, um prelado venerável da preclaríssima casa de vossa excelência. O imperador Fernando III, concedendo em 1547

 


 

aos ilustres ascendentes de vossa excelência a preeminência de Condes de Sacro Império, julgou a recompensa inferior a tantos serviços, o que testifica quanto eram distintos e quantos relevantes.

Se os reis se não achassem muitas vezes na impossibilidade de remunerar os vassalos pela importância dos serviços, que prémios não tivera alcançado o pai de vossa excelência, que em 1729 morreu General da Infantaria, havendo sido nomeado Governador de Praga e do reino de Boémia? Postos que não deveu ao seu nascimento, sim adquiriu por insignes acções, egrégios efeitos.

Quantos varões compõem o tronco da respeitável família de vossa excelência, tantos aclama heróis a fama, a virtude, a posteridade. Indague-se a vida, examinem-se as acções de Virichio Filipe Lourenço, conde de Daun, tio de vossa excelência, e ver-se-á que os franceses, contra quem defendeu Turim, admirados do seu valor, constância e heroicidade, o compararam aos mais famosos generais antigos e modernos, que nas palestras de Belona se ilustraram. General em chefe do exército, que na Itália militava em 1708, mostrou a perspicácia mais subtil, o segredo mais impenetrável, a prudência mais madura, a actividade mais solícita, os planos mais sabiamente combinados, as marchas mais judiciosamente ordenadas, intrépido no combate,

 


pronto a resolver-se nas ocasiões perigosas, previsto nos conselhos, acautelado nos lances delicados. O imperador Carlos III lhe concedeu a honra de Grande de Espanha, unida à do Tosão de Ouro, e com o marquesado de Trivoli, o principado de Teano; e como tão raros serviços pediam maior demonstração do beneplácito do príncipe, em 1713, foi nomeado, com geral aplauso, vice-rei de Nápoles, e em 1725 general, governador do milanês, e depois conselheiro íntimo, gentil homem da câmara, marechal general da artilharia e comandante de Viena.

Que direi do grande, do imortal Leopoldo José Maria, conde de Daun? O valor de Alexandre, a prudência de Fábio, a sobriedade de Cipião, a astúcia de Aníbal, a felicidade de César, a sabedoria de Germânico, a bondade de Trajano constituíam o carácter deste general famoso, que a antiguidade aclamara igual ao mesmo Marte e que o século presente reconhece por mestre entre os mestres. Mais dissera, excelentíssima senhora, se vossa excelência, tão cuidadosa em evitar os elogios devidos às suas virtudes, à nobreza de seus gloriosos ascendentes, não atalhasse com os rogos da sua modéstia, o elevado voo a que me fizera remontar a verdade. Obediente, suspendo, para com a minha respeitosa submissão continuar a fazer-me digno do alto patrocínio de vossa excelência e merecer da

 


sua benignidade a licença de escrever no frontispício deste drama o nome ilustre de tão grande protectora. Se o fraco talento nada produziu nesta obra digno da atenção de vossa excelência e da aceitação do público, como somente serviu mal os afectos que me inspiram, sem alterar a pureza deles, desampare, excelentíssima senhora, desampare a obra, entregue-a ao desprezo e ao esquecimento; mas digne-se admitir e aceitar o motivo da oferta, o zelo ardente, a gratidão inviolável e o profundo respeito com que admiro tantas virtudes, tão raras qualidades, tão excelentes predicados como os que constituem a grande alma de vossa excelência, pois, enquanto a vital aura animar meu espírito, viverá indelével em meu peito a lembrança do patrocínio com que vossa excelência, tão benigna e ansiosa, me amparou. E se não baste a vida para mostrar-me agradecido, em meus escritos viverão eternos os infinitos favores de que vossa excelência me tem cheio com mão tão pródiga. Deus guarde a vossa excelência por dilatados anos para ser protectora dos desvalidos e amparo dos beneméritos.

 

Ilustríssima e excelentíssima senhora,

beija as mãos de vossa excelência

o mais humilde e reverente criado,

 

 Miguel Tibério Pedegache Brandão Ivo

 

 


 

Ao leitor

 

No ano de 1761, compusemos a tragédia de Megara, o senhor Domingos dos Reis Quita e eu, e no ano seguinte começámos a imprimi-la. Declarando-se a guerra e marchando eu para a campanha com o meu regimento, suspendeu-se a impressão, que em 1764 tornou a renovar-se. Novo incidente embaraçando segunda vez o continuá-la, totalmente ficámos desgostosos; e, certamente, nunca tivera visto a luz, se a memória dos favores e patrocínio que devo à ilustríssima e excelentíssima senhora condessa de Oeiras, debaixo de cujos auspícios hoje aparece, me não incitara a publicar esta obra, que ilustrei com um dicurso sobre as regras e pontos mais delicados deste género de poema, para servir de monumento público do meu inalterável agradecimento. Nome tão venerando como o que adorna o frontispício desta obra nos segura o aplauso e a geral aceitação.

