- Sumário
- Dissertação sobre a tragédia - Observações de Miguel Tibério Pedegache Brandão Ivo sobre as representações suas contemporâneas(1777)
- Ano
- 1777
- Impresso
- Miguel Tibério Pedegache Brandão Ivo, «Dissertação sobre a Tragédia» in Mégara de Miguel Tibério Pedegache Brandão Ivo e Domingos Dos Reis Quita, Lisboa, Oficina Patriarcal, 1777
- Menções
- Teófilo Braga, História do Teatro Português. A Baixa Comédia e a ópera. Século XVIII, Porto, Imprensa Portuguesa, 1871 pp. 270-271
As companhias dos comediantes são pouco numerosas, e assim se acham os mesmos actores na precisão de representar promiscuamente a comédia ou tragédia, ao mesmo tempo que passa quase por axioma ser impossível dar-se um representante que faça distintamente o papel de trágico e de cómico. Os nossos representantes, como acabamos de dizer, pelo seu pequeno número, tão depressa passam do coturno para o soco, e contraíram por este modo um gosto misto de representação, que os impossibilita para poderem sair-se bem de um e outro ministério. Demais, não conhecemos no nosso teatro senão dois actores mais suportáveis, um para representar de Soberano, outro de Pai; todo o resto da companhia é insofrível. Um, que chora incessantemente, tem uma voz aspérrima, e articulada sempre em um mesmo tom, sem conhecer as diversas modulações, que, por exemplo, devem fazer transição de uma situação enternecida para outra furiosa, de uma de desprezo para outra de temor. Falta-lhe a decência, faltam-lhe os gestos, em uma palavra, quase inteiramente lhe falta o conhecimento do teatro. Bater com os pés é a expressão da sua cólera, correr como um louco é o indício da sua desesperação. Os seus braços não parecem pertencer àquele corpo, tão pouca correlação se acha entre o seu movimento com os discursos que acaba de proferir a sua
língua. Outro actor agrava o desar da sua pequena estatura com uma voz rouca e desengraçada, com um gesto afectado, com umas impaciências fora de tempo, com um ar comum, com pouca ou nenhuma inteligência do que está representando, com uma pronúncia adulterada e defeituosa. Rasga os seus vestidos para mostrar-se apaixonado, e é tão excessivo na sua declamação que degenera em extravagância. Se estes são os mais toleráveis, bem se vê que os mais não merecem fazer-se menção deles.
Um actor deve representar igualmente aos ouvidos do que aos olhos, todas as paixões próprias de alterar, já na boa, já na adversa fortuna, os ânimos humanos. Para bem as representar não só é necessário ter uma ideia delas, mas a aptidão de vesti-las das cores que mais propriamente as distinguem. Estas cores ou sinais são de dois modos, que dizem respeito aos dois primeiros sentidos. Com os gestos e certos movimentos no aspecto se fala aos olhos, e aos ouvidos, com as diversas toadas e inflexões de voz, que não consistem somente em levantá-la ou deprimi-la, mas principalmente em umas certas modulações expressivas e afectuosas que dêem aos sentidos de quem ouve a ideia do que passa no ânimo de quem fala.
Não passam de seis as paixões que os olhos possam exprimir com força e veemência e que figuradas no semblante sejam capazes de fazer-nos passar pelos diferentes graus de aflição, de prazer ou de pasmo que podem fortemente abalar o coração. Tais efeitos produzem a alegria, a tristeza, o temor, o desprezo, a cólera e a admiração. Não é pequeno o número de outras paixões auxiliares, que ainda que não podem expressar-se no seu próprio carácter, não deixam de poder representar-se muito bem, incorporadas com duas ou três das suas capitais. Por tais podem reputar-se o
ciúme, a vingança, o amor e a compaixão. Para exprimirmos o ciúme é necessário dar-se uma combinação de temor, desprezo e cólera. A vingança depende das duas derradeiras. O amor só pode manifestar-se pelos efeitos da alegria acompanhada de admiração com seus tais-quais visos de temor. A compaixão finalmente se indica complicando-se temor e tristeza. O único segredo para bem expressar uma paixão no semblante é concebê-la bem, mediante uma forte e viva imaginação. Quem se deixar penetrar e possuir da força de uma ideia de tristeza em poucos tempos sentirá apoderar-se de seus olhos uma espécie de quebranto que é próprio de melancolia: os olhos perderão insensivelmente a natural viveza, e todos os órgãos do corpo abatidos por uma repentina sonolência, que parece simpatia, ficarão quase desaminados como se padecessem um verdadeiro desmaio. Se nesta disposição, que puramente pode reputar-se como passiva, fizer algum esforço para falar com impaciência, achará que nisso intenta um impossível. Busque muito embora as expressões mais fogosas e mais arrebatadas. Jamais poderá concordar com elas o tom da sua voz lânguido e flébil, porque se tem comunicado a alteração dos seus músculos aos órgãos da sua voz. Antes que esta haja de proporcionar-se às suas expressões é necessário que ela deixe preocupar-se das ideias da raiva e da indignação, que reforçando as suas desaminadas fibras e influindo-lhe cólera e furor imediatamente lhe farão cintilar nos olhos os sinais destas paixões. Nestes termos não só corresponderá a sua voz ao seu aspecto mas todos os seus movimentos farão uma viva pintura da sua paixão. De lânguido e mole que estava, passará a ser um fogo impetuoso, excitando nos ânimos dos espectadores efeitos nada vulgares.
