Sumário
Descrição da continuação das festividades em Lisboa para celebrar o nascimento da princesa Dona Maria (5 de Agosto de 1793)
Ano
1793
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Real Mesa Censória, Caixa 365, doc. 4354
Comentário
O nome do compositor da Oratória, António Cari, pode ser erro por Giovanni Cavi, realmente o compositor da Oratória, La preguiera exaudita, com letra de Giovanni Gerardo di Rossi, cantada, entre outros, por Luísa Todi nos festejos descritos. O libreto foi impresso em 1793 na Oficina de António Rodrigo Galhardo 
Descrição da continuação das festas e do grande fogo de artificio, pelo feliz nascimento da sereníssima princesa da Beira

Agora pego novamente na pena, meu amado Silvio, para te continuar a descrição das festas que te prometi na última carta, em que te dava uma ideia das iluminações desta Capital, pelo feliz nascimento da princesa da Beira.

Eu sei que esperas já com impaciência esta continuação, a qual eu te teria dado há muito tempo com grande gosto, se não esperasse pelo grande e admirável fogo de ar[ti]ficio que o Intendente Geral da Polícia mandou fazer para festejar este feliz nascimento, e que não tem sido possível aprontar com mais brevidade, por causa do muito tempo que se precisou para completar a multiplicidade de peças, tanto de fogo, como de decoração, que formam este grande todo.

As funções em sinal do prazer e satisfação pública, pelo feliz parto da nossa augusta princesa, principiaram no mesmo dia do parto, que foi o último de Abril, pelo Te Deum que se cantou na Real Capela da Ajuda, em acção de graças por tão feliz acontecimento. As três noites que se seguirão foram as das iluminações de que te dei já a descrição na primeira carta, que se repetirão também na de 9 de

Maio, dia do baptismo da sereníssima princesa da Beira recém-nascida. Este baptismo foi feito na Real Capela da Ajuda pelo Patriarca, com a assistência de toda a Corte, e com a solenidade que pedia tão augusta cerimónia. A Real Capela estava ricamente armada, e a pia baptismal era uma grande concha de prata, trabalhada com grande gosto. Não te falo das cerimónias e fórmulas que acompanharão este grande acto, por serem

as mesmas do costume nos baptizados de todos os princípes de Portugal, e para não gastar em um tratado de cerimónias o tempo que preciso para te descrever as funções públicas que tiveram lugar por ocasião deste feliz nascimento.

Entre estas funções merece o primeiro lugar pela grandeza, pela variedade e pela magnificência que a caracterizou, a que o

Intendente Geral da Polícia fez na Real Casa Pia do Castelo de S. Jorge. Esta função, para falar com propriedade, foi uma continuação de funções nos dias 14, 15 e 16 de Maio, que a faz olhar como a mais completa que se tem dado pela sumptuosidade, pela profusão, e por todas as circunstâncias de que foi acompanhada. No primeiro dia de manhã foram distríbuidas duas mil e seiscentas esmolas

a pessoas necessitadas, as quais o Intendente tinha feito distribuir, antecipadamente, bilhetes para este fim, por meio dos párocos das freguesias, por serem os que podiam conhecer as pessoas que se achavam em circunstâncias de as precisarem.

Estas esmolas foram distribuídas com muita ordem em um bosque artificial, que o Intendente mandou fazer no Castelo, e consistiam cada um em dois arratéis de vaca em cru, um arratel

de arroz, dois pães e 200 réis em dinheiro. Distribuídas as esmolas no bosque, saiu o Marquês de Penalva, Mordomo dos Presos, com os filhos do Intendente Pedro António de Pina Manique de Andrade Nogueira e Matos, Paulo António Nogueira de Andrade, e António de Pina Manique, e com os colegiais dos Quatro Colégios de S. Lucas, S. José, São Diogo

e Santo António, e seguindo-se processionalmente foram distribuir esmolas aos presos, consistindo cada esmola em um arratel de vaca, meio de arroz, um pão e 100 réis em dinheiro, e vestuário para os que se achavam despidos nas prisões.

Além disto soltaram 42 presos dos que se achavam presos por custas, ou por culpas que tinham perdão das partes, e que se podiam soltar sem ofender

a justiça e a boa ordem. Estes presos foram também vestidos, e acompanharam a procissão até à Real Casa Pia, onde se lhes deu de jantar, e 400 réis em dinheiro a cada um.

A Corte e a Nobreza secular e eclesiástica, o Corpo Diplomático, o Corpo dos Negociantes Nacionais, os Estrangeiros, e os Viajores de consideração que se achavam nesta Capital, concorreram na tarde

deste dia à Real Casa Pia para onde tinham sido convidados individualmente por cartas para assistir ao Te Deum e à Serenata que se lhe seguiu. À proporção que os convidados iam chegando, eram acompanhados pelo oficial maior, e mais oficiais da Secretaria da Intendência de capa e volta, desde a entrada do Castelo até à primeira porta, donde eram depois acompanhados cada um

por quatro colegiais vestidos, calçados todos uniformente, até o último corredor, donde eram conduzidos pelo mesmo Intendente, por seus filhos, e por seu irmão António Joaquim de Pina Manique, para a grande Sala do Altar, onde se iam assentando em assentos distribuídos para este fim com ordem e regularidade.

