Sumário
Descrição das festas de Vila de Portel pelo nascimento da princesa da Beira, com licença de impressão (13 de Janeiro de 1794)
Ano
1794
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, caixa 365, nº 4366
Comentário
A Descrição foi impressa na oficina de Simão Tadeu Ferreira. Existe um exemplar na Biblioteca Nacional de Portugal com a cota L. 1868 A.

 

Descrição das festas da Vila de Portel da sereníssima Casa de Bragança pelo feliz nascimento da augustíssima princesa da Beira

 

O juiz de fora desta vila, José António Mâncio da Costa Ubaldo, tanto que recebeu a notícia do feliz nascimento da sereníssima princesa da Beira, fez repicar os sinos em sinal de tão fausta notícia, mostrando-se todos aqueles habitantes contentíssimos pela segurança de ver perpetuada a desejada sucessão da real casa reinante, que

 


 

segura aos portugueses a prosperidade de que gozarão sempre debaixo do seu paternal governo. Nas três noites seguintes mandou a Senado da Câmara iluminar a vila em sinal de tão grande alegria, a o que todos os moradores obedeceram com satisfação pelo grande prazer que lhes causava aquela feliz notícia. Distinguiam-se entre estas iluminações a[s] do juiz de fora, as de José Gil Tojo Borja Quinhões da Silveira Meneses, as de Pedro José Limpo Toscano e Vasconcelos, as do sargento-mor, João Rodrigues Ficalho, as do doutor Francisco Xavier Cavaca de Gouveia Cardim Coelho, as do couteiro de cavalo José Félix de Sousa; as

 


 

da viúva do Capitão Aleixo Ferreira e outras mais. As três noites das iluminações foram tão bem festejadas com danças de diferentes qualidades, todas elas ricamente vestidas, muito brilhantes e dirigidas com gosto e discernimento por sujeitos hábeis e conhecedores nesta matéria. Estas danças eram acompanhadas de carros e figuras, tiradas com escolha da mitologia e apropriadas com alusão à festividade.

           No terceiro dia cantou-se na Igreja Matriz uma missa e o Te Deumcom música, estando o santíssimo sacramento exposto, em acção de graças

 


 

por tão feliz nascimento; assistiu a este piedoso e solene acto o senado, nobreza e povo; pregou o reverendo cura frei Francisco Luís Casado de Oliveira e Silva, e finalizou com uma procissão.

          Não contente ainda o Povo com estes sinais de alegria pública, destinou os dias 23, 24 e 25 de Agosto para dar novas provas da sua satisfação, festejando novamente este feliz acontecimento, com diferentes divertimentos públicos, dirigidos todos pelo juiz de fora. No dia 23 correram-se toiros na praça pública que estava preparada de palanques, e adornada com grande gosto, assistindo a este divertimen-

 


 

to mais de cinco mil pessoas. Representou-se nessa mesma noite o drama: Ezio em Roma, que mereceu um aplauso geral pela grande propriedade com os actores se distinguiram, pelo asseio do vestuário, pelo elegante da cena e pela sua iluminação.

         No segundo dia fez-se uma das entradas mais elegantes que se tem visto naquela província, concorrendo muito para isto o desvelo e actividade do mencionado cavalheiro José Gil Tojo. Esta entrada, que era composta de vinte quatro cavaleiros vestidos unifor[me]mente com fardas brancas e guarnições encarnadas, correu as ruas da vila depois de

 


 

fazer a sua entrada na Praça. Esta tropa era acompanhada de andarilhos, e tinha oficiais e trombeta que a precediam, tocando o trombeta de tempos a tempos segundo o costume militar.

Esta tropa era seguida por um carro triunfal, figurando o Parnaso, com o Pégaso no cume. Apolo aparecia neste carro com grande luzimento, acompanhado das Graças que repetiam diferentes poesias alusivas a o augusto objecto daquela função.

Este carro levava uma excelente música como seu zabumba e era seguido por uma guarda à Turca. Deitou-se na mesma noite um vistosíssimo fogo-de-artifício que durou quase duas horas, e que pela sua

 


 

diversidade e boa execução foi olhado como hum dos melhores que se tem feito naqueles contornos.

                No terceiro dia deram-se ao altíssimo graças pela felicidade de Portugal, na Igreja Matriz, que se achava armada com gosto e asseio para este fim. Celebrou-se a missa com o santíssimo exposto, sendo celebrante o reverendíssimo prior frei António Gomes Gaio, a quem assistiram ao lavabo o desembargador agravista super intendente geral das alfândegas do sul, José Gil Tojo de Borja, e o cavalheiro João António Inácio de Abreu Rosa Guião.

A missa, que era do célebre compositor João de Sousa, foi cantada com os melhores músicos

da província; e pregaram elegantemente

 


 

de manhã o padre mestre de Moral, frei António da Ressurreição Abranches, e de tarde o padre mestre de Filosofia Racional, frei António Queirós, ambos eremitas de S. Paulo. Depois cantou-se o Te Deum e terminou esta religiosa função em uma magnífica procissão.

          Na noite daquele dia representou-se a Bela Selvagem, do célebre Goldoni, acompanhada de uma excelente musica e tudo o que requeria a natureza daquele drama, que foi executado com o aplauso e [a]dmiração de um povo imenso, que tinha concorrido de muitas partes. Observou-se em todo este concurso um grande sossego e tranquilidade, para que concorrerão as muitas providencia com que o juiz de fora preveniu tudo.

 

Imprima-se e volte a conferir.

