- Sumário
- Epístolas com descrição das festas na cidade de Braga em honra do rei D. José, por ocasião da inauguração da estátua equestre (28 de Junho de 1775)
- Ano
- 1775
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 365, nº 4363
Das festas reais, que se fizeram na cúria e cidade de Braga, desde o dia três até onze do mês de Junho do ano corrente, em obséquio e aplauso dos anos de el-rei D. José 1.º, nosso senhor, e da inauguração da régia estátua equestre do mesmo senhor, erigida na Real Praça do Comércio desta corte, extraída da carta que um académico escreveu a seu consanguíneo, assistente em Lisboa, e ambos das adjacências da mesma Braga, por um fiel e leal português, para excitar os ânimos lusitanos a iguais demonstrações de fidelidade, tributo, e obséquio, em retribuição dos benefícios, graças e encómios com que o nosso fidelíssimo monarca tem enriquecido e condecorado os vassalos deste império de Cristo, às quatro partes do mundo gloriosamente prolongado.
Relação epistolar
Primeira parte.
Primo do meu afecto. Esta recomendação que me dirigiu na carta do correio passado, dá evidentes provas do seu ânimo ser dominado pelos influxos daquelas preciosas qualidades que constituem um cidadão perfeito, et omnibus numeris absolutum, amante do seu soberano, da república, civilidade, razão e justiça, como virtudes de que se vestiram nossos ascendentes e de que deve exornar-se a racionalidade dos homens bons. Pede-me vossa mercê que lhe refira, os princípios,
progressos e complemento das festas, que ideou e fez executar a nobreza e povo da nossa augusta Braga, em demonstração de alegria, pelos auspicatissimos anos do nosso fidelíssimo rei, o senhor D. José 1.º, e pela bem merecida inauguração da sua régia efígie equestre, que no obelisco da Real Praça do Comércio de sua corte fez erigir a gratidão lusitana; ao que satisfarei com toda a seriedade, ficando-me o desprazer de me faltar a eloquência de Cícero, a elevação e estilo de Demóstenes, as figuras de Homero, as hipérboles de Virgílio e as propriedades de Ovídio, para lhe delinear, na pequena fábula desta carta, os sentimentos dos corações B[r]acarenses, terras de sua adjacência e outras desta província, na ocasião daqueles plausíveis festejos; mas satisfarei com o meu natural dialecto e mal limada retórica ao que me pede na sua carta, cometendo à contemplação de vossa mercê o mais a que não poderem atingir as minhas expressões, na forma que vou a referir.
Pelo meio-dia de três de Junho, fez o Senado publicar com um édito, na forma com que costumam noticiar-se, em casos semelhantes, as reais festividades, ordenando que, em demonstração de alegria pelos ditos sublimes respeitos, se ilumina-se a cidade e seus subúrbios adjacências nas noites dos dias, 6, 7, e 8; e, nessa tarde, saíram muit[a]s máscaras, diversa e alegremente vestidos, a executar muitos, e diversos folguedos, com que divertirão os moradores Bracarenses. Ordenou também o mesmo Senador que nos dias 4, 5, e 7 se executasse combate de touros; e, finalmente, se passou esta tarde com festejos, danças, e demonstrações de alegria tal, que parecia palpitarem os corações de todos
em continuados júbilos.
No dia 4, se armaram todas as janelas da Praça destinada para o combate dos touros, povoando-se estas, de pessoas do sexo feminino de todas as hierarquias, as quais se empenharam no alinho e primoroso asseio, com tanta eficácia, quão grande era o desejo de todas para formarem um alegríssimo espectáculo em demonstração do gosto com que pretendiam fazer plausível aquela festividade. Antes que se desse principio ao combate, entraram na Praça várias danças de máscaras, custosamente vestidas e com o maior primor adereçadas: o Carro das Ervas, os Gigantes e a dança das Egitanas Bravas, sendo tudo precedido de um grande número de tambores, clarins, boases, timbale, charamelas, e outros instrumentos alegres, com que preliminarmente se prepararam os ânimos para uma plausível expectação. Executadas estas e outras demonstrações de alegria, se deu princípio ao combate, entrando os combatentes na praça ricamente vestidos; e feitas as costumadas continências, se deu princípio a ele e executou sem fatalidade, e com louvável divertimento, pela fereza dos referidos animais e destreza, com que eram combatidos, posto que fizeram algumas travessuras, com que tornaram muito alegre esta primeira tarde, que se concluiu com vivas e aplausos unívocos, dizendo todos: “Viva o nosso augustíssimo soberano, rei e senhor D. José 1.º”. Tinha chovido na noite deste dia e, por isso, se não regou a Praça.
Parece que o céu se empenhou em fazer plausíveis estes festejos, porque não prometendo os sintomas que tomaram os dias antecedentes, serenidade nos subsequentes, foi o dia 5 muito mais plausível, porque, alimpando-se de nuvens, se executaram os festejos com
alegre, e divertida variedade assim nas danças, como nos ricos vestidos dos espectadores de um, e outro sexo; concluindo-se, sem estrago e com muito louvável tranquilidade, e demonstrações de verdadeira exultação, e alegria.
Era o dia 6 o principal, em que os corações haviam de dar as mais significantes provas do seu contentamento, festejo e lealdade este, na verdade, foi o mais plausível de todos.
Tinha sua alteza real determinado solenizar este dia com pontifical e Te deum laudamus; porém, como no seu sagrado espírito estavam ardendo aquela amorosa pira que unifica muitos corações e fez no céu estrelado simbolizar de Castor e Polux, dois irmãos amantes, unidos em carinhosos amplexos, não pôde a sua alegria conter-se para deixar os festejos nocturnos, em que exultaram os moradores da sua corte, pelo elevado fim a que se dirigiam; e suposto viu estes do palácio de sua residência, contudo, como com esta insueta vigília excedeu o seu louvável e probatíssimo costume, lhe resultaram alguns eclipses na sua preciosa saúde, que o impediram a executar aquilo mesmo que tanto apetecia; mas sempre deu beija-mão à sua corte e a toda a nobreza, com semblante tão alegre e cheio de tal contentamento, que nos olhos estava mostrando que o coração lhe não cabia no peito com o gosto que lhe infundia esta nova e real aclamação do nosso augustíssimo monarca, em tudo e por tudo muito estimável por todos os vassalos do mesmo senhor, por verem consternada, abatida e desfeita a opinião sexagenária, que o vulgo tinha introduzido na duração da preciosa vida dos augustíssimos senhores brigantinos, como que se aquele Constituiste terminos ejur, qui preteriri non poterunt
se herdasse com a coroa, ou dependesse
dos arbítrios e geração humana, ou tivesse outro princípio certo, mais que na existência dos racionais, transcendida, e fulminada aos proto-parentes do género humano, e sua descendência, ficando o termo deste currículo vitalício só dependente do criador supremo que o constituiu e para si reservou.
Não houve neste dia combate de touros, por ser aquele em que só os homens empenhadamente se reservaram para o fazer plausível, alegre e vistoso com factos, acções, e emblemas, que não só notificassem aos corações a maior alegria, mas uma completa vitória contra os fados, influxos adversos e presságios fanáticos introduzidos na plebe pelos amantes da contradição, inimigos da verdade, impugnadores da verdadeira animástica física e teórica da natureza humana. Tinham-se congregado a mesma nobreza civil, e da armada milícia, com seus sectários; e a nobreza filosófica, e de milícia togada, e seus atinentes, cada uma destas, empenhada com santa, tranquila e louvável competência, a excederem-se reciprocamente. A Nobreza Curial, com seus aliados, formaram o primeiro concurso, e os advogados, com seus Insectadores, o segundo; e como o sexo feminino, de um e outro concurso, estava igualmente empenhado; neste dia, se excederam com muita vantagem, os antecedentes, assim no alinhoso asseio, como no esquipático, e custoso de seus adornos, ficando a Praça parecendo mais povoada de ninfas lusitanas, que de donzelas, Pórcias e Lucrécias bracarenses.