Em todo o tempo desta grande concorrência estavam tocando em diferentes

sítios da passagem os Músicos dos Regimentos, e em cima os quatro coros de timbales, e clarins da Casa Real, vestidos ricamente todos os músicos com as fardas encarnadas agaloadas de ouro. Depois de juntos os convidados, saiu o Principal Hohenloe, paramentado com vestes pontificais, e recebeu 37 órfãs com outros tantos homens. As órfãs tinham sido educadas na mesma Casa Pia, e os homens eram pela

maior parte oficiais educados na mesma Casa. Cada uma destas órfã[s] foi adoptada com sessenta mil réis, com um enxoval proporcionado ao seu estado, e com um tear, e a matéria para a primeira tea, segundo os oficios de seus maridos. Estes casais foram além disto sustentados muito tempo à custa da mesma Casa, enquanto se não foram estabelecer nas suas casas. Foram Padrinhos

destes casamentos, o Marquês Mordomo-Mor, e o Secretário de Estado, José de Seabra da Silva, e Madrinha a Marquesa de Lavradio.

Depois dos casamentos tiraram-se por escrutínio cem dotes de sessenta mil réis cada um, a que concorreram não só as órfãs da mesma casa, mas também outras de fora.

No fim disto cantou-se o Te Deum a dois coros, composto em Roma por ordem do Intendente pelo insigne Professor.

No fim do Te Deum deu o Intendente o braço à Marquesa de Lavradio, e o Marquês Mordomo-Mor à Marquesa de Valença, seguindo-os toda a companhia na mesma ordem, dois a dois, foram para a sala da serenata, que estava iluminada e adornada com excelente gosto, e com uma grande orquestra de música, que tocou em todo

este tempo diferentes peças de música, próprias daquele brilhante acto. Depois que os convidados se assentaram, foi o Intendente conduzir Madame Todi para o lugar onde se cantou uma oratória, cuja letra e música foram compostas em Roma pelo célebre António Cari, Mestre do Colégio de Santo António dos Portugueses, naquela Cidade, e conhecido por um

dos melhores autores de música.

Entre as vozes que executaram a oratória, teve o auditório o incomparável prazer de ouvir Madame Todi que, depois de ter ganhado em diversos países estrangeiros os créditos de primeira cantora do nosso tempo, veio mostrar, nesta ocasião, aos seus compatriotas, que o seu canto excede toda a ideia que dele nos tinha dado a fama. No intervalo da Cantata tocou o célebre Marechal uma sonata no Piano forte, acompanhando-o sua mulher na harpa, com muito gosto.

Antes da oratória, e no intervalo entre o primeiro e segundo acto

serviram-se à companhia abundantes refrescos de gelados, e muitas qualidades.

Acabada a oratória deu o Intendente o braço a Monsieur Walpole, e seguindo-o toda a companhia na mesma ordem, foram para as salas das mesas ao som de uma pomposa marcha que a orquestra tocou em todo que foi preciso para esta passagem procissional. As salas das mesas estavam tapiçadas de seda e ornadas com tremós, aparadores, lustres, serpentinas, e outros ornamentos

e com uma iluminação proporcionada à sua grandeza. A mesa da primeira sala, que estava tapiçada de seda amarela, ocupava os dois comprimento[s] de toda a casa, e a cabeceira superior, disposta em forma de ferradura, e a da outra sala seguia o comprimento da casa, e tinham ambas perto de quinhentos talheres. Estas mesas eram servidas por 150 criados, com uma abundância e profusão de iguarias

que seria impossível o podê-las descrever com exactidão, como o número dos convidados excedia de dois mil, foi preciso repeti-las na mesma proporção, o que se tem sempre com a mesma ordem e abundância.

No fim da ceia deu o Intendente outra vez o braço a Monsieur Walpole, e seguindo-os a companhia para a sala da serenata, abriram o baile com um minuete a Condessa de Pombeiro e o Conde de Cantanhade, sendo Mestres

de Cerimónias o Conde de Assumar, José Teles da Silva e D. Tomás de Noronha. O baile continuou até às 6 horas da manhã, subministrando-se a todos as bebidas e refrescos que queriam.

Os criados do Intendente tinham distríbuido bilhetes aos criados de libré dos convidados, convidando-os para cear no bosque, onde se lhes deu uma abundante ceia. Neste mesmo dia mandou o Intendente vinte mil réis de esmola a cada Convento de Mendicantes de Lisboa e seus subúrbios, para o seu jantar, e dez mil réis a cada Recolhimento

No dia seguinte celebrou pontifical o Principal Kohenlohe, cantando a missa dois completos coros de música, a qual tinha também sido composta expressamente em Roma para este fim. Foi orador o Geral dos Paulistas, Frei João Jacinto. Assistiram a este acto por um convite formal e individual, o Juiz do Povo com a Casa dos vinte quatro, todos os Juízes

e Escrivães dos Oficios das Artes Fabris, e todos os Mestres dos mesmos oficios que tinham servido os anos precedente[s] na Casa dos Vinte Quatro. Acabada a missa passaram os convidados a jantar em uma sala, onde se achavam já prontas e servidas esplendidamente as mesas. Neste dia foram distribuídas outras tantas esmolas como as do dia precedente, e da mesma

natureza aos pobres que apresentaram os bilhetes que os seus párocos lhes tinham distribuído. Os convidados, depois de tomar o café em uma sala separada, e passear pelo bosque para se divertirem a [o]bservar a perfeição com que se tinha imitado a Natureza, e a ouvir um número prodigioso de vozes que, saindo de entre as murtas e os louros, imitavam o canto dos rouxinóis e dos melros,

assistiram a uma secção académica dos mestres e discípulos da mesma casa, onde se recitaram muitos discursos sobre as Artes e sobre o muito que elas influem na grandeza, e na prosperidade dos Estados. Desde o jantar até o princípio da secção estiveram tocando no bosque os músicos de dois regimentos desta Corte.

