Sumário
Colectânea manuscrita de peças de teatro oferecidas à Academia Real das Ciências (O fanático, D. Maria Teles, Jesualdo, Martim Vaz de Bulhões, Ifigénia e Orestes)
Ano
1787
Biblioteca/Arquivo
Academia de Ciências de Lisboa
Cota
Manuscrito Azul 232
Comentário
Os dois manuscritos da tragédia Maria Teles apresentam diferenças textuais entre si. O segundo, não datado, coincide com o da Torre do Tombo e com o do impresso de 1804.

 Colecção de peças de teatro oferecidas à Academia Real das Ciências

 

 


 

O fanático, comédia portuguesa.

 


 

O fanático, comédia portuguesa.

 

Pessoas:

Farfúcio, velho fanático

Saltrino, seu filho

Natércia, sua filha

Roberto, compadre de Farfúcio

Peselino, amante de Natércia

Crespim, seu amigo hospedado

Um criado de libré

 

A cena é numa sala de Farfúcio, mostrando ser a primeira.

 


 

D. Maria Teles, tragédia em três actos. Em 1787

 


 

Ilustríssimo e Excelentíssimo senhor,

 

Aquela incomparável benignidade com que vossa excelência me tem enobrecido, ouvindo-me e atendendo-me todas as vezes que tenho a honra de aparecer na sua respeitável presença, é quem me animou a participar-lhe que havia empreendido a presente tragédia, suplicando-lhe ao mesmo tempo se dignasse de ser o seu verdadeiro censor. Condescendeu vossa excelência com uma tão humilde súplica e esta

 


 mesma benigna condescendência logo me elevou a um tão sublime grau de glória, que até agora não descobri palavras com que dignamente a possa expressar, tal é a bondade de vossa excelência e quanto é favorável à minha ventura.

Sendo o amor da própria felicidade a paixão mais dominante no homem, como seria possível que eu praticasse nem a mais leve omissão ou negligência na conclusão de uma obra que desde que foi participada a vossa excelência cada vez mais faz transbordar o meu coração das mais doces esperanças? Não, ilustríssimo e excelentíssimo senhor. Não

 


 

se divisou em mim, nem ainda a mais leve frouxidão ou descuido. Eu a concluí com uma brevidade incrível. Esta se deve ao poderoso influxo de vossa excelência, e ao seu autor os inumeráveis defeitos que a mancham.

Mas quem, como vossa excelência, os poderá corrigir? Respeito e respeitarei sempre com a maior admiração a judiciosa crítica de vossa excelência; e suposto que eu preze inexplicavelmente os seus preciosos louvores, a estes não é que eu aspiro agora; aspiro, sim, a uma rigorosa censura que, expurgando esta imperfeita

 


 

obra de tantas manchas que a desfiguram, a constitua digna do prémio prometido pela Real Academia das Ciências, Artes e Belas-Letras de Lisboa, de que vossa excelência é digníssimo fundador. Não, ilustríssimo e excelentíssimo senhor, não sou eu quem fala; fala em mim a mais perfeita sinceridade. Eu me ponho em paralelo com aqueles aprendizes pintores que, desejosos de se adiantarem, entregam à correcção dos seus mestres os seus imperfeitos debuxos. Com o mesmo pensamento ponho nas ilustres mãos de vossa excelência esta defeituosa composição.

Oh! E que largo campo me abre o

 


 

alto merecimento de vossa excelência e as muitas preciosas obrigações em que me tem constituído! Mas devo eu consentir que esta breve fala passe de humilde e atenciosa a ser atrevida e enfadonha? Longe, longe de mim um tão criminável abuso da bondade de vossa excelência. Eu já concluo fazendo a vossa excelência a mesma súplica que Fedro fez em outro tempo, servindo-me das suas próprias palavras:

Induxite ad legendum,  sincerum mihi candore noto reddas judicium peto.

Entre os felizes criados de vossa excelência sou, com o mais profundo respeito.

De vossa excelência o mais grato, apaixonado e obediente.

 

Luís Correa de França e Amaral

 


 

Discurso sobre a presente tragédia

 

De grande e indesculpável temeridade parece que, justamente, deve ser arguido todo aquele escritor que, sem um suficiente fundo de engenho, arte e saber, se arroja a composições literárias muito superiores às suas forças. Mas às vezes tais factos se encontra na História que, enchendo de um gostoso assombro aos leitores, de tal sorte pelas suas ponderáveis circunstâncias, os interessam e encantam que ainda durante a sua mesma

 


 

leitura, já se consideram obrigados a escrever sobre eles.

Nesta mesma situação me vi quando empreguei os olhos na funesta narração da desastrada morte da inocente D. Maria Teles, pois não me contentando com a mais séria ponderação das interessantes circunstâncias que a acompanham, logo me propus horrorizá-la, quanto me fosse possível na presente tragédia, extraindo o seu plano ou argumento da Crónica de El Rei D. Fernando, reformada pelo desembargador Duarte Nunes de Leão. Resta agora averiguar se esta obra se conforma com as leis e regras do

 


 

 trágico teatro.

Na evidente certeza de que a acção que elegi é rigorosamente trágica, e se reveste de todas as circunstâncias precisas para sobre a mesma se poder formar uma perfeita tragédia, ingenuamente confesso que ainda não havia metido mãos ao trabalho, já me via combatido por uma difículdade que à primeira vista me pareceu invencível. Se a conjuração contra D. Maria Teles (dizia eu) foi formada nesta corte em o palácio de el rei D. Fernando, ao Limoeiro, e a mesma D. Maria foi morta em Coimbra,

 


como poderei, em cumprimento do preceito de Boileau, guardar a unidade de lugar que ele tanto recomenda? *

Diversos pareceres encontrei sobre a dissolução desta dúvida: uns me diziam que podia figurar tudo maquinado e acontecido em Lisboa; outros que sendo aqui mesmo a cena, nesta podia introduzir alguma mutação, fazendo aparecer D. Maria Teles no seu palácio de Coimbra. Nem um nem outro parecer abracei: não o primeiro, porque sendo repugnante a verdade da história, que fielmente sigo, constituiria o sucesso mentiroso e inacreditável; menos  

 

* Qu'en un lieu, qu'en un jour un seul fait accompli tienne jusqu'a la fin le théâtre rempli.

                                            Arte Poética, canto 3

 


o segundo, por destruir as duas unidades de lugar e tempo, que exactamente se devem observar no poema trágico; e, enfim, porque tanto um como outro me obrigaria a ensanguentar o teatro, fazendo morrer nele a infeliz D. Maria Teles, em uma situação cujo escândalo e descompostura, segundo a história, ofenderia gravemente os olhos dos espectadores. Sendo certo que nunca se deve ensanguentar o teatro, como com o maior crítico de Roma * nos ensinam todos aqueles que trataram dos preceitos trágicos e magistralmente o mostrou o meu nunca assaz louvado sócio

 

* Nec pueros coram populo Medéa trucidet, aut humana palam coquat exta nefarius Atreus.

                                     Horatio, Arte Poética, verso 185

 


 

Pedro António Garção, naquela erudita dissertação que lhe ouvi recitar na Arcádia de Lisboa, no dia 26 de Agosto de 1757.

Agora acabo de conhecer o motivo porque nem no século de 500, em que floresceram tantos famosos poetas, nem até ò presente, se animou alguém a tratar em uma tragédia semelhante acção. O nosso desembargador António Ferreira preferiu-lhe a morte de D. Inês de Castro. Eu, porém (protesto que sem a menor vaidade), condoendo-me daquela inocente, morta pelas próprias mãos do seu mesmo marido, empreendi, apesar da desproporção das minhas forças, lamentar

 


 

em metro trágico a sua nunca assaz lamentada desgraça; e se o amor-próprio não me engana, creio haver vencido aquela dificuldade antecipando seis dias a conjuração e a partida do Infante para Coimbra, em ordem a que no mesmo dia da cena pudesse chegar, como chegou, ao teatro a notícia da catástrofe. Assim se lê na 2.ª cena do 1.º acto, versos 81, 82 e 83:

«Partiu mais ligeiro que uma seta

e havendo já seis dias decorrido,

nem tornou, nem achei dele notícia».

