- Sumário
- Folheto da comédia Tartufo, ou O Hipócrita (1768)
- Ano
- 1768
- Localização
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Misc.585)
- Impresso
Lisboa, na oficina de José da Silva Nazaré, 1768
Tartufo, ou o Hipócrita
Comédia do Senhor Molière,
Traduzida em vulgar pelo Capitão Manuel de Sousa,
Para se representar no Teatro do Bairro Alto
Lisboa , na Oficina de José da Silva Nazaré
Ano de 1768
Com licença da Real Mesa Censória
Advertência
Não era nossa intenção pôr o nosso nome nesta comédia, pois não caprichamos de tão pouco. Como, porém, ela apareceu nas mãos de alguns sujeitos com algumas emendas, sem estas serem a rogo nosso, nem moldarem com o nosso gosto, quisemos, em obséquio da verdade, pô-la a público tal qual nós a escrevemos, esperando que este lhe fará aquele acolhimento que tem feito a outras traduções nossas, o que trabalhamos por lhe não desmerecer. Fizemos, outrossim, algumas mudanças no contexto dela, mas
estas não desfiguraram a substância, antes dão maior viveza ao retrato. E como os primeiros estragadores da moral foram aqueles perversos, (só bem conhecidos quando desterrados, porque só então se desabafaram os ânimos que eles tinham sufocados) faz a primeira personagem um membro daquela companhia, porque nos pareceu bem que aqueles que imitam nas máximas e manhas ruins vejam de que fontes beberam tão maus costumes, e nos seus autores zombada a fraude, os momos, e hipocrisia, e comecem a saborear-se os seus frutos, e a provar d’ antemão o merecido castigo, que seus mestres já experimentaram.
Prefação
Eis uma comédia que deu tão grande brado, que foi tanto tempo perseguida, e onde bem deram a ver quanto mais poderosos eram na França os heróis, que nela são ridicularizados, que quantos até’li foram escarnecidos. Sofreram com boa sombra que os pusessem na cena, os fidalgos, as desvanecidas, os coitados, os médicos, demonstrando que se divertiam, de volta com toda a gente, em verem os seus
próprios retratos; mas os hipócritas não estiveram pela conta. Espinharam-se logo e acharam estranho que houvesse atrevido que mofasse das suas carantonhas, e quisesse desabonar um ofício, que dá tão bem de comer a tanta gente boa. Crime é este que eles não perdoam, e assim apelidaram-se todos contra a minha comédia com espantoso arruído. Não afectaram a bateria ao baluarte que lhes fazia fogo; são muito manhosos; sabem muito viver para caírem no erro de manifestarem o âmago das suas traições. Mascararam com o zelo da causa de Deus (segundo seu louvável costume) os seus interesses, e, na boca deles, Tartufo é uma farsa, que dá golpe na piedade; que dum a outro cabo está minada de abominações, e que não há nela pedaço, que não mereça queimado; que todas as sílabas são ímpias; que até os gestos dela são pecaminosos, e que não há mover d’ olhos, meneio de cabeça, nem passo que não encerre
mistério, e que eles não tivessem habilidade de interpretar em meu desabono. Nada valeu sujeitá-la eu à opinião dos meus amigos e à censura de todo o mundo. As emendas com que a corrigi, o conceito das Majestades que a viram, e aprovação dos grandes Príncipes e conspícuos Magistrados que a condecoraram publicamente com a sua presença, o abono de pessoas de honra que a avaliaram por útil, tudo isto não montou de nada. Não dobram, todavia, e põem do seu bando indiscretos zelosos, que a toda a hora atroam o público, que, a título de piedade, me dizem injúrias, e que, por amor proximal, me condenam.