No terceiro dia celebrou outra vez pontifical o mesmo Principal,

cantando um completo coro a missa, cuja música tinha sido também composta em Roma, por ordem do Intendente. Pregou Frei Francisco do Coração de Jesu Wanzeller.

Neste dia e no precedente vieram assistir à missa as órfãs da Real Casa Pia, vestidas todas uniformemente, e com medalhas ao peito.

Foram convidados os Bispos titulares que se achavam nesta Capital, os Prelados maiores e locais

dos Conventos de Lisboa com oito súbditos, e todos os párocos que assistiram à missa, assim como outras muitas pessoas de distinção. Depois da missa foram para o bosque, onde se achavão 40 mesas de vinte talheres cada uma, tudo em um asseado gosto campestre para dar de jantar aos pobres. Neste pio acto mostrou o Intendente a copa aos devotos

serventes, fazendo distribuir toalhas a todos para servirem os nobres. O Marquês Mordomo-Mor, que era do número dos serventes, foi um dos que se distinguiram neste piedoso acto, que infundia ao mesmo tempo respeito e ternura. As mesas eram servidas de sopa, cozido, assado, arroz, massas, vinho e fruta, e foram renovadas muitas vezes, por exceder a cinco mil o número das pessoas

que concorreram a este jantar.

Primeiro jantaram as mulheres, depois seguiram-se os homens. A ida de cada ordem de mesas estavam à porta o Arcebispo de Lacedemónia, D. António Caetano Maciel, e o Tenente General D. Cristóvão Manuel de Vilhena, distribuindo esmolas aos pobres que iam saindo de 120 réis até 240, dando as maiores aos que supunham em maior necessidade. Pelas

cinco horas da tarde foram os convidados jantar a uma sala, onde estavam as mesas esplendidamente servidas, e foram substituídos pelos colegiais dos quatro colégios no serviço dos pobres, servindo-os até à noite que duraram as mesas. Em todo este tempo estiveram tocando os Músicos dos Regimentos, e os rapazes imitando entre os louros e as murtas o canto


dos rouxinóis e dos melros. Os convidados, depois de jantarem e de tomar o café foram assistir a outra secção literária, como a do dia antecedente, com a única diferença de rolar sobre os progressos das ciências, e sobre a sua utilidade.

Também se deu de jantar aos Destacamentos de Cavalaria e Infantaria, que foram preciso[s] para conservar a boa ordem na grande

afluência de gente que concorreu a estas funções, principalmente no primeiro e no último dia.

Anselmo José da Cruz Sobral deu uma serenata no mesmo Palácio, onde fez a iluminação de que te falei na primeira carta, que constou de uma oratória que mandou compor expressamente para este objecto, em que também cantou Madame Todi, e

do baile. As salas que serviram para esta função estavam tapissadas de seda, e ricamente adornadas com brilhantíssimos lustres de cristal, com um número prodigioso de serpentinas de prata, e com outros muitos ornamentos de grande gosto. Para te dar uma ideia da abundância e da qualidade dos gelados e mais refrescos com que foram servidos os convidados, e do asseio, profusão

e delicacadeza das mesas da ceia, basta que te diga que a profusão, e a magnificência disputavam sobre qual deveria ter o primeiro lugar, como sucede sempre em todas as funções deste conselheiro.

Como esta carta principia já a ser extensa, e eu tenho de te falar ainda do grande fogo de artifício que se está preparando no Terreiro do Paço para o dia 11 deste mês, não entro em mais detalhes sobre esta função,

bastando o que te tenho dito, para te fazer julgar de tudo o mais.

Os Tribunais, as Paróquias, as Comunidades religiosas, algumas Corporações estrangeiras, e muitos particulares, fizeram funções de Igreja, e mandaram cantar o Te Deum em acção de graças pela feliz sucessão dos nossos augustos princípes. Anselmo José da Cruz foi o que se destinguiu mais nesta parte,

porque mandou armar ricamente, e em um gosto novo toda a Igreja de Santa Isabel, onde fez celebrar uma missa, e cantar o Te Deum a dois coros, com os melhores músicos desta Capital. Esquecia-me de te dizer que o Juiz do Povo fez tambén uma magnífica função na Igreja dos Mártires, em acção de graças pelo mesmo motivo.

Domingo, 11 deste mês, é o dia aprazado para o grande e admirável fogo de artifício, que se acha já pronto no Terreiro do Paço, representado por um soberbo e elegante edifício de duas ordens de arquitectura, Jónica e Dórica. O grande pórtico deste edifício está decorado com o retrato de nossa augusta rainha, e com os dos nossos augustos princípes, e com as armas reais, e ornado todo com medalhas,

génios, festões e outros muitos ornamentos, como se vê na estampa que vai junta a esta carta, a qual foi tirada exactamente da planta original. Toda a frente deste edifício, que tem 300 palmos de comprimento e 150 de altura, está revestida com uma grande quantidade de peças de fogo de artifício, diferentes umas das outras. Na frente deste edifício está um recinto de 900 palmos de diâmetro cercado todo com uma balustrada

que vai terminar nas duas extremidades do mesmo edifício, e ornada de pirâmides, repuchos, velaverdes e outras muitas peças que representam um jardim de fogo.