Preparada assim a praça, entraram as Máscaras nela, custosa e peregrinamente vestidas com gostosíssima variedade, ocupando as entradas dela para que, com as Justiças, não só evitassem alguns desconcertos que a nímia
curiosidade concitasse, mas desviaram o infinito povo, que em gostoso festejo, igualmente concorria para aquela plausibilidade; e depois de executarem várias e esquisitas danças e festividades, que a grande alegria e prazer lhes tinham infundido com que divertiram os espectadores e encheram o espaço, que dilabio, e mediou entre as duas até às cinco horas da tarde, se retiraram com admirável ordem e polícia a ocupar a entrada e ângulos da mesma praça, alimpando-a de alguns indivíduos, que nela puderam sem desordem introduzir-se, para ficar evacuada e livre à execução dos mais festejos, que se esperavam e destinavam para esta tarde, objecto de todas estas alegríssimas demonstrações.
Evacuada a praça na forma referida, e sem a mínima desordem, entrarão nela as figuras que deviam preceder às carroças do primeiro partido da Nobreza Civil, e Armada, pela ordem que vou a referir. Vinham na fronte dois trompas a cavalo, tocando, cada um com seu volante, pegando na rédea do cavalo, vestidos de lhama de prata, chapéus brancos, plumas vermelhas, ricamente adornados, e os cavalos com custoso[s] jaezes e telizes. Logo, imediata, montava, em um cavalo de pessoa, a figura da Fama, trágica e ricamente vestida, levando na mão direita o estandart[e] real, um criado atrás, primorosamente vestido, com teliz bordado de ouro no braço e, depois deste, o Estado da mesma Fama, que constava de doze cavalos, levados à rédea por criados de sua alteza real, cobertos com felizes de veludo verde, custosa, e peregrinamente bordados de ouro, com as armas reais jaezes.
A estes se seguia, uma carroça, bem
adornada e feita á maneira de uma fragata de guerra, puxada por três tiros de machos, com bons arreios, e os boleeiro e sota vestidos de lhama de prata: conduzia dezoito figuras para dança; a saber, seis holandeses, seis franceses, e seis portugueses. Estes vestidos de cetim de seda encarnada, com galões de ouro; os franceses da mesma seda, de cetim branco, com listras roxas; e os holandeses de cetim azul, com listras de diversas cores. Nesta barca vinha Neptuno em um trono, remando nela as ditas três nações; repetindo alternados – “Vivas” – ao nosso Soberano. A esta seguia outra, adornada de seda encarnada, matizada de galões de ouro e puxada por três tiros de machos. O boleeiro, ou cocheiro, e sota, vestidos como os da primeira. Esta conduzia a Música, e seus instrumentos, e a estátua de Júpiter em um trono, vestido real e soberbamente de lhama de ouro, com um raio na mão direita e a esquerda sobre o joelho. Acompanhavam esta primorosa carroça, oito Archeiros a cavalo, com armas brancas, capacetes na cabeça, e espontões nas mãos.
Entrou toda esta comitiva pela praça, com marcha grave e muito vistosa, recitando em roda da mesma Praça, várias cantatas e motetes, em aplauso dos felizes anos de
de sua Majestade, ao bem concertado compasso dos referidos instrumentos. Postaram-se estas carroças em um lado da mesma Praça, e saindo delas as figuras referidas com seus instrumentos, foram ocupar a entrada, aonde se formaram com destreza e ordem admirável, e compassos cheios de civilidade, caminharam para a fronte do palácio de sua alteza real; a quem fizeram todos profundas continências e depois destas deram princípio à contradança, que ao bem compassado som daqueles instrumentos, levou a recitar uma larga meia hora, cantando com admirável estilo o minuete alusório aos felizes anos do mesmo senhor e à auspicatíssima inauguração do seu real simulacro equestre. Repetiram esta mesma contradança na frente do Senado e de algumas senhoras mais espectáveis, tudo sem emulação alguma, antes com geral contentamento de todos, em quem não cabia nem uma nubécula de tristeza, e só continuada alegria. Executados estes actos com primoroso asseio e louvável civilidade, gozo e contentamento, se embarcaram as nomeadas figuras em suas respectivas carroças, aonde haviam ficado, como de guarda, as figuras de seus congruentes estados. Tranquilizada a Praça nesta forma, entrou por ela a segunda contradança, pertencente à milícia Togada dos Advogados, curiosos e políticos da cidade, seus subúrbio e adjacências. Eram as figuras dela conduzidas em uma carroça, que representava ao vivo um escaler, ou penche de fogo, peregrinamente executado. Eram nele conduzidas dezasseis figuras, oito de homens e oito de mulheres, vestidos à Mouriscas, ornadas de vestidos de cetim carmesim, tão propriamente imitados, que quem não soubesse o fingimento poderia persuadir-se que aquelas imitadas figuras, eram Mouros verdadeiros. Vinha em trono um Rei Mouro, com a mesma propriedade de seus cubiculários, ou camaristas, e outros criados graves, muitos marinheiros da mesma nação, trágica e maritimamente vestidos; e como
esta carroça era feita com fortaleza, capaz de suportar o peso de sua equipagem, foi conduzida por cinco jugos de bois, cobertos com mantas brancas, bem semeadas de galões de ouro, que as faziam vistosíssimas.
Deu entrada na Praça esta admirável artefactura, com bandeiras levantadas, despedindo repetidas descargas de artilharia por um e outro lado, recitando a música, nas suas pausas, ao som de alegres instrumentos, várias cantatas e motetes, alusórios à plausível festividade a que eram dirigidos estes actos demonstrativos da gratidão lusitana. Progrediu em circunferência de toda a Praça, com navegação gostosíssima, em Goa e admirável ordem, esta carroça, e fingido escaler; despedindo neste bem concertado giro muitas descargas até retroceder à entrada da mesma Praça, aonde, ferrando âncora, fizeram todos gostosíssimo desembarque. Postas em terra, caminharam em companhia do seu rei, sendo este a coroa daquele incesso, e formador em majestosas alas, dirigiram seus passos à frente do palácio arquiepiscopal, aonde o senhor Arcebispo Primaz se achava a uma janela das principais dele, debaixo de cortinas, que a adornavam; e tocando vários e alegríssimos instrumentos, ao compasso da marcha, tocada em pratos de lata, à maneira dos festejos Mauritanos; chegaram à vista da tribuna, aonde estava sua alteza real, e lhe fizeram três profundas genuflexões. Executadas estas continências, se formaram todos com admirável destreza e ordem civilíssima, dirigida pelo toque dos pratos, e compasso dos referidos instrumentos, tudo com tanto asseio, polícia, e tão prudente soberania, que fez excitar os ânimos, e demonstrações de maior alegria, explicada com as bateduras das mãos dos circunstantes, e aberturas
de lenços, entre sonorosos vivas e continuados aplausos, sendo o remate destes as estimadíssimas demonstrações, com que o mesmo sereníssimo prelado explicou o grande contentamento, que influía em seu sagrado peito. Formada toda esta comitiva na frente da tribuna referida, fez toda a sua alteza real uma profunda genuflexão, com indícios de lhe pedirem licença para executarem a contradança a que reciprocamente se destinavam, tudo com tal ajustamento, unidade, destreza e consonância, que parecia por um só, o que por muitos o estava executando.
