Sumário
Descrição da estátua esquestre de D. José e seu transporte festivo da fundição ao Terreiro do Paço; Descrição da Praça do Comércio com um desfile de carros; Lembrança dos Refrescos; Refrescos para a Nobreza (s.a.)
Ano
s.a.[1775]
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Caixa 453, ff. 220-222v
Comentário
A parte correspondente à descrição da Praça do Comércio com um desfile de carros integra, com maior detalhe na Narração dos Aplausos com que o Juiz do Povo e a Casa dos Vinte e Quatro festeja a felicíssima inauguração da Estátua Equestre onde também se expõem as Alegorias dos Carros, Figuras e tudo mais concernente às ditas Festas, impresso em 1775

 

Descrição da régia estátua

Descripção Da Régia Estátua

Equestre, obra sem Segunda

Em todo o mundo

 

Principiou-se o modelo desta Estátua em o mês de Outubro, no ano do Senhor de mil setecentos e setenta e quatro no reinado do Sr.D. José o 1.o, Patriarca de Lisboa o Cardeal Saldanha, Cardeal Regedor o Arcebispo de Évora D. João da Cunha da Ilustríssima Casa de S. Vicente.

Feito o modelo se entregou a Bartolomeu da Costa, natural de Lisboa do sitio de Belém para a fazer em o ponto em que se acha: deram-lhe o sino grande da Patriarcal, fundição também de um clérigo português no Reynado do Sr. Rei D. João o 5º., o clérigo morreu de paixão, dizem por não ser sua obra bem aceite pelo Monarca, por ser portugueza: porém sempre se pôs na Torre, quando dobrava fazia tremer toda a rua nova.

Este caiu pelo Terramoto de 1755 e quebrou uma asa da porca, este foi o que se deu para fundir-se a Estátua Equestre, que foi pelo mês de Dezembro do dito ano de 1774, com tal fortuna, que saiu de uma só vez e de uma só peça tão perfeita, e delicada como se vê.

Em o mês de Janeiro de 775. Foram as Majestades e Altezas a vê-la  na fundição e foram se seguindo os grandes do Reino, ministros estrangeiros. Cardeais, e Núncio e mais pessoas graduadas e o povo, sendo tão grande o concurso que os soldados o não podiam sobter. Depois deles se fechou a fundição para poderem trabalhar nele os oficiais, e acabado que foi de se polir, que foi no mês de Maio do sobredito ano. Tornaram as Majestades e Altezas a irem vela, e toda a corte e mais povo assim português, como estrangeiro.

Em 2 do mês, e ano saiu o bando do Supremo Senado da Camara para todos os moradores da corte porem luminárias três dias, no dia seis, sete e oito do mês de Junho; pelos anos do nosso Monarca e aparecimento de sua Estátua Equestre: Constava este bando de timbales, de quatro clarins, trompas e um fagote, que tudo junto fazia uma admirável consonância, todos montados em soberbos cavalos, e todos vestidos de droguete azul agaloados de prata. Seguia-se o Meirinho, ou por outro nome o Neto, montado em um bom cavalo bem ajaezado ele de capa, volta e chapéu, com seu colar, este nesta função caiu do cavalo e da queda em breves dias foi para a eternidade.

Seguiu-se o Procurador da cidade da mesma sorte com sua[s] varas, vários oficiais, e Almotaceis da cidade: quatro juízes do crime, com seus escrivães e alcaides todos montados em cavalos, e com outros de estado, ordenava-se este bando a que os moradores da cidade pusessem as luminárias com a combinação de quatro mil reis, e vinte dias de cadea. Neste mesmo dia se tirou da cova onde se fundiu a estátua dentro em duas horas, tendo esta de peso 672 quintais e duas arrobas e outro tanto peso tinha a caixa em que veio a Zorra.

Em dia 21 do dito mês se pôs na Zorra com a mesma facilidade com dezanove homens, em 22 saiu a 6 horas da manhã, e até à tarde andou da fundição até de fronte das casas do Conde Almeirante no campo de Santa Clara; puxavam por ela todos os da Casa dos 24, vestidos em corpo com o seu honrado Juiz do Povo os mestres dos ofícios capatazes e Mariolas por cordas cobertas de pano encarnado, iam adiante os Hortelões vestidos em corpo para deitarem flores por onde passava. Outo bestas com ceirões de flores cobertos de panos de veludo carmesim agaloados, e um macho carregado de foguetes do ar, também coberto com pano encarnado, e a cada movimento que fazia a Estátua Equestre deitavam seus foguetes; neste pequeno caminho quebravam por cinco ou seis vezes as cordas por onde puxavam os homens, caindo uns sobre os outros; servindo de divertimento a imenso povo que acudiu a ver conduzir a dita Estátua. Andavam quatro carros actualmente    

 


 

Com água de beber, em ramados para os homens beberem, que passavam, os que puxavam de quatrocentos fora outros muitos mais que vinham com os aprestos nos necessários para a dita condução.

Em o dia 23 gastou desde as cinco horas da manhã até à uma da tarde; as Portas da Cruz, que, para passar, as deitaram a baixo, saindo do colégio que foi dos Padres da Companhia do Paraíso, cortando grande parte do alpendre da Igreja do Paraíso, nas Portas da Cruz onde chegou a uma hora, a tiveram virando e endireitando até às seis da tarde para o caminho que se abriu pela fundição e por noute veio a ficar de fronte da ermida de Nossa senhora do Rosário das Galés.

Em dia 24 continuou a sua derrota com o mesmo aparato com que saiu da fundição e gastou-se o dia todo desde a ermida do Rosário até ao campo chamado das Cebolas onde ficou até ao dia 25, e neste dia caminhou deste sitio até à Praça do Comércio chegando a meia tarde, lugar destinado à sua inauguração, grande foi o júbilo em o Senhor Marquês de Pombal, grandes do Reino e do Brigadeiro que a fundiu, que merecia não só o grande prémio com que Sua Majestade Fidelíssima o condecorou, mas ainda mandar-lhe levantar uma estátua para honra deste português, e dos seus, branzão da nasção, admiração dos vindouros, porém se senão levantou, sempre os escritos farão imortal o seu crédito, por ser obra sem segunda em todo o mundo conhecido e descoberto.

Obra que sendo de tanto peso e de tanta grandeza, foi fundida de uma só vez e de uma só peça, um cavalo bem ajaezado e com a maior delicadeza a figura do monarca nele montado com a mais óptima perfeição em fim e obra sem senão, que a todos os naturais como estrangeiros os deixou suspensos na admiração. O nome deste herói português é Bartolomeu da Costa, natural desta cidade do sítio de Belém, principiou por Artilheiro foi Condestável, Sargento, Alferes, postos que lhe deu o Tenente Coronel de Artilharia Manuel Gomes de Carvalho; depois veio por mandado dele para a fundição onde pela muita habilidade, discurso e experiência ideou a obra que serve de maior confusão aos maiores engenheiros da Europa. Em 26 do corrente se desmanchou a caixa em que veio metida, fazendo esta na frente uma traja com uns apanhados de damasco carmesim, e no meio dela este dístico = Non velant nubila Solem =, e pelo caminho se ia deitando este Epigrama impresso =

Epigrama

Rex Vive, hine populus, rex vive exclamat et illinc.

Vox populi Deus est vive, jubente Deo

Em 27 às três horas de tarde foi a memória Equestre a seu lugar com muita brevidade, os engenhos seriam sessenta com que se cercou o terreno, e cada sarilho se puseram vinte homens. A cabria constava de seis mastros, três por banda, e cada um se compunha de três grossíssimos e comprido paus. Às três horas da tarde como já fica dito se cercou a Praça com dois batalhões, um do regimento do Conde de Prado, e outro do regimento de Peniche. Saiu à Praça o Juiz do Povo com a comitiva dos seus Vinte e Quatro com timbalos, clarins e um concerto de gaitinhas e fagote do regimento do Cais, que tocaram por toda a Praça com uma suave melodia, e logo se seguiram os Hortolões, sendo principal dele José Marques da Horta a Cruz de Santa Marta com quatro carros enramados com pão, vinho e laranjas para dar aos trabalhadores que puxavam nos engenhos. Seguia-se logo aos carros um macho carregado de foguetes, quatro. 