A função deste dia há-de principiar por 14 danças campestres, que as povoaçoes dos subúrbios de Lisboa mandam espontaneamente ao Terreiro do Paço, para festejar o feliz nascimento da augusta princesa da Beira,

querendo mostrar deste modo o grande contentamento que sessentem com a sucessão da augusta casa reinante. Os barcos das vizinhanças de Lisboa vêm também postar-se em frente do Terreiro do Paço, para se embandeirarem, e lançarem ao ar uma selva de foguetes de respostas, no momento em que chegar o nosso princípe.

O fogo há-de principiar por uma

salva de 50 tiros, imitando peças de 24 . Depois desta selva principiará o fogo de vistas por uma iluminação geral sobre toda a balustrada do jardim de fogo. Esta iluminação será formada por uma grande quantidade de morteiros, pistolas e velverdes que lançarão ao ar muitas diversidades de fogo. No fim disto trabalhará o fogo de vistas, ardendo sempre duas peças no mesmo tempo.

Este fogo representará diversas figuras geométricas e físicas, assim como triângulos, quadrados, pentágonos, exágonos, linhas espirais, o sistema romanesco dos turbilhoes de Descartes, esferas, chafarizes, cascatas, o Sol, a Lua, as Estrelas, pirâmides, figuras transparentes e recortadas, e outras de diferentes qualidades, formadas todas por fogos fixos e móveis. Ver-se-ão, nos intervalos disto, diferentes

artifícios de fogo lançados ao ar a uma grande altura, tais como turbilhões, balas vermelhas e brancas, e outras muitas diversidades.

Logo que terminar o fogo de vistas, aparecerá repentinamente a arquitectura do edifício, iluminando-se com oito mil luzes de artifício, além das transparentes, que representarão os retratos da nossa augusta soberana e dos augustos princípes do Brasil, a Coroa

Real, as armas de Portugal e outros muitos ornamentos. Quando a iluminação estiver no meio da sua duração, ver-se-ão 100 morteiros em cima da cimalha, lançando todos balas inflamadas ao ar.

Acabada a iluminação ver-se-ão outros 100 morteiros em cima da cimalha, lançando ao ar uma grande quantidade de estrelas buscapés, estouros. Neste mesmo tempo

aparecerá novamente iluminado o edifício com um grande número de valverdes de três polegadas de diâmetro, formando repuxos de 36 palmos de altura. Ver-se-á também neste tempo um grande esplendor por cima do edifício, de 60 palmos de diâmetro, e com a cara do Sol no Centro, à roda da qual se vera a legenda: Viva o Princípe do Brasil.

No fim de tudo isto partirão para o ar duas girândolas de 15 foguetões, formando um ramalhete com que terminará todo o fogo de vistas, depois do qual principiará o fogo do ar, do modo seguinte.

Lançar-se-ão ao ar 150 grandes foguetões de 3 polegadas de diâmetro, dois a dois, lançando entre cada intervalo destes foguetões uma bala inflamada, ou

uma bomba de artifício, fazendo um número de doze balas inflamadas, e 18 grandes bombas de artifício. Depois disto partirão 250 girândolas, umas depois das outras, as quais consistirão em foguetes guarnecidos de todas as qualidades de fogo do ar. O fogo terminará ultimamente por uma girândola de 300 foguetões

que iluminarão o ar com todas as qualidades de fogo que se podem executar. Estarão tocando dois coros de música de vento. A ideia e direcção de todo este majestoso e admirável fogo de artifício, é do célebre holandês João José Solner, bem conhecido

pelos seus raros talentos, e pelas lições públicas de fisica, que tem dado por muito tempo nesta Capital, no seu gabinete junto ao Carmo.

O dia desta função será o primeiro em que se vejam as Guardas da Polícia com um uniforme encarnado, canhões e bandas pretos, galões de prata, capacetes, e uma ordem semelhante à da Milia. Esta Guarda, estabelecida à semelhança da Ronda a pé, e a cavalo, de França, é estabelecida por vigiar

sobre a boa ordem da Cidade, e para fazer todas as rondas e diligências da Polícia.

 

Fim

 

Imprima-se, e volte. Lisboa, 5 de Agosto de 1793.


X  X

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Descripção da Continuação
Das Festas e do
Grande Fogo de artificio
Pelo feliz Nascimento
Da Serenissima
Princeza da Beira

Agora pego novamente na
penna, meu amado Silvio, para te
continuar a descripção das festas que
te prometti na ultima carta, em que
te dava huma idéa das illumina-
çoens desta Capital, pelo feliz
nascimento da Princeza da Beira.

Eu sei que esperas já com impaciencia
esta continuação, a qual eu te teria dado há m.to
tempo com grande gosto, se não esperasse
pelo grande, e admiravel Fogo de arfi-
cio, que o Intendente Geral da Po-
licia mandou fazer para festejar este
feliz nascimento, e que não tem sido
possivel aprontar com mais brevida-
de, por causa do muito tempo que
se precisou para completar a mul-
tiplicidade de peças tanto de fogo,
como de decoração, que formão este
grande todo.