Pouco me agoniaria eu com quanto eles podem dizer, se não fora a arte de me tornarem meus inimigos pessoas que eu respeito, e puxarem a si sujeitos de uma honra, cuja boa fé cativam com embustes, e pelo ardor que têm nas coisas da religião são fáceis de se lhe imprimir qualquer coisa
a este respeito. Isto o que obriga a defender-me. Com os verdadeiros devotos quero inteiramente justificar o proceder da minha comédia, e os obtesto, com toda a minha alma, a que nada condenem sem ver, e a descartarem-se de todos os pressupostos, e a não apoiarem o rancor daqueles cujos trejeitos os desabonam.
Quem tomar o cuidado de examinar sem paixão a minha comédia verá nela, sem dúvida, quanto inocentes são todas as minhas tenções, e que não pretendo de sorte alguma mofar do que é para respeitar-se, que eu tratei esta matéria com todas as cautelas e melindre que ela pede, que envidei o resto da arte, e todas as minhas posses e talento, para extremar o arremedo do hipócrita do retrato do verdadeiro devoto, para o que empreguei dois actos unicamente em preparos antes de aparecer o meu embaidor. O espectador nem só um instante vacila, conhece-o logo pelos finais que lhe dou, e do princípio
até o fim não diz palavra, não faz acção que não avive no conceito dos ouvintes o carácter de um mau homem, e não realce o retrato do verdadeiro homem honrado, que lhe ponho à cara.
Sei a resposta dos beatos, que é forcejarem por insinuar a todos, que não é o teatro lugar para se tratar estas matérias; mas deêm-me vénia a perguntar-lhes: Em que fundam esta bela máxima? Nesta proposição supõem, e não provam. Pois por certo que pouco trabalho me levaria provar-lhes que a comédia emanara da religião, e compunha parte dos seus mistérios; que os espanhóis, nossos vizinhos, não celebram festividades em que não haja comédia, e que ainda entre os franceses deve o seu nascimento à devoção de uma confraria, a quem pertence ainda hoje em dia o teatro, que apelidam l’ Hotel Bourgogne, casas que lhe foram dadas, para ali se fazerem Autos dos mais importantes mistérios da nossa fé, e onde se guardam
ainda comédias impressas em gótico com o nome de um doutor da Sorbona; e onde, sem ir mais longe, se representaram em nossos tempos os Autos Sacramentais de M. Corneille, que foram o assombro de toda a França.
Se é emprego da comédia desbastar pelos vícios dos homens, não sei que razão haja para haver vícios privilegiados. Este da hipócrisia é de mais perigosas consequências no estado que todos os outros, e nós bem temos visto que o teatro tem uma grande virtude para o sarar. Os mais gentis axiomas da ética sisuda não têm tanto poder, o mais das vezes, como os cortes da sátira, nada faz entrar em si os homens mais depressa que o retrato dos seus erros. Dá-se grande mate nos vícios, quando se oferecem às apupadas da gente. As repreensões sofrem-se, o motejo não: queremos ser maus, mas não zombados.
Exprobaram-me que pus na boca
do embusteiro frases devotas. E como posso conter-me quando quero afigurar o carácter de um hipócrita? Parece-me que sobra dar a conhecer o errado motivo porque ele assim fala, e que lhe haja aguarentado aquelas palavras, que, por sagradas, nos agoniaríamos ver empregadas em mau uso. Assim é que é muito perniciosa a moral, de que ele se vale quarto acto, mas não é esta a mesma moral, com que nos cansam a toda a hora os ouvidos? Diz ele alguma coisa de novo na minha comédia? E para temer que máximas tão geralmente abominadas calem pelos ânimos, ou que elas sejam perigosas, quando eu as ridiculizo num teatro, ou sejam de algum peso depois de sairem da boca de um embusteiro? Não é provável. Antes ou se há de abonar a comédia Tartufo, ou condenar geralmente todas as comédias.
