- Sumário
- Descrição de um banquete com representações de um rei da Guiné durante as festas realizadas por ocasião do casamento do príncipe D. Afonso com a princesa Isabel de Castela (1490)
- Ano
- s.a.
- Localização
- Biblioteca Nacional de Portugal (RES-18-A)
- Comentário
- Garcia de Resende publica a fala do rei da Guiné, da autoria do coudel-mor, no Cancioneiro Geral, em 1516; este momento dos festejos também é relatado por Aires Teles de Meneses na Arenga ou relação fiel das Festas que se fizeram na Cidade de Évora.
- Impresso
Garcia de Resende, «Vida e feitos del rei D. João II» in LIvro das Obras de Garcia de Resende, 1545, ff. 74v-75v
Do primeiro banquete de cea que el rei deu na sala da madeira.
E logo à terça-feira à noite houve banquete de cea na sala da madeira, em que el rei e a rainha e o príncipe e a princesa comeram, e com eles o duque e o senhor dom Jorge e Rodrigo d’Ilhoa embaixador. Todos em ?a grande mesa com muito grandes dorsês de brocado que tomavam toda a sala através. E na primeira mesa da mão dereita comia o marquês de Vila Real com as senhoras donas e damas, e na primeira da mão esquerda o arcebispo de Braga e o bispo d’Évora e bispos e condes e pessoas principais do conselho, que eram muitos de ?a parte e da outra, assi homens como molheres. E à mesa del rei com todolos oficiais vestidos de brocados e servida per moços fidalgos que serviam de tochas e bacios ricamente vestidos. E as outras mesas todas com trinchantes e oficiais vestidos de ricas sedas e brocados e mui galantes, e assi os moços da câmara ordenados a cada mesa todos vestidos de veludo preto. No qual banquete houve infinitas e diversas igoarias e manjares e singular concerto e abastança, e muitas e assinadas cerimónias. E quando levavam à mesa del rei as igoarias principais e fruta primeira e derradeira e de beber a ele e à rainha e ao príncipe e princesa, iam sempre diante dous e dous muitos porteiros de maça, reis d’armas, arautos e passavantes, os porteiros-mores, quatro mestres-salas, o veador e os veadores da fazenda e detrás de todos o mordomo-mor, e todos iam com os barretes na mão até o estrado onde faziam suas grandes mesuras, e os veadores da fazenda iam com os barretes na cabeça até o meo da sala, e do meo por diante os levavam na mão, e o mordomo-mor ia sempre cuberto até o fazer da mesura, que juntamente fazia e tirava o barrete. E era tamanha cerimónia que durava muito cada vez que iam à mesa. E o estrondo das trombetas, atambores, charamelas e sacabuxas e de todolos menistrés era tamanho que se nam ouviam, e isto se fazia cada vez que el rei, a rainha, o príncipe e a princesa bebiam e vinham as primeiras igoarias à mesa, e a copeira era cousa espantosa de ver. E logo à entrada da mesa veo ?a grande carreta dourada, e traziam-na dous grandes bois assados inteiros com os cornos e mãos e pés dourados, e o carro vinha cheo de muitos carneiros assados inteiros com os cornos dourados, e vinha tudo posto num cadafalso tam baixo com rodetas per fundo dele que nam se viam, que os bois pareciam vivos e que andavam. E diante vinha um moço fidalgo com ?a aguilhada na mão picando os bois que parecia que andavam e levavam a carreta, e vinha vestido como carreteiro com um pelote e um gabam de veludo branco forrado de brocado, e assi a carapuça que de longe parecia próprio carreteiro, e assi foi oferecer os bois e carneiros à princesa e feito o serviço, os tornou a virar com sua aguilhada por toda a sala até sair fora e deixou tudo ao povo que com grande grita e prazer foram espedaçados, e levava cada um quanto mais podia. E assi vieram juntamente a todalas mesas muitos pavões assados com os rabos inteiros e os pescoços e cabeça com toda sua pena que pareceram muito bem por serem muitos e outras muitas sortes de aves e caças, manjares e fruita, tudo em muito grande avondança e muita perfeiçam. E houve aí ?a muito grande representaçam dum rei de Guiné em que vinham três gigantes espantosos que pareciam vivos de mais de quarenta palmos cada um com ricos vestidos todos pintados d’ouro que parecia cousa muito rica, e com eles ua mui grande e rica mourisca retorta em que vinham dozentos homens tintos de negro muito grandes bailadores todos cheos de grossas manilhas polos braços e pernas douradas que cuidavam que eram d’ouro e cheos de cascavês dourados e muito bem concertados, cousa mui bem feita e de muito custo por serem tantos, em que se gastou muita seda e ouro, e faziam tamanho roído com os muitos cascavês que traziam que se nam ouviam com eles. E assi houve outras representações, e depois da cea muitas danças e outras muitas festas que quasi toda a noite duraram cousa certo para ver.