As funçoens em sinal do pra-
zer, e satisfação publica, pelo feliz
Parto da Nossa Augusta Prin-
ceza principiarão no mesmo dia
do parto, que foi o ultimo de
Abril pelo Te Deum que se can-
tou na Real Capella
da Ajuda em acção de graças por
tão feliz acontecimento. As tres noi-
tes que se seguirão forão as das illu-
minaçoens, de que te dei já a
descripção na primeira carta; que
se repetirão tãobem na de 9 de

Maio, dia do Baptismo da Serenissi-
ma Princeza da Beira recem nascida.
Este Baptismo foi feito na Real Ca-
pella da Ajuda pelo Patriarcha,
com a assistencia de toda a Corte,
e com a solemnidade que pedia
tão Augusta Ceremonia. A Real
Capella estava ricamente armada,
e a pia baptismal era huma gran-
de concha de prata, trabalhada com
grande gosto. Não te fallo das cere-
monias, e formulas, que acompanha-
rão este grande Acto, por serem
                                            as

as mesmas do costume, nos Bapti-
zados de todos os Princepes de Por-
tugal, e para não gastar em hum
tratado de ceremonias o tempo que
preciso para te descrever as fun-
çoens publicas, que tiverão lugar
por ocasião deste feliz nascimen-
to.
Entre estas funçoens merece o pri-
meiro lugar pela grandeza, pe-
la variedade, e pela magnificencia
que a caracterizou, a que o

Intendente geral da Policia fez
na Real Casa pia do Castello de
S. Jorge. Esta Função para fallar
com propriedade, foi huma conti-
nuação de funçoens nos dias 14,
15 e 16 de Maio, que a faz olhar
como a mais completa que se tem
dado pela sumptuosidade, pela profu-
são, e por todas as circunstancias
de que foi acompanhada. No pri-
meiro dia de manha forão des-
tribuidas duas mil e seis centas es-
molas

molas a pessoas necessitadas, as quaes
o Intendente tinha feito destribuir
anticipadamente bilhetes para este
fim, por meio dos Parochos das
Freguezias por serem os que podião
conhecer as pessoas, que se achavão
em circunstancias de as precisarem.
Estas esmolas forão destribuidas
com muita ordem em hum
bosque artificial, que o Intenden-
te mandou fazer no Castello, e
consistião cada hum em dous arra-
teis de vacca em cru, hum arra-
                                             tel

tel de arros, dous paens, e 200 rs.
em dinheiro.
Destribuidas as esmolas no bos-
que, sahio o Marques de Penal-
va Mordomo dos Prezos, com os
filhos do Intendente Pedro Anto-
nio de Pina Manique de Andra-
de Nugueira e Matos, Paulo An-
tonio Nugueira, de Andrade, e An-
tonio de Pina Manique, e com
os Collegiaes dos Quatro Collegios
de S. Lucas, S. Joze, São Dio-
                                         go

go, e S.to Antonio, e seguindo-se
processionalmente forão destribuir
esmollas aos prezos, consistindo cada
esmolla em hum arratel de vacca,
meio de arros, hum pão, e 100 r.s
em dinheiro, e vestuario para
os que se achavão despidos nas
prizoens.
Alem disto soltarão
42 prezos dos que se achavão
prezos por custas, ou por culpas
que tinhão perdão das partes, e
que se podião soltar sem offender

a Justiça, e a boa ordem. Estes pre-
zos forão tãobem vestidos, e acom-
panharão a procissão até á Real
Caza pia, onde se lhes deo de jan-
tar, e 400 reis em dinheiro a cada
hum.
A Corte, e a Nobreza Secular, e
Ecclesiastica, o Corpo Diplomatico,
o Corpo dos Negociantes Nacionaes,
os Estrangeiros, e os Viajores de Consi-
deração que se achavão nesta
Capital, concorrerão na tarde

deste dia á Real Casa pia, para
onde tinhão sido convidados indi-
vidualmente por cartas para assis-
tir ao Te Deum e á Serenata
que se lhe seguio. A proporção que
os Convidados hião chegando, erão
acompanhados pelo Official maior,
e mais Officiaes da Secretaria
da Intendencia de Capa, e volta,
desde a entrada do Castello até
á primeira porta, donde erão
depois acompanhados cada hum

por quatro Collegiaes vestidos, callca-
dos todos uniformente, até o ul-
timo corredor, donde erão conduzi-
dos pelo mesmo Intendente, por
seus Filhos, e por seu Irmão An-
tonio Joaquim de Pina Manique
para a grande Salla do Altar,
onde se hião assentando em assen-
tos, destribuidos para este fim com ordem,
e regularidade.
Em todo o tempo desta grande
concorrencia estavão tocando em diffe-
                                                rentes

rentes sitios da passagem os Mu-
sicos dos Regimentos, e em cima
os quatro coros de timbales, e cla-
rins da Casa Real, vestidos rica-
mente todos os Musicos com as
fardas encarnadas agaloadas de ouro. Depois
de juntos os Convidados, sahio o Prin-
cipal Hohenloe paramentado
com vestes Pontificaes, e recebeo 37
orfas com outros tantos homens. As
orfas tinhão sido educadas na mes-
ma Casa Pia, e os homens erão pela

maior parte officiaes educados
na mesma Casa. Cada huma des-
tas orfa foi doptada com sessenta
mil reis, com hum enxoval pro-
porcionado ao seu estado, e com
hum tear, e a materia para a
primeira tea, segundo os officios
de seus maridos. Estes casaes forão
além disto sustentados muito
tempo a custa da mesma Casa,
em quanto se não forão esta-
belecer nas suas casas. Forão Padrinhos

destes casamentos, o Marques Mor-
domo Mor, e o Secretario de Estado
Joze de Seabra da Silva, e Ma-
drinha a Marqueza de Lavradio.
Depois dos casamentos tirarão-se por
escrutinio cem dotes de sessenta
mil reis cada hum, a que concorrerão
não só as orfas da mesma casa,
mas tãobem outras de fora.
No fim disto cantou-se o
Te Deum a dous choros, compos-
to em Roma por ordem do In-
tendente pelo insigne Professor.

