- Sumário
- Despacho do Arcebispo de Lacedemónia sobre a autorização para o actor requerente se confessar e obrigação do pároco de ouvi-lo (12 Abril 1778)
- Ano
- 1778
- Menções
- (Bastos 1898: 512-513)
[1778]
Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Diz Manuel Rodrigues Lopes, cómico no teatro da Rua dos Condes, e morador na freguesia de S. Lourenço desta cidade, que pretendendo satisfazer o preceito da Quaresma próxima do presente ano, e confessar-se ao seu Pároco, o Reverendo Dr. José Caetano de Mesquita, prior da dita Igreja, o não quis este ouvir de confissão, e nem desobrigá-lo, respondendo ao suplicante que os homens da sua profissão andavam sempre em ocasião próxima de pecado mortal, e que assim o diziam os seus livros. Não advertiu, porém, que nem tudo quanto se acha nos livros é reduzível à prática, porque as diferentes circunstâncias, e o diferente modo de pensar faz com que sejam lícitas em um tempo umas acções que o não foram em outro. Os autores canonistas ou teólogos morais condenaram as comédias e quem as representava, ou olharam para os costumes do seu século, ou, faltos de experiência, copiaram as doutrinas dos mais antigos, nos quais havia razão sobeja para esta condenação pois que nesses obscuros tempos eram as cenas obscenas, os comediantes chamados mimos, pessoas abjectas e vis que provocavam a luxúria nos teatros, e as pessoas cordatas e de bom senso nem iam, nem levavam as suas famílias a estas assembleias, onde se promovia o pecado. Hoje, porém, são os teatros escola de costumes, corrigem-se os maus e louvam-se os bons, e pode ser que semelhantes espectáculos, onde se mete a ridículo o vício e se louva a virtude, façam mais comoção nos ânimos dos espectadores que um sermão da Quaresma. Logo, como será possível que quem concorre para meter pelos olhos dos seus concidadãos verdadeiro modo de proceder, sejam medidos pela mesma bitola dos que algum dia faziam o contrário? As peças que se põem nos teatros são revistas e correctas por um tribunal Régio e Pontifício, e se este tribunal aprova as peças reputando-as livres de todo e qualquer veneno, como não há de aprovar e reputar livres de veneno as bocas que as representam? Em uma palavra, as pessoas que hoje vão aos teatros, de um e outro sexo, são de toda a circunspecção, e nem por isso incorrem no grave defeito de levianos, e até para remate, a Soberana, que aliás é cofre de todas as virtudes, não se dedigna de ser também espectadora com toda a Casa Real, circunstância que sobeja para o Reverendo Prior mudar de sentimentos. O mais não é isto, é que o Senhor Rei D. José de gloriosa memória, vendo que os comediantes do seu tempo não mereciam a infâmia que a comum opinião, derivada dos séculos da ignorância, tinha espalhado contra os representantes, os livrou dela e colocou na classe dos homens puramente mecânicos; e se a profissão já hoje não é infame, como há de ela reputar-se pecaminosa?
O mais é que aquele Reverendo Pároco acabou, há poucos anos, de ser mestre de retórica e de poética no Colégio dos Nobres, onde precisamente ensinou aos filhos da grandeza e da primeira nobreza do Reino os preceitos das comédias e mais dramas e as regras de as fazer segundo a arte; logo não podia agora reprovar a prática daquela especulação, que ele mesmo ensinou.
E porque o Suplicante quer da sua parte satisfazer com a sua obrigação e não devem servir-lhe de embaraço escrúpulos do seu Reverendo Pároco tão mal fundados, nestes termos requer a V. Exa. se sirva mandar que o seu Reverendo Pároco o desobrigue ou que o Suplicante possa desobrigar-se na Patriarcal ou na Sé ou em qualquer outra freguesia desta cidade.
Pede a V. Exa. seja servido assim o haver por bem e determinar como o Suplicante implora.
E. R. Mercê.
Despacho:
Damos ao reverendo Pároco da Santa Igreja Patriarcal a comissão necessária e a precisa jurisdição para admitir o Suplicante ao cumprimento dos Santos Preceitos Quadragesimais em termos, e o dito Reverendo Pároco avise o Reverendo Prior de S. Lourenço desta nossa providência.
Lisboa, 12 de Abril de 1778
Arcebispo de Lacedemónia. Vigário geral do Patriarcado