Nesta admirável série, dançaram um bom espaço de tempo na presença do mesmo sereníssimo senhor; e dando-lhe fim com outra profunda reverência, giraram a praça com o mesmo concerto e divertimento tal, que mereceu esta contradança, na opinião dos espectadores de todas as hierarquias, a primazia excelência e graduação de todos os antecedentes festejos, de que foram sinais bem probantes, demonstrativos e claros os repetidos «vivas», bateduras de palmas e lenços, com os quais também sua alteza fez demonstração do seu agrado, batendo as mãos sagradas e o seu lenço; facto este, que por si só bastava para completo louvor dos executores deste tão louvável festejo. Todos os circunstantes reconheceram tal vantagem nesta contradança da Nobreza Togada, que os da Armada confessaram isto mesmo, e em louvável competência desejaram ter parte nela para participarem de tantos e também merecidos aplausos. Concluída esta acção (que gastou a executar-se largo espaço da tarde) se recolheram todos ao seu escaler, embarcando nela, com uma ordem, e civilidade tal, que fazendo novas continências a sua alteza, Senado, Nobreza, e Povo, deixaram aligados
a si os corações de todos, e pulsando em repetidos “Vivas”, fechando estes com dizerem univocamente “Viva o nosso augustíssimo soberano, e toda a real prole lusitana”. Os executores da primeira dança, e estes da segunda, saíram da Praça, já a tempo, que as janelas se principiavam a iluminar, com diversas e esquisitas luminárias; e principiou o festejo nocturno, que se executou primorosamente; como direi a vossas mercê quando lhe referir os progressos, festejos e alegres demonstrações dos dias seguintes até o vendecimo, que foi o da vitória, paz e concórdia, ajustadas entre os beligerantes; porém, como o correio está a partir, para o seguinte, referirei o que mais falta, para complemento do meu desejo, e pronta execução dos mandatos de vossa mercê a quem Deus guarde muitos anos, &.ª &.ª &.ª,
Amares, 28 de Junho de 1775
Relação Epistolar das festas reais que se fizeram na Cúria e cidade de Braga, em obséquio e aplauso dos anos de el-rei, D. José I, nosso senhor, e da inauguração da sua régia estatua, segunda parte.
Segunda parte
No correio de vinte e oito do passado, referi a vossa mercê as festividades, que a nossa augusta Braga, e suas adjacentes, fizeram executar em aplauso, e demonstrações de gosto, pelos auspicatíssimos anos do nosso soberano e elevação da real estátua equestre do mesmo senhor, expondo-lhe a formalidade delas, desde o dia três de Junho até o sexto, dando-lhe palavra de concluir neste, a fiel relação das mais que se executaram nos dias subsequentes, ao que satisfarei, como cândido relator, amante, consanguíneo, e singularmente empenhado, em todos os ditos reais festejos; antes, porém, que entre na exposição referenda, devo dizer-lhe que, naquela, que já a vossa mercê dirigi, ex-consulto, deixei de expor-lhe algumas particularidades dos emblemas e letras, por que ainda que concorri para algumas, é contudo esta matéria, tão escrupulosa para mim que, sem ter as Letras á vista, não tenho valor para fazer delas relação arbitrária. Também me faltou dizer-lhe que, embarcados naquele fingido escaler, os executores da última contradança deram segunda volta à Praça, despedindo pela circunferência dela continuadas descargas de artilharia e mosquetaria, tudo com ordem tão
admirável e compassada, que se lhe não descobriu, nem uma mínima desordem, ou confusão. Assim, saiu pela praça fora recolher-se à estancia de donde tinha saído. No dia sétimo se executou o terceiro combate de touros, com a mesma série e formalidade, praticadas nos dias antecedentes; porém, entre o espaço que mediou, desde a uma hora da tarde até às quatro, em que se deu princípio ao combate, se fizeram muitas e alegres curiosidades, pelas Máscaras, e outros Curiosos, que vestidos, com esquipáticos indumentos, constituíam um vistosíssimo espectáculo, admiração de todos; sendo mais para admirar não haver mínima discórdia,entre tantos, quando apostadamente se empenhavam a levar a palma do triunfo e primazia cada um dos concorrentes para aquela plausível festividade; sendo nela a emulação dos ânimos só directiva a se excederem, e não a se disputarem, com desalização da amável concórdia, e apetecível tranquilidade.
Desde o dia seis até o décimo, se iluminou toda a cidade e seus subúrbios, com esquipáticas e dispendiosas luminárias, sem que ainda as pessoas, a quem a fortuna denegou os meios para maiores profusões, deixassem de aplaudir este geral contentamento, com nunca vistas, mas muito louvável prodigalidade. Todos estes dias se determinaram feriados e suspendido os progressos litigiosos, e de deliberação togada; tudo com justíssimos fundamentos, porque pedia a boa razão, civilidade e urbana polícia, que se suspendesse tudo o que podia alterar os ânimos nos dias em que somente devia tratar-se a letificação destes, da sua tranquilidade, e augustos festejos. Este facto conduziu muito, para as festas serem mais plausíveis; pois ficaram assim os ânimos desembaraçados, para
somente contemplarem, nestes jucundíssimos actos e festejos diurnos, e nocturnos; e destes darei separada noticia a seu tempo.
Chegou finalmente o dia vendecimo do mês, e sétimo da festividade, em que se havia de figurar a vitória que sua Majestade fidelíssima tinha conseguido contra os fanáticos presságios, na primeira carta referidos; e, neste dia, confesso a vossa mercês com toda a ingenuidade, que chegou o contentamento de todos, até elevado cume de gozo e alegria, que saiu dos corações dos espectadores, de impavidade, amor fidelíssimo, e ilibado tributo, ao nosso soberano, e tal amor à real e augustíssima prole lusitana, que nos olhos alegres, e impávidos semblantes dos concorrentes; se estava lendo, que em defesa da augustíssima, sacra e real pessoa do mesmo senhor, da sua fidelíssima consorte e rainha nossa senhora, e de toda sorte e rainha nossa senhora, e de toda a real família, coroa e estados deste Império de Cristo, se ofereciam, e estavam prontos a derramar até a ultima gota de seu sangue, dispêndio do extremo
quadrante de seus patrimónios; porque as acções, que se executarão neste dia, e a fidelidade lusitana, sempre ilibada para com Deus, seus soberanos, pátria e povo, estavam fazendo concitar os ânimos de todos, ao mesmo o que eles já estavam libentíssimamente oferecidos, e sacrificados. Haviam-se entronizado no meio do palácio de sua alteza as armas reais, em que se simbolizavam o nosso soberano e toda a real prole, armado o trono com primoroso alinho e o maior empenho da arte.
Velavas um cortinado de damasco carmesim, com soberbos galões de ouro. Toda a Praça estava também armada com o maior empenho da perfeição pelas janelas de sua circunferência, com profusão santa, que parece ter submissa, e empenhadamente concorrido para aquele acto, a opulência da Ásia, África, América e Europa, para fazer exceder quase infinitamente a riqueza de sua armação e constructura as grandezas do rei Assuero. Entraram nesta primorosa Praça, como disposições prévias ao que depois se executou, algumas figuras e festejos alusórios, em que se dispendeu o lapso que dilabio desde as duas até as quatro horas da tarde. Soaram as quatro; e logo entrou nela o escaler, ou penche de fogo, armado, na forma, que lhe Referi no sexto dia. Fingia navegar com vento favónio, e dirigindo-se ao meio da praça com velas largas, e bandeiras desenroladas, lançou âncora, como quem queria ali parar. Postado assim este fingido escaler, entraram na mesma praça as duas carroças dos Cavalheiros, puxadas por jugos de bois, cobertos com primorosas mantas. Serviam-lhe de viadores, uma figura da Fama, que caminhava atrás, acompanhada de oito arqueiros, como no sexto dia. Fingiam as carroças fragatas de guerra com velas largas; mas logo que avistaram o escaler segurar bandeira de contenda e se foram prolongando pelos lados do escaler; o qual, ficando no meio, também desenrolou bandeira de guerra, segurando-a com uma peça de artilharia, na forma do estilo, em batalhas navais praticado. Passado pouco espaço, entraram a combater-se, despedindo umas e outras, furiosas descargas, com tanto valor e porfia tão grande da peleja, que em breve tempo, se encheu a Praça de copioso fumo.