 


 

Girândolas de foguetes e depois se seguiram seis cavalos bem ajaezados com serões digo seirões de flores, metido tudo na Praça ao tom de timbales, clarins e buazes.

Estavam as janelas da Praça todas cheas de fidalgos e ministros estrangeiros e muitas senhoras. O terreno da Praça bem provido de povo de todos os estados e qualidades; às quatro horas chegou o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Marquês de Pombal e logo os hort[el]ões deram ordem se deitasse a salva Real e alguns foguetes.

Estavam as janelas da Praça bem povoadas da fidalguia portuguesa e de ministros estrangeiros e senhoras, o terreno da Praça cheio de povo de todos os estados e qualidades, tudo muito luzido e um vistoso país. Seriam quatro horas quando chegou à Praça O ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Marquês de Pombal e seu filho o Conde Henrique, e logo principiou a subir a Estátua Equestre ao seu lugar, que não chegou a meia hora, e gastar-se-ia duas horas em a porem no lugar destinado, e logo correspondeu o povo com muitos vivas e os hortolões  com o fogo, buazes, pífaros e os da Casa do Vinte Quatro com seus concertos.

À seis horas e meia ficou posta, repetiram-se os vivas, puseram fogo os quatro girândolas hortolenses muito fogo de ar, veio toda a corte, ministros, estrangeiros militares, Marquês de Pombal, Conde Henrique, Cardeal Regedor a quando o Marquês deu um decreto que com a sua própria mão se fixou em uma coluna da torre do fogo; Constava este, que mandou Sua Majestade se pagasse tudo até ao dia 20 de Junho à gente do Arsenal.

No dia 28 se chumbou os dois espigões que levou trinta arrobas de chumbo, e se principiou-se a tirar muitos dos aparelhos da cabria, e no dia seguinte se continuou na mesma na obra, que disseram que tudo ma[n]dara Sua Majestade dar ao sota Patrão; e no dia 2 de Junho aman[h]eceu a Estátua Equestre cercada de velas de navios, para se poder despir, e juntamente  pôr o retrato do Senhor Marquês de Pombal, para também ficar imortalizado o seu nome que foi o herói fundador da nova cidade.

 

 Descrição da Praça do Comércio olim Terreiro do Paço

 

Descrição da Praça do Comércio olim Terreiro do Paço.

 

Está cercada esta nobre Praça de soberbos e majestosos edifícios. Um lanço é da casa do comércio, que principia no Arco grande, por donde se desemboca da rua Augusta, ficando da parte Ocidental, e corre até à rua Áurea, e correspondente à nobre casa do Supremo Senado, e esta continua até à Praça de Pelourinho, ficando fronteiro a este o Régio Arsenal, e por ele se vai seguindo até entrar outra vez na Praça, correndo até ir finalizar no Torreão. Nesta quadra ficam os régios tribunais, o da Mesa da Consciência, Desembargo do Paço, Conselho da Fazenda e Real Mesa Censória.

O lado da parte Oriental, que pega do Arco principal até à Rua Bela da Rainha que para a Relação, foi feita a frente, para a função, de madeira, que não houve tempo para a acabar de pedra e cal, ficando de fronteira o Cunhal das Casas de Joaquim Inácio. O lado esquerdo, que contínua até ao Torreão, é a Casa da Índia, é o Consulado e é [a] Alfândega. Toda esta magnífica obra vai sobre oitenta arcos, a saber: quinze do arco principal que entra para a Praça da parte Ocidental e outros quinze para a parte Oriental, e vinte e oito de cada lado.

O arco principal leva seis colunas de sessenta palmos de altura, e dizem que neste arco há-de levar a Torre do Relógio.

 


 

No meio da Praça é que fica a estátua equestre sobre um elevado pedestal de pedra bem lavrada; no lado ocidental leva um cavalo soberbo de pedra, com várias figuras de vulto e agigantadas, tudo de pedra obrado pelos portugueses; e do lado oriental um elefante e outras figuras da mesma matéria e grandeza; na frente que olha para o principal arco da Rua Augusta tem uma grande pedra com vários emblemas de relevado, e a frente que olha para o mar tem uma magnífica medalha de bronze, mil vezes bem feita, com o retrato do novo fundador da cidade, o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Marquês de Pombal. Em cima do pedestal se divisam umas cobras de bronze e um soberbo cavalo também de bronze e nele montado a figura do nosso Augustíssimo Monarca o Senhor D. José o Primeiro, obra non plus ultra da admiração que traz aos estrangeiros  confusos, tudo fabricado pelo grande português. Todo este pedestal, é cercado de pirâmides bem lavradas e de quatro escadas com suas grades douradas, fechado.

Nesta Praça se fez o régio festejo pelos anos de sua majestade e pela colocação da sua estátua achavam-se ornadas as salas dos melhores cortinados e excelentes tapeçarias, candeeiros, e placas, tudo iluminado, as paredes de fora com vistosas iluminações de sorte que toda a Praça era uma mesma iluminação bem regular.

Na Casa do Selo de Alfândega estava uma grandiosa mesa, com um vistoso lago e nele todas as embarcações de todas as nações do mundo, com toda a gente da mariagem, e cada uma vestida ao uso da nação. Nesta mesa se deu ceia aos grandes do Reino e Ministros estrangeiros, e nesta primeira noite em que se deu a ceia

houve baile das senhoras a que assistiram como ocultos as pessoas reais. A ceia constou de toda a casta de viendas e bebidas que se apeteciam, boa música e suaves instrumentos; ao mesmo tempo se dava a ceia a suas majestades e altezas no torreão do seu aposento. 

A Mesa do Comércio deu também a sua ceia esplêndida e se assentou ser esta mais rica. E tanto esta como a régia estiveram oito dias para o povo as verem. O Supremo Senado também [deu] o seu beberete, a Casa dos vinte e quatro fez o mesmo, e nela houve música, danças e instrumentos recitando o Juiz do Povo e os Vinte e Quatro a sua oratória e poesia com toda a energia.

Nos oitenta arcos com que se vê cercada a Praça se fizeram outros tantos camarotes para as senhoras distintas, às quais se mandaram bilhetes e que se fossem ricamente ornadas. A Praça se rodeou de trincheiras, de dentro ficaram oito regimentos de infantaria e dois de cavalaria e um que estava pelas bocas das ruas; fora das trincheiras estavam os homens vestidos em corpo, de fronte para a estátua equestre para a parte do mar se fabricou uma primorosa torre de fogo com nova arquitectura, que servia de pasmo às gentes, ideado por um português.

Nas janelas dos Tribunais da Mesa de Consciência, Desembargo do Paço se determinaram para os fidalgos da primeira grandeza do reino. As que se seguiam até às da Real Mesa Censória foram para os Excelentíssimos Senhores Cardeais e Núncio, e o Torreão para as Majestades e Altezas. Nas do Senado o Conde Henrique como Presidente Inspector do festejo com o corpo dos senadores e mais ministros togados. Nas dos Vinte e Quatro o Juiz do Povo com os vinte e quatro deputados e Juiz dos Ofícios velhos e novos. Nas da Mesa do Comércio todos os que à casa pertenciam, vários ministros e cavalheiros.

Nas janelas da Relação, que se há-de acabar, estavam deputadas para os ministros estrangeiros, cabos de guerra estrangeiros. Nas janelas da Alfândega, Casa da Índia consolado se ordenaram para os prelados das religiões, ministros e cavalheiros e oficiais maiores das ditas casas. O torreão para os cavalheiros das províncias e fidalgos de segunda grandeza.  

 


 

As fidalgas que foram ao festejo só eram viúvas e casadas, e estas foram conduzidas para as janelas de peitos, e as mulheres [dos] desembargadores, cavalheiros e dos de negócio foram para os camarotes que se fizeram nas arcadas, de sorte que se não consentiu a entrar nenhumas que não fossem bem ornadas, de maneira que estava a praça mui luzida.

No dia 7 de Junho, às 3 horas da tarde, saiu o soberbo carro do Senado para deitar as flores pela Praça; ía este tirado por oito cavalos bem ajaezados com redes de velilho; às 4 horas principiaram a sair os mais; os quatros primeiros representavam as quatro partes do mundo, cada um com sua dança e seis guias ricamente bem ornados de cetim e coifas na cabeça.