No fim do Te Deum deo
o Intendente o braço a Marqueza
de Lavradio, e o Marques Mordomo
Mor á Marqueza de Valença,
e forão para a salla da se
renata, seguindo os toda a com-
panhia na mesma ordem dous
a dous, forão para a salla da
serenata, que estava illumina-
da, e adornada com excellente gos-
to, e com huma grande Orches-
tra de Musica, que tocou em to-
do

do este tempo differentes peças
de Musica proprias daquelle bri-
lhante Acto. Depois que os con-
vidados se assentarão, foi o Inten-
dente conduzir M.de Todi para
o lugar onde se cantou huma Ora-
toria, cuja letra, e musica forão
compostas em Roma pelo celebre
Antonio Cari, Mestre do Collegio de
Santo Antonio dos Portuguezes na
quella Cidade, e conhecido por hum

dos melhores authores de Musica.
Entre as vozes que executarão a
Oratoria, teve o Auditorio o in-
comparavel prazer de ouvir Ma-
dama Todi, que depois de ter ga-
nhado em diversos Paizes Estran-
geiros os creditos de primeira
cantora do nosso tempo, veio mos-
trar nesta occasião aos seus com-
patriotas, que o seu canto ex-
cede toda a idéa que delle nos tinha dado a
fama. No intervallo da Cantata tocou o Celebre
Marchal huma sonata no Piano forte, acom
panhando-o sua Mulher na Harpa com m.to gosto.
Antes da Oratoria, e no intervallo entre o pr.º e seg.do Acto

servirão-se á Companhia abundantes refrescos
de gelados, e muitas qualidades.
Acabada a Oratoria deo o In-
tendente o braço a M.s Walpole
e seguindo-o toda a companhia
na mesma ordem forão para as
Sallas das mezas ao som de
huma pomposa marcha, que a
Orchestra, tocou em quanto todo
que foi preciso para esta passa-
gem procissional. As Sallas das
Mezas estavão tapissadas de seda,
e ornadas com tremoz, apparadores,
Lustres, serpentinas, e outros or-
namentos

namentos, e com huma illumina-
ção proporcionada a sua grande-
za. A meza da primeira Salla,
que estava tapissada de seda ama-
rella, occupava os dous compri-
mento de toda a casa, e a cabe-
ceira superior disposta em forma
de ferradura, e a da outra salla
seguia o comprimento da casa, e
tinhão ambas perto de quinhen-
tos talheres. Estas mezas erão ser-
vidas por 150 criados, com huma
abundancia, e profusão de igua-
rias

rias, que seria impossivel o pode-
las descrever com exactidão Co-
mo o numero dos convidados ex-
cedia de dous mil, foi preciso
repitilas na mesma proporção;
o que se tem sempre com a
mesma ordem, e abundancia.
No fim da Cea deo o Inten-
dente outra vez o braço a M.s Walpole, e
seguindo-os a companhia para a
Salla da Serenata, abrirão o Bai-
le com hum minuete a Condessa de Pombeiro, e
o Conde de Cantanhade, sendo Mes-
                                            tres

tres de Ceremonias o Conde de
Assumar, Joze Telles da Silva
e D. Thomas de Noronha. O Bai-
le continuou até as 6 horas da
manhã, subministrando-se a
todos as bebidas, e refrescos que que-
rião.
Os creados do Intendente tinhão
destribuido bilhetes aos creados de
libré dos convidados, convidando-os
para cear no bosque, onde se lhes
deo huma abundante cea. Neste
mesmo dia mandou o Intendente vinte
mil r.s de esmola a cada Convento de Mendi-
cantes de Lisboa, e seus suburbios, para o seu
jantar, e dez mil r.s a cada Recolhimento.

No dia seguinte celebrou Pon-
tifical o Principal Kohenlohe, can-
tandoa Missa dous completos Coros
de Musica, a qual tinha tãobem
sido composta expressamente em
Roma para este fim: foi Ora-
dor o Geral dos Paulistas Fr. João
Jacinto. Assistirão a este Acto
por hum convite formal, e indivi-
dual o Juis do Povo com a Casa
dos vinte quatro, todos os Juizes,

e Escrivaens dos Officios das Ar-
tes fabris, e todos os Mestres dos
mesmos Officios, que tinhão ser-
vido os annos precedente na Casa
dos Vinte quatro. Acabada a Missa
passarão os convidados a jantar em
huma salla, onde se achavão já
promptas, e servidas esplendida-
mente as mezas. Neste dia forão
destribuidas outras tantas esmolas
como as do dia precedente, e da mes-
                                                         ma

ma natureza, aos pobres que
apresentarão os bilhetes que os
seus Parrocos lhes tinhão destribui-
do. Os Convidados depois de tomar
o Caffé em huma salla separada, e
passear pelo bosque para se devir-
tirem a [o]bservar a perfeição com
que se tinha imitado a Natureza,
e a ouvir hum numero prodigi-
oso de vozes que sahindo de entre
as murtas, e os louros imitavão o
canto dos rouxinoes, e dos melros,

assistirão a huma secção Acade-
mica dos Mestres, e Discipulos da
mesma casa, onde se recitarão
muitos discursos sobre as Artes,
e sobre o muito que ellas enflu-
em na grandeza, e na prospe-
ridade dos Estados. Desde o jantar
até o principio da Secção estive-
rão tocando no bosque os Musi-
cos de dous Regimentos desta Cor-
te.
No terceiro dia celebrou outra
vez Pontifical o mesmo Principal,