 

 


 Licenças

 

Do Santo Ofício

Vista a informação pode-se imprimir a obra de que se trata, e depois voltará conferida para se dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa, 9 de Novembro de 1762.

 

Melo           Lima

 

Do Ordinário

Vista a informação pode-se imprimir o papel de que trata

a petição e, depois de impresso e conferido, torne. Lisboa, 21 de Março de 1763.

 

D. J. A. de L.

 

 


 

Do Desembargo do Paço

Que se possa imprimir vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário, e depois de impressa tornará à Mesa conferida para se dar licença de poder correr, e sem ela não correrá. Lisboa, 12 de Abril de 1764.

 

Fonseca                Pacheco               Castro

 


 

 Megara tragédia

Argumento

Pela morte de Eteocle e Polinice, vago o trono de Tebas, veio a cair o ceptro na mão de Creonte, que, já depois da morte de Laio, o havia empunhado. De unânime consentimento de todo o povo foi elevado segunda vez ao solio. Para melhor o segurar, desposou sua filha Megara com Hércules. Este herói, submetido pela ciosa paixão de Juno a Euristeu, rei de Mecenas, depois de muitas e arriscadíssimas aventuras, desceu aos infernos para tirar deles a Teseu, que, por uma temeridade, ali se achava encarcerado. Como por este motivo não aparecesse largo tempo, correu a falsa voz de ser falecido. Lico, descendente de um príncipe do mesmo nome, que reinara em Tebas, aonde fora assassinado, urdiu, fazendo-se cabeça de alguns descontentes, uma conspiração para depor, como depôs, do trono a Creonte, que

 


reduziu a uma afrontosa captura, carregando-o de ferros e dando a morte aos irmãos de Megara.

A presumida viúva de Hércules, vendo-se, com seus filhos, sujeita à discrição de um tirano, buscou por asilo o altar de Júpiter, que o mesmo Hércules em outro tempo erigira no vestíbulo do seu palácio. Neste altar, que, entre os gregos, era um inviolável sagrado, não cessava a aflitíssima rainha de implorar a favor de seus filhos o auxílio dos deuses, penetrada sempre do susto e terror, que lhe infundiam os excessos e crueldades do tirano, de cuja impiedade temia ser com seus mesmos filhos desgraçada vítima. Não havia objecto que deixasse de lastimar esta infeliz princesa. Ela ignorava o destino de Creonte, que não podia deixar de presumir funesto; ela havia presenciado a morte de seus irmãos; a larga ausência de Hércules lho persuadia morto; a indiferença que não havia merecido aos tebanos lhe causava um não vulgar sentimento; via-se destituída dos meios para a sua conservação e padecia um inexplicável tormento em ver-se entre tantos males acompanhada de seus tenros filhos. Ainda aqui não parava a sua desgraça, porque Lico, que não havia podido subjugar inteiramente

 


 

aos tebanos, para ocupar o trono que usurpava, à força pretendia que Megara lhe desse a mão de esposa. Cuidou muito em suavizar com todas as cores do artifício uma tão horrível e odiosa proposição. Como tal a ouviu, e acremente rejeitou Megara. Lico nem por isso se irritou, dissimulando, assim, o seu ânimo fraudulento. Para serenar, de algum modo, a paixão da rainha, lhe restituiu a companhia de seu pai, a fim que este a persuadisse a dar assenso à sua pretensão, franqueando-lhe a assistência no paço de Hércules, que até então estivera fechado, para que a lembrança das passadas grandezas a movesse a contrair segundas núpcias. Creonte e Megara, bem longe de atender aos intentos do tirano, mutuamente se animavam a morrer; e, porque Creonte se achava desarmado, Megara lhe deu um punhal, declarando-lhe que reservava outro para matar-se, logo que se visse destituída da esperança de conservar a vida a seus filhos. Irritado Lico da resistência de Megara, a ameaçava se ela dentro de um breve termo não condescendia com os seus desejos de puni-la com uma morte atrocíssima. Nestes termos, Creonte e Megara, inteiramente deliberados a executar seu premeditado desígnio, ornaram os pequenos

 


 

 filhos de Hércules de insígnias funerais como vítimas já destinadas à morte. No instante, porém, que parecia o mais desesperado, apareceu Hércules de improviso. Megara lhe referiu a catástrofe a que toda a sua família se achava reduzida, as dissensões de Tebas, as revoluções suscitadas por Lico, a morte de seus irmãos; e toda a série de desgraças, que ela, seu pai, seus filhos e seus irmãos haviam padecido. Hércules, ainda que ignorava o miserável estado da sua casa, suspenso pelo presságio de uma ave de mau agouro, que lhe vaticinava algum sinistro acontecimento, havia entrado ocultamente em Tebas. Cheio de indignação e impaciência, arrancou da cabeça de seus filhos as vendas e insígnias da morte e entrou logo a cuidar na sua vingança. Mas não podendo deixar de atender às persuasivas lágrimas da cara esposa e aos prudentes conselhos de Creonte, atravessou o Ismeno a ajuntar-se com Teseu, que o esperava na frente de algumas tropas de gente escolhida. Entretanto, Lico, sabendo que Hércules havia escapado de muitas ciladas, que lhe havia urdido para ser assassinado, e que naquela noite estivera em Tebas; que Teseu parava armado da outra parte do Ismeno; e que os tebanos

