Sumário
Carta sobre a ópera dos bonecos (23 de Janeiro de 1755)
Ano
1755
Biblioteca/Arquivo
Biblioteca da Ajuda
Cota
Pasta 50 - I-13, nº 12, ff.171-194
Comentário
A carta encontra-se incluída na colectânea manuscrita Rasgos Métricos e prosaicos de Alexandre António de Lima, coligida e copiada por António Correia Viana (1780). Trata-se de uma crítica ao espectáculo Aquiles em Siro, cujo texto foi impresso por Francisco Luís Ameno.
Carta familiar e noticiosa, e principalmente crítica sobre a má digestão da harmonia da Ópera dos Bonecos que, por esse tempo, se representava na Casa do Divertimento do Bairro Alto

Escrita de Lisboa

A Pedro José da Silva Botelho, criado e guarda-roupa que foi da Fidelíssima Majestade, do Senhor Rei D. José I, achando-se ausente da corte em Janeiro de 1755.

Senhor Pedro José da Silva Botelho

 

Meu amigo e meu Senhor,

 

Desejo que o rigoroso frio que nesta terra se experimenta não lhe faça a vossa mercê tanta impressão, a beneficio de esquentadores, perfumadores, tambores, e mais instrumentos bélicos, porque fazem guerra à frialdade do tempo, e por serem tudo coisas que se querem muito em quente. Eu aqui vou padecendo as minhas contínuas


convulsões, pois estes abalos parecem mais tremer de medo, que tiritar de frio. Porém, ainda que me acho morto quando me sinto frio, o mesmo sentir me assegura o não morrer.

Eu, sábado, busquei ao Senhor Sebastião José, a tempo que ele se recolhia a casa, vindo de São Vicente, e entre a turba que o esperava, pretendi falar-lhe, mas ao dizer-lhe eu que também o esperava, ele me respondeu - Sim (que não é tão pouco dar um sim a um pretendente). E logo me arrebataram da vista trezentas aves de rapina

que, como nevoeiro, o encobriram aos meus olhos, fazendo mistério da minha fé, o que era objecto da minha esperança. Mas por não faltar a terceira virtude, assim me quis a fortuna fazer a caridade. Se vossa mercê o vir sem nublado, diga-lhe claramente da minha parte que se quem tem um olho só, não tem mais que uma menina, ainda que lhe falte um olho, bem pode ter duas capelas, e que não queira sua excelência que, perdendo a esperança delas, perca de todo a vista, porque é uma coisa em que se me vão os olhos.


É razão que eu dê a vossa mercê notícia das novidades da terra, e como a Ópera dos Bonecos do Bairro Alto é coisa tão nova, quero-lhe dar não só parte dela, mas toda inteiramente lhe envio.

Veja-a vossa mercê, e dê graças a Deus de se verem os poetas outra vez reduzidos ao estado da inocência.

Toda ela é falada em frase de escada abaixo. Aquilo, sim, que é falar - pão por pão, queijo por queijo!

Não há mãe que esteja ensinando a doutrina cristã às suas meninas, que se explique com termos mais caseiros!

A tradução está feita muito ao pé da letra. Mas nem tão calvo que lhe apareçam os miolos. Os recitativos deixo inteiramente ao juízo de vossa mercê. Porém, as árias hei-de julgá-las, pois para elas não há outro dia do juízo.

Passemos o Coro que, pela sua extensão, haverá tempo enquanto ele se canta, para criar Adão e Eva, e todos os animais, e vamos a fazer alguma reflexão sobre as árias, ou diárias, porque todas são uma febre maligna, de que Deus nos livre.


Veja vossa mercê a ária primeira, como tem o sentido claro e a gramática certa.

 

Ingrato, não te inflamas

no Amor: ou se em ti há amor,

por mim paz interior

te dá desgosto. Etc.

 

A gracinha da paz interior! O certo é que o autor deve de ser algum paz-d’alma, e quer espiritualizar a música e a poesia, para introduzir a reforma dos costumes pelo caminho das óperas.

A segunda ária não me cheira bem, porque o autor pôs nela três privadas nos primeiros quatro versos. E quando chega à segunda parte, há-de ser bem difícil a composição da música para a boa expressão destes dois versos

 

O poder de uns olhos, neste

vil traje me tem, confesso Etc.

 

O sentido dos versos é passento, porque passa de um a outro. E é só próprio para o papel que nos vendem agora.

A ária que diz Um Raio se escurece Etc., como é coisa que não entendo, passo-a em claro, porque o seu sentido é para mim escuro.

Segue-se a quarta ária, a qual é feita em prosa, apesar dos consoantes. Parecem palavras de uma abadessa velha, dando repreensões às suas freiras por se queixarem do Governo Perlacial.

Ponha vossa mercê os olhos na cavata n.º 5 que, pelo desatado, parece uma cantiga de duzentos galegos, e não tendo consoantes, ainda

são outros quinhentos.