Pelo que respeita à catástrofe, esta se

 


vê fielmente e com o possível horror, narrada por Felício, o mais fiel criado de D. Maria Teles, nas falas que faz, principalmente nas cenas 7ª e 8ª do 3º acto.

Persuado-me de que toda a pessoa que sem paixão ler a última fala da 6ª cena e a primeira da 7ª do 3º acto, ou queira ou não queira, ali há de logo reconhecer uma perfeitíssima peripécia ou súbita mudança de fortuna para um infeliz estado, pois quando a infante D. Beatriz mais se desvanece, considerando-se já coroada rainha de Portugal,

 

 


então repentinamente a interrompe Felício, pintando aos seus olhos com as mais horríveis cores a injusta morte da sua desgraçada tia; morte que, por ser praticada por seu respeito, ainda a enche de muito maior terror e confusão. Eis aqui já fielmente cumprido o primeiro e o principal preceito da tragédia, consistente na opinião de todos, em mover a terror e a compaixão.

Não menos vivo persuadido de que não haverá pessoa instruída nos preceitos trágicos que examinando o verdadeiro carácter do protagonista ou

 


principal personagem desta tragédia deixe de reconhecer e confessar que nela se encontram verificadas todas as cinco condições requeridas por Castelvetro, Ricoboni, Donato e outros muitos críticos que trataram dos preceitos da tragédia.

Mas que nova, que rigorosa acusação já sinto recair sobre mim: «Que é isto?» (clamarão muitos) «Temos tragédia de nova invenção? Temos um novo monstro poético?». Sendo D. Maria Teles a principal personagem, nem morta, nem viva, aparece em parte alguma da cena.

   


Semelhante erro é indesculpável e destrói toda a beleza do drama. Desta acusação, aparentemente grave, eu com bem facilidade já me vou defender: não se encontra lei alguma que indispensavelmente obrigue o poeta a que faça aparecer no teatro a dita principal personagem, e muito menos quando, como no presente caso, se constitui impossível a sua aparição; que esta seja impossível bem se manifesta do que já a este respeito deixo ponderado, porque se tudo aqui se figurasse, ficaria ofendida a

 


verdade da história que faz o fundamento desta obra, e se houvesse mutação de cena, fazendo-se aparecer D. Maria Teles no seu palácio de Coimbra, aonde foi morta, além de se faltar à unidade do lugar e ao mesmo verosímil, o descomposto estado em que o infante a matou escandalizaria, como já disse, gravemente aos espectadores e, por consequência, viria a ensaguentar-se o teatro.

Não há dúvida que é incontroverso axioma da jurisprudência da recta razão que geralmente falando se deve evitar todos os absurdos, mas esta

 

 


mesma regra geral se limita quando se intenta evitar outro ou outros maiores absurdos. Ora suponhamos (o que mil vezes se nega) que é um absurdo não fazer aparecer D. Maria Teles no teatro, e quantos mais e muito maiores absurdos resultarião da sua aparição? Não se guardaria o verosímil nem a unidade do lugar e a sua visível morte escandalizaria gravemente os olhos dos espectadores, deixando ensanguentado o teatro. Pese-se tudo isto na balança da razão, que estou certo em que se não há de julgar que pequei contra as leis do poema trágico, antes pelo contrário que, valendo-me do legítimo meio da

 

 


narração, obviei os ponderados absurdos, guardando fielmente por toda a parte o decoro e o verosímil.

Também se poderá reparar em que não em cinco actos mas em três formei esta tragédia. A este reparo satisfarei respondendo que não serei eu o primeiro que tenha escrito tragédias em menos de cinco actos. No século de 500, naquele iluminado século, o nosso famoso Diogo Teive, em quatro actos em um latim digno do século de Augusto, escreveu a belíssima tragédia que intitulou Joannes Princeps, sive unicum regni ereptum lumen.

 

 


Das escritas em três actos são inumeráveis os exemplos, como também das que não têm coros.

Em uma palavra, se eu guardei o verosímil e o decoro e consegui mover os espectadores a terror e a compaixão, certamente desempenhei o primário fim do poema que empreendi. Mas eu, como juiz suspeito, não devo julgar esta causa, a outros muito maiores talentos encarrego a sua decisão, esperando da sua benignidade a desculpa dos meus defeitos.

 


 

Pessoas:

A rainha D. Leonor, mulher de el rei D. Fernando

A infanta D. Beatriz, sua filha

O conde D. João Afonso Telo, irmão da rainha

Diogo Afonso de Figueiredo, vedor do infante D. João

Garcia Afonso do Sobrado, comendador de Elvas

Felício, o mais fiel criado de D. Maria Teles, irmã da

            rainha e mulher do infante D. João

 

A cena é em Lisboa, no palácio de el rei D. Fernando, ao Limoeiro.

 


D. Maria Teles, tragédia em três actos.  

 

Nil conseire sibi, nulla palescere culpa.

Horatio, Libre 1, epistola 1., v. 61

 


 

Discurso sobre a presente tragédia

 

De grande e indesculpável temeridade deve ser arguido todo aquele escritor que, sem o suficiente fundo de engenho, arte e saber, se arroja a composições literárias muito superiores às suas forças. Mas às vezes tais factos se encontram na História que, enchendo de admiração aos leitores, de tal sorte pelas suas ponderáveis circunstâncias, os interessam e encantam que ainda durante a sua mesma leitura, já se consideram obrigados a escrever sobre eles.

Nesta mesma situação me vi quando empreguei os olhos na funesta narração da desastrada morte da inocente D. Maria Teles, pois, não me contentando com a mais séria ponderação das interessantes circunstâncias

 


 

que a acompanham, logo me propus horrorizá-la o mais que me fosse possível na presente tragédia, cujo plano ou argumento extrai da Crónica d'El Rei D. Fernando, reformada pelo desembargador Duarte Nunes de Leão. Resta agora averiguar se esta obra se conforma com as leis e regras do trágico teatro.

Na evidente certeza de que a acção que elegi é rigorosamente trágica, e revestida de todas as circunstâncias precisas para sobre a mesma se poder formar uma perfeita tragédia, ingenuamente confesso que ainda não havia metido mãos ao trabalho, já me via combatido por uma difículdade que à primeira vista me pareceu invencível. Se a conjuração contra D. Maria Teles (dizia eu) foi formada nesta corte  no palácio d'el rei D. Fernando, ao Limoeiro, e a mesma foi morta em Coimbra, como poderei eu guardar as unidades de lugar e tempo que tanto recomenda Boileau.* Diversos pareceres encontrei na dissolução desta dúvida: uns me diziam que podia figurar tudo maquinado e acontecido em Lisboa; outros que sendo

 

* Qu'en un lieu, qu'en un jour un seul fait accompli tienne jusqu'a la fin le théâtre rempli.

                                            Arte Poética, canto 3

 


 

aqui mesmo a cena, nesta podia introduzir alguma mutação, fazendo aparecer D. Maria Teles no seu palácio de Coimbra. Nem um nem outro parecer abracei: não o primeiro, porque sendo repugnante a verdade da história, que fielmente sigo, constituiria o sucesso mentiroso e inacreditável; menos o segundo, por destruir as duas unidades, lugar e tempo, que exactamente se devem observar no poema trágico; e, enfim, porque tanto um como outro me obrigaria a ensanguentar o teatro, fazendo morrer nele a infeliz D. Maria Teles, em uma situação cujo escândalo e descompostura, segundo a história, ofenderiam gravemente os olhos dos espectadores. Sendo certo que nunca se deve ensanguentar o teatro, como com o maior crítico de Roma* nos ensinam todos aqueles que trataram dos preceitos trágicos e magistralmente o mostrou meu nunca assaz louvado sócio Pedro António Garção, naquela erudita dissertação que lhe ouvi recitar na Arcádia de Lisboa, no dia 26 de Agosto de 1757.