O primeiro carro levava a dança das fressureiras; segundo carro levava a dança das peixeiras; terceiro carro levava a dança das coveiras; quarto carro levava a dança das colhareijas. Estes quatro carros representavam as quatro partes do mundo.

O quinto carro era dedicado a Apolo como inventor da música e poesia. Demonstra-se Apolo na figura juvenil, sentado sobre a trípode, os cabelos louros e, na cabeça, uma coroa de louro verde; vestido de armas europeias douradas, com roupa de livre composição, de cor encarnada, nos pés estibaletes encarnados, na mão esquerda a Lira e na direita arco e flechas e, sobre o ombro ou costas, aljava com setas. Neste carro se coloca a música e os poetas por ser este planeta o que domina estas artes. Nas quartelas exteriores do carro vão colocadas quatro figuras que simbolizavam as quatro partes do dia em que, sem interpolação, se hão de continuar os festejos.

Da parte direita - Aurora e Meio-dia.

Da parte esquerda - Tarde e Noite.

 

Aurora

 

Se figura uma mulher formosa, cabelos louros e, sobre a cabeça, uma estrela, distintiva de si própria, vestida de roupas talar encarnada e, na mão direita, um facho de fogo e, na esquerda, algumas flores.

 

Meio-dia.

 

Se figura em um homem de idade viril, vestido de cor de ouro, na cabeça um laurel de louro verde, na mão direita um semicírculo e com o dedo índex da mão esquerda apontando para o semicírculo.

                       

Tarde.

 

Divisa-se uma mulher de meia idade, cor não muito alva, cabelos castanhos, vestida de cor amarela escura, na mão direita uma sedela e cana de pesca, e na esquerda um ramo de campainhas amarelas e, aos pés, alguns peixes.

 

Noite.

 

Representa-se em uma mulher de cor macilenta, cabelos negros, na cabeça uma coroa de dormideiras, vestida de cor azul escuro, de roupa talar com estrelas brancas, na mão direita um facho de fogo, e com a mão esquerda irá apontando para o chão; e ao pé desta figura estará uma coruja.

Todo este Carro se vê feito o seu ornato de ouro e prata, e algumas guarnições de verde; os cavalos que por ele tiram, que são seis, iam cobertos de telizes verdes guarnecidos de prata, e as mesmas rodas golpeadas de folhas verdes, assim como também todos os jaezes dos cavalos eram da sobredita cor verde.

Levava música e poetas mascarados, lançando suas poesias impressas e, a cada lado do carro, iam seus máscaras.

 

Segundo Carro dedicado ao Oceano e Tétis.

 

Oceano.

 

Se representa ser um homem bastantemente velho, barbas compridas,

 


 

cujos cabelos das ditas e da cabeça eram castanhos claros; sobre a cabeça um diadema moral;  na mão direita o Tridente distintivo das três qualidades de águas; ía quase nú, mas com uma capa ligeira de cor verde.

 

Tétis 

 

Se figurava em uma mulher formosa, mais de meia idade, cabelos brancos com uma roupa semelhante à do Oceano, e de cor verde; mostra-se sentada para verificar parte do domínio que se lhe concede sobre as águas. Neste se vêm quatro ninfas, cada uma com suas oferendas semelhantes às naturezas dos sítios onde foram criadas, vindo com obrigação de cor a Portugal.

           

Ninfas

 

Galateia.         

Tajedes.

Efedríades

Náiades.

           

Galateia.

 

Se figura uma mulher formosa, cor rubicunda, os cabelos ruivos, vestida de roupa talar de cor vermelha; nas mãos se lhe divisava uma árvore de coral.

 

Efidríades.

 

Se mostra na figura de uma mulher de meia idade bastante clara, cabelos azulados, roupa talar bem composta de cor de prata, terá nas mãos umas conchas e dentro delas aljôfares e fios de pérolas.

           

Náiades.

 

Figura-se em uma mulher de aspecto alegre, os cabelos castanhos, vestida de cor verde singela; terá ao pé de si uma tartaruga e búzios.

 

Tajedes.

 

Representa-se na figura de um homem bastantemente velho, vestido com uma véstia curta e justa, golpeada de conchas azuis, com uma capa amarela; sobre a cabeça uma concha, no qual se vê pôr plumas a umas poucas de espadanas e almofada de cor azul, esquartilhada de prata. A figura, que vai sentada na almofada, simboliza o Rio Tejo como um dos mais principais do oceano.

A figura do Mochila será pelo mesmo feitio. Porém não terá barbas e nesta figura se simboliza o Rio Douro. Na frente do carro se mostra um tritão, o qual é de figura corpolenta, meio corpo de homem e meio corpo de sereia, mas com duas caudas conchadas; sobre a cabeça um laurel de folhas de golfo; na mão direita com búzio em acção de publicar a grande vassalagem que o mar deve a Portugal.

Os seis cavalos que tiram pelo carro, vinham cobertos de redes azuis com esquartilhados de prata; nas rodas do dito iam enlaçados de conchas, peixes-espadas e safios; e todo o carro em si prateado e escurecido de azul, e algumas conchas cor-de-rosa e amarelas.

 

Terceiro carro, em que se representa Portugal triunfante na protecção das ciências e artes liberais.

 

Portugal se mostra no herói sentado sobre o trono, vestido de armas europeias, roupa talar de capa magna carmesim, forrada de peles, elmo na cabeça dourado; sobre ele uma serpente com laurel de louro verde na mão direita, outro de ouro; e na esquerda escudo com as quinas de Portugal. Mediato a esta figura se demonstram 4 figuras simbolizar as virtudes de que é dotado.

 

Direita  - Justiça. Benignidade

 

Esquerda - Amor da Pátria. Liberidade.

 

 

Justiça.

 

Figura-se vestida toda de branco, de roupa talar, com a espada na mão direita e na esquerda as balanças com um colar de ouro pendente, e nele um olho.                                                                     

 


 

Benignidade.

 

Demonstra-se em uma figura vestida de roupa talar de cor azul, com ambas as mãos espremendo os peitos, e do lado esquerdo um pedestal sobre que se vê uma flama de fogo, e todo o vestido com estrelas de ouro.

                                  

Amor da Pátria.

 

Figurava-se em um mancebo vigoroso, vestido como os soldados romanos, de armas azuis, aos pés as armas de guerra, na mão esquerda uma coroa de quercias e na outra uma de grama.

 

Liberidade.

 

Se manifesta na figura de uma mulher vestida de branco, com uma águia na cabeça, na mão direita levava um compasso e uma cornucópia inclinada para baixo, da qual saía alguns raios e, na esquerda, uma cornucópia cheia de frutos e flores. Na frente do carro, virado para o herói, se viam as artes liberais e ciências rendendo oblação.

 

Matemática.

Comércio.

História                       

Arquitectura

Pintura.

Escultura.

 

Matemática.

 

Esta representa uma mulher de meia idade, vestida de véu branco transparente, com asas na cabeça; na mão direita um compasso mostrando o medir uma tábua e nela desenhadas algumas figuras geométricas; na mão esquerda o globo celeste e no cinto bordadas algumas figuras geométricas.

                       

Comércio.

 

Figura-se em um homem vestido ricamente de azul claro e cor-de-rosa, semelhantes às véstias antigas de Portugal; na mão direita uma cornucópia de frutos e flores; e na esquerda o Caduceo de Mercúrio, e uma bolsa de dinheiro; e aos pés uns livros abertos com algarismos de contas.

 

História.

 

Se descreve na figura de uma mulher com asas, vestida de branco, tendo um livro aberto  onde mostra escrever; junto à figura se vê Saturno, sobre o qual está o livro em que escreve.

 

Arquitectura.

 

Esta se representa em uma mulher, cabelos louros com os braços nús, vestida de cor cambiante, e tinha em uma mão um compasso e um prumo e esquadra, e na outra um papel

com planetas, figuras de capitéis e colunas.

 

Pintura.