No maior conflito, e mais rigorosa disputa dos dois beligerantes, saiu pela porta principal do palácio de sua alteza um emissário a cavalo, ricamente vestido e soberbamente ajaezado o bruto que o conduzia, com seus moços da estribeira a pé, trágica e ricamente vestidos. Na imedita retaguarda, vinha um soberbo e riquíssimo coche, em que embarca o mesmo sereníssimo senhor, quando sai de estado, que conduzia vestidas de ninfas, trágica, e soberbamente adereçadas as deusas da Paz, e da Justiça, ambas nos assentos do trono ( veo do espaldar do coche) com incesso tão régio, e de tanta gravidade, que faziam, com alegria, chorar os circunstantes. No dorso deste coche, vinha outro de Estado, conduzido por quatro tiros de machos, com quatro criados de cavalo, asseadíssimamente vestidos.
Logo que estas figuras principiaram a sair, suspenderam as fragatas e escaler beligerantes a sua peleja e ficaram como pavorizados, e suspensos, por verem que os Numes, mandavam suspender a contenda, com ameaços de severa demonstração, contra aquele que petulantemente, intentasse progredir na peleja. Dirigiram-se as deusas à frente do palácio arquiepiscopal, e defronte das reais insígnias, desembarcaram de seu coche, acompanhadas do dito emissário e mais comitiva; fizeram sinal aos contendores, que advertissem, e ponderassem, na presença de quem vinham rompido, naquele atrevimento, bárbara batalha; fulminando-lhe os efeitos do real desagrado do nosso Soberano, e família régia, quando conspirassem outro semelhante absurdo, e caminhando
que as deusas praticaram, apontando digitalmente, com respeito, e admiração, para o lugar, ou trono, em que as reais insígnias, se achavam colocadas.
Neste intervalo, saíram os Cavalheiros, formados em boa ordem, e com os seus Inssectadores, executaram uma gostosíssima e bem concertada contradança, com várias, e as mesmíssimas passagens, diversas das que haviam feito no sexto dia da festividade, e girando pela praça, nestes alegres actos, chegaram á fronte do trono referidos, e tributaram as reais insígnia, três profundas, continências, como também cortejaram sua alteza real recitando letras alusórias aos reais festejos, com especiosíssima civilidade, concluindo o giro, se formaram na frente de suas fragatas, que se achavam ancoradas perto da entrada da praça.
Deram os Mouros princípio à sua, com ordem cordatíssima, formados no outro lado do ingresso da mesma Praça, de donde dirigiram a sua viagem, à frente do palácio arquiepiscopal, regulando os progressos, pelos admiráveis compassos de seus sonorosos instrumentos. Prosternaram-se três vezes reais Insígnias, repetindo as costumadas continências, com a devida diferença, a sua alteza real. Continuaram a contradança pela circunferência de toda a Praça até chegarem ao sitio, aonde estava ancorado o seu escaler. Embarcaram-se uns e outros ao compasso de gostosíssimas cantatas e instrumentos; e, saindo da Praça, se dirigiram às portas das Figuras, e empenhados naquele festejo, cada uns às de seus
respectivos partidos, já com archotes, até se recolherem às suas costumadas estâncias.
Estes são os progressos das reais festividades
e sua execução, que a vossa mercê tenho fielmente referido. Não lhe posso dar a notícia individual dos Emblemas, e Letras das tarjas, que levavam algumas figuras, e das daquelas cantatas e motetes e ilusórios, porque, como já lhe disse, me é precisa maior averiguação; e só me resta dizer-lhe, que todo o estado pertencente à acção da Nobreza Civil, e Armada, era do Paço e sua alteza real e à sua casta a maior despesa desta. O escaler dos Mouros, suas equipagens, e pertencentes, foram feitos à custa da Nobreza Togada, e seus Aliados, como também os custosos vestidos, de que uns, e outros se armaram.
A dança dos Cavalheiros constava de um rabecão, seis rabecas, duas flautas, duas trompas, além das duas que levavam adiante. A dos Advogados foi executada com dois rabecões, seis rabecas, duas flautas, um pífano, dois bués, e duas trompas. Tudo o mais perfeito que pôde achar-se, com profuso dispêndio, ainda que muito inferior ao desejo de todos, que apeteciam ter opulentos tesouros para despenderem nestas reais festividades,
Para o dia de Santo António, glória e delícias da Lusitânia, se determinaram as repetições das danças referidas, com a possível variedade, pelas ruas desta Cúria Bracarense; porém, a copiosa chuva, não deu lugar ao este festejo, ele transferiram para outros dias, mas como chegou a notícia dessa corte,
de que os augustos festejos se haviam nela terminado, também os de Braga, tiveram o dito glorioso fim. Para o correio referirei o que falta expor a vossa mercê a quem Deus guarde muitos anos. Braga
Rellação Epistolar
Das festas Reães, que se fizerão, na
Curia, e cidade de Braga, desde o dia
trez, athe onze do mez de Junho do an-
no corrente, em obsequio, e applauso
dos annos de El-Rey
D. Joseph 1.º Nosso Senhor
e da inauguração da Regia Estatua
Equestre, do mesmo senhor, erigida na
Real Praça do Comercio desta Corte, ex-
trahida da carta que hum Academico,
escreveu a seu consaguineo, assiten-
te em Lisboa, e ambos das adjacencias
da mesma Braga, por hum fiel,
e Leal Portuguez, para excitar os ani-
mos Lusitanos a iguães demonstra-
ções de fidelidade, tributo, e obsequio,
em retribuição, dos benificios, gra-
ças e encomios, com que o nosso Fi-
delissimo Monarcha, tem enrique-
cido, e condecorado, os Vassalos deste Im-
perio de Christo, ás quatro partes do
mundo gloriosamente prolongado.
Rellação Epistolar.
Primeira parte.
Primo do meu affecto. Esta recomendação
que me dirigio na carta do Correyo passado, dá
evidentes provas, do seu animo ser dominado pelos
influxos, daquellas preciosas qualidades, que cons-
tituem hum cidadão perfeito, et omnibus nu-
meris absolutum, amante do seu soberano,
da Respublica, civilidade, Razão, e justiça, co-
mo virtudes, de que se vestirão nossos Ascenden-
tes, e de que deve exornar-se a racionalidade dos
homens bons. Pedeme V. M.ce que lhe refira, os principios,
que ideou, e fez executar, a Nobreza, e Povo da
nossa augusta Braga, em demonstração de ale-
gria, pelos auspicatissimos annos do nosso Fidelis-
simo Rey, o Senhor D. Joseph 1.º e pela bem
merecida inauguração da sua Regia efigie
Equestre do mesmo Senhor, que no obylisco
da Real Praça do Comercio de sua Corte, fez eri-
gir a gratidão Luzitana; ao que satisfarei
com toda a seriedade, ficando-me o desprazer,
de me faltar a eloquencia de Cicero; a eleva-
ção, e estillo de Demosthenes, as figuras de
Homero, as hyperboles de Virgilio, e as pro-
priedades de Ovidio, para lhe delinear, na
piquena fabula desta carta, os sentimen-
tos dos Corações Bacharenses, terras de sua
adjacencia, e outras desta Provincia, na oc-
cazião daquelles plauziveis festeijos; mas sa-
tisfarei com o meu natural dialecto, e mal
limada Rhetorica, ao que me pede na sua
carta, comettendo á comtemplação de V. M.ce,
o mais a que não poderem attingir as minhas
expressões, na forma, que vou a referir.