Agora acabo de conhecer o motivo porque nem no século de quinhentos, em que floresceram tantos famosos poetas, nem até ò presente, se animou alguém a tratar em uma tragédia semelhante acção. O nosso desembargador António Ferreira preferiu-lhe a morte de D. Inês de Castro. Eu, porém (protesto que

 

* Nec pueros coram populo Medéa trucidet, aut humana palam coquat exta nefarius Atreus.

                                     Horatio, Poética

 


 

sem a menor vaidade), condoendo-me daquela inocente, morta pelas próprias mãos de seu mesmo marido, empreendi, apesar da desproporção de minhas forças, lamentar em metro trágico a sua nunca assaz lamentada desgraça; e se o amor-próprio não me engana, creio haver vencido aquela dificuldade antecipando seis dias a conjuração e a partida do Infante para Coimbra, em ordem a que no mesmo dia da cena pudesse chegar, como chegou, ao teatro a notícia da catástrofe. Assim se lê nos versos 81, 82 e 83 da segunda cena do 1.º acto:

«Partiu mais ligeiro que uma seta

e havendo já seis dias decorrido,

nem tornou, nem achei dele notícia».

Pelo que respeita à catástrofe, esta se vê fielmente e com o possível horror, narrada por Felício, o mais fiel criado de D. Maria Teles, nas falas que faz, principalmente nas cenas 7ª e 8ª do 3º acto.

Persuado-me de que toda a pessoa que ler sem paixão  a última fala da 6ª cena e as de Felício desde o princípio da 7.ª athé ao fim da 8.ª cena do 3º acto, ou queira ou não queira, ali há de logo reconhecer uma perfeitíssima peripécia ou súbita mudança de fortuna para um

 


 

infeliz estado, pois quando a infante D. Beatriz mais se desvanece, considerando-se já rainha de Portugal, então repentinamente a interrompe Felício, pintando aos seus olhos com as mais horríveis cores a injusta morte da sua desgraçada tia; morte que, por ser praticada por seu respeito, a encherá de muito maior terror e confusão. E eis aqui já fielmente cumprido o primeiro e o mais recomendavel preceito da tragédia, que na opinião de todos, consiste em mover o terror e a compaixão.

Não menos vivo vivo persuadido de que não haverá pessoa instruída nos preceitos trágicos que examinando o verdadeiro carácter do protagonista ou principal personagem desta tragédia deixe de reconhecer e confessar que nela se encontram verificadas todas as cinco condições essencialmente requeridas por Castelvetro, Ricoboni, Donato e outros muitos críticos que trataram dos preceitos da tragédia.

Mas que nova, que rigorosa acusação já sinto recair sobre mim: «Que é isto?» (clamarão muitos) «Temos tragédia de nova invenção? Temos um novo monstro poético?». Sendo D. Maria Teles a principal personagem, nem viva, nem morta, aparece em parte alguma da cena.

 


 

Semelhante erro é indesculpável e destrói toda a beleza do drama. Desta acusação, aparentemente grave, eu com facilidade me vou já defender: não se encontra lei alguma que indispensavelmente obrigue o poeta a que faça aparecer no teatro a dita personagem principal, e muito menos quando, como no presente caso, se constitui impossível a sua aparição; que esta seja impossível bem se manifesta à vista do que já a este respeito deixo ponderado, porque se tudo aqui se figurasse, ficaria ofendida a verdade da história que faz o fundo desta obra. Se houvesse mutação de cena, fazendo-se aparecer D. Maria Teles no seu palácio de Coimbra, onde foi morta, além de se faltar à unidade do lugar e ao mesmo verosímil, o descomposto estado em que o infante a matou escandalizaria, como já disse, gravemente os espectadores e, por consequência, viria a ensaguentar-se o teatro.

Não há dúvida que é axioma da jurisprudência e da mesma recta razão que geralmente falando se devem evitar todos os absurdos, mas esta mesma regra geral se limita quando se intenta evitar outro ou outros maiores absurdos. Ora suponhamos (o que mil vezes se nega) que é um absurdo não fazer aparecer no teatro D. Maria,

 


 

Teles e quantos mais e muito maiores resultarião da sua aparição? Não se guardaria o verosímil nem o decoro nem a unidade do lugar e a sua visível morte escandalizaria gravemente os olhos dos espectadores, deixando ensanguentado o teatro. Pese-se tudo isto na balança da razão, que estou certo em que se não há de julgar que pequei contra as leis do poema trágico, antes pelo contrário que, valendo-me do meio legítimo da narração, obviei os ponderados absurdos, guardando por toda a parte o decoro e o verissimo.

Também se poderá reparar que não em cinco actos mas em três formei esta tragédia. A este reparo satisfarei respondendo que não serei eu o primeiro que haja escrito tragédias em menos de cinco actos. No século de quinhentos, naquele iluminado século, o nosso famoso Diogo Teive, em um latim digno do império de Augusto, escreveu em quatro actos a belíssima tragédia intitulada Joannes Princeps, sive unicum regni ereptum lumen.

Das escritas em três actos são inumeráveis os exemplos, como também das que não têm coros.

Em uma palavra, se eu guardei o verosímil e o decoro e consegui mover os espectadores

 


 

a terror e compaixão, certamente desempenhei o primário fim do poema que empreendi. Mas eu, como juiz suspeito, não devo julgar esta causa. A outros muito maiores talentos encarrego a sua decisão, esperando da sua benignidade a desculpa de meus defeitos.

 


 

Pessoas:

A rainha D. Leonor, mulher d'el rei D. Fernando

A infante D. Beatriz, sua filha

O conde D. João Afonso Telo, irmão da rainha

Diogo Afonso de Figueiredo, vedor do infante D. João

Garcia Afonso do Sobrado, comendador de Elvas

Felício, o mais fiel criado de D. Maria Teles, irmã da

            rainha e mulher do infante D. João

 

A cena é em Lisboa, no palácio d'el rei Dom Fernando, ao Limoeiro.

 


 

Jesualdo

Tragédia composta em versos portugueses por...

 

B.

 


 

Pessoas:

 

Romoaldo, princípe da Lombardia

Jesualdo, seu amigo

Constante, imperador grego

Calcídia, esposa de Jesualdo

Abidega, irmã de Calcídia

Onório, Pavilon, chefes da Lombardia

Arsarce, confidente de Constante

Krai, capitão grego

Epigale, filho de Jesualdo e de Calcídia

Um menino, filho dos ditos.

Soldados lombardos

Soldados gregos.

 


 

Martim Vaz de Bulhões.

Tragédia.

 


 

Martim Vaz de Bulhões, tragédia.

 

Interlocutores:

 

Martim Vaz de Bulhões

Teresa, sua mulher

António, seu filho, frade menor

Jacinta, sobrinha de Martim

Luís, sobrinho de Teresa

Capitão e soldados

 


 

Ifigénia, tragédia.

 


 

Para concorrer ao prémio proposto por esta sábia Academia, se oferece à censura a tragédia de Ifigénia, o mais custoso de todos os assuntos trágicos pela dificuldade da solução em que os antigos empregaram sempre o uso das máquinas que raramente são admitidas na construção do poema dramático, sem ferirem a verosimilhança. É notória a destreza com que Racine tratou este assunto, sem recorrer a um género de maravilhoso tão difícil na poesia dramática. Mas o autor deste poema, aproveitando-se da comodidade que lhe oferecia a imensa distância do tempo em que sucedeu um acontecimento tão decantado nos mais famosos escritos da antiguidade, favorecido, além disso, de circunstâncias indicadas em alguns dos mesmos escritos, deu a este argumento uma estrutura toda nova, cheia de situações que não sendo muito vulgares não deixarão de ser bem deduzidas e interessantes por nela resplandecer a moral, a mais pura e benéfica, em contraposição de vícios, os mais detestáveis.