Esta é a muralha a que há tempos a esta parte dão furiosas baterias; e não houve até agora tão forte assalto
contra o teatro, como este. Não posso negar que não houveram santos padres que condenaram a comédia; mas não me negarão, também, que alguns a trataram mais brandamente. Assim, desfalece com este encontro a censura sobre que mais escoram. E toda a conclusão que se pode tirar desta disparidade de opiniões em ânimos ilustrados de luz igual, é que tomaram a comédia por diferentes lados, uns olharam-na enquanto purifica, outros enquanto estraga os costumes, e confundiram-na com todas aquelas farsas más, às quais, com razão, se deve o nome de espetáculos de torpeza.
Com efeito, como releva discorrer das coisas, e não das palavras, e como a maior parte das contrariedades vem de se não entender o assunto e envolver debaixo do mesmo termo coisas opostas, não há mais que rasgar o véu ao equívoco e olhar o que é a comédia em si, e ver-se-á se a comédia é ou não condenável. Conhecer-se-há por certo, que sendo,
como é, unicamente um poema engenhoso, que com agradável doutrina repreende os defeitos dos homens, não se pode censurar sem injustiça. E no caso que nós queiramos acerca dela tomar depoimento à antiguidade, dir-nos-á ela que os seus mais célebres filósofos deram louvores à comédia, e mais faziam profissão de um saber tão austero, e gritavam aturadamente contra os vícios do seu século. Manifestar-nos-á ela que Aristóteles empregara em pró do teatro muitas das suas vigílias, e tomara a seu cuidado reduzir a preceitos a arte de fazer comédias.
Dir-nos-á que os homens mais acreditados e mais ilustres em dignidade tiveram por glória o compô-las, e outros que não engeitaram recitar em público aquelas de que eram autores: Que na Grécia fizeram tanto timbre desta arte, que honrara com mui ufanos prémios, e soberbos teatros. E que, finalmente, em Roma deram a esta arte honras extraordinárias, não digo
em Roma estragada, e já na soltura dos Imperadores, mas em Roma bem regrada sob Cônsules prudentes, e no vigor da virtude romana. Confesso que houve tempos em que se corrompeu a comédia. Mas que há no mundo que todos os dias se não corrompa? Nada há tão inocente que os homens não adulterem, nenhuma arte tão saudável, cujas intenções não sejam eles capazes de perverter, nada, enfim, tão bom de sua natureza que eles não possam aplicar a mau uso. É arte proveitosa a medicina. Todos a respeitam como uma das mais excelentes coisas que tenhamos; houve, contudo, tempos em que a desamavam, e em que muitas vezes passou por arte de envenenar os homens. É um presente do céu a filosofia; foi-nos dada para alçar os nossos ânimos ao conhecimento de Deus, contemplando as maravilhas da natureza; e ninguém ignora quão muitas vezes a desviaram do seu instituto para a empregarem publicamente em sustentar a
impiedade. Ainda as coisas mais santas não estão abrigadas da corrupção dos homens; e vemos dissolutos que todos os dias abusam da piedade e fazem, impiamente, que ela sirva aos maiores crimes; mas nem por isso se deixam de fazer as distinções que competem, nem se enlaça numa falsa conclusão a bondade das coisas, que se corrompem com a malícia de quem as contamina. Sempre se separa o abuso do instituto da arte, nem ninguém se lembrou de proibir a medicina porque foi banida de Roma, nem a filosofia por a heverem publicamente condenado em Atenas. Assim não se deve vedar a comédia, porque houve tempo em que a censuraram,: para esta censura houve suas razões, que não subsistem hoje; ficou ela encantada com os motivos de onde nasceu, e nós não devemos estendê-la além das raias que ela demarcou, nem alongá-la mais do que convém, e fazer que abraçe o inocente com o culpado. A comédia, a que ela fez tiro, não se assemelha em
nada à comédia que nós queremos defender, nem será bem que nós confundamos uma com a outra; são duas pessoas de costumes inteiramente opostos, não dizem relação uma à outra, senão na aparença do nome. Seria uma horrorosa injustiça querermos hoje condenar Olímpia dissoluta.