Pelo meyo dia de trez de Junho, fez
o Senado publicar com hum Edicto, na forma,
com que costumão noticiar-se, em cazos similhan-
tes, as Reães festevidades, ordenando, que em
demonstração de alegria, pelos dictos sublimes
respeitos, se illuminase a cidade, e seos suburbios,
e adjacencias, nas noites dos dias, 6, 7, e 8; e nessa
tarde, sahirão muntos Mascaras, diversa, e ale-
gremente vestidos, a executar muntos, e diver-
sos folguedos, com que divertirão os moradores
Bracharenses. Ordenou tambem o mesmo
Senador que nos dias 4, 5, e 7 se executase com-
bate de touros; e finalmente, se passou esta
tarde, com festejos, danças, e demonstrações de
alegria tal, que parecia palpitarem os corações
de todos
de todos em continuados jubilos.
No dia 4, se armarão todas as janellas,
da Praça destinada para o combate dos Touros,
povoando se estas, de pessoas do sexo femenino de
todas as Jerarchias, as quaes se empenharão, no
alinho, e primorozo asseio, com tanta efficacia,
quam grande era o dezejo de todas, para forma-
rem hum alegrissimo espectaculo, em demons-
tração do gosto, com que pretendião fazer plau-
zivel aquella festividade. Antes que se desse
principio ao combate, entrarão na Praça,
varias danças de Mascaras, custozamente
vestidas, e com o maior primor adereçadas: O Car-
ro das Ervas; os Gigantes, e a dança das Egita-
nas bravas, sendo tudo precedido de hum gran-
de numero de Tambores, Clarins, Boazes,
Timballes, Charamellas, e outros instromen-
tos allegres, com que preliminarmente se
prepararão os animos, para hua plauzivel
expectação. Executadas estas, e outras demons-
trações de alegria, se deu principio ao comba-
te, entrando os combatentes na praça, rica-
mente vestidos; e feitas as costumadas conti-
nencias, se deu principio a elle, e exe-
cutou sem fatalidade, e com louvavel diver-
timento, pela fereza dos referidos animães,
e destreza, com que erão combatidos, posto que
fizerão alguas travessuras, com que tornarão
munto alegre esta primeira tarde, que se con-
cluio com vivas, e applauzos univocos, dizen-
do todos = viva o nosso Augustissimo Soberano,
Rey, e Senhor D. Joseph 1.º = Tinha chovido na noi-
te deste dia, e por isso, senão regou a Praça.
Parese que o Ceo se empenhou, em
fazer plauziveis estes festeijos, porque não
pormetendo os syntomas, que tomarão os dias
antecedentes, serenidade nos subsequentes, foi
o dia 5 munto mais plauzivel, porque alim
pando-se de nuves, se executarão os festeijos com
alegre
alegre, e divertida variedade assim nas danças,
como nos ricos vestidos dos Expectadores de hum,
e outro sexo; concluindo-se, sem estrago, e com
munto louvavel tranquilidade, e demonstra-
ções de verdadeira exultação, e alegria.
Era o dia 6 o principal, em que os cora-
ções havião de dar as mais significantes provas
do seu contentamento, festejo, e lealdade,
e este, na verdade, foi o mais plauzivl de todos.
Tinha S. A. R. determinado solemnizar este
dia com pontifical, e Te deum laudamus =; po-
rem como no seu sagrado Espirito, estavão
ardendo aquella amorosa pyra, que unifi-
ca muntos corações, e fez no Ceo estrellado,
symbolizar de Castôr, e Polux, dois Irmãos
amantes, unidos, em carinhozos amplexos,
não pòde a sua alegria conterse para deixar
os festeijos nocturnos, em que exultarão
os moradores da sua corte, pelo elevado fim,
a que se dirigião; e supposto vio estes, do Palacio
de sua rezidencia, com tudo, como, com esta
insueta vigilia, excedeu o seu louvavel, e
probatissimo costume, lhe rezultarão alguns
eclipses na sua preciosa saude, que o impe-
dirão a executar aquillo mesmo, que tanto
appetecia; mas sempre deu beijamáo á sua
Corte, e a toda a Nobreza, com semblante tam
alegre, e cheyo de tal contentamento, que
nos olhos estava mostrando, que o coração lhe
não cabia no peito, com o gosto, que lhe infun-
dia esta nova, e Real Aclamação do nosso
Augustissimo Monarcha, em tudo, e por tudo
munto estimavel, por todos os vassalos do
mesmo Senhor, por verem, consternada,
habatida, e desfeita a openião sexagenaria,
que o vulgo tinha introduzido, na duração da pre-
cioza vida dos Augustissimos Senhores Bri-
gantinos, como que se aquelle = Constituiste
terminos ejur, qui preteriri non poterunt =
se herdase com a corôa, ou dependese dos ar-
bitrios
dos arbitrios, e geração humana, ou tivese outro
principio certo, mais que na existencia dos
Racionães, transcendida, e fulminada aos
Prothoparentes do Genero humano, e sua
descendencia, ficando o termo deste Curriculo
vitalicio, só dependente do Creador supremo,
que o constituhio; e para si rezervou.
Não houve neste dia Combate de Tou-
ros, por ser aquelle, em que só os homens, em-
penhadamente, se rezervarão para o fazer
paluzivel, alegre, e vistozo, com factos, acções,
e emblemas, que não só notificasem aos co-
rações a maior alegria; mas hua completa
victoria, contra os fados, Influxos adversos,
e persagios fanaticos, introduzidos na plebe,
pelos Amantes da contradição, Inimigos da
verdade, Impugnadores da verdadeira Ani-
mastica, Physica, e Theorica da Natureza
humana. Tinhao-se congregado a mes-
ma Nobreza civil, e da armada milicia,
com seos sectarios; e a Nobreza Phylosofi-
ca, e de milicia Togada, e seos Attinentes,
cada hua destas empenhada com sancta,
tranquilla, e louvavel competencia, a exce-
darem-se reciprocamente. A Nobreza
Curial, com seos aliados, formarão o primei-
ro concurso, e os Advogados, com seos Insecta-
dores, o segundo; e como o sexo feminino,
de hum, e outro concurso, estava igualmente
empenhado; neste dia, se excederão com
munta ventagem, os antecedentes, assim
no alinhozo asseyo, como no esquipatico,
e custozo de seos adornos, ficando a Praça
paresendo mais povoada de Nimphas Lusi-
tanas, que de donzellas, Porcias, e Lucre-
cias Bracharenses.
Preparada assim a Praça, entra-
rão as Mascaras nella, custoza, e perigrinamente
vestidas, com gostozissima variedade, occupan-
do as entradas della, para que, com as Justiça,
não só evitasem alguns desconcertos, que a nimia
Curiozidade concitase; mas desviaram o infini-
to Pôvo, que em gostozo festeijo, igualmente
concorria para aquella plauzibilidade; e de-
pois de executarem, varias, e exquizitas
danças, e festividades, que a grande alegria, e
prazer lhes tinhão infundido, com que diverti-
rão os Expectadores, e encherão o espaço,
que dilabio, e mediou, entre as duas, athe as sin-
co horas da tarde, se retirarlo com admiravel
ordem, e policia, a occupar a entrada, e angu-
los da mesma Praça, alimpando-a de alguns
Individuos, que nella poderão, sem desordem
introduzir-se, para ficar, evacuada, e livre
á execução dos mais festeijos, que se espera-
vão, e destinavão, para esta tarde, objecto
de todas estas alegrissimas demonstrações.