 


 

O autor desta obra parece que deve incorrer na censura de temerário no juízo dos precedentes por se atrever a consigná-la à aprovação desta sábia Academia, depois de ser voz constante, fundada em factos, que a única e singularíssima palma concedida a Ósmia, há cinco anos, exclui todo o género de merecimento que aspire a um semelhante triunfo, em consideração à grandeza de quem quer que foi o seu autor, que dizem ser uma personagem da primeira nobreza de Portugal. Mas o autor de Ifigénia, julgando esta murmuração mera calúnia da inveja e dos versificadores a quem a severidade deste sábio corpo tem negado a glória de uma coroa que não devendo jamais ser prostituida à mediocridade, sempre deve estar pronta para animar os vôos do génio; não duvidou arriscar-se e confiar na justiça desta esclarecida sociedade, e com razão, porque não é crível que um corpo tão iluminado houvesse de usar de um género de tirania tão alheia das luzes da filosofia, que afirma, que ensina, que publica, que

 


grava mesmo nos corações mais rebeldes a razão que a natureza, na distribuição dos talentos, não cogita, nem atende a qualidades que todo o nascimento lhe é indiferente; e a experiência de todos os séculos mostra que o berço do génio raramente deixou de existir debaixo do tecto humilde da pobreza e ainda mesmo da indigência.

Nem o autor se atreveria a pensar que este respeitável corpo seria capaz da mesma fraqueza em que caiu com descrédito notório a Academia francesa no tempo do cardeal Richelieu, cuja ambição literária o fez aspirar à glória de árbitro do génio, assim como já o era da política, e induziu aquele respeitável corpo, não só a não atender como devia ao merecimento do grande Corneille, na poesia trágica, mas até mesmo a perseguir com censuras, as mais injustas e parciais, a sua imortal tragédia do Cid, a quem a posteridade coroou com o justo apreço que merecia um tão admirável poema; no que se viu claramente que o bom gosto nem sempre é determinado pelas Academias.

 


 

Se este poema, pois, não merecer a aprovação do sábio Liceu português, espera o seu autor que lhe sejam declarados os motivos que o excluíram da palma, para se corrigir e proceder com mais circunspecção na composição dos seus dramas, ou para responder com respeito e cortesia digna das letras e das luzes deste século.

A tragédia e a epopeia são obras de tão dificultosa execução que basta tentá-las para não merecer desprezo. E nem sempre acontece que um autor a que se recusa uma palma académica seja privado de génio e falto dos conhecimentos da prática e teórica consignados nos mais célebres escritos dos antigos e dos modernos, onde se acha determiando e estabelecido o bom gosto nas artes imitativas e em todo o género de eloquência; nem que o estudo do coração humano, do idioma, do mecanismo métrico e de outras circunstâncias necessárias para conseguir a perfeição neste género seja absolutamente excluído do plano das suas aplicações. E pode também suceder que seja

 


 

dotado de uma resolução filosófica que chegue a tal ponto que por se instruir não recuse publicar-se e com a devida decência, cheia da maior circunspecção, possa intentar uma discussão literária e útil; e até mesmo não recuse confessar-se, capacitado e vencido, tudo para aumentar a soma dos seus conhecimentos e entrar na verdadeira inteligência das leis do bom gosto, que o devem dirigir num género de aplicação tão útil como sublime.

 


 

Calcante

Agaménon

Clitemnestra

Ifigénia

Aquiles

Nestor

Ulisses

Diomedes

Ajáx

Sinon

Um soldado

 

A cena representa um vasto acampamento, junto ao mar nas praias de Aulide.

 


 

O autor deste poema que, conhecendo a mediania das suas luzes e a curta esfera dos seus talentos, jamais pretendeu elevar-se à dignidade de escritor público compôs esta tragédia sem a menor tenção de a submeter da mais iluminada e respeitável academia, que se tem visto em Portugal, e por isso a não pode castigar como desejava nem deu razão do que imitou do Orestes de Voltere no príncipio do primeiro acto e da famosa cena da urna na Electra de Sófocles, assim como dos obstáculos que encontrou no estilo, por ainda não ter a eloquência portuguesa consagrado à tragédia uma elocução própria do seu género, assim como os antigos gregos e, depois deles, os franceses. Se ele tiver a honra de ver coroada esta composição, promete oferecer às judiciosas decisões deste sapientíssimo corpo mais produções da mesma qualidade, compostas com toda a exacção possível às suas forças. Elevado do amor da pátria e do vivo desejo de ver entre nós aperfeiçoado um género tão sublime e o mais útil de todos os da poesia, para que venha a merecer dos nacionais a mesma consideração que lhe consagram as nações cultas, o autor se compromete voluntariamente a sujeitar à respeitável censura desta sábia academia em preliminar exposição os seus pensamentos a respeito da elocução trágica portuguesa, que por falta de escritor se não

 


acha determinada, para que deste modo se possa talvez suscitar a ideia de aplanar as dificuldades, que depois da estrutura essencial da fábula se encontra na composição trágica e conseguir um fim tão útil e glorioso à nação, que com bem fundados motivos, além das luzes que já tem recebido, espera ver-se ilustrada com as sublimes especulações desta tão sábia como acreditada sociedade, a quem o autor deste poema consagra a maior veneração e os mais obsequiosos respeitos.

 

ORESTES

 


 

Personagens

 

Orestes

Electra

Clitemnestra

Ismene

Egisto

Fanor

Guardas

 

A cena é no átrio, e parte do templo de Júpiter ou de Esculápio, junto à praia do mar.

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Peças de Theatro offerecidas

                a

Academia Real das Sciencias

 

 


 

O Fanatico

Comedia Portugueza.

 

 


 

O Fanatico.

Comedia Portugueza.

Pessoas.

Farfucio, velho fanatico,      Roberto, compadre de Farfucio

Saltrino, seu filho                 Peselino, amante de Natercia

Natercia, sua filha               Crespim, seu amigo hospedado

                         Hum criado de libré

 

A Scena he n'huma Salla de Farfucio

        mostrando ser a primeira.

 


 

D Maria Telles.

Tragedia.

Em tres Actos    Em 1787.

 


 

Ill.mo e Ex.mo Senhor

 

Aquella incomparavel benignid.e

com q. V. Ex.ª me tem enobrecido, ou-

vindo-me e atendendo-me todas as vezes

q. tenho a honra de aparecer na sua res-

peitavel prezença, he q.m me animou a

participar-lhe q. havia cmprehendido

a prezente Tragedia, Supplicando-lhe

ao mesmo tempo se dignasse de ser o seu

verdadeiro Censor. Condescendeo V. Ex.ª

com huma tão humilde supplica, e esta

                                      mesma

 

 


mesma benigna condescendencia logo

me elevou a hum tão sublime grau

de gloria, q. até agora não descubri pa-

lavras com q. dignamente a possa ex-

pressar. Tal he a bondade de V. Ex.ª

e quanto he favoravel á minha Ven-

tura!

 

Sendo o amor da propria felicidade

a paixão mais dominante no homem,

como seria possivel q. eu praticasse, nem

a mais leve omissaó, ou negligencia, na

concluzão de huma Obra, q. desde q. foi

participada a V. Ex.ª; cada vez mais faz

tresbordar o meu coração das mais doces

esperanças? Não, Ill.mo e Ex.mo Snr; não

                                                    se-

 


 

se divizou em mim, nem ainda

a mais leve frouxidaó, ou descui-

do: eu a conclui com huma brevi-

dade incrivel: esta se deve ao pode-

roso influxo de V. Ex.ª, e ao seu Autor

os innumeraveis defeitos q. a manchão.