 

Se figura em uma mulher formosa, cabelos negros espalhados com graciosa composição, com uma cadeia de ouro ao pescoço, na qual se vê pendente uma máscara; na testa uma ligadura e nela escrito - comitates; uma mão com um pincel e na outra a palheta e tintas.

 

Escultura.

 

A figura desta é uma mulher formosa, mas a compostura da cabeça negligente, sobre a qual terá um ramo de louro verde; será vestida cor-de-rosa, terá a mão direita sobre uma estátua e a outra com uns debuxos e ponteiros. Por despejo do triunfo se vê presa nos lados do carro quatro figuras que se simboliza.

 

Discórdia.

Furor.

Ignorância.

Hipocrisia.

                        .                                              .

Discórdia.

 

Representará uma mulher, fúria infernal de várias cores, a cabeça esgadelhada, cujos cabelos serão cobras, na testa uma cinta ensanguentada, no regaço uma tira de papel em que estejam escritos enredos.

                       

Furor.

 

Um homem de aspecto terrível e furioso, nos olhos uma venda, debaixo de si algumas armas, como lanças e espadas; os braços nús, o vestido justo e curto, e toda a figura mal composta.

 

Ignorância.

 

Em uma mulher corpolenta, com os olhos vendados, orelhas compridas e agudas, coroada de dormideiras, descalça mas vestida sumptuosamente de cor de burro, e na mão direita uma cana.

 

Hipocrisia.

 

Uma mulher magra e pálida, vestida de estamenha parda, rota em muitas partes, cabeça inclinada para o chão; sobre a qual se porá um véu que lhe cubra toda a cara, o braço esquerdo vestido e o direito nú; no regaço umas grossas contas e um livro aberto; os pés serão de lobo. Na frente do carro, virada para fora, se verá a fama publicando o triunfo.

 

Fama.

 

Uma mulher formosa, com asas nas costas, uma trombeta na mão direita, na esquerda um ramo

de oliveira; vestida de roupa branca, curta e apertada, com um cinto de ouro, pendente dele um coração; na almofada fingindo cocheiro se vê a Prudência.

 

Prudência.

 

É uma mulher vestida de azul escuro, com capacete dourado, cingido de folhas de

 


 

espadana; em uma mão uma serpente, na outra uma seta, calçada com estibaletes de fitas roxas. O Mochila figura a Mercúrio metido pelos deuses para guia.

 

Mercúrio.

 

Um mancebo, vestido justo, de cor cabrante, uma capa alassada de cor amarela, capacete com asas, o Caduceo na mão esquerda, asas nos pés, estibaletes de fitas azuis e o capacete dourado.

Todo este carro é dourado e as rodas com raios figurando labaredas. Tiram por ele oito cavalos brancos com telizes encarnados, esquartilhados de ouro, e os jaezes da sobredita cor.

Lembrança dos refrescos

Lembrança dos refrescos que se devem dar nos três dias, 6.7.8 de Junho de 1775. Pelo Senado da Câmara de que está encarregado o copeiro Brás Troiano. Na primeira tarde para suas Majestades, que será no torreão da Casa da Índia, onde sua Majestade, e Altezas hão-de ver as festas, se devem escolher uma cara para nela se armar uma mesa muito decente e proporcionada às Reais pessoas, que nela se hão de assentar. Esta mesa deve ser ornada com magnífico e vistoso dessert. No meio da dita mesa, e roda dela guarnecida dos mais delicados doces, frutas das mais sazonadas e melhor gosto, que permite o tempo. Advertindo que entre estes pratos de doces e frutas se devem também pôr de fiambres delicadíssimos, geleias delicadas e aparatosas e outras mais coisas semelhantes que possam lembrar para fazerem delicadeza e aparato desta dita mesa. Lembrando a falta de cómodos que há para poderem preparar pratos quentes para a dita mesa e que também esta mesma mesa é mais própria de merenda do que de ceia, parece escusado o adornar-se com pratos quentes. Lembro também que deve ser guarnecida de frutas geladas das mais delicadas que houver, também deve estar pronto para a mesma tarde o refresco para as damas camaristas, veadores, e açafatas, e mais pessoas que acompanharão a real família, cujo refresco deve consistir em sorvetes de poupinha de morangos, laranjas, limões, limonadas de neve e também de alguns frutos gelados, que couber no possível aprontarem-se. Também deve estar pronto café, chocolate, chá, e algumas qualidades de vinhos mais generosos. Também lembra aprontarem-se algumas bandejas de manjar branco e alguns doces ou biscoitos delicados. 2ª Tarde tudo como na primeira excepto o dessert, que será diferente, e o mesmo há-de ser na 3ª excepto também o dessert.

 

Refrescos para a Nobreza

 

 

 

Refrescos para a Nobreza

Como todos os fidalgos que se hão-de achar unidos em uma casa para assistirem à dita função se lhe deve prevenir em todas as três tardes sorvetes de papinha de morangos, laranja, limão, chá, café, chocolate, capilé e algumas bandejas de biscoitos delicados para quando eles quiserem ou pedirem quaisquer destas coisas estarem prontas, e o mesmo se deve aprontar para os senhores que também tem casa a parte em todas as tardes.

Nas mesmas três tardes deve haver um semelhante refresco porém mais diminuto por serem menos as pessoas nas casas do Senado da Câmara os ministro e mais pessoas que nela hão-de assistir à função. Na noite 7 do dito há-de o Senado dar uma ceia em forma do âmbito na Casa do Selo de Alfândega, para o que se deve nela preparar uma grande mesa em figura de ferradura por ver ser o que mais convém à figura da casa e também o que mais facilmente acomodará a quantidade de gente que nela se deve assentar. A dita mesa deve ser guarnecida com magnífico, vistoso e delicado dessert pelo meio, e à roda dela será guarnecida com toda a qualidade de fiambres, geleias, frutos e tudo o mais que possa conduzir à forma de uma delicada mesa, ainda que seja tão extensa. Também deve ser guarnecida além dos ditos pratos de fiambre quentes, advertindo que uma grande mesa é difícil cobrir-se segunda vez, devem estar prontos de sobresselentes tanto de cozinha como de fiambre prontos para se porem no lugar deles que estiverem bulidos.

Na grande Casa da Alfândega se hão de juntar todas as pessoas convidadas e como naturalmente se demorarão nela algumas poucas horas antes de irem para a ceia, deve estar prevenido de sorte que não haja falta o refresco de sorvete de papinha de morangos, laranja, limão, limonada para quando o pedirem assim como chá, café, chocolate, ponche em abundância, capilés, advertindo que como muitas pessoas querem tanto o ponche, como a capilés, uns mornos e outros frios, devem estar prevenidos para este efeito, ao mesmo que se distribuírem os refrescos, também se distribuirão as bandejas de biscoitos.    

                   

 

 

 

 

 

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Descrição da régia estátua

                              Descripçaõ Da Regia Estatua

                              Equestre, obra sem Segunda

                                     Em todo o mundo

 

Principiou-se o modello desta Estatua em o mês de Outtubro, no anno

 do Senhor de mil, e sette centos, e setenta, e quatro no Reynado do Sr.D. Jo-

ze o 1.o, Patriarcha de Lisboa o Cardeal Saldanha; Cardeal Regedor o Arceb.o

de Evora D. Joaõ da Cunha da Ill.ma Caza de S. Vicente.

                                                                       Feito o modello se entregou

a Bartholomeu da Costa natural de Lisboa do sitio de Belem pa a fazer em

o ponto em que se acha: deraolhe o sino grande da Patriarchal, fundiçaõ também

de hum clerigo portuguez no Reynado do Snr. Rey D. João o 5., o clérigo mo-

rreu de paixaõ, dizem por não ser sua obra bem aceita pelo Monarcha. Por

ser portugueza: porem sempre se pôs na Torre, quando dobrava fazia tremer

toda a rua nova.

                Este caiu pelo Terramoto de 755 e quebrou huã asa da porca

este foi o que se deu p.a fundir-se a Estatua Equestre, que foi pelo mez

de Dezembro do di.to ano de 774, com tal fortuna, que sahio de huã só vez

e de huã só peça taõ perfeita, e delicada como se vê.