Evacuada a Praça na forma referida,
e sem a minima desordem, entrarão nella
as figuras que devião preceder ás carrossas do
primeiro partido da Nobreza Civil, e Arma-
da, pela ordem que vou a referir. Vinhão
na fronte dois Trompas a cavallo, tocando,
cada hum com seu Volante, pegando na
redea do cavallo, vestidos de lhama de pra-
ta, chapeos brancos, plumas vermelhas,
ricamente adornados, e os cavallos com
custozo jaezes e telizes. Logo immedia-
ta, montava em hum cavallo de pessoa,
a figura da Fama, tragica, e ricamente ves-
tida, levando na mão direita, o Estan
darta Real, hum creado atraz, primo
rozamente vestido, com feliz bordado
de ouro, no braço, e depois deste, o Es-
tado da mesma Fama, que constava de
doze cavallos, levados á redea, por crea-
dos de S. A. R., cobertos com felizes de ve-
ludo verde, custoza, e perigrinamente
bordados de ouro, com as armas Reães.
A estes se seguia, hua carossa, bem
adornada, e feita á maneira de hua Fragata
de Guerra, puxada por trez tiros de malhos,
com bons arreyos, e os bolieiro, e sota
vestidos de lhama de prata: conduzia
dezoito figuras para dança; a saber seis
Olandezes, seis Francezes, e seis Portu-
guezes. Estes vestidos de setim de se-
da encarnada, com Galões de ouro: os
Francezes da mesma seda, de setim bran-
co, com listras roxas; e os Olandezes
de setim azul, com listras de diversas
cores. Nesta barca, vinha Neptuno
em hum Throno, remando nella as
dictas trez Nações; repetindo alterna-
dos = vivas = ao nosso Soberano. A esta
seguia outra, adornada de seda encarna-
da, matizada de galões de ouro, e puxa-
da por trez tiros de machos. O bolieiro,
ou cocheiro, e sota, vestidos como os
da primeira. Esta conduzia a Muzi-
ca, e seos instromentos, e a Estatua de
Jupiter em hum Throno, vestido Real,
e soberbamente de lhama de ouro, com
hum rayo na mão direita, e a esquerda,
sobre o joelho. Acompanhavão esta pri-
moroza carossa, oito Archeiros á caval-
lo, com armas brancas, capacetes na
cabeça, e Espantoens nas mãos.
Entrou toda esta cometiva
pela Praça, com marcha grave, e
munto vistoza, recitando em roda
da mesma Praça, varias cantatas, e mo-
tetes, em applauzo dos felices annos de
de sua Magestade, ao bem concertado compas-
ço dos referidos instromentos. Postarão-se estas
carossas em hum lado da mesma Praça, e sahindo
dellas, as figuras referidas, com seos instromentos, fo-
rão occupar a entrada, aonde se formarão com
destreza, e ordem admiravel, e compassos cheyos
de Civilidade, caminharão para a fronte do Palacio
de S. A. R; a quem fizerão todos profundas conti-
nencias, e depois destas, derão principio á contra-
dança, que ao bem compassado som daquelles
instromentos, levou a recitar hua larga meya
hora, cantando com admiravel estillo, o minu-
ete allusorio, aos felices annos, do mesmo Sen-
hor, e á aspicatissima inauguração do seu Real
Simulacro eneoequestre. Repetirão esta mes-
ma contradança, na frente do Senado, e de al-
guas senhoras mais expectaveis, tudo sem emu-
lação algua, antes com geral contentamento
de todos, em quem não cabia, nem hua nube-
cula de tristeza, e só continuada alegria. Exe-
cutados estes actos com a primorozo asseyo, e louva-
vel civilidade, gozo, e contentamento, se embar-
carão as nomiadas figuras, em suas respectivas
carossas, aonde havião ficado, como de guarda, as
figuras de seos congruentes estados. Tranquili-
zada a Praça nesta forma, entrou por ella a se-
gunda contradança, pertencente á milicia
Togada dos Advogados, Curiosos, e politicos da cida-
de, seos suburbios, e adjacencias. Erão as figuras
della, conduzidas em hua carrossa, que reprezen-
tava ao vivo, hum Escaler, ou Penche de fogo,
perigrinamente executado. Erão nelle con-
duzidas dezaseis figuras, oito de homens, e oito de
mulheres, vestidos á Mouriscas, ornadas de vestidos
de setim carmezim, tam propriamente imi-
tados, que quem não soubese o fingimento, po-
dería persuadir-se, que aquellas imitadas figu-
ras, erão Mouros verdadeiros. Vinha em throno
hum Rey Mouro, com a mesma propriedade
de seos cubicularios, ou Camaristas, e outros
creados graves: Muntos marinheiros da mesma
Nação, tragica, e maritimamente vestidos; e como
esta
esta carrossa, era feita com fortaleza, capaz de so-
portar o pezo de sua equipagem, foi conduzida
por sinco jugos de bois, cobertos com mantas bran-
cas, bem semiadas de galões de ouro, que as fazião
vistozissimas.
Deu entrada na Praça, esta admiravel
artefactura, com bandeiras levantadas, despe-
dindo repetidas descargas de artelharia por hum
e outro lado, recitando a Muzica, nas suas pau-
zas, ao som de alegres instromentos, varias can-
tatas, e motetes, alluzorios, á plauzivel feste-
vidade, a que erão dirigidos, estes actos demons-
tractivos da gratidão luzitana. Progredio em
circumferencia de toda a Praça, com navega-
ção gostosissima, em Goa, e admiravel ordem,
esta Carrossa, e fingido Escaler; despedindo nes-
te bem concertado giro, muntas descargas,
athe retroceder á entrada da mesma Praça,
aonde ferrando ancora, fizerão todos, gos-
tosissimo desembarque. Postas em terra,
caminharão em companhia do seu Rey, sen-
do este a corôa daquele incesso, e formador
em magestozas allas, dirigirão seos passos
á frente do Palacio Archiepiscopal, aonde
o senhor Arcebispo Primas se achava a hua
janella das principães della, debaixo de quor-
tinas, que a adornavão; e tocando varios, e
alegrissimos instromentos, ao compasso da mar-
cha, tocada em pratos de lata, á maneira
dos festeijos Mauritanos; chegarão á vista da
Tribuna, aonde estava S. A. R., e lhe fizerão
trez profundas genuflexões. Executadas
estas continencias, se formarão todos, com
admiravel destreza, e ordem civilissima,
dirigida pelo toque dos pratos, e compasso
dos referidos instromentos, tudo com tanto
asseyo, policia, e tam prudente soberania,
que fez excitar os animos, e demonstrações
de maior alegria, explicada com as batedu-
ras das mãos dos circunstantes, e aberturas
de lenços
de lenços, entre sonorozos vivas, e continuados ap-
plauzos, sendo o remate destes, as estimadis-
simas demonstrações, com que o mesmo Sere-
nissimo Prelado, explicou o grande contentamen-
to, que influía em seu sagrado peito. Formada
toda esta cometiva, na frente da Tribuna refe-
rida, fez toda a S. A. R., hua profunda genu-
flexão, com indicios, de lhe pedirem licença,
para executarem a contradança a que reci-
procamente se destinavão, tudo com tal
ajustamento, unidade, destreza, e consonan-
cia, que paresia por hu só, o que por muntos,
o estava executando.