 

Mas q.m, como V. Ex.ª, os poderá

corrigir? Respeito e respeitarei sempre

com a maior admiração a judicioza

critica de V. Ex.ª; e suposto que eu preze

inexplicavelmente os seus preciozos

Louvores, a estes não he q. eu aspiro

agora, aspiro sim a huma rigoroza

Censura, q. expurgando esta imperfeita

                                           Obra

 

 


 

Obra de tantas manchas q. a desfi-

gurão, a constitua digna do premio

prometido pela Real Academia das

Sciencias, Artes e Belas-Letras de

Lisboa, de q. V. Ex.ª he Dignissimo

Fundador. Não, Ill.mo e Ex.mo Snr:

não sou eu q.m fala; fala em mim

a mais perfeita sinceridade. Eu me-

ponho em parallello com aquelles

Aprendizes Pintores, q. desejozos de se-

adiantarem, entregáo á correção dos

seus Mestres os seus imperfeitos debu-

xos: com o mesmo pensamento ponho

nas illustres maons de V. Ex.ª esta de-

feituosa Compozição.

Oh! e q. Largo Campo me abre o

                                          alto

 


 

alto merecimento de V. Ex.ª e as m.tas

preciozas obrigaçoens, em q. me tem

constituido! Mas devo eu concen-

tir q. esta breve fala passe de humil-

de e atencioza a ser atrevida e enfado-

nha? Longe, Longe de mim hum

táo criminavel abuzo da bondade

de V. Ex.ª. Eu ja concluo fazendo a V.

Ex.ª a mesma supplica q. Fedro fes

em outro tempo, servindo-me das suas

proprias palavras:

Induxite ad legendum; Sincerum mihi

Candore noto reddas judicium peto.

Entre os felices Creados de V. Ex.ª Sou,

com o mais profundo respeito.

De V. Ex.ª

O mais grato, apaixonado e obediente.

 

Luis Correa de França e Amaral

 


Discurso

Sobre a prezente Tragedia.

 

De grande e indisculpavel teme-

ridade parece q. justamente deve

ser arguido todo aquelle Escritor, q.,

sem hum suficiente fundo de Enge-

nho, Arte e Saber, se arroja a Com-

poziçoens Literarias m.to superiores ás

suas forças: mas ás Vezes taes factos se-

encontra na Historia, q., enchendo

de hum gostozo assombro aos Leito-

res, de tal sorte pelas suas pondera-

veis circunstancias os interessão e en-

cantão, q. ainda durante a sua mesma

                                       Leitura

 


Leitura, ja se concideráo obrigados a

escrever sobre elles.

 

Nesta mesma situação me vi quan-

do empreguei os olhos na funesta na-

rração da dezestrada morte da inno-

cente D. Maria Telles; pois não me-

contentando com a mais seria pon-

deração das interessantes circunstancias

q. a acompanhão, logo me propus ho-

rrorizala, quanto me fosse possivel, na

prezente Tragedia: extrahindo o seu

Plano, ou Argumento da Chronica

de El Rey D. Fernando, reformada

pelo Dez.or Duarte Nunes de Leão.

Resta agora averiguar se esta obra

se conforma com as Leys e Regras do

                                           Tragico

 

 


 

Tragico Theatro.

Na evidente certeza de q. a Acção

q. elegi he rigorosamente Tragica,

e se reveste de todas as circunstancias

percizas p.ª sobre a mesma se poder

formar huma perfeita Tragedia in-

genuamente conffeço q. ainda não

havia metido maons ao trabalho, ja

me via combatido por huma difícul-

dade, q. á primeira vista me pareceo

invensivel; Se a conjuração contra

D. Maria Telles (dizia eu) foi for-

mada nesta corte em o Palacio de El

Rey D. Fernando ao Limoeiro, e a mesma

D. Maria foi morta em Coimbra, como

 


 

como poderei, em cumprimento do precei-

to de Boileau, guardar a unidade de

lugar, q. ele tanto recommenda? *

Diversos pareceres encontrei sobre a

dissolução desta duvida: huns me di-

ziáo q. podia figurar tudo maqui-

nado e acontecido em Lisboa: outros

q., sendo aqui mesmo a Scena, nesta

podia introduzir alguma mutaçáo,

fazendo aparecer D. Maria Telles no

seu Palacio de Coimbra. Nem hum

nem outro parecer abracei: náo o primei-

ro, porq. sendo repugnante a verdade da

Historia, q. fielmente sigo, constituiria

o sucesso mentirozo e inacreditavel: menos  

                                                           o

 

* Qu'en un lieu, qu'en un jour un seul fait accompli

tienne jusqu'a la fin le Théâtre Rempli.

                                            Art. Poet. Cant. 3.

 


o segundo, por destruir as duas unidades

de lugar e tempo, q. exactamente se

devem observar no Poema Tragico; e em

fim, porq. tanto hum, como outro, me-

obrigaria a ensanguentar o Théatro, fa-

zendo morrer nélle a infelix D. Maria

Telles, em huma situação, cujo escandalo

e descompostura, segundo a Historia,

offenderia gravemente os olhos dos Es-

pectadores: sendo certo q. nunca se-

deve ensanguentar o Théatro, como com

o maior Critico de Roma * nos ensi-

náo todos aquelles q. trataráo dos pre-

ceitos Tragicos, e magistralmente o mos-

trou o meu nunca asaz louvado socio

                                               Pedro

 

* Nec pueros coram populo Medéa trucidet;

aut humana palam coquat exta nefarius Atreus.

                                     Horat. Art. Poet. V.º 185

 

 


 

Pedro Antonio Garção naquella eru-

dita Dizertação q. lhe ouvi recitar na

Arcadia de Lisboa no dia 26. de

Agosto de 1757.

 

Agora acabo de conhecer o motivo

porq., nem no seculo de 500; em q. flo-

recerão tantos famozos Poetas, nem

até o prezente, se animou alguem a

tractar em huma Tragedia semelhante

Acção. O nosso Dez.or Antonio Ferreira

preferio-lhe a morte de D. Ignéz de

Castro: eu porem (prottesto q. sem a me-

nor vaidade) condoendo-me d'aquella

innocente, morta pelas proprias maons

do seu mesmo marido, imprehendi, apezar

das disporporção das minhas forças, lamentar

                                                            em

 


 

em metro tragico a sua nunca asaz

lamentada disgraça; e, se o amor pro-

prio não me engana, créo haver venci-

do aquella dificuldade anticipando

seis dias a conjuração, e a partida

do Infante p.ª Coimbra, em ordem

a q. no mesmo dia da Scena pode-

sse chegar, como chegou, ao Théa-

tro a notissia da catastrofe: assim

se lé na 2.ª scena do 1.º Acto V.º

81. 82. e 83.

Partio mais ligeiro q. huma seta;

e havendo ja seis dias decurrido,

nem tornou, nem achei delle notissia.

Pelo q. respeita á catastrofe, esta se

                                               vé

 


vé fielmente, e com o possivel horror

narrada por Felicio, o mais fiel crea-

do de D. Maria Telles, nas falas q.

fas, principalmente nas scenas 7.ª

e 8.ª do 3.º Acto.

Persuado me de q. toda a pessoa q.

sem paixão ler a ultima fala da

6.ª scena e a primeira da 7.ª do 3.º Acto,

ou queira, ou não queira, aly ha

de logo reconhecer huma perfeitissi-

ma Peripissia, ou subita mudan-

ça de fortuna p.ª hum infelix esta-

do; pois quando a Infante D. Beatriz

mais se desvanece conciderandosse

ja coroada Raynha de Portugal,

                                    então

 


então repentinamente a interrom

pe Felício pintando aos seus olhos

com as mais horriveis cores a injusta

morte da sua disgraçada Tia: morte,

q. por ser praticada por seu respeito,

ainda a enche de m.to maior terror

e comfuzão. Ex aqui ja fielmente

cumprido o primeiro e o principal

preceito da Tragedia, consistente,

na opinião de todos, em mover a

terror e a compayxão.