 


 

se resolviam a abraçar o partido de Hércules, entrou a aparelhar-se para defender-se. Juno, porém, sempre implacável contra Hércules, levantou uma furiosa tempestade. Agitadas as ondas do Ismeno, foi a pique e se fez em pedaços a embarcação, que transportava Hércules. Com os fragmentos do mesmo batel, sairam na praia com a sua clava a pele do leão que Hércules trazia. Lico, não podendo sossegar, por não aparecer o cadáver de Alcides, ordenou aos seus parciais que se fizessem todas as possíveis diligências para achar o corpo de Hércules e que se dispusessem para a batalha, caso de Teseu intentar o ataque de Tebas; e, persuadido de Hércules haver perecido à violência da tempestade, entrou a fazer as maiores instâncias com Megara para se efectuarem, ou por força ou por vontade, os seus pretendidos desposórios. Aliás, se deliberava a sacrificar inteiramente uma família, que sem aversão e remorso não podia ver diante de si, porque nunca o deixaria lograr-se tranquilamente da coroa que tanto lhe havia custado a cingir. Megara e Creonte, que ignoravam o naufrágio de Hércules, não só trataram a Lico com sumo desprezo senão que o ameaçaram com a vinda de seu vingador,

  


 

 

que não podia já tardar em desagravá-los de tantas opressões e injúrias. Cheio Lico de impaciência, lhe mostrou as insígnias que o Ismeno deitara nas suas ribeiras e lhes anunciou, com as mais violentas expressões que pôde excogitar a sua paixão, a morte de Hércules; e, vendo que nem por isso dobrava a inflexível constância de Megara, que antes, ao contrário, mais se reforçava no seu propósito, deu ordem aos soldados para que à sua vista e de seu pai tirassem cruelmente a vida aos tenros penhores do tálamo de Hércules. Megara, que até este ponto não havia degenerado de uma inteira e real grandeza de ânimo, digna verdadeiramente do heroísmo, não podendo ver uma cena tão ímpia, se deitou aos pés do tirano e, abraçando-o pelos joelhos, implorava a sua clemência. Não quis Lico ouvir semelhantes instâncias, vangloriando-se de haver triunfado, quando já vinha fora de tempo, da sua altivez, e já mandava executar quanto antes o suplício daqueles inocentes meninos. Hércules, que havia escapado do naufrágio, passando a nado o Ismeno, tornou a atravessá-lo na frente das suas tropas, com que entrou a bloquear Tebas, cujas portas lhe foram logo abertas pelo partido da sua facção.

 

 


Lico, que não esperava este fatal contratempo, se pôs com toda a brevidade na defensiva; desfavorecida, porém, da fortuna e castigada do céu a sua tirania, ficou desbaratado. Na desesperação em que se viu, fez apreensão na família de Hércules constituindo-se árbitro da sua subsistência, e fez-lhe saber por Creonte que, se não depunha as armas e recusava entregar-se em seu poder, que seriam sacrifício da sua vingança sua esposa e seus filhos. Hércules, já vitorioso, correu a seu palácio a libertar a sua família. Achou-a, porém, em poder do tirano, que, não obstante, o estar vencido, não cessava de repetir instantemente  os seus ameaços. Não acabava Hércules de determinar-se, por mais que Megara se oferecia espontaneamente à morte pela liberdade e redenção da pátria. Lico apertava mais e mais com as suas instâncias, que, se não fossem ouvidas, seriam vingadas com o sangue da esposa e dos filhos de Hércules. Este vacilava no partido que devia tomar, o concurso do povo se achava em uma extrema consternação, vendo os vivas da vitória interrompidos de um tão crítico acidente. Finalmente, Megara desatou o nó desta dificuldade, porque, animada da vista de seu esposo e atenta a conservar a vida de

 


seus amados filhos, aquele mesmo punhal que ela prevenira para matar-se por suas mãos, para subtrair-se às violências do tirano, ao mesmo tempo em que este alça o braço para sacrificá-la ao rigor dos fios de uma espada, ela lhe passa o peito a punhaladas. Cai morto o tirano, fogem os seus parciais, tem termo o perigo e a tranquilidade se estabelece.

 


 

 

Actores:

Creonte, rei de Tebas

Megara, filha de Creonte e esposa de Alcides

Alcides

Terímaco}

Creoncides} filhos de Megara e de Alcides

Deiconte}

Lico, usurpador do trono de Tebas

Forbas, ministro de Lico

Ormidas, tebano rebelado

Coro de sacerdotes de Júpiter

Soldados

 

A cena representa o vestíbulo do palácio de Hércules e no fundo se vê o altar que ele havia consagrado a Júpiter.

 

 

 

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