Sumário
Comentário de Dumouriez sobre o espectáculo português (1766)
Ano
1766
Comentário
Este comentário servirá a J. B. F. Carrère, que o transcreve em nota no seu livro Tableau de Lisbonne.
Impresso
Dumouriez, Etat présent du royaume de Portugal en l'année 1766, Lausanne, François Grasset, 1775, pp. 171-172
Menções
Joseph Barthélemy François Carrère, Tableau de Lisbonne en 1796, Paris: H. J. Jansen, 1797, pp. 69-70; Laureano Carreira, O teatro e a censura em Portugal na segunda metade do século XVIII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1988, pp. 381-384: 382; Rui Vieira Nery

Dumouriez, Etat présent du royaume de Portugal en l'année 1766, Lausanne, François Grasset, 1775,


Le spectacle portugais est encore plus mauvais et de plus mauvais genre que l'espagnol. Il 'ont travaillé que dans le burlesque, à peu près comme les pantalonades Italiennes, mais avec moins de sel et beaucoup de bas-comique. Ils 'ont ni cette multiplicité ni ce beau fonds de pieces telles que celles de Lope de Vega, Calderón, Moreto etc. Aucun bon écrivain 'a travaillé pour le theâtre, excepté Camoens qui a donné une assez bonne traduction d'Amphitrion qu'on ne joue jamais et un nommé Ferreira qui a fait une très bonne tragédie d'Inès de Castro dans le goût grec. On traduit a présent du théâtre François et de d'Italien, mais le goût du pays et la dureté de la langue gátent extremement ces ouvrages. Les acteurs sont mauvais mais bien habillés. Les danses et la musique sont excellents et forment de bons intermèdes qui répandent un


peu d'agrément dans les deux théâtres de la ville de Lisbonne, où on donne de fort bons opéras Italiens, outre celui du Roi qui est le mieux composé de l'Europe.

Les Portugais sont d'ailleurs peu comunicatifs et il y a entr'eux fort peu de société, surtout à Lisbonne. Le gouvernement, devenu soupçonneux depouis l'affreux complot contre le Roi, a défendu toute assemblée, ce qui s?accorde à merveille avec l'extrème jalousie de la nation. Ainsi la ville de Lisbonne ets sans divertissemens. Il y a quelques bals qui sont plus pour l?amusement des étrangers que des nationaux.

La danse nationale se nomme la Foffa. Elle se danse deux à deux comme la danse Espagnole nommé le Fandango, au son d'une mauvaise guitarre. Les mouvements en sont extrêmement indécens, imitan parfaitement le moment de la jouissance. Le danseur accompagne ordinairement sa gesticulation d?obscénités et des mots lubriques qui divertissent la compagnie.


“Les Portugais n’ont point un thèâtre national, don’t on puisse s’honorer aux yeux des autres nations, les acteurs y sont méprisés, quoiqu’on ne leur refuse ni les sacrements, ni la sépulture, parcequ’ils sont ignorants et d’une basse extraction. Ils ne savent point déclamer, leur ton est chantant, et pourtant monotone. L'Opéra Italien 'a été nulle part joué et chanté aussi bien. Les décorations sont superbes, et les musiciens les meilleurs d'Italie. Au théâtre du Roy c'étaient des Castrati, au théâtre national des hommes et des femmes, mais maintenant aussi des Castrati. En général, on cultive beaucoup et avec grand succès la musique en Portugal. On a d'excellents compositeurs, une bonne méthode et de très belles voix. Les Modinhas charment non seulement les nationaux, mais aussi les étrangers”.

“Il y a beaucoup de société et très franche parmi les habitans. Les étrangers sont encore peu réçus dans l'intérieur. Les moeurs sont beaucoup plus décentes que je ne les ai vû nulle part. Il y a des intrigues galantes comme dans tout pays, mais l'ombre du mystère doit les couvrir, sans quoi la femme est déshonorée. Il ya beaucoup de décence dans la conversation, tout propos leste ferait qu'on 'y serait plus admis”

“Ce 'est que le peuple qui danse la Fofa, ou la Chula. Elle 'est pas accompagné de chansons obscènes, car nous 'en avons pas une. Les mouvements sont lubriques, mais ils 'imittent pas parfaitement le mouvement de la jouissance. Elle est cependant indécente, aussi aucune femme honnête ne se permet de la voir danser”. 

 

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Dumouriez, Etat présent du royaume de Portugal en l'année 1766, Lausanne, François Grasset, 1775,


O espectáculo português é ainda pior e de pior género que o espanhol; só têm trabalhado o burlesco, mais ou menos como as pantalonadas italianas, mas com menos sal e muito de baixo-cómico: não têm nem a multiplicidade nem o belo fundo de peças tais como as de Lope de Vega, Calderón, Moreto etc.; nenhum bom escritor trabalhou para o teatro, excepto Camões que deu uma boa tradução de Anfitrião, que nunca se representa, e um chamado Ferreira, que fez uma tragédia muito boa da Inês de Castro, ao gosto grego. Presentemente, traduz-se teatro francês e italiano, mas o gosto do país e a dureza da língua estragam muito estas obras. Os actores são maus, mas bem vestidos; as danças e a Música são excelentes, e dão lugar a bons entremezes que espalham um


 pouco de agrado nos dois teatros da cidade de Lisboa, onde se apresentam muito boas óperas italianas, para lá da Ópera Real, que tem o melhor elenco da Europa.

Os portugueses são, de resto, pouco comunicativos, e há entre eles muito pouco convívio, sobretudo em Lisboa. O Governo, que passou a estar cheio de suspeitas desde a horrível conspiração contra o Rei, proibiu todas as assembleias, o que se ajusta às mil maravilhas aos ciúmes extremos desta nação; e assim a cidade de Lisboa está sem divertimentos. Há alguns bailes, que são mais para entretenimento dos estrangeiros que dos nacionais.

A dança nacional chama-se fofa. Dança-se dois a dois, como a dança espanhola chamada fandango, ao som de uma má guitarra. Os seus movimentos são extremamente indecentes, imitando perfeitamente o momento do gozo. O bailarino acompanha em geral a gesticulação com obscenidades e palavras lúbricas que divertem a assistência.


“Os portugueses não têm um Teatro nacional de que se possam orgulhar aos olhos das outras nações; os actores são aqui desprezados, apesar de não lhes serem recusados os sacramentos ou a sepultura, visto serem ignorantes e de baixa extracção. A Ópera italiana em nenhuma outra parte é tão bem representada e cantada. Os cenários são soberbos e os músicos os melhores de Itália. No Teatro Real havia castrados, e no Teatro nacional homens e mulheres, mas hoje em dia há também castrados. Em geral, cultiva-se muito, e com grande sucesso, a Música em Portugal. Há excelentes compositores, um bom método e vozes muito belas. As modinhas deliciam não só os nacionais mas também os estrangeiros”.


Há muito convivívio - e muito franco - entre os habitantes. Os estrangeiros são ainda pouco recebidos na intimidade. Os costumes são muito mais decentes do que os que vi em qualquer outra parte. Há intrigas galantes, como em qualquer outro país, mas têm de ser cobertas pela sombra do mistério, sem o que a mulher fica desonrada. Há muita decência na conversação, e qualquer propósito mais inconveniente faria com que o seu autor não voltasse a ser nela admitido”.


"Só o povo é que dança a fofa ou a chula. Esta não é acompanhada de canções obscenas, porque não as temos. Os seus movimentos são lúbricos, mas não imitam perfeitamente o movimento do gozo. É, contudo, indecente, pelo que nenhuma mulher séria se permitiria vê-la dançar.”