Não menos vivo persuadido de q.

não haverá pessoa instruida nos pre-

ceitos tragicos, q., examinando o verda-

deiro caracter do Progonista, ou

                                       principal

 


principal Personagem désta Tra-

gedia, deixe de reconhecer e conffe-

ssar q. nélla se encontrão verifica-

das todas as cinco condiçoens reque-

ridas por Castelvetro, Ricoboni, Do-

nato e outros m.tos criticos q. tratarão

dos preceitos da Tragedia.

Mas q. nova, q. rigoroza acu-

zação ja sinto recahir sobre mim.

Que he isto (clamarão m.tos) Temos

Tragedia de nova invenção? Te-

mos hum novo monstro poetico?

Sendo D. Maria Telles a principal

Personagem, nem morta, nem viva,

aparece em parte alguma da scena.

                                        semelhante

 

 


Semelhante erro he indisculpavel,

e destrôe toda a beleza do Drama.

Désta accuzação, aparentemente

grave, eu com bem facilidade ja

me vou deffender. Não se encon-

tra ley alguma q. indispensavel-

mente obrigue o Poeta a q. faça

aparecer no Théatro a d.ª principal

Personagem; e m.to menos quando,

como no prezente cazo, se consti-

tue impossivel a sua aparição.

Que esta seja impossivel bem

se manifesta do q. ja a este respei-

to deixo ponderado; porq. se tudo aqui

se figurasse, ficaria offendida a

                                      verdade

 

 


verdade da Historia, q. fas o funda-

mento désta obra: e se houvesse mu-

tação de scena, fazendosse aparecer

D. Maria Telles no seu Palacio de

Coimbra, aonde foi morta; alem de

se faltar á unidade do lugar e ao

mesmo verissimil, o descomposto es-

tado em q o Infante a matou, escan-

dalizaria, como ja disse, gravem.te

aos Espectadores e, por consequencia

viria a ensaguentarsse o Théatro.

Não ha duvida q. he incontrover-

so Axioma da Jurisprudencia da

recta razão, q. geralmente falando, se

deve evitar todos os absurdos; mas esta

                                                 mesma

 

 


mesma Regra geral se limita quan-

do se intenta evitar outro, ou outros

maiores absurdos. Ora suponhamos

(o q. mil vezes se nega) q. he hum

absurdo não fazer aparecer D. Ma-

ria Telles no Théatro; e quantos mais, e

m.to maiores absurdos resultarião

da sua aparição? Não se guardaria

o verissimil, nem a unidade do lu-

gar, e a sua vizivel morte escanda-

lizaria gravemente os olhos dos Espe-

ctadores, deixando ensanguentado o

Théatro. Pezesse tudo isto na Balan-

ça da razão, q. estou certo em q. se não

ha de julgar q. pequei contra as leys

do Poema Tragico: antes, pelo contrario,

q., valendo-me do legitimo meio da 

                                              narração

 

 


narração, obviei os ponderados absur-

dos, guardando fielmente por toda a

parte o decoro e o verissimil.

Tambem se poderá reparar em q., não

em cinco Actos, mas em tres, formei

esta Tragedia: a este reparo satisfa-

rei respondendo, q. não serei eu o pri-

meiro q. tenha escrito Tragedias em

menos de cinco Actos. No seculo de

500., naquelle illuminado seculo, o

nosso famozo Diogo Teive em quatro

Actos em hum Latim digno do seculo

de Augusto, escreveo a belissima Trage-

dia q. intitulou = Joannes Princeps,

sive unicum Regni ereptum Lumen. =

                                                 Das

 

 


Das escritas em tres Actos são innu-

meraveis os exemplos, como tambem

das q. não tem Coros.

Em huma palavra, se eu guardei

o verissimil e o decóro, e consegui mo-

ver os Espectadores a terror e a compay-

xão, certamente dezempenhei o pri-

mario fim do Poema q. imprehendi.

Mas eu, como Juiz suspeito, não de-

vo julgar esta cauza; a outros m.tos mai-

ores talentos encarrego a sua deci-

zão, esperando da sua benignida-

de a disculpa dos meus defeitos


Pessoas

 

A Raynha D. Leonor, Mulher

de El Rey D. Fernando.

A Infante D. Beatriz, sua filha.

O Conde D. João Affonço Tello,

Irmão da Raynha.

Diogo Affonço de Figueiredo, vedor

do Infante D. João.

Garcia Affonço do Sobrado, commen-

dador de Elvas.

Felicio, o mais fiel creado de D. Maria

Telles, Irman da Raynha, e mulher

do Infante D. João.

 

A Scena he em Lisboa no Palacio

de El Rey D. Fernando ao Limoeiro.

 

 


D Maria Telles.

Tragedia

Em tres Actos.

 

Nil conseire sibi, nulla palescere

culpâ.

 

Horat. Lib. 1. epist. 1. V. 61.

 


Discurso

Sobre a prezente Tragédia.

 

De grande, e indisculpavel temeridade de-

ve ser arguido todo aquele Escritor, q. sem o

sufficiente fundo de engenho, arte, e saber, se

arroja a composições literárias mt.o superiores

ás suas forças: mas ás vezes taes factos se-

encontrão na Historia, q. enchendo de admi-

ração aos Leitores, de tal sorte, pelas suas

ponderaveis circunstancias, os enteressão, e

encantão, q., ainda durante a sua mesma lec-

tura, ja se conciderão obrigados a escrever so-

bre eles.

 

Nesta mesma situação me vi quando em-

preguei os olhos na funesta narração da de-

sastrada morte da innocente D. Maria Telles;

pois, não me contentando com a mais séria

ponderação das enteressantes circunstancias,

                                                            que

 


 

q. a. acompanhão, logo me propuz horrorisala

o mais q. me. fosse possivel na pres.te Tragédia,

cujo Plano, ou Argumento extrahi da Chro-

nica d'El Rey Dom Fernando, reformada

pelo Des.or Duarte Nunes de Leão. Resta

agora averiguar se esta Obra se conforma

com as Leis, e Regras do Tragico Theatro.

Na evidente certesa de q a Acção, q ele-

gi, hé rigorosamente tragica, e revestida de

todas as circunstancias precisas para so-

bre a mesma se poder formar hua per-

feita Tragédia; ingenuamt.e confesso, q, ain-

da não havia metido mãos ao trabalho, ja

me via combatido por hua diffículdade, q. 

á primeira vista me pareceu invencivel.

Se a conjuração contra D. Maria Telles (di-

sia eu) foi formada nesta corte, no Palacio

d'El Rey Dom Fernando ao Limoeiro, e a

mesma foi morta em Coimbra, como poderei

eu guardar as unidades de lugar e tempo, q.

tanto recommenda Boileau.* Diversos pa-

receres encontrei na dissolução desta duvida.

Huns me disião q. podia figurar tudo maqui-

nado e acontecido em Lisboa: outros, q., sendo

                                                                  aqui

 

* Qu'en un lieu, qu'en un jour un seul fait accompli

tienne jusqua la fin le Theatre rempli.

                                            Art. Poe. Cant. 3.


aqui mesmo a Scena, nesta podia introdusir algu-

ma mutação, fazendo apparecer D. Maria Telles

no seu Palacio de Coimbra. Nem hum, nem outro

parecer abracei: não o primeiro, porq, sendo repug-

nante a verd.e da Historia, q. fielmente sigo;

constituiria o successo mentiroso, e inacreditavel:

Menos o segundo, por destruir as duas unida-

de lugar, e tempo, q. exactam.te se devem observar

no Poema Tragico; e emfim porq. tanto hum, como

outro me obrigaria a ensanguentar o Theatro, fa-

sendo morrer nele a infeliz D. Maria Telles em

hua situação, cujo escandalo, e descompostura,

segundo a Historia, offenderião gravemente os

olhos dos Espectadores. Sendo certo, q. nunca se-

deve ensanguentar o Theatro, como com  o maior

Critico de Roma * nos encinão todos aqueles, q.

tractarão dos preceitos tragicos, e magistralmt.e

o mostrou meu nunca assaz louvado socio 

Pedro Antonio Garção naquella erudita Dis-

sertação, q. lhe ouvi recitar na Arcadia de Lis-

boa no dia 26 de Agosto de 1757.