cantando hum completo Coro a
Missa, cuja Musica tinha sido tão-
bem composta em Roma por or-
dem do Intendente: pregou Fr.
Francisco do Coração de Jesu Wanzeller.
Neste dia, e no precedente vierão
Assistir á Missa as Orfas da Real
Casa pia, vestidas todas uniforme-
Mente, e com medalhas ao peito.
Forão convidados os Bispos titula-
res que se achavão nesta Capi-
tal, os Prelados maiores e locaes

dos Conventos de Lisboa com
oito subditos, e todos os Parrocos,
que assistirão á Missa assim co-
mo outras muitas Pessoas de des-
tinção. Depois da Missa forão pa-
ra o bosque, onde se achavão 40
mezas de vinte talheres cada huma
com os seus competentes apara-
dores, tudo em hum asseado gos-
to campestre para dar de jantar
aos pobres. Neste pio acto mos-
trou o Intendente a Copa aos de-
votos

votos serventes, fazendo destribuir
toalhas a todos para servirem os
nobres. O Marques Mordomo Mor,
que era do numero dos serventes,
foi hum dos que se destinguirão
neste piedoso acto, que infun-
dia ao mesmo tempo respeito,
e ternura. As mezas erão ser-
vidas de sopa, cozido, assado, arros,
macas, vinho, e fruta, e forão re
novadas muitas vezes, por exceder
            a cinco mil o numero das pessoas

que concorrerão a este jantar.
Primeiro jantarão as mulheres,
depois seguirão-se os homens. A
hida de cada ordem de mezas estavão
á porta: o Arcebispo de Lacede-
monia D. Antonio Caetano Ma-
ciel, e o Tenente General D.
Christovão Manoel de Vilhena,
destribuindo esmolas aos pobres que
hião sahindo de 120 r.s até 240,
dando as maiores aos que suppu-
nhão em maior necessidade. Pelas

cinco horas da tarde forão os con-
vidados jantar a huma salla, onde
estavão as mezas esplendidamente
servidas, e forão substituidos pelos
Collegiaes dos quatro Collegios no
Serviço dos pobres, servindo-os
até á noite que durarão as
mezas. Em todo este tempo esti-
verão tocando os Musicos dos
Regimentos, e os rapazes imitando
entre os louros, e as murtas o canto

dos roxinoes, e dos melros. Os Con-
vidados depois de jantarem, e de
tomar o café forão assistir a
outra secção literaria, como a do
dia antecedente, com a unica
differença de rolar sobre s pro-
gressos das sciencias, e sobre
a sua utilidade.
Tãobem se deo de jantar aos
Destacamentos de Cavallaria, e
Infantaria, que forão preciso para
conservar a boa ordem na gran-
         de

de afluencia de gente que concor-
reo a estas funçoens, principalmen-
te, no primeiro, e no ultimo dia.
Anselmo Joze da Cruz Sobral
deo huma serenata no mesmo
Palacio, onde fez a illuminação
de que te fallei na primeira car-
ta, que constou de huma Orato-
ria que mandou compor expressa-
mente para este objecto, em que
tãobem cantou Madama Todi, e

do Baile. As sallas que servirão
para esta Funsão estavão tapissa-
das de seda, e ricamente adorna-
das com brilhantissimos lustres de
Cristal, com hum numero prodi-
gioso de serpentinas de prata,
e com outros muitos ornamen-
tos de grande gosto. Para te dar
huma idéa da abundancia, e da
qualidade dos gelados, e mais
refrescos com que forão servidos
os convidados, e do asseio profusão,

e delicadeza das mezas da Cea, bas-
ta que te diga, que a profusão,
e a magnificencia disputavão
sobre qual deveria ter o primeiro
lugar, como succede sempre em to-
das as funçoens deste Conselheiro.
Como esta carta principia já a ser
extensa, e eu tenho de te fallar ainda do
grande fogo de artificio que se es-
tá preparando no Terreiro do Paço pa-
ra o dia 11 deste mez, não entro
em mais detalhes sobre esta funsão,

bastando o que te tenho dito, para
te fazer julgar de tudo o mais.
Os Tribu-      As Parroquias, as Communidades
     naes      Religiosas, algumas Corporaçoens Es-
trangeiras, e muitos particulares,
fizerão Funçoens de Igreja, e man-
darão cantar o Te Deum em
acção de graças pela feliz Succes-
são dos nossos Augustos Princi-
pes. Anselmo Joze da Cruz foi
o que se destinguio mais nesta par-

                                               te


te; por que mandou armar rica-
mente, e em hum gosto novo to-
da a Igreja de Santa Izabel, on-
de fez celebrar huma Missa, e Can-
tar o Te Deum a dous choros com
os melhores Musicos desta Capital
esquecia-me de te dizer que o Juis
do Povo fez tãobem huma magni-
fica funsão na Igreja dos Mar-
tires em acção de graças pelo mes-
mo motivo.

