- Sumário
- Folheto da ópera Aquiles em Ciro (1755)
- Ano
- 1755
- Localização
- Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc. 608; 582);Sala Jorge de Faria (JF 19-1-76)
- Comentário
- O folheto destina-se a integrar o o tomo I colectânea Teatro Dramático ou Colecção das Óperas de Metastásio
- Impresso
Lisboa, na oficina Patriarcal de Francisco Luís Ameno, lisboa, 1755
Aquiles em Ciro
Ópera composta em Italiano por Pedro Metastásio, Poeta Cesário
E traduzida em português para se representar na Casa do Teatro Público do Bairro Alto
Lisboa na Oficina Patriarcal de Francisco Luís Ameno
Ano 1755
Com todas as licenças necessárias
Argumento
Ninguém ignora, que desejosos de vingar com a destruição de Tróia a universal injúria, que sofrerão no roubo de Helena, uniram todas as forças as suas forças os príncipes da Grécia.
Em quanto a formidável armada se preparava, começou-se a espalhar pelos soldados a profecia de que jamais seria destruída aquela cidade, se não se levasse a ela o mancebo Aquiles, filho de Tétis, e Peleo. Esta credibilidade foi lentamente fazendo tal impressão no anónimo dos supersticiosos guerreiros, que com afronta dos seus capitães resolutamente protestavam de não partir sem Aquiles. Soube-o Tétis, e temendo que perigasse o filho, se fosse conduzido à guerra, resolveu ocultá-lo à diligência dos gregos. Partiu por esta causa para Tessália, onde se educava Aquiles, ouvindo a doutrina do antigo Chirone, e trazendo-o consigo o vestiu ocultamente em hábito de mulher, entregou-o a um criado, mandando-lhe que o conduzisse para a ilha de para ilha de Ciro, corte de Licomedes, e que aí com o fingido nome de Pirra tivesse cuidado dele, como sua própria filha.
Executou o astuto criado exactamente esta ordem, partiu com todo o empenho para Ciro, mudou para ser desconhecido, o próprio no-
Me em Nearco, e com destreza se introduziu naquela corte, que em breve tempo conseguiram ambos honrosos lugares, ele entre os ministros do rei, e a fingida Pirra entre as criadas da princesa Deidamia, filha de Licomedes. Com disfarce de vestidos, podendo Aquiles admirar mais de perto as inumeráveis perfeições da formosa Deidamia, se lhe afeiçoou logo, e descobrindo-lhe o afecto, achou correspondência e se acenderão ambos em um recíproco, e ardentíssimo amor. Tudo isto viu por muito tempo o vigilante Nearco, e devendo apor-se, e atalhar aqueles novos afectos, usou todas as artes para fomentar , prometendo-se na amante princesa um socorro para refrear as impaciências de Aquiles, o qual não sabendo reprimir os ferozes ímpetos da sua belicosa índole, desprezava, e tinha por prisões insofríveis os melhores ornatos, e ao luzir de uma espada, ao soar de uma trombeta, ou somente ao ouvir falar desta matéria, já todo fora de si ameaçava descobrir-se, e sem dúvida o faria, se Dedamia solicita, temeria de o perder, o não procurasse moderar. Enquanto este cuidado lhe causava tanta pena, soube-se na armada dos gregos, onde, e em que traje se escondia Aquiles. Determinaram estes mandar a Licomedes um embaixador sagaz,
o qual com o pretexto de pedir em seu nome soldados, e navios para o cerco de Tróia, se informasse se ali estava Aquiles, e o conduzisse consigo sem falta alguma. Foi destinado Ulisses, como o mais destro de todos, para pôr em prática tão arriscada comissão. Partiu e aportou nas praias de Ciro, no mesmo dia, em que naquele lugar se celebravam as festas de Baco.
A sorte lhe ofereceu no primeiro encontro indícios bastantes para dirigir os seus intentos. Valeu-se deles, suspeitou, que em Pirra se disfarçava Aquiles, e usou de provas para maior segurança, procurou ocasião para lhe falar, não obstante a grande vigilância de Nearco, e Deidamia. E empenhando toda a sua artificiosa eloquência, o persuadiu a partir. Teve notícia a princesa desta resolução, correu a impedi-la, por cuja causa se achou Aquiles acometido de cruelíssimas angústias entre Deidamia, e Ulisses, Valia-se um dos mais penetrantes estímulos da glória para o levar consigo, fervia-se a outra das ternuras mais eficazes do amor para não apartar de si. E assaltado Aquiles no mesmo tempo de duas tão violentas paixões. Flutuava irresoluto no tormento combate. Mas o prudente rei os compôs, o qual informado nos tumultos do que tinha sucedido, deu a Ulisses o herói, que pedia, conce-
deu a real princesa aos empenhos de Aquiles e prescrevendo-lhe com que prudente variedade de sucessos se deviam prosperar entre os seus amantes desvelos, guerreiras fadigas, introduz concordes no seu combatido ânimo, amor, e a glória.
Tratarão esta acção quase todos os antigos e modernos poetas, porém discordes entre finas circunstâncias. Nós, sem nos inclinarmos mais uns que outros, tirámos de cada um o que melhor nos pareceu para a contextura da nossa fábula.
O lugar da acção é a corte de Licomedes na ilha de Ciro.
Pessoas
Licomedes, Rei de Ciro.
Aquiles, Em hábito de mulher, com nome de PIrra, amante de Deidamia.
Deidamia, filha de Licomedes, amante de Aquiles.
Ulisses, embaixador dos gregos.
Theagenes, príncipe de Negroponte, destinado esposo de Deidamia.
Nearco, aio de Aquiles
Arcade, criado de Ulisses
Coro de ninfas bacantes
Coro de músicos