                                                       Em o mês de Janr.o de 775. Foraõ as Mag.es

e Altezas a vella  na fundiçãoe foraõ se seguindo os grandes do Reyno, Me-

nistros estrangr.os Cardeais, e Nuncio e mais pessoas graduadas: e o povo: sem-

do taõ grande o concurso qe os soldados o naõ podiaõ sobter. Depois delles

se fechou a fundiçaõ pa poderem trabalhar nelle os oficiais, e acabado que

foi de se polir, qe foi no mez de Mayo do sobred.o anno: tornaraõ S. Mag.es e Al-

tezas a hirem vellas, e toda a corte e mais povo assim Portuguez, como Es

trangr.o

      Em 2 do mez, e anno sahiu o bando do Supremo Senado da Camara

pa todos os moradores da Corte porem luminárias tres dias; no dia seis, sette

e oito do mez de Junho; pelos os anos do nosso Monarcha e apparicimento

de sua Estatua Equestre: Constava este bando de timballes, de quatro clarins,

Trompas e hum fagote, que tudo junto fazia hua admirável consonância; todos

montados em soberbos cavallos, e todos vestidos de Droguete azul agaloados de

prata. Seguia-se o Merinho, ou por outro nome o Neto montado em hum bom

cavallo bem ajaezado, elle de capa, volta e chapeu com seu …, este nesta fun-

ção cahiu do cavallo e da queda em breves dias foi pa a eternid.e

          Seguiu-se o Procurador da cid.e da mesma sorte com sua varas, vários

oficiais, e Almotaceis da cidade: quatro juízes do crime, com seus Escrivães, e

alcaydes todos montados em cavallos, e com outros de estado, ordenava-se este

bando a qe os moradores da cid.e puzesem as luminárias com a combinação de quatro

mil reis, e vinte dias de cadea. Neste mesmo dia se tirou da cova onde se fun-

diu a estatua dentro em duas horas: tendo esta de pezo 672 quintais e duas arro-

bas e outro tanto pezo tinha a caixa em qe veyo a Zorra.

                                                                   Em dia 21 do dit.o mez se poz

na Zorra com a mesma facilid.e com dezanove homens, em 22 sahiu a 6

horas da manhaã e athe a tarde andou da fundiçaõ athe de fronte das cazas

do Conde Almeirante no campo de S.ta Clara; puchavaõ por ella todos os da

Caza dos 24. vestidos em corpo com o seu honrado Juiz do Povo os mestres dos of.os

capatazes e Mariolas por cordas cobertas de pano encarnado: hiaõ adiante os Hor-

telões vestidos em corpo; pa deitarem flores por onde passava: Outto bestas com

ceiroes de flores cobertos de panos de veludo carmezim agaloados, e hum macho

carregado de foguetes do ar, tambem coberto com pano encarnado, e a cada mo-

vim.to qe fazia a Estatua Equestre deitavaõ seus foguetes; neste pequeno ca-

m.o quebravaõ por cinco, ou seis vezes as cordas por onde puchxavaõ os homens,

cahindo huns sobre os outros; servindo de devertimento a imenso po-

vo qe acodio a ver conduzir a da Estatua. Andavaõ quatro carros actualmente   

 

 


 

Com água de beber, em ramados pa os homens beberem, qe passavaõ, os que

 puchavaõ de quatro centos fora outros m.tos mais qe vinhaõ com os aprestos ne-

necessários para a dita condução.

                                   Em o dia 23. gastou desde as sinco horas da manha athe a

huã da tarde as Portas da Cruz, qe pa passar as deitaraõ abaixo: sahindo do collégio qe

foy dos PP. da Companhia do Paraiso, cortando grande parte do Alpendre da

Igra do Paraiso: nas Portas da Cruz onde chegou a huã hora , a tiveraõ virando e en-

direitando athe as seis da tarde pa o cam.o qe se abrio pela fundiçaõ e por noute

veyo a ficar de fronte da Ermida de Na sr.a do Rozário das Galés.

                                                                             Em dia 24. continuou

 a sua derotta com o mesmo apparato, com que sahio da fundiçaõ, e gastou-se

o dia todo desde a Ermida do Rozario athe ao campo chamado das sebollas onde

 ficou athe ao dia 25., e neste dia caminhou deste sitio athe a Praça do Comér

cio, chegando a meya tarde, lugar destinado á sua inauguraçaõ: grande foi

o jubilo em o Snr Marquez de Pombal, Grandes do Reyno e do Brigad.ro que a fun-

diu, que merecia naõ só o grande prémio com qe S. Mag.e Fidelissima o condecorou,

mas ainda mandar-lhe levantar huã Estatua pa honra deste portuguez, e dos

seus, branzaõ da nasção, admiraçoã dos vindouros: porem se senaõ levantou, sem

pre os escriptos faraõ immortal o seu credito; por ser obra sem segunda

em todo o mundo conhecido, e descoberto.

                                                     Obra que sendo de tanto pezo e de tanta gran-

deza, foi fundida de huã só vêz e de huã só peça: hum cavalo bem ajaezado,

e com a maior delicadeza a figura do monarcha nelle montado com a mais óp-

tima perfeição em fim e obra sem senão, qe a todos os naturais como estran-

geiros os deixou suspensos na admiração. O nome deste heroe Portuguez he

Bartholomeu da Costa natural desta cidade do sítio de Belem, principiou

por Artilheiro foi Condestavel, Sargento, Alferes, postos qe lhe deu o Tenente

Coronel de Arthelharia Mel Gomes de Carv.o; depois veyo por mandado de-

le p.a a Fundição onde pela m.ta habili.de, discurso e experiencia ideou a

obra qe serve de maior confusão aos maiores engenhr.os da Europa. Em

26 do corrente se desmanchou a caixa em que veyo metida; fazendo esta na

frente huã traja com huns apanhados de Damasco carmezim, e no meyo della

este distico = Non velant nubila Solem. =, e pelo cam.o se hia deitando este

Epigrama impresso =

                                         Epigrama

               Rex Vive, hine populus, rex vive exclamat et illinc.

                        Vox populi Deus est vive, jubente Deo

 

Em 27 as tres horas de tarde foi a memoria Equestre a seu lugar com

m.ta brevidade; os engenhos seriaõ secenta com que se cercou o terreno, e cada sari-

lho se pozeraõ vinte homens. A cabria constava de seis mastros, tres por ban-

da, e cada hum, se compunha de tres grossicimos e comprido paõs. As tres horas

da tarde como já fica dito se cercou a Praça com dois batalhões, hum do re-

gim.to do Conde de Prado, e outro do regim.to de Peniche. Sahio à Praça o Juiz do Po-

vo com a comitiva dos seus vinte e quatro, com timballes, clarins e hum concer-

to de gaitinhas e fagote do regim.to do Caiz, que tocaraõ por toda a Praça

com huã suave melodia, e logo se seguiraõ os hortoloens: sendo principal

delle Joze Marques da Horta  a Cruz de Sta Martha com quatro carros en

ramados com paõ, vinho e laranjas pa dar aos trabalhadores qe puchavaõ nos

engenhos: Seguia-se logo aos carros hum macho carregado de foguetes, quatro. 

 


 

Girandolas de foguetes e depois se seguiraõ seis cavallos bem ajaezados

com serões digo seiroes de flores, metido tudo na Praça ao tom de tim-

balles, clarins e Buazes.

                       Estavaõ as janellas da Praça todas cheas de Fidalgos e ministros

Estrang.os e m.tas senhoras: o terreno da Praça bem provido de Povo de todos os

estados e qualid.es; as quatro horas chegou o Ill.mo e Exmo Snh Marquez de Pom-

bal e logo os hortões deraõ ordem se deitase a Salva Real e alguns fogue-

tes. Estavaõ as janellas da Praça bem povoadas da Fidalguia Portugueza e

de Menistros estrangr.os e senhoras: o Terreno da Praça cheio de povo de todos

os estados e quald.es, tudo mto luzido e hum vistozo Paiz. Serião quatro horas

qd.o chegou a Praça O ill.mo e Ex.mo Sr Marquz de Pombal e seu filho o Conde

Henrique, e logo principiou a subir a Estatua Equestre ao seu lugar, que

naõ chegou a meya hora, e gastar-se hia duas horas em a porem no lugar

destinado, e logo correspondeu o povo com m.tos vivas e os Hortoloens  com o

fogo, Buazes, Pifaros e os da caza do vinte quatro com seos concertos.