Agora acabo de conhecer o motivo, porq. nem no

seculo de quinhentos, em q. florecerão tantos famo-

sos Poetas, nem athé o pres.te se animou algue

a tractar em hua Tragedia similhante Acção: o

nosso Des.or Antonio Ferreira preferio lhe a mor-

te de D. Ignes de Castro. eu porem (protesto q.

                                                           sem

 

*Nec pueros coram populo Medéa trucidet;

aut humana palam coquat exta nefarius Atreus.

                                     Horat. Poet.

 


 

sem a menor vaidade) condoendo me daquella in-

nocente, morta pelas proprias mãos de seu mes-

mo marido; emprehendi, apesar da disporporção

de minhas forças, lamentar em metro tragico a

sua nunca assaz lamentada disgraça; e se o a-

mor proprio não me engana, creio haver venci-

do aquella difficuld.e, anti-cipando seis dias a

conjuração, e a partida do Infante p.ª Coimbra,

em ordem a q. no mesmo dia da Scena podesse

chegar, como chegou ao Theatro a noticia da

catastrofe: assim se lê nos versos 81, 82, e

83 da 2.ª scena do 1.º Acto. =

Partio mais ligeiro, que huma setta,

E, havendo ja seis dias decurrido,

Nem tornou, nem achei dele noticia.

 

Pelo q. respeita á Catastrofe: esta se vê fi-

elm.te, e com o possivel horror narrada por Felicio,

o mais fiel criado de D. Maria Telles nas

fallas, q. faz principalmt.e nas scenas 7.ª

e 8.ª do 3.º Acto.

Persuado-me de q. toda a pessoa, q. ler sem

paixão a ultima falla da 6.ª scena, e as de

Felicio desde o principio da 7.ª athé ao fim da

8.ª do 3.º Acto, ou queira, ou não queira,

ali ha de logo reconhecer hua perfeitissima Pe

ripicia, ou subita mudança de fortuna p.ª hum

                                                          infeliz

 


 

infeliz estado; pois qd.o a Infante D. Beatriz mais

se desvanece, conciderando se ja Raynha de

Portugal, então repentinamt.e a interrompe

Felício pintando aos seus olhos com as mais

horriveis côres a injusta morte da sua disgra

çada Tia: morte, q. por ser practicada por seu

respeito, a encherá de mt.o maior terror, e confu

são: E eis aqui ja fielmt.e cumprido o primr.º, e o

mais recomendavel preceito da Tragédia, q, na

opinião de todos, consiste em mover o terror, e 

a compaixão.

Não menos vivo vivo persuadido de q. não ha-

verá pessoa instruida nos preceitos Tragicos, q,

examinando o verdadeiro caracter do Protogonis-

ta, ou principal Personagem desta Tragédia,

deixe de reconhecer, e confessar q. nella se encon-

trão verificadas todas as cinco condições essen-

almt.e requeridas por Castelvetro, Ricoboni,

Donato, e outros mt.os Criticos, q. tractarão dos

preceitos da Tragedia.

Mas q. nova, q. rigorosa accusação ja sinto

recahir sobre mim? Que he isto? (clamarão

muitos) Temos Tragedia de nova invenção? Te-

mos hum novo monstro poetico? Sendo D. Ma

ria Telles a principal Personagem, nem viva,

nem morta apparece em parte algua da scena.

                                        similhante

 


Similhante erro he indisculpavel, e destróe toda

a bellesa do Drama.

Desta accusação, apparentem.te grave, eu com fa-

cilidade me vou ja deffender. Não se encontra

lei algua, q. indispensavelmt.e obrigue o Poeta

a q. faça apparecer no Theatro a d.ª Personagem

principal, e m.to menos quando, como no presente

caso, se constitue impossivel a sua apparição.

Que esta seja impossivel bem se manifesta

á vista do q. ja a este respeito deixo ponderado;

porq. se tudo aqui se figurasse, ficaria of-

fendida a verdade da Historia, q. faz o fundo

desta Obra. Se houvesse mutação de scena,

fazendo se apparecer D. Maria Telles no seu Pa-

lacio de Coimbra, onde foi morta, àlem de se fal-

tar à unidade do lugar, e ao mesmo vero-simil;

o descomposto estado, em q o Infante a matou

escandalisaria, como ja dice, gravem.te os Espec-

tadores, e por consequencia viria a ensaguentar

se o Theatro.

Não ha duvida, q. he Axioma da Juris-pru-

dencia, e da mesma recta rasão, q, geralmente

fallando, se devem evitar todos os absurdos; mas

esta mesma regra geral se limita qd.º se inten-

ta evitar outro, ou outros maiores absurdos. Ora

supponhamos (o q. mil veses se nega) q. hé hum

absurdo não fazer apparecer no Theatro D. Maria

                                                                   Telles

 


 

Telles, e quantos mais, e muito maiores resultarião

da sua apparição? Não se guardaria o vero

simil, nem o decoro, nem a unidade do lugar;

e a sua visivel morte escandalisaria gravem.te

os olhos dos Espectadores, deixando ensanguen-

tado o Theatro. Peze se tudo isto na Balança

da rasão, q. estou certo em q. se não ha de

julgar, q. pequei contra as leis do Poema Trá-

gico; antes pelo contrario, q, valendo me do meio

legitimo da narração, obviei os ponderados ab-

surdos, guardando por toda a p.te o decoro, e o veris-

simo.

Tãobem se poderá reparar, q. não em cinco Ac-

tos, mas em tres formei esta Tragedia. A este

reparo satisfarei, respondendo, q. não serei eu

o primr.º q. haja escrito Tragedias em menos de

cinco Actos. No Seculo de quinhentos, naquele

illuminado seculo o nosso famoso Diogo Teive em

hum Latim digno do imperio de Augusto, escre-

veu em quatro Actos a bellissima Tragédia em-

titulada = Joannes Princeps, sive unicum Regni

ereptum Lumen . Das escritas em tres Actos são

innumeraveis os emplos; como tãobem das q.

não tem Córos.

Em hua palavra, se eu guardei o vero-si

mil, e o decoro, e consegui mover os Espectadores

                                                          a terror

 


 

a terror, e a compaixão certamente desempenhei o

primario fim do Poema, q emprehendi: mas eu,

como juiz suspeito, não devo julgar esta causa.

A outros muito maiores talentos encarrego a

sua decisão, esperando da sua benignidade a

desculpa de meus deffeitos.


Pessoas.

 

A Raynha D. Leonor, mulher d'El Rey  

Dom Fernando.

A Infante D. Beatriz, sua filha.

O Conde D. João Affonço Tello, Irmão

da Raynha.

Diogo Affonço de Figueredo, védor do In-

fante D. João.

Garcia Affonço do Sobrado, comenda-

dor de Elvas.

Felicio, o mais fiel criado de D. Maria

Telles, Irmãa da Raynha, e mulher do

Infante D. João.

 

A Scena hé em Lisboa no Pallacio

d'El Rey Dom Fernando ao Limoeiro.

 

 


Jezualdo

Tragedia

Composta em versos Portuguezes

or...

 

B.

 


 

Pessoas.

 

Romoaldo..... Princípe da Lombardia.

Jezualdo........ Seu amigo.

Constante...... Imperador Grego.

Calcidia......... Espoza de Jezualdo.

Abidega........ Irmã de Calcidia.