Mesa, 13 de Janeiro de 1794

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Descripção

Das Festas da Villa de Portel da

Serenissima Casa de Bragança

Pelo                            Augustissima

Feliz Nascimento da Serenissima

Princeza da Beira

 

                                               O Juis de fora desta

Villa Joze Antonio Mancio da Costa

Ubaldo X tanto que  recebeo a noticia do feliz Nas-

cimento da Serenissima Princeza da

Beira, fez repicar os sinos em sinal

de tão fausta noticia, mostrando-se todos

aqueles habitantes contentíssimos pela se-

gurança de ver perpetuada a desejada

sucessão da Real Casa Reinante, que

 


 

segura aos Portuguezes a prosperidade

de que gosarão sempre debaixo do

seu paternal governo. Nas três noites

seguintes mandou a Senado da Camara

illuminar a Villa em sinal de tão

grande alegria, a o que todos os Mo-

radores obedecerão com satisfação pelo

grande prazer que lhes causava a

quella feliz noticia. Distinguião-se

entre estas illuminaçoens a do Juiz de

Fora, as de Joze Gil Tojo Borja Quinho-

ens da Silveira Menezes, as de Pedro

Joze Limpo Toscano e Vasconcellos, as

do Sargento Mor João Rodrigues Ficalho,

as do Doutor Francisco Xavier Cavaca

de Gouvea Cardim Coelho, as do Couteiro

de Cavallo Joze Feliz de Sousa; as

 


 

da Viuva do Capitão Aleixo Ferreira

e outras mais. As três noites das illu-

minaçoens forão tão bem festejadas com

dansas de differentes qualidades, todas

ellas ricamente vestidas, muito bri-

lhantes e dirigidas com gosto e descer-

nimento por sujeitos hábeis, e conhe-

cedores nesta matéria. Estas Danças

erão acompanhadas de carros e figu-

ras, tiradas com escolha da Mytholo-

gia, e apropriadas com allusão á

festividade.

           No terceiro dia cantou-se na Igreja

Matriz huma Missa e o Te Deum com

Musica estando o Santissimo Sacra-

mento exposto, em acção de graças

 


 

por tão feliz Nascimento: assistio a

este Piedoso e solemne Acto o Senado,

Nobreza, e Povo; pregou o Reverendo Cura

Fr. Francisco Luis Casado de Oliveira,

e Silva, e finalizou com huma

prossissão.

          Não contente ainda o Povo com estes

Sinaes de alegria publica, destinou os

dias 23, 24, e 25 de Agosto para dar

novas provas da sua satisfação, feste-

jando novamente este feliz acon-

tecimento, com differentes divertimen-

tos Publicos, deregidos todos pelo Juiz

de Fora. No dia 23 correrão-se toiros

na Praça Publica que estava prepara-

da de palanques, e adornada com gran-

de gosto, assistindo a este devirtemen-

 


 

to mais de cinco mil pessoas. Re-

presentou-se nessa mesma noite o

Drama: Ezio em Roma, que mereceo

hum applauso geral pela grande pro-

priedade com os Actores se distin-

guirão, pello asseio do vestuário, pelo

elegante da scena, e pela sua illu-

minação.

         No segundo dia fez-se huma das

entradas mais elegantes que se tem

visto na quella Provincia, concorrendo

muito para isto o desvello e activi-

dade do mencionado Cavalheiro Joze

Gil Tojo. Esta entrada que era com-

posta de vinte quatro cavalleiros

vestidos uniformente com fardas brancas e guarniço

ens encarnadas correo as ruas da villa depois de

 


 

fazer a sua entrada na Praça. Esta

Tropa era acompanhada de  andarilhos, e

tinha officiaes e trombeta que a pré-

cedião tocando Xo trombeta de tempos a tempos se-

gundo o costume militar.

Esta tropa era seguida por hum carro

triunfal, figurando o Parnazo, com

o Pegaso no cume. Apolo apparecia

neste carro com grande luzimento, acom-

panhado das Graças que repetião

differentes poezias, allusivas a o au-

gusto objecto da quella função.

Este carro levava huma excellente  Mu-

sica X como seu zabumba e era seguido por huma guarda

á Turca. Deitou-se na mesma noite

hum vistocissimo fogo de artificio que du-

rou quasi duas horas, e que pela sua

 


 

diversidade e boa execução foi olhado como

hum dos melhores que se tem feito na

quelles contornos.

                No terceiro dia derão-se ao Altissi-

mo graças pela felicidade de Portugal,

na Igreja Matriz, que se achava armada

com gosto e aceio para este fim. Cele-

brou-se a Missa com o Santissimo expos-

to, sendo Celebrante o R.do Prior Fr. Anto-

nio Gomes Gaio, a quem assistirão ao

Lavabo o Dezembargador Agravista Super

Intendente Geral das Alfandegas do Sul

Joze Gil Tojo de Borja, e o Cavalheiro João

Antonio Ignacio de Abreu Roza Guião.

A Missa q’ era do celebre compositor João

de Sousa foi cantada com os melhores Musicos

da Provincia; e pregarão elegantemente

 


 

de manha o P.e Mestre de Moral Fr. An.to da

Ressurreição Abranches, e de tarde o P.e Mestre

de Filosofia Racional Fr. Antonio Queiros, am-

bos Eremitas de S. Paulo. Depois cantou-se

o Te Deum e terminou esta Religiosa

Função em huma magnifica Prossissão.

          Na noite da quelle dia representou-se

a Bella Selvagem do Celebre Goldoni, a-

companhada de huma excellente Musica,

 e tudo o que requeria a natureza daquelle

Drama, que foi executado com o applauso

e dmiração de hum Povo immenso, que ti-

nha concorrido de muitas partes. Observou-se

em todo este concurso hum grande socego, e

tranquillidade, para que concorrerão as muitas providen-

cia com que o Juis de Fora prevenio tudo.

 

Imprima-se e volte a confe-

rir: Meza 13 de Janr.o de

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