             À seis horas e meya ficou posta, repetiraõ-se os vivas, puseraõ fogo

os quatro Girândolas Hortolenses mto fogo de ar, veyo toda a corte, Menistros

Estrangros Militares, Marquez de Pombal, Conde Henrique, Cardeal Regedor

a q.do o Marquez deu hum Decreto que com a sua própria maõ se fixou em

huma columna da Torre do fogo; Constava este, que mandou S. Mag.e

se pagase tudo athe ao dia 20 de Junho a gente do Arcenal.

                                                                         No dia 28 se Xumbou os dois

espigões que levou trinta arrobas de Xumbo, e se principiou-se a tirar m.tos dos a-

parelhos da Cabria, e no dia seguinte se continuou na mesma na obra, que

disseraõ que tudo madara Sua Mag.e dar aos ssotta Patrão; e no dia 2 de Junho aman

ceu a Estatua Equestre cercada de vellas de Navios, pa se poder despir, e juntam.te

pôr o Retrato do Snr Marquez de Pombal, pa tambem ficar immortalizado o seu

nome, que foi o Heroe Fundador da nova cid.de

 

 

Descrição da Praça do Comércio olim Terreiro do Paço

 

Discripçáo da Praça do Comercio

olim Terreiro do Paço.

 

Está cercada esta nobre Praça de soberbos, e Magestozos Edificios. Hum lanço he da caza

do Comercio, que principia no Arco grande por donde se dezemboca da Rua Augusta: fican-

do da parte Occidental, e corre ate a Rua Aurea, e conrespondente a nobre Caza do Su-

premo Senado, e esta continua ate a Praça de Pelourinho: ficando fronteiro a este o

Regio Arcenal, e por elle se vai seguindo ate entrar outra vez na Praça: correndo athe

hir finalizar no Turrião: nesta quadra ficão os Regios Tribunaes, o da Meza da Con-

ciencia, Dezemb.º do Paço, Concelho da Fazenda, e Real Meza Censoria.

                                                                                                 O lado da parte Orien-

tal, que pega do Arco principal ate a Rua Bella da Rainha que p.a a Rellaçam, foi

feita a frente p.a a função, de madeira, qe não ouve tempo p.a se acabar de pedra e cal:

 ficando de fronteiro o Cunhal das Cazas de Joaqm Ignacio. O lado esquerdo, que

 continua ate ao Torriãs: he a casa da India, he o Consolado e he Alfangeda: to-

da esta magnifica obra vai sobre outtenta arcos a saber quinze do arco prin-

cipal, que entra pa a Praça da parte Occidental, e outros quinze pa a parte Ori-

ental, e vinte e outto de cada lado.

                                         O Arco principal Leva Seis Columnas de Se-

centa palmos de altura: e dizem que neste arco hade Levar a Torre do Relógio.

 

 

No meyo da Praça he, que fica a Estatua Equestre sobre hum elevado pedestal

de pedra bem lavrada, no lado occidental leva hum cavalo soberbo de pedra com

varias figuras de vulto, e agigantadas tudo de pedra obrado pelos Portuguezes; e

do lado Oriental hum Elephante, e outras figuras da mesma materia, e grande-

za: na frente qe olha pa o principal arco da Rua Augusta tem hua grande pedra

com vários Emblemas de relevado, e a frente que olha pa o mar tem hua magnifi-

ca medalha de bronze mil vezes bem feita, com o Retrato do novo Fundador da

cid.e, o Ill.mo e Exc.mo Snr. Marquez de Pombal. Em cima de pedestal se divisão huas

cobras de bronze e hum soberbo cavalo tambem de bronze e nelle montado a figura

do nosso Augustissimo Monarca ha o Snr D. José o I.o obra o non plus ultra da

admiração qe tras aos estrangeir.os confusos, tudo fabricado pelo grande Portu

guez: todo este pedestal he cercado de Pyramides bem Lavradas e de quatro

 escadas com suas grades douradas fechado.

Nesta Praça se fes o Regio festejo pelos annos

de S. Mag.e, e pela colocaçáo da Sua Estatua: achavaõ-se ornadas as salas dos me-

lhores Cortinados e excellentes Tapeçarias, Candeeiros, e placas, Tudo illuminado;

as paredes de fora com vistosas illuminações: de sorte que toda a Praça era

hua mesma illuminação bem regular. Na caza do Sello de Alfandega estava

huma grandioza Menza com hum vistozo lago, e nelle todas as Embarcaçoes de todas

as Nascões do Mundo, com toda a gente da Mariaje, e cada hua vestida ao uzo da nasção.

nesta Menza se deu Cea aos grandes do R.no e Ministros Estrangeiros, e nesta primeira

noite em que se deu a Cea; ouve bailhe das senhoras, a que assistirão como ocultos

as Pessoas Reais. A Cea constou de toda a casta de viendas, e bebidas, que se appeteciáo,

boa Muzica, e suaves instromentos; ao mesmo tempo se dava a Cea a suas Mag.es,

e Altezas no Turriaõ do seu Aposento.

                                              A Mesa do Comercio deu também a sua Cea explendi-

da e se assentou ser esta mais rica: e tanto esta como a Regia estiveraõ outto

dias pa o Povo as Verem; O Supremo Senado tambem o seu beberete, a caza dos

Vinte e quatro fes o mesmo, e nella ouve Muzica, danças, e instromentos recitan-

do o Juiz do Povo e os Vinte e quatro a sua oratória e poesia com toda a energia.

Nos outtenta arcos, com que se vé cercada a Praça se fizeráo outros tantos cama-

rotes p.ª as senhoras distintas, e qe se foussem ricamte ornadas, ás quais se mandarão bilhe

tes: a Praça se rodeou de Trinxeiras, de dentro ficarão outto regimtos de Infantes,

e dous de cavallaria e hum que estava pelas bocas das Ruas: fora das Frinsoeiras

estavão os homens vestidos em corpo, de fronte da Estatua Equestre pa a pte do

mar Se fabricou hua primorosa Torre de fogo, com nova Architetura, que

se servia de pasmo as gentes, ideado por hum Portuguêz.

                                                                     Nas janelas dos Tribunais da Meza

de Conciencia, Dezembo do Paço se determinarão pa os Fidalgos da primeira

grandeza do Reino: as que se seguião ate as da Real Meza Censoria forão pa

os Em.mos Sn.es Cardeaes e Nuncio, e o Turriaõ pa as Mag.es, e Altezas. Nas do

Senado O Conde Henrique Como Presidente Expector do Festejo com o

Corpo dos Senadores e mais Ministros Togados. Nas dos Vinte e quatro o Juiz

do Povo com os Vinte e quatro Deputados, e Juiz dos Oficios Velhos e novos. Nas da

Meza do Comércio, todos os que a caza pertencião, varios Ministros e cavalhr.os.

                     Nas janellas da Rellação, que se hade acabar, estarião deputadas pa

os ministros estrangr.os, Cabos de guerra Estrangeir.os. Nas janellas da Alfandega,

Caza da India Consolado se ordenarão pa os Prelados das Religioes, Ministros,

e cavalheir.os, e officiais Maiores das ditas Cazas. O Turriaõ pa os cavalheir.os das Pro-

vincias e Fidalgos de segunda grandeza.    

 

 


 

As Fidalgas que forão ao festejo só erão veuvas e casadas, e estas forão conduzidas p.a

 as janellas de peitos; e as molheres dezembargadores, cavalheir.os e dos de neg.o forão pa

os camarotes, qe se fizerão nas arcadas de sorte qe se não consentio a entrar nenhumas

que não fossem bem ornadas, de manr.a que estava a Praça muy Luzida.

No dia 7 de Junho as 3 horas da tarde sahio o soberbo Carro do Se-

nado p.ª deitar as flores pela Praça: hia este tirado por outto Cavallos bem ajae-

zados com redes de velilho; as 4 horas principiaráo a sahir os mais os quatros

primeiros reprezentaváo as quatro p.tes do mundo, cada hum com sua danca

e seis guias ricam.te bem ornados de setim, e coifas na cabeça.