Semelhantes sentenças fariam, sem dúvida, grandes desordens no mundo. Não haveria, assim, quem não fosse condenado; e pois que não talhamos por igual feição tantas outras coisas de que se abusa a toda a hora, cumpre tenha connosco igual cabimento a comédia, e aprovemos os dramas, onde realçar a instrução e a probidade.
Sei que há almas cujo melindre não sofre comédia alguma, que têm ainda as mais moderadas pelas mais perigosas, e que as paixões que nelas se arremedam tanto mais penetram, quanto mais cheias são de virtude, e quanto
os ânimos se abalam mais com semelhantes representações. Não vejo que seja grande crime como ver-se com a vista de uma paixão honesta. É um grande pináculo de virtude esta insensibilidade, a que querem subir a nossa alma. Dúvido que tão alta perfeição caiba nas forças da natureza humana. E não sei se seria melhor afadigarmo-nos em regrar e adoçar as paixões dos homens, do que a cerceá-las inteiramente. Confesso que há lugares mais para frequentados que o teatro; e a que haver quem repreenda tudo quanto directamente não olhe a Deus, e à nossa salvação, certo è que também abrangerá a comédia: embora a condenem com o mais. Suposto porém, como é verdade, que os exercícios de piedade sofrem interpolações, e que os homens necessitam de desenfadamentos, persuado-me que nenhum se poderá descobrir mais inocente que a comédia. Mas eu tenho-me alargado muito. Rematemos com o dito
de um grande Príncipe à cerca da comédia de Tartufo.
Oito dias depois que se ela proibira, representou-se diante da corte um drama intitulado: Scaramouche hermite, e ao sair dele disse o Rei a este grande Príncipe de que trato: Tomara que me dissessem a razão por que aqueles que têm dito tanto mal da comédia de Moliére se calam acerca desta; e o Príncipe lhe tornou: A razão é, Senhor, porque nesta satiriza-se o céu, e a religião com que estes senhores se não embaraçam; mas a de Moliére satiriza-os a eles, que é o com que os tais se não podem acomodar.
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Primeiro Requerimento, dado a Sua Magestade a respeito da comédia Tartufo, antes de representada em público.
Senhor.
Sendo o dever da comédia emendar os homens ao mesmo passo que os diverte, entendi que no emprego em que me acho nada me estava mais a conto que combater os vícios do meu século pintando-os ridiculamente; e como a hipocrisia é, sem dúvida, dos que mais andam na moda, dos mais importunos, e dos mais arriscados, imaginei Senhor, que não faria pequeno serviço a todas as pessoas honradas do Reino de V. Magestade se fizesse uma comédia que desabonasse os hipócritas, e pusesse
aos olhos, como era bem todos, os momos afectados destes devotos de falso cunho, e todas as solapadas falcatruas destes embaidores devotos, que, com arremedos de zelo e sofistico amor do próximo, querem lograr as gentes.
Fiz, senhor, esta comédia com todo o cuidado (a meu parecer) e com todas as circunspecções que pode requerer o melindre da matéria; e para melhor conservar a estimação e respeito que é devido aos verdadeiros devotos, extremei deles o mais que pude o carácter que eu queria retratar. Nada deixei em equívoco, tirei quanto podia baralhar o bom com o mau, e neste quadro não me vali se não de cores genuínas e feições naturais que dão logo a conhecer o verdadeiro e descarado hipócrita.
Nada obstante, foram frustrâneas todas as minhas cautelas. Acudiram à delicadeza da cosnciência de V. Majestade em matéria de religião, e assaltaram-no pela única face onde podiam fazer brecha. Quero eu dizer o respeito
que V. Majestade tem às coisas santas. Os Tartufos a furto tiveram astúcia de caberem com V. Majestade, e os originais, enfim, fizeram suprimir a cópia, por mais inocente que ela era, e por mais que se lhes assemelhava.