Nesta admiravel serie,
Dançarão hum bom espasso de tempo, na prezen-
ça do mesmo Serenissimo Senhor; e dando-lhe
fim com outra profunda reverencia, girarão
a praça, com o mesmo concerto, e divertimento
tal, que mereceu esta contradança, na opi-
nião dos Expectadores de todas as Jerarchias,
a primazia, excellencia, e graduação de todos
os antecedentes festeijos, de que forão signães
bem probantes, demonstractivos, e claros, os re-
petidos vivas, bateduras de palmas, e lenços, com
os quães tambem Sua A., fez demonstração
do seu agrado, batendo as mãos sagradas, e o
seu lenço; facto este, que por si so bastava pa-
ra completo louvor dos Executores deste tam
louvavel festeijo. Todos os circunstantes
reconhecerão tal ventagem nesta contradan-
ça da Nobreza Togada, que os da Armada, con-
fessarão isto mesmo, e em louvavel compe-
tencia, dezejarão ter parte nella, para
participarem de tantos, e tambem mere-
cidos applausos. Concluída esta acção/Que
gastou a executar-se largo espasso da tarde/ se
recolherão todos ao seu Escaler, embarcando
nella, com hua ordem, e civilidade tal, que
fazendo novas continencias a S. A., Sena-
do, Nobreza, e Pôvo, deixarão aligados
a si
a si os corações de todos, e pulsando em repe-
tidos = vivas = fechando estes, com dizerem
univocamente = Viva o nosso Augustissimo
Soberano, e toda a Real Prole Luzitana =
Os Executores da primeira dança, e estes
da segunda, sahirão da Praça, ja a tempo,
que as janellas, se principiavão a illumi-
nar, com diversas, e exquizitas lumina-
rias; e principiou o festeijo nocturno, que
se executou primorozamente; como di-
rei a V. M.ce, quando lhe referir os progressos,
festeijos, e alegres demonstrações dos dias se-
guintes, athe o vendecimo, que foi o da
victoria, Paz, e concordia, ajustadas entre
os beligerantes; porem como o correyo
está a partir, para o seguinte, referi-
rei o que mais falta, para complemen-
to do meu dezejo, e prompta execução
dos mandatos de V M.ce a quem Deos guar-
de muntos annos &.ª &.ª &.ª Amares 28
de Junho de 1775
Rellação Epistolar das festas Reães que se
fizerão na Curia, e cidade de Braga, em
obsequio, e applauzo dos annos de El-Rey
D. Joseph 1.º nosso Senhor, e da
inauguração da sua Regia Estatua, se-
gunda parte.
Segunda parte
No correyo de vite, e oito do passado, referi
a V. M.ce as festividades, que a nossa Augusta
Braga, e suas adjacentes, fizerão exe-
cutar, em applauzo, e demonstrações de
gosto, pelos auspicatissimos annos do
nosso Soberano, e elevação da Real Esta-
tua Equestre do mesmo Senhor, expondo-
lhe a formalidade dellas, desde o dia tres
de Junho, athe o sexto, dando-lhe palavra
de concluir neste, a fiel rellação das
mais q se executarão nos dias subsequen-
tes, ao que satisfarei, como Candido Rel-
lator, amante, consanguineo, e singular-
mente empenhado, em todos os dictos
Reães festeijos; antes porem que entre
na expozição referenda, devo dizer-lhe,
que naquella, que ja a V. M.ce dirigi, ex
consulto, deixei de expor-lhe alguas parti-
cularidades dos emblemas, e Letras, por
que ainda, que concorrí para alguas, hé
com tudo esta materia, tam escrupolo-
zo para mim, que sem ter as Letras á vista,
não tenho valor, para fazer dellas rellação,
arbitraria. Tambem me faltou dizer-lhe,
que embarcados naquelle fingido Escaler,
os Executores da ultima contradança, derão
segunda volta á Praça, despedindo pela circum-
ferencia della, continuadas descargas, de artelha-
ria, e mosquetaria, tudo com ordem tam ad-
miravel
admiravel, e compassada, que se lhe não desco-
brio, nem hua minima desordem, ou confuzão.
Assim sahio pela Praça fora, recolher-se á Es-
tancia de donde tinha sahido. No dia septimo,
se executou o terceiro combate de Touros, com
a mesma serie, e formalidade, practica-
das nos dias antecedentes; porem entre
o espasso, que mediou, desde a hua hora da tar-
de athe as quatro, em que se deu principio ao
combate, se fizerão muntas, e alegres curio-
zidades, pelas Mascaras, e outros Curiozos, que
vestidos, com esquipaticos indumentos, cons-
tituião hum vistosissimo espectaculo, ad-
miração de todos; sendo mais para admirar,
não haver minima discordia, entre tantos,
quando apostadamente, se empenhavão
a levar a palma do triumpho, e primazia
cada hum dos Concurrentes, para aquella
plauzivel festevidade; sendo nella a emu-
lação dos animos só directiva a se excede-
rem, e não a se disputarem, com desaliza-
ção da amavel concordia, e appetecivel tran-
quilidade.
Desde o dia seis, athe o decimo, se illu-
minou toda a cidade, e seos suburbios, com es-
quipaticas, e dispendiozas luminarias, sem que,
ainda as pessoas, a quem a fortuna denegou
os meyos para maiores profuzões, deixasem
de applaudir este geral contentamento, com
nunca vistas, mas munto louvavel prodi-
galidade. Todos estes dias se determinarão
feriados, e suspendido os progressos litigiozos,
e de beligeração togada; tudo com justissimos
fundamentos, porque pedia a boa razão,
civilidade, e Urbana policia, que se suspen-
dese tudo, o que podia alterar os animos, nos
dias, em que somente devia tractar-se a leti-
ficação destes, da sua tranquilidade, e augustos
festeijos. Este facto conduzio munto, para
as festas serem mais plauziveis; pois fica-
rão assim os animos desembaraçados, para
somente
somente contemplarem, nestes jucundissi-
mos actos, e festeijos diurnos, e nocturnos; e des-
tes darei separada noticia a seu tempo.