Domingo 11 deste mez, he o dia apra-
sado para o grande, e admiravel
fogo de artificio, que se acha já
prompto no Terreiro do Paço, repre-
sentado por hum soberbo, e elegan-
te edeficio de duas ordens de Ar-
chitectura, Jonica, e Dorica. O gran-
de portico deste edeficio está decora-
do com o Retrato de Nossa Augus-
ta Rainha, e com os dos nossos Au-
gustos Princepes, e com as Armas
Reaes, e ornado todo com medalhas,

genios, festoens, e outros muitos or-
namentos como se ve na estampa
que vai junta a esta carta, a qual
foi tirada exactamente da plan-
ta original. Toda a frente deste
X q tem 300 palmos de Comprim.to e 150 de altura
edificio X está revestida com huma
grande quantidade de peças de
fogo de artificio differentes humas
das outras. Na frente deste edeficio
está hum recinto de 900 palmos de
diametro cercado todo com huma balus-
                                                           trada

trada que vai terminar nas duas
estremidades do mesmo edificio, e orna-
da de piramides, repuchos, Velaver-
des, e outras muitas peças, que
representão hum jardim de fogo.
A funsão deste dia, hade prin-
                       campestres
cipiar por 14 Danças x que as Povo-
açoens dos soburbios de Lisboa, man-
dão espontaneamente ao Terreiro
do Paço para festejar o feliz Nasci-
mento da Augusta Princeza da Bei-
                                                   ra

ra, querendo mostrar deste modo o
grande contentamento que resentem
com a sucessão da Augusta Casa
Reinante. Os barcos das visinhanças
de Lisboa vêm tãobem postar-se
em frente do Terreiro do Paço, para
se embandeirarem, e lançarem ao
ar huma selva de foguetes de
repostas, no momento em que che-
gar o nosso Princepe.
O fogo hade principiar por huma

salva de 50 tiros, imitando peças de
24. Depois desta selva principiará
o fogo de vistas por huma illumi-
nação geral sobre toda a balustrada do
jardim de fogo. Esta illuminação se-
rá formada por huma grande quan-
tidade de morteiros, pistollas, e vel-
verdes que lancarão ao ar mui-
tas deversidades de fogo. No fim disto
trabalhará o fogo de vistas, ardendo
sempre duas peças no mesmo


Este fogo representará diversas
figuras geometricas, e fysicas assim
como triangulos, quadrados, penta-
gonos, exagonos, linhas espiraes,
o systema romanesco dos torbilho-
ens de Descartes, esferas, chafari-
zes, cascatas, o Sol, a Lua, as Es-
trellas, pyramides, figuras tranpa-
rentes, e recortadas, e outras de diffe-
rentes qualidades, formadas todas
por fogos fixos, e moveis. Ver-se-

 

X a hua grande altura
artificios de fogo lançados ao ar X, taes
como torbilhoens, balas vermelhas,
e brancas, e outras muitas deversi-
dades.
Logo que terminar o fogo de vis-
tas, apparecerá repentinamente
a architectura do edeficio, illumi-
nando-se com oito mil luzes
de artificio, além das transparen-
tes, que representarão os retratos
da nosa Augusta Soberana, e dos
Augustos Principes do Brazil, a Co-
                                                 roa

roa Real, as Armas de Portugal, e
outros muitos ornamentos. Quan-
do a illuminação estiver no meio
da sua duração, ver-se-hão 100
morteiros em cima da cimalha,
lançando todos balas inflammadas
ao ar.
Acabada a illuminação ver-se-
hão outros 100 morteiros em cima
da cimalha lançando ao ar huma
grande quantidade de estrellas
buscapés, estouros. Neste mesmo tem-
                                                      po

po apparecerá novamente illumi-
nado o edificio, com hum grande
numero de valverdes de tres pole-
gadas de diametro, formando repu-
xos de 36 palmos de altura. Ver-
se-ha tãobem neste tempo hum
grande esplendor por cima do
edificio de 60 palmos de diame-
tro, e com a cara do Sol no Centro,
a roda da qual se vera a le-
        genda: Viva o Princepe do Brazil.

No fim de tudo isto partirão
para o ar duas gyrandolas de
15 fogetoens, formando hum rame-
lhete com que terminará todo
o fogo de vistas; depois do qual
principiará o fogo do ar do modo
seguinte.
Lançar-se-hão ao ar 150 gran-
de 3 polegadas de diametro
des fogetoens X dois a dois, lançando
entre cada intervallo destes foge-
    toens huma bala inflammada, ou

huma bomba de arteficio, fazen-
do hum numero de doze belas
enflamdas, e 18 grandes bombas
de artificio. Depois disto partirão
250 gyrandolas humas depois das
outras, as quaes consistirão em
foguetes, guarnecidos de todas as
qualidades de fogo do ar. O fo-
go terminará ultimamente por
huma gyrandola de 300 fogeto-
                                               ens

ens, que illuminarão o ar com
todas as qualidades de fogo que se
podem executar. +A idéa, e direcção
de todo este magestoso, e admiravel
                                   celebre
fogo de arteficio, he do X Hollandez
João Jozé Solner, bem conhecido
pelos seus raros talentos, e pelas
liçoens publicas de Fysica que
tem dado por muito tempo nesta
Capital, no seu gabinette jun-
to ao Carmo.
+ Estarão tocando dous choros de Musica de vento.

O dia desta função será o pri-
meiro, em que se vejão as Guar-
das da Policia com hum unifor-
                                   e bandas
me encarnado, canhoes X pretos galoens
de prata, capacetes, e huma ordem
semelhante á da Milia. Esta
Guarda estabelecida a semelhan-
ça da XXXXXXXXXXXXX da
Ronda a pé, e á cavallo de
França, he estabelecida por vi-
                                           giar

giar sobre a boa ordem da Cida-
de, e p.ª fazer todas as rondas, e
deligencias da Policia.
 
            Fim
 
Imprimase: e volte. Lx.ª 5 de A-
gosto de 1793.
 
XXX                           XXXX