O primeiro Carro levava a dança das Forssureiras; Segundo Carro

levava a dança das Peixeiras: Terceiro Carro, levava a dança das Coveiras. Quar-

to Carro levava a dança das Colhareijas. Estes quatro Carros reprezentavão

as quatro p.tes do mundo.

O quinto Carro era dedicado a Apolo como Inventor da Muzi-

ca, e Poezia. Demostrase Apolo na figura Juvenil sentado sobre a Tripode,

os cabellos Louros, e na cabeça hua coroa de louro verde: vestido de armas

Europeas douradas com roupa de livre compizição de cor encarnada,

nos péz estibaletes encarnados, na mão esquerda a Lyra, e na direita Arco,

e flexas, e sobre o hombro, ou costas aljava com settas. Neste Carro se coloca

a Muzica, e os Poetas por ser este Planeta o que domina estas Artes. Nas quarte-

llas exteriores do Carro vão colocadas quatro figuras, q symbolizavão as quatro

p.tes do dia em q sem intrepollição se háo de continuar os festejos.

           

            Da parte direita.                              

            Aurora, e meyo dia.                         Da parte esquerda.   

                                                                      Tarde, e Noite.                                                                        

                                               Aurora.

 

Se figura hua molher formoza, cabellos louros, e sobre a cabeça hua estre-

lla distintivo de si propria, vestida de roupas tallar encarnada, e na mão direi-

ta hu faxo de fogo, e na esquerda algumas flores

                                               Meyo dia.

Se figura em hum homem da Idade Viril vestido vestido de cor de ouro, na

cabeça hum laurel de louro verde; na mão direita hum semicirculo, e com o dedo

Index da mão esquerda apontando p.ª o semicirculo.

                                               Tarde.

Deviza-se hua molher de meya idade cor não m.to alva, cabellos castanhos,

vestida de cor amarella escura: na mão direita huma sedella, e cana de pesca,

e na esquerda hum ramo de campainhas amarellas, e aos péz alguns peixes.

                                               Noite.

Reprezenta-se em hua molher de cor macilenta, cabellos negros; na cabeça

hua coroa de dormideyras: vestida de cor azul escuro, de roupa tallar com

estrellas brancas; na mão direita hum faxo de fogo, e com a mão esquerda

hirá apontando p.ª o chão: e ao pé desta figura estarà huma Coruja.

Todo este Carro se vê feito o seu ornato de ouro, e prata, e algumas

guarnições de verde: os Cavallos, q por elle tirão, que são seis hião cobertos

de telizes verdes guarnecidos de prata, e as mesmas rodas golpeadas de folhas ver-

des, assim como tambem todos os jaezes dos cavallos erão da sobred.ª cor verde.

Levava Muzica, e Poetas mascarados: Lanssando suas Poezias impressas, e a cada

lado do carro hião seus mascaras.

                        Segundo Carro dedicado ao Occeano, e Thetiz

                                               Occeano.

Se reprezenta ser hum homem bastantem.te velho, barbas compridas

                                                                                              cujos

 


 

Cujos cabellos das ditas, e da cabeça erão castanhos claros; sobre a cabeça

hum Diadema moral: na mão direita o Tridente distentivo das trez qualid.es

de agoas: hia quazi nu, mas com hua capa ligeira de cor verde.

                                               Thetiz

Se figurava em huma molher formoza, mais de meya idade, ca-

bellos brancos com hua roupa semilhante a do Occeano, e de cor verde: mos-

trase sentada p.ª verificar parte do dominio, que se lhe concede

sobre as agoas. Neste se vem quatro Ninphas, cada huma com suas

offerendas semelhantes as naturezas dos sitios onde foráo creados:

vindo com obrigaçaõ de cor a Portugal.

                                               Ninphas.

                        Galathea.                                 Tajedes.

                        Ephedriades                            Najaide.

                                               Galathea.

Se figura hua molher formoza, cor rubicunda, os cabellos ruivos, vestida

de roupa tallar de cor vernelha; nas mãos se lhe devizava hua arvore de Coral.

                                               Ephedriades.

Se mostra na figura de hua molher de meya idade bastante clara, cabellos

azulados, roupa tallar bem composta de cor de prata, terá nas mãos huas conchas, e

dentro dellas aljofres, e fios de perolas.

                                               Najades.

Figurase em hua molher de aspecto alegre, os cabellos castanhos; vestida

de cor verde singela, terà ao pè de si hua Tartaruga, e Buzios.

                                               Tajedes.

Reprezenta-se na figura de hum homem bastantem.te velho, vestido com hua Ves-

tia curta, e justa golpeada de conchas azuis com huma capa amarella; sobre a

cabeça hua concha, na qual se vê por plumas a huas poucas de espadanas, e almo-

fada de cor azul esquartilhada de prata. A figura, que vai sentada na almo-

fada symboliza o Rio Tejo como hum dos mais principaes do Occeano.

A figura do Muxila será pelo mesmo feitio: porem náo terá barbas,

e nesta figura se symboliza o Rio Douro: Na frente do Carro se mostra hum

Trittáo, o qual he de figura corpolenta, meyo corpo de homem, e meyo corpo de

Seréa; mas com duas caudas conchadas: sobre a cabeça hum Laurel de folhas

de Golfo; na máo direita com Buzio em acçáo de publicar a grande vassalagem,

q o mar deve a Portugal.

Os seis cavallos, q tiráo pelo carro vinhão cobertos de Redes azuis com-

esquartilhados de prata, nas Rodas do d.º hião enlassados de conchas, peixes espadas, e Sa-

fios: e todo o carro em si prateado, e escurecido de azul, e alguas conchas cor de Roza,

e amarellas.

Terceiro Carro, em q se Reprezenta Portugal Triunfante

na procteçáo das Sciencias, e artes liberaes.

 

Portugal se mostra no Heroe sentado sobre o Throno Vestido de Armas Europeas

roupa tallar de Capa Magna carmezim forrada de pelles, Elmo na Cabeça dourado, so-

bre elle hua serpente com laurel de louro verde na máo direita, outro de ouro; e na esquer-

da escudo com as Quinas de Portugal: Mediato a esta figura se demostráo 4 figuras Sym-

bolizas as Virtudes de q he dotado.

                                               Direita                         Esquerda

                                               Justiça.             Amor da Patria

                                               Benignidade.                Liberidade.

                                                                    _Justiça._

Figurase vestida toda de branco de roupa tallar com a espada na máo direita, e

na esquerda as balanças com hu collar de ouro pendente, e nelle hum olho.

                                                                                                                      Benignidade

 


 

                                               Benignidade.

 

Desmostrase em hua figura Vestida de Roupa tallar de cor Azul com ambas as mãos ex-

primendo os peitos; e do lado esquerdo hu pedastal sobre q se vé hua flama de fogo, e todo

o vestido com estrellas de ouro.

                                               Amor da Patria.

Figuravase em hu Mancebo Vigorozo, vestido como os Soldados Romanos de

armas azuis, aos pès as Armas de Guerra; na máo esquerda hua coroa de Quercias

e na outra hua de Grama.

                                               Leberidade.

Se manifesta na figura de hua m.er vestida de branco com hua Aguia na cabeça na-

mão direita levava hum compasso, e hua cornucopia inclinada p.ª baixo, da qual sahia

alguns rayos, e na esquerda hua cornucopia cheya de frutos, e flores. Na frente do Ca-

rro virado p.ª o heroe se viáo as Artes Liberaes, e sciencias Rendendo oblacaõ.

                        Mathematica.                           Architetura.

                        Comercio.                               Pintura.

                        Historia.                                  Escultura.

                                               Mathematica.

Esta reprezenta hua m.er de meya id.e vestida de Veo branco transparente com-

Azas na cabeça; na máo direita hum compasso mostrando o medir hua taboa, e nella de-

zenhadas alguas figuras geometricas, na mão esquerda o globo celeste, e no sinto borda-

das alguas figuras geometricas.

                                               Comercio.

Figurase em hu homem vestido ricam.te de Azul claro, e cor de Roza semelhantes

as Vestias antigas de Portugal; na máo direita hua cornucopia de fructos, e flores: e na-

esquerda o Caduceo de Mercurio, e hua bolça de dinr.º; e aos pés huns livros abertos com-

algarismos de contas.