Bem que me dissaboreou muito suprimirem-me este meu drama, adoçou contudo a minha desgraça o modo com que V. Majestade se explicou a este respeito. Persuadi-me, Senhor, que me tirava, assim, toda a razão de queixar-me, pois teve a bondade de declarar que nada havia que taxar nesta comédia que mandava proibir.
A despeito, porém, deste ufano testemunho de um Luís XIV ainda a despeito da aprovação de um legado Apostólico, e da maior parte dos nossos Prelados, que todos ouvindo-a quando eu particularmente lha li conformaram com os sentimentos de V. Majestade, a despeito de tudo isto, digo eu, apareceu um livro com-
posto pelo Cura de... que altamente quer definir todas estas augustas aprovações. Nada valeu o bom conceito de V. Majestade, o do Legado, e mais Prelados; porque ele, sem a ver, grita que é diabólica a minha comédia e diabólico o meu juízo. Que sou um diabo encarnado com figura de homem, um libertino, um ímpio digno de exemplar suplício. Não se contenta que o fogo expie em público o meu delito; barato me custaria. O zelo criativo deste homem piedoso não se satisfaz com tão pouco. Quer que nem em Deus eu ache mesericórdia; quer que eu vá para o inferno, e está nisto.
Puseram, senhor, este livro nas mãos de V. Majestade. E sem dúvida que V. Magestade está bem certificado quanto me será desgostoso ver-me todos os dias alvo dos insultos desta casta gente; a sem-razão que me fazem para com o mundo semelhantes calúnias, se eu tenho de suportá-las; e que interesse, finalmente, me compete
em me justificar de tal impostura, demonstrando ao público que nada a minha comédia é menos que o que eles querem que ela seja? Não direi Senhor, o que me cumpre requerer em pró da minha reputação e para justificar a todo o mundo a inocência da minha obra. Os Reis ilustrados, como V. Majestade, não necessitaram que se lhes signifique quanto deles se deseja, porque à maneira de Deus vêem o que nos revela e sabem melhor que nós o que será bem se nos conceda. Sobra-me pôr nas mãos de V. Majestade os meus interesses, de quem, com todo o respeito, espero tudo o que lhe aprouver outorgar-me.
Segundo Requerimento, dado a Sua Magestade no acampamento à vista de Lille, em Flandres, pelos Senhores de la Thorilliere e de la Grange, cómicos de sua Magestade, companheiros do Senhor Molière, acerca da proibição que se lhes fez em 6 de Agosto de 1667 para que não representassem o Tartufo até nova ordem de Sua Majestade.
Senhor:
É coisa bem temerária vir eu importunar um grande Monarca no meio das suas gloriosas conquistas; mas no estado em que me vejo, onde acharia eu, Senhor, protecção, se não buscando-a em V. Majestade? Ou quem
poderia eu empenhar contra a autoridade, e poder, que me aterra, se não a mesma fonte do poder, e da autoridade, o justo dispensador das ordens absolutas, o Soberano Juiz e Senhor de tudo?
A minha comédia, Senhor, não pode até agora lograr-se de bondades de Vossa Majestade. Nada montou dá-la eu com o título de impostor, nem disfarçar o herói com os trajes de secular.
Pus-lhe um chapéu pequeno, cabelos compridos, gravata larga, espada, e punhos, além do mais vestido, modifiquei a comédia em muitas partes e cortei apuradamente tudo quanto pudesse dar azo aos célebres originais do retrato que eu queria fazer; mas de nada me serviu. Bastaram simples conjecturas para despertar contra mim a conspiração.
Tiveram artes de embair ânimos, que em todas as mais matérias fazem manifesta profissão de se não deixarem iludir. Imediatamente apareceu a minha comédia, logo se viu fulminada
por jurisdição de pessoa a que se deve todo o respeito; e quanto nesse lance eu pude fazer, por me salvar dos raios desta tempestade, foi alegar que Vossa Majestade me fizera a graça de permitir que se representasse, e que me parecera não necessitava requerer esta licença a outrem, depois de ser Vossa Majestade quem unicamente a proibira.