Onorio

Pavilon }....... Cheffes da Lombardia.

Arsarce......... Confidente de Constante.

Krai.............. Capitão Grego.

Epîgale.......... Filho de Jezualdom,

                      e d' Calcidia.

Hum menino, filho dos ditos.

Soldados Lombardos.

Soldados Gregos.

 


Martim Vaz de Bulhoens.

Tragedia

 

XX

 


 

Martim Vaz de Bulhoens.

Tragedia.

 

Interlocutores.

 

Martim Vaz de Bulhoens.

Thereza sua mulher.

Antonio seu Filho Frade Menor.

Jacintta sobr.ª de Martim.

Luis sobr.º de Thereza.

Capitam, e Soldados.

 


 

Efigenia

 

Tragedia

 


 

Para concorrer ao premio proposto por esta sa-

bia Academia se offerece á censura a Tragedia

de Ifigenia, o mais custoso de todos os assumptos tra-

gicos pela defficuldade da solução, em q. os antigos

empregárão sempre o uso das maquinas, que ra-

ramente são admittidas na construcção do poema

dramatico, sem ferirem a verosimelhança. He

notoria a destreza com que Racine tratou este as-

sumpto, sem recorrer a hum genero de maravi-

lhoso tão defficil na poezia dramatica. Mas o

author deste poema, aproveitando-se da commo-

didade, que lhe offerecia a immensa distancia do

tempo em que succedeo hum tão acontecimento

tão decantado nos mais famosos escriptos da an-

tiguidade, favorecido alem disso de circuns-

tancias indicadas em alguns dos mesmos escriptos,

deu a este argumento huma estructura toda

nova, cheia de situaçoens, q. não sendo muito vul-

ares, não deixarão de ser bem deduzidas e inte-

ressantes, por nella resplandecer a moral a

mais pura e benefica, em contrapozição de

vicios os mais detestaveis.

 


O author desta obra parece q. deve incor-

rer na censura de temerario no juizo dos precedentes

por se atrever a consignalla á approvação desta

sabia Academia, depois de ser voz constante fun-

dada em factos, q. a unica e singularissima palma

concedida a Osmia ha 5 annos, exclue todo o

genero de merecimento que aspire a hum seme-

lhante triunfo em consideração á grandeza de

quem quer que foi o seu author, q. dizem ser

huma personagem da primeira Nobreza de

Portugal. Mas o author de Ifigenia jul-

gando esta murmuração mera calumnia da

inveja, e dos versificadores aquem a severidade 

deste sabio Corpo tem negado a gloria de huma

coroa, que não devendo jamais ser prostituida

a mediocridade, sempre deve estar prompta 

para animar os voôs do genio; não duvidou

arriscar-se, e confiar na justiça desta esclareci-

da sociedade, e com razão; porque não he crivel,

que hum corpo tão illuminado houvesse de usar

de hum genero de tyrannia tão alheia das Luzes

da filosofia q. affirma, q. insina, q. publica, q. gra-

 


va mesmo nos coraçoens mais rebeldes a razão,

que a natureza na distribuição dos talentos não co-

gita, nem attende a qualidades, que todo o nasci-

mento lhe he indifferente; e a experiencia de todos

os seculos mostra q. o berço do genio raramente dei-

xou de existir debaxo do tecto humilde da pobreza,

e ainda mesmo da indigencia.

Nem o author se atreveria a pensar

q. este respeitavel Corpo seria capaz da mesma

fraqueza em que cahio com descredito notorio

a Academia Franceza no tempo do Cardeal Ri-

chelieu, cuja ambição litteraria o fez aspirar á gloria

de arbitro do Genio, assim como já o era da politica,

e induzio aquelle respeitavel Corpo, não só a não

attender como devia, ao merecimento do Grande

Corneille na poezia tragica, mas até mesmo a

perseguir com censuras as mais injusta e per-

ciaes a sua immortal Tragedia do Cide a quem

a posteridade coroou com o justo apreço que me-

recia hum tão admiravel poema; no q. se vio

claramente, q. o bom gosto nem sempre he de

terminado pelas Academias.

 


 

Se este poema pois não merecer a

approvação do sabio Liceo Portuguez, espera o

seu author q. lhe sejão declarados os motivos que

o excluirão da palma, para se corrigir, e proce-

der com mais circumspecção na compozição dos seus

dramas, ou para responder com respeito, e cortezia

digna das Letras, e das luzes deste seculo.

A tragédia e a epopeia são obras de tão dificultosa execução que basta tentá-las para não merecer desprezo. E nem sempre acontece que um autor a que se recusa uma palma académica seja privado de génio e falto dos conhecimentos da prática e teórica consignados nos mais célebres escritos dos antigos e dos modernos, onde se acha determiando e estabelecido o bom gosto nas artes imitativas e em todo o género de eloquência; nem que o estudo do coração humano, do idioma, do mecanismo métrico e de outras circunstâncias necessárias para conseguir a perfeição neste género seja absolutamente excluído do plano das suas aplicações. E pode também suceder que seja

 


 

dotado de uma resolução filosófica que chegue a tal ponto que por se instruir não recuse publicar-se e com a devida decência, cheia da maior circunspecção, possa intentar uma discussão literária e útil; e até mesmo não recuse confessar-se, capacitado e vencido, tudo para aumentar a soma dos seus conhecimentos e entrar na verdadeira inteligência das leis do bom gosto, que o devem dirigir num género de aplicação tão útil como sublime.

 


 

Calcante

Agamenon

Clytemnestra

Ifigenia

Achilles

Nestor

Diomedes

Ajaz

Sinon

Hum Soldado.

 

A Scena representa hum vasto acampamento

junto ao mar nas prayas de Aulide.

 

 


 

O author deste poema, que conhecendo a mediania das suas

luzes, e a curta esfera dos seus talentos, jamais pertendeo elevar-

se á dignidade de escriptor publico, compoz esta Tragedia, sem

a menor tenção de a submetter á censura da mais illuminada, e

respeitavel Academia, que se tem visto em Portugal, e por

isso, a não pode castigar como desejava, nem deu razão do q.

imitou do Orestes de Voltere no principio do primeiro acto, e da fa-

mosa Scena da urna na Electra de Sofocles, assim como dos obs-

taculos, q. encontrou no estylo, por ainda não ter a eloquencia portu

gueza consagrado a Tragedia huma elocução propria do seu

genero, assim como os antigos Gregos, e depois delles os Fran

cezes. Se elle tiver a honra de ver coroada esta compozição,

promette offerecer ás judiciosas decizoens deste sapientissimo

Corpo mais producçoens da mesma qualidade compostas com to

da a exacção possivel ás suas forças. Elevado do amor da Patria,

e do vivo desejo de ver entre nós aperfeiçado hum genero tão sublime,

e o mais util de todos os da Poezia, para que venha a merecer dos naci-

omaes a mesma consideração, que lhe consagrão as naçoens altas; o au-

thor se compromette voluntariamente a sugeitar á respeitavel censura

desta sabia Academia em preliminar expozição os seus pensam.tos

a respeito da elocução tragica portugueza, que por falta de escriptor se não

 


 

acha determinada; para que deste modo se possa, talvez, suscitar a

idea de aplanar as difficuldades, que depois da estructura essencial

da fabula, se encontra na compozição tragica, e conseguir hum fim

tão util, e glorioso á Nação, q. com bem fundados motivos, alem das luzes

que ja tem recebido, espera ver-se illustrada com as sublimes especula-

çoens desta tão sabia como acreditada Sociedade, a q.m o author deste po-

ema consagra a mayor veneração, e os mais obsequiosos respeitos.

 

ORESTES

 


 

Personagens

 

Orestes

Electra

Clytemnestra

Ismene

Egysto

Fanor              Guardas

 

A Scena he no atrio, e parte do templo de Jupiter,

ou de Esculapio junto á praya do mar.