Chegou finalmente o dia vendecimo
do mez, e septimo da festevidade, em que se
havia de figurar a victoria, que S. Magesta-
de fidelisima, tinha conseguido contra os fa-
naticos persagios, na primeira carta re-
feridos; e neste dia, confesso a V. M.ce; com
toda a ingenuidade, que chegou o conten-
tamento de todos, athe elevado cume de
gozo, e alegria, que sahio dos corações dos
Expectadores, de impavidade, amor fi-
delissimo, e illibado tributo, ao nosso So-
berano, e tal amor á Real, e Augustissi-
ma Prole Lusitana, que nos olhos ale-
gres, e impavidos semblantes dos concur-
rentes; se estava lendo, que em defeza
da Augustissima, Sacra, e Real Pessoa
do mesmo Senhor, da sua Fidelissima con-
sorte, e Raynha nossa Senhora, e de toda
sorte, e Raynha nossa Senhora, e de toda
a Real Familia, Corôa, e Estados deste Im-
perio de Christo, se offerecião, e estavão
promptos, a derramar athe a ultima
gota de seu sangue, dispendio do extremo
quadrante de seos patrimonios; porque as
acções, que se executarão neste dia, e a
fidelidade Lusitana, sempre illibada pa-
ra com Deos, seos Soberanos, Patria, e
Pôvo, estavão fazendo concitar os animos,
de todos, ao mesmo, o que elles já estavão
libentissimamente offerecidos, e sacri-
ficados. Haviao-se enthornizado no meyo
do Palacio de S. A.; as Armas Reães, em que
se simbolizavão o nosso Soberano, e toda a Real
Prole, armado o throno com primorozo alinho,
e o maior empenho da Arte. Velavas hum
quartinado de damasco carme-
zim, com soberbos galões de Ouro. Toda a Praça
estava tambem armada, com o maior empen-
ho da perfeição, pelas janellas de sua circunfe-
rencia, com profuzão santa, que parese ter
submiza, e empenhadamente concorrido pa-
ra aquelle acto, a opulencia da Azia, Affri-
ca, America, e Europa, para fazer exce-
der quazi infinitamente a riqueza de sua
armação, e constructura, as grandezas do Rey
Assuero. Entrarão nesta primoroza Praça,
como dispozições previas, ao que depois se exe-
cutou, alguas figuras, e festeijos allusorios, em
que se dispendeu, o Lapso, que dillabio desde
as duas, athe as quatro horas da tarde. Soarão
as quatro; e logo entrou nella o Escaler, ou
Penche de fogo, armado, na forma, que lhe
Referi no sexto dia. Fingia navegar com
Vento Favonio, e dirigindo-se ao meyo da Pra-
ça com vellas largar, e bandeiras desemro-
ladas, lançou ancora, como quem queria
alli parar. Postado assim este fingido Esca-
ler, entrarão na mesma Praça, as duas car-
rossas dos Cavalheiros, puxadas por jugos de
bois, cobertos com primorozas mantas. Ser-
viao-lhe de viadores, hua figura da Fama, que ca-
minhava atraz, acompanhada de oito A-
cheiros, como no sexto dia. Fingião as Carros-
sas, Fragatas de Guerra, com vellas largas; as
logo, q avistarão o Escaler, segurar bandeira
de contenda, e se forão prolongando pelos la-
do Escaler; o qual, ficando no meyo, tambem
desenrolou bandeira de Guerra, segurando-a
com hua peça de artelharia, na forma do estillo,
em batalhas navães practicado. Passado pouco
espasso, entrarão a combater-se, despedindo huas,
e outras, furiosas descargas, com tanto valor, e
profia tam grande da peleja, que em breve
tempo, se encheu a Praça de copiôzo fumo.
No
No maior conflicto, e mais rigoroza disputa,
dos dois beligerantes, sahio pella porta princi-
pal do Palacio de S. A., hum Emissario, a ca-
vallo, ricamente vestido, e soberbamente aja-
ezado o bruto q o conduzia, com seos mossos
da estribeira a pé, tragica, e ricamente ves-
tidos. Na inmedita retaguarda, vinha
hum soberbo, e riquissimo Coche, em que em-
barca o mesmo Serenissimo Senhor, quando
sahe de Estado, que conduzia vestidas de
nimphas, tragica, e soberbamente aderessadas
as Deozas da Paz, e da Justiça, ambas nos as-
sentos do throno / X o do espaladar do coche/
com incesso tam Regio, e de tanta gravida-
de, que fazião, com alegria, chorar os
circunstantes. No dorso deste Coche,
vinha outro de Estado, conduzido por qua-
tro tiros de machos, com quatro creados
de cavallo, asseadissimamente vestidos.
Logo que estas figuras principiarão a sa-
hir, suspenderão as Fragatas, e Escaler
beligerantes, a sua peleija, e ficarão
como pavorizados, e suspensos, por verem
que os Numes, mandavão suspender
a contenda, com amiaços de severa demons-
tração, contra aquelle que petulantemente,
ententase progredir na peleija. Dirigirão
se as Deozas, á frente do Palacio Archiepisco-
pal, e defronte das Reães insignias, desem-
barcarão de seu coche, acompanhadas do
Dicto Emissario, e mais cometiva; fizerão
signal aos contendores, que advirtissem,
e ponderasem, na prezença, de quem vin-
hão rompido, naquelle attrevimento,
barbara batalha; fulminando-lhe os
effeitos do Real desagrado do nosso Sobera-
no, e familia Regia, quando conspira-
sem outro similhante absurdo, e caminhan-
do
que as Deozas practicarão, apontando digitalmen-
te, com respeito, e admiração, para o logar, ou tho-
rono, em que as Reães Insignias, se achavão
colocadas.
Neste entrevallo, sahirão os Cavalhei-
ros, formados em boa ordem, e com os seos In-
sectadores, executarão hua gostozissima
e bem concertada contradança, com va-
rias, e as mesmissimas passagens, diversas
das que havião feito, no sexto dia da feste-
vidade, e gyrando pela Praça, nestes ale-
gres actos, chegarão á fronte do thorono re-
feridos, e tributarão as Reães Insignias, tres
profundas, continencias, como tambem
cortejarão S. A. R., recitando letras alluso-
rias aos Reães festeijos, com especiosissima
civilidade, concluindo o gyro, se formarão
na frente de suas Fragatas, q se achavão
anchoradas perto da entrada da Praça.
Derão os Mouros principio á sua, com
ordem cordatissima, formados no outro la-
do do ingresso da mesma Praça, de donde
dirigirão a sua viagem, á frente do Palacio
Archiepiscopal, regulando os progressos, pe-
los admiraveis compassos de seos sonorozos
instromentos. Prostnarão-se trez vezes as Re-
aes Insignias, repetindo as costumadas
continencias, com a devida diferença,
a S. A. R. Continuarão a contra dança, pela
circumferencia de toda a Praça athe che-
garem ao Citio, aonde estava anchorado o seu
Escaler. Embarcarão-se huns, e outros
ao compasso de gostosissimas cantatas, e
instromentos; e sahindo da Praça, se diri-
girão ás portas das Figuras, e Empenhados
naquele festeijo, cada huns ás de seos
respectivos partidos, já com archotes, athe
se recolherem ás suas costumadas Estan-
cias.
Estes são os progressos das Reaes feste-
vidades
festividades, e sua execução, que a V. M.ce ten-
ho fielmente referido. Não lhe posso dar
a noticia individual dos Emblemas, e Letras
das trarjas, q’ levavão alguas figuras, e das
daquellas cantatas, e motetes e illusorios,
porque, como já lhe dice, me he perciza
maior a veriguação; e so me resta dizer-lhe,
que todo o Estado pertencente á acção da
Nobreza Civil, e Armada, era do Paço e
S.A.R. e á sua casta a maior despeza desta.
O Escaler dos Mouros, suas Equipagens, e per-
tencentes, forão feitos á custa da nobreza
togada, e seos Alliados, como também
os custozoz vestidos, de que huns, e outros se
armarão.
A dança dos Cavalheiros, cons
tava de hum Rabecão, seis Rabeccas,
duas Flautas, duas Trompas, álem das
duas, que levavão adiante. A dos Ad-
vogados, foi executada, com dois Rabecco-
oens, seis Rabecas, duas Flautas, hum Pi-
fano, dois Buez, e duas Trompas. Tudo
o mais perfeito que pôde achar-se, com
profuzo dispendio, ainda que munto
inferior ao dezejo de todos, que appeteci-
ão ter opulentos thezouros para dispen-
derem nestas Reaes festividades,
Para o dia de Sancto Antonio, gloria e,
e dilicias da Lusitania, se determinarão
as repetições das danças referidas, com a
a possivel variedade, pelas ruas desta
Curia Bracarense; porem a copioza
chuva, não deu logar ao este festeijo, ele
transferirão para outros dias, mas como
chegou a noticia dessa corte, de que os
augustos
.
de que os augustos festeijos, se havião nella
terminado, tambem as de Braga, tive-
rão o dicto glorioso fim. Para o correyo re-
ferirei o que falta expôr a V.M.ce a quem Deos
g.de m.s an.s Braga