Estou certo, Senhor, que aqueles a quem eu arremedo na minha comédia farão tudo por abalar a Vossa Majestade e convidá-lo ao seu bando, como já fizeram a pessoas muito de bem, tanto mais fáceis a se deixarem embair, quanto mais eles por si medem a todos. Têm eles o jeito de contrafazer a cor a todos os seus intentos e por mais biocos que façam, por certo não é o interesse de Deus quem os abala, como bem o tem mostrado em tantas comédias, que sofreram até agora se representassem publicamente, sem dizer palavra, as quais como não combatiam senão a
piedade e a religião, por quem eles mui pouco se desvelam, toleraram-nas; esta não, porque põe em mira neles e os ridiculariza. Não me perdoam patentear eu os seus embustes aos olhos de todo o mundo e, sem dúvida, não deixarão de dizer a Vossa Majestade, que não houvera quem não se encantasse da minha comédia. Mas a verdade pura é que toda Paris se não escandalizou, Senhor, se não da proibição que dela se fez, quando os mais escrupolozos tiveram por útil que se representasse, e que se admiraram que pessoas de uma probidade tão conhecida tivessem tanta complacência para com aqueles homens que deveriam ser o horror de todo o mundo, e que tão opostos são à verdadeira piedade de que fazem profissão.
Com todo o respeito espero pelas ordens que Vossa Mjestade se dignará a decretar nesta matéria, dando-lhe toda a segurança, Senhor, que me deixarei de fazer comédias, se os Tartufos levam a melhor; porque daqui
tomarão jus para me perseguirem mais que nunca, acharão que taxar em tudo quanto sair da minha pena, ainda no que for mais inocente.
Digne-se, pois, a bondade de Vossa Majestade dar-me boa protecção contra os pestíferos rancores desta gente, e praza a Deus que quando Vossa Majestade voltar de uma campanha tão gloriosa possa eu desenfadá-lo das fadigas das suas conquistas, dar-lhe singelos prazeres, e fazer rir aquele Monarca que faz tremer toda a Europa.
Terceiro Requerimento, dado a Sua Magestade em 5 de Fevereiro de 1669.
Um médico, muito boa pessoa, de quem eu tenho a honra de ser doente, me promete, (está pronto a fazer escritura em casa de qualquer Tabelião )que me dará trinta anos mais de vida, se de Vossa Majestade lhe consigo uma mercê. Respondi à sua promessa que lhe não pedia tanto, sobrava que me não matasse. A graça que ele pede é uma conezia da Capela Real de Vincennes, vaga pela morte de...
Seria eu tão ousado que no próprio dia em que ressuscita o Tartufo, por milagres de Vossa Majestade, o importunasse eu por nova graça? O
primeiro favor de Vossa Majestade me reconciliou com os beatos, o segundo me congraçaria com os médicos. Para mim, quiçá, seja pedir muito, e pouco para as grandezas de Vossa Majestade. Espero, com pouca esperança e muito respeito, o despacho do meu requerimento.
Actores
Andreza, mãe de Ambrósio.
O senhor Francisco Xavier.
Ambrósio, marido de Jacinta.
O senhor Silvestre Vicente.
Jacinta, mulher de Ambrósio.
A senhora Cecília Rosa.
Florindo, filho de Ambrósio.
O senhor António Manuel.
Lauriana, filha de Ambrósio.
A senhora Maria Joaquina.
Valério, amante de Lauriana.
O senhor António José de Paula.
Alexandre, cunhado de Ambrósio.
O senhor José Felix.
Tartufo, jesuíta, hipócrita.
O senhor Pedro António.
Faustina, criada de Lauriana.
A senhora Luísa Rosa.
Domingas, criada de Andreza.
Figura que não fala.
Um escrivão.
O senhor José da Cunha.
Um ministro.
O senhor João de Sousa.