Para que um comediante chegue a distinguir-se
e possa sobressair a todos seria necessário que estudasse em acostumar a sua imaginação a receber igualmente em si toda a sorte de imagens e familiarizar-se nas expressões das diversas paixões que dominam a nossa natureza. Que quando recita, a impressão de tristeza com que a força da própria imaginação lhe comove e abala o coração, comunicando-se aos olhos, ao semblante e às vozes se mostrasse melancólico, e triste. Que aonde o poeta suposesse alguma esperança, os seus olhos se alegrassem de repente e que no tom da sua voz e na mudança das suas acções se principiasse a descobrir uma nova força e um novo alento. Que em outros lugares se demorasse alguns momentos, e revestindo-se de um ar pensativo para facilitar estas passagens de umas para outras paixões, disponha o ânimo dos seus ouvintes igualmente que o seu, para todas as revoluções que é capaz de experimentar o coração humano, porque sentindo-as sucessivamente, infalivelmente as fará sentir ao auditório.
Não só devem os representantes cuidar em que o tom da voz e o ar do semblante expressem com energia o afecto de que se supõem possuídos, mas ainda que o gesto lhes seja de tal sorte correspondente que se leia em cada um respectivamente o efeito, que naturalmente deve causar-lhe o estado actual da cena, e as circunstâncias do lance em que se acham, observando, porém, o conservar sem discrepância o carácter que se lhe atribui. O valoroso deve ouvir e receber os golpes da desgraça com tranquilidade, o tímido com ar turbado, o intrépido com impaciência e da mesma sorte os mais, conforme o interesse que tiverem e à proporção de afecto que os dominar; o contrário seria impróprio e destruiria a verosimilhança e a ilusão teatral.
Logo que o actor apareceu na cena já não tem
liberdade própria, porque tudo há-de ser dependente das suas palavras e do interesse de que se acha ocupado. Há-de entrar no tablado com passo seguro, igual e moderado, porém sem afectação. Se a acção que vem contar pede que entre apressado, há-de fazê-lo sem descompor-se e conservando quanto for possível o ar majestoso que pede a tragédia. Enquanto estiver na cena esteja direito sem afectação e sem que pareça hirto. Observe que a sua postura, quando se mover ou ficar parado, seja agradável e airosa. Que os seus gestos não sejam descompostos, demasiados, violentos ou simétricos. Que para exprimir as paixões deve conhecer o gesto particular que as distingue e caracteriza. Que um homem sufocado de ira acciona diferentemente que o que experimenta em si os efeitos de uma paixão branda e suave. Que se deve atender no modo de accionar quem fala, e a quem se fala; se é Dama, se é superior, se é igual, se inferior. No mover dos braços não os dobre, não os estenda, não os levante demasiado. Estendê-los ambos igualmente ou levantá-los à mesma altura é não só desagradável, mas ainda ridículo. Mover um depois do outro como a compasso é não conhecer a natureza. Figurar materialmente com as mãos e com o corpo quando articula a língua seria de pantomimo.
As palavras são o retrato das ideias e as acções ajudam à propriedade do retrato e assim devem estas concordar com aquelas ou, para nos explicarmos melhor, a ideia, a palavra e o gesto devem conservar uma união perfeita, o não discrepar entre si. O Poeta, diz o Pinciano [Epístola 13 da sua Filosofia Antiga], com o conceito declara as coisas e com as palavras explica o conceito; o actor, com o movimento e a acção deve declarar e manifestar a palavra do Poeta e dar-lhe força.
Há também um certo movimento de cabeça que explica muito. O melancólico, o pensativo, o aflito, o envergonhado a inclinam; o insolente, o altivo, o irado, o inocentemente acusado a trazem direita. Enfim, não há membro no corpo que se não sinta dos afectos da alma. Observe-se ainda que nos casos atrozes a voz deve ser impetuosa, nos tristes lastimosa, nos medianos temperada, nos grandes majestosa e nos de temor perturbada e sumida, nos de ternura suave e afectuosa, nos de respeito submissa, nos de piedade branda, nos de cólera interrompida e nos comuns regular. Para se não equivocar na escolha de um e outro tom de voz, a prática pode só dar a instrução precisa, aplicando-se o actor quando recita a observar até donde chega a sua voz sem frouxidão ou aspereza, sem parecer trémula ou confusa, porque assim saberá até que grau se estende o metal da sua voz e a força da sua respiração. Que modulações deve observar para evitar estes defeitos e conseguir aquela flexibilidade de garganta que vence ou modera semelhantes imperfeições da natureza, que facilita a boa e distinta pronúncia e lhe faz adquirir aquele grau de força ou brandura, de complexidade ou contracção, de aspereza ou suavidade, mais próprias das palavras ou afecto que pretende representar, pois é certo que a naturalidade e a exacção da pronúncia, já quando se levanta a voz, já quando se modera, já quando se comprime, não só facilita o exprimir oportunamente e sem confusão qualquer afecto, mas serve principalmente, e com especialidade para, na ocorência de muitos e distintos afectos entre si, se ache logo a expressão mais expedita e proporcionada para não desfigurar e escurecer a verdadeira pintura da natureza que se requer em semelhantes lances.
Muito mais nos pudéramos alargar nesta matéria
como, porém, de mais de ser este ponto alheio do nosso argumento principal as nossas reflexões poderiam ser mais dilatadas da que em benefício da brevidade desejamos, as omitimos. O que deixamos dito julgamos por muito suficiente para dar aos actores do nosso teatro uma ideia do que devem observar para maior crédito do seu ministério e maior satisfação do público.