                                               Historia.

Se descreve na figura de hua m.er com Azas, vestida de branco, tendo hu livro aber-

to onde mostra escrever: junto a figura se vè Saturno sobre o qual está o livro em q escreve.

                                               Architetura.

Esta se reprezenta em hua m.er, cabellos louros com os braços nuz vestida de cor cam-

biante, e tinha em hua máo hum compasso, e hu prumo, e esquardra, e na outra hu papel

com planetas, figuras de capiteis, e columnas.

                                               Pintura.

Se figura em hua m.er formoza, cabellos negros espalhados com gracioza compozi-

ção com hua cadea de ouro ao pescoço; na qual se vé pendente hua mascara: na tes-

ta hua ligadura, e nella escrito – comitates– hua máo com hu pincel, e na outra a pa-

lheta, e tintas.

                                               Escultura.

A figura desta he hua m.er formoza, mas a compostura da cabeça negligente sobre

a qual terà hu Ramo de louro verde, será vestida cor de Roza, terà a máo direita sobre hua

Estatua, e a outra com huns debuxos, e ponteiros. Por despejo do triunfo se vé preza nos

lados do carro quatro figuras, q se symboliza.

                        Dizcordia.                                Ignorancia.

                        Furor.                                      Hypocrezia.

                                               Dizcordia.

Reprezentará hua m.er furia infernal de varias cores, a cabeça esgadelhada, cujos cabe-

llos serão cobras, na testa hua cinta ensanguentada, no regasso hua tira de papel, em que

estejáo escritos enrendos.

                                               Furor.

Hum homem de aspecto terrivel, e furiozo, nos Olhos hua venda debaixo de si algu-

mas armas, como lanças, e espadas: os btacos nuz, o vestido justo, e curto, e toda a figura

mal composta.

                                               Ignorancia.

Em hua m.er corpolenta, com os olhos vendados, orelhas compridas, e agudas, coroada de dor-

mideyras, descalsa, mas vestida sumptuozam.te de cor de burro, e na máo direita hua cana.

                                               Hypocrezia.

Húa m.er magra, e palida vestida de estamenha parda, rotta em m.tas p.tes, cabeça inclinada p.ª o-

chaó; sobre a qual se porá hu Veo, q lhe cubra toda a cara, o braço esquerdo vestido, e o direito nú; no-

regaço huas grossas contas, e hu livro aberto, os péz seráo de lobo. Na frente do carro virada p.ª

fora se verà a fama publicando o triunfo.

                                               Fama.

Húa m.er formoza com Azas nas costas, hua Trombeta na máo dir.ta, na esquerda hu Ramo

de Olivr.ª; vestida de Roupa branca, curta, e apertada com hú cinto de ouro pendente delle

hú Coração: Na Almofada fingindo cocheiro se vé a Prudencia.

                                               Prudencia

He húa m.er vestida de Azul escuro com Capacete dourado, cingido de folhas de Es

                                                                                                                      padana

 


 

De Espadana; em húa máo húa serpente, na outra húa setta, calsada com estibaletes de fi-

tas roxas. O Muchila figura a Mercurio metido pelos Deozes p.ª guia.

                                               Mercurio.

Hú mancebo vestido justo de cor cabrante, hua Capa XX de cor amarella, capacete com

azas, o Caduceo na máo esquerda, azas nos pés, estabiletes de fitas azuis, e o capacete dourado.

Todo este carro he dourado, e a Rodas com Rayos figurando lavaredas. Tirão por elle outto

Cavalos brancos com telizes encarnados, esquartilhados de ouro, e os jaezes da sobred.ª cor.

 

Lembrança dos refrescos

Lembrança dos Refrescos, qe se devem dar nos 3 dias, 6.7.8 de Junho de 1775. pelo

Senado da Câmara de qe está encarregado o Copeiro Bráz Troyano. Na primr.a tarde

pa suas Mag.es, qe será no Turrião da Caza da India, onde S. Mag.es, e Altezas hão dever as

festas se devem escolher hua caza, p.a nella se armar hua Meza m.to decente e proporcio-

nada às Reais Pessoas, qe nella se hão de assentar. Esta Meza deve ser ornada com magni-

fico, e vistoso dezert: No meyo da dita Meza, e rodadella guarnecida dos mais delicados do-

ces, frutas das mais sazonadas e melhor gosto, qe permite o tempo: advertindo qe entre estes

pratos de doces, e frutas se devem também pôr de fiambres delicadícimos, geleias deli-

cadas, e aparatosas, e outras mais couzas semelhantes qe possão lembrar pa fazerem deli-

cadeza e apparato desta dita Meza; Lembrando a falta de comodos qe ha pa poderem pré-

parar pratos quentes pa a d.ta Meza e qe também esta mesma Meza he mais própria de me-

renda, do qe de Cea: parece escuzado o adornar-se com pratos quentes. Lembro também,

qe deve ser guarnecida de frutas geladas das mais delicadas qe houver; também deve estar promp-

to pa a mesma tarde o Refresco pa as Damas Camaristas, Viadores, e Açafatas, e mais Pessoas, que

acompanhão a Real familia, cujo Refresco deve comsistir em sorvetes de popinha de

morangos, laranjas, limoes, limonadas de neve e tambem de alguns frutos gelados, qe couber

no possível: apromptarem-se; também deve estar prompto Café, Xicolate, Xá, e algumas

qualid.es de vinhos mais generosos: também lembra apromptarem-se algumas bandejas de man-

jar branco e alguns doces, ou biscoitos delicados. 2a tarde tudo como na 1ª excepto o dezert,

qe será diferente, e o mesmo háde ser na 3a excepto também o dezert.

 

 

Refrescos para a Nobreza

 

 Refresco p.a a Nobreza

Como todos os Fidalgos, qe se hão de achar unidos em hua caza pa assistirem à d.a

função se lhe deve prevenir em todas as tres tardes sorvetes de papinha de Morangos,

Laranja, Limão, Xá, Café Xicolate, Capiller, e algumas bandejas de biscoitos delicados

pa q.do elles quizerem, ou pedirem quaisquer destas couzas estarem promptas. E o

mesmo se deve apromptar p.a os snr.es qe tambem tem caza a p.te em todas as tardes.

Nas mesmas tres tardes deve haver hum semelhante refresco; porém mais

diminuto por serem menos as Pessoas nas cazas do Senado da Camara p.a os Me

nistro, e mais Pessoas, qe nella hão de assistir a função. Na Noite 7. do dto háde o Se-

nado dar huá Céa em forma do ambito na Caza do Sello de Alfandega, pa

o qe deve nella preparar huá grande Meza em figura de ferradura por

ser o qe mais convem a figura da caza, e tambem o qe mais facilm.te acomóda-

ra a quanti.de de gente qe nella se deve assentar: a dta meza deve ser guarneci-

da com magnifico, vistozo e delicado Dezert pelo meyo, e a rodadella será guar-

necida com toda a qualid.e de fiambres, jaleas, fruotos, e tudo o mais qe possa condu-

zir a forma de hua delicada meza, ainda qe seja tão extenssa: tambem deve

ser guarnecida além dos d.os pratos de fiambre quentes: advertindo qe huma

grande meza he dificil cobrirse segunda vez; devem estar promptos de

sobre excelente tanto de cozinha, como de fiambre promptos, pa se porem

no lugar delles qe estiverem bulidos.

Na grande Caza da Alfandega se hão de ajuntar todas as Pessoas

Convidadas, e como naturalm.te se demorarão nella algumas poucas horas na-

tes de hirem pa a Cea, deve estar prevenido de sorte, qe não haja falta o refresco do

sorvete de papinha de Morangos, Laranja, Limão, Limonada pa q.do o pedir a-

ssim como Xá, Café, Xicolate, ponxe em abundancia, capiller: advertin

do, qe como m.tas pessoas querem tanto o ponxe, como a capiller huns

mornos, e outros frios; devem estar prevenidos, pa este effeito ao

mesmo qe se distribuirem os refrescos: também se distribuirão as

bandejas de biscoitos.