Passe vossa mercê de largo pela ária que diz

 

Assim depois de horrores

o Céu se muda todo Etc.

 

Onde é o menos ter o último verso da primeira parte mais da marca.

Mas o - depois de horrores -, é como quem diz - Depois de festa, boas são Mangas. E veja esta ária, em que diz o Pai à Filha:

 

Teu pejo compreendo Etc.

 

Onde se pode estender a grande mágoa que ele teria de ver a filha pejada,

que é muito boa nova para o pai da criança. Também diz na segunda parte - que não sofra -, que é um conselho de amigo.

Segue-se a ária de – Não sofro Amantes, não quero Amores Etc., que em bom português quer dizer - Bem me queres, mal me queres -, ou - Tu que vês, e tu que vens.

A ária que diz – Quisera responder-te -, vai com um estupor, porque leva a boca à banda.

A ária que diz - Quem já

mais viu tão querida Etc., me faz lembrar aquela cantiga que dizia - Quem se viu como eu me vi: tão amada e tão querida.  Lembra-me minha avó, que a cantava tão maviosa que fazia chorar as pedras.

Segue-se uma ária que é da freguesia do socorro, como consta da primeira e segunda parte, e pode constar por certidão do mesmo Parrocho.

A ária que diz – Essa rebelde induze, Etc., tem bom princípio, mas o fim é muito melhor,

e se não veja -

 

Diz-lhe que amor meu peito

de Rei, e Pai abraça,

que a seu Pai satisfaça,

ou obedeça a El Rei.

 

A contracção Diz-lhe, é muito nova.

Porém, acerca do Pai e Rei, muito melhor ficava assim

 

Vai levar-lhe este recado

à cachopa: avia, vai.

Se não obedece ao Pai,

presa da parte de El Rei.

 

Agora passe vossa mercê de largo por

estas duas árias que são como as casas dos Bichos em Belém, aonde há tigres e leões. São dois covis de animais ferozes, e deixando os tigres que são atraiçoados, vamos ao leão, que é generoso. O último verso desta ária diz assim

 

Dócil se vê lamber.

 

Eu tomara que o amigo Pedro António me dissera como se põe Lamber por solfa? Que se não for pelo tom do Lamba, eu não sei como pode ser. Grandes dois lambazes serão compositor e poeta, pois como tal obra, querem lamber os aplausos do bom gosto. Como dois gulosos que,

em o mesmo parto, estão com as línguas de palmo preparando-se para as rapaduras. Lamber! Os homens devem de ser lambareiros em forma.

Lamber! E se a obra for uma porcaria, como ficam aquelas línguas? Eu entendo que a não fazem limpa. Ora veja, se o músico faz uma passagem de Lamber, e lhe fica a língua atravessada na garganta, quem poderá tragar a cantilena, sem que lhe seja preciso

quanto lambedor tem a botica da portagem, para se curar o defluxo da lambidela musical!

Mas guarda de diante, que é chegado o Bando que manda afastar a gente, dizendo

 

Afastai-vos. Fugi. Longe, longe Etc

 

Como quis [quem] diz - vade retro. O que eu digo também ao dito coro, que é belo para se cantar por Capuchos fanhosos em Dia de Trevas.

A cantina de Aquiles que começa, e nunca acaba, dizendo

 

Se um peito enlaças,

se uma alma acendes,

que não pertendes

tirano Amor Etc.

me faz saudades de dois Minuetes do meu tempo. Um que diz

 

Tirano Amor,

porque és cruel Etc.

 

E outro

 

Pretende Amor,

quando pretende,

que Amor emende

tanto rigor Etc.

 

Enfim, as modas novas sempre vêm a dar em coisas velhas. Vamos adiante. Aí vem outro recado em abreviatura

 

Diz-lhe que se console,

que me ame em toda a parte Etc.

Esta contracção - que m’ame - quando o Amante diz à Dama, que m’ame

em toda a parte, também quer dizer - que vá mamar num Burro, que é muito boa consolação para a pobre Dama. Pois não lhe digo nada da energia da segunda parte, aonde diz

 

Que amor foi meu constante,

que o meu amor será  Etc.

 

Veja vossa mercê o sentido que se pode dar a estes versos, que eu o não alcanço.

E o poeta não deve ser pobre, porque não se vê alcançado.

A ária que se segue tem

na segunda parte - cópia - por consoante de - própria. Lembra-me o entremez do poeta., aonde se diz

 

una letra no es precepto

porque haya de perderse un buen concepto.

 

Aqui se conhece ser o autor sujeito de Letras, porque o percebê-lo tem ff. e rr.

A última ária com que a Ópera está dando fios à teia, tem muito sal, porque começa com – graça -, mas é a graça com que o primeiro verso reparte o sentido com o segundo, que não tem nada, e sôfregos os deste poeta, e isto não tem graça para

o compositor. Eu exclamo outra vez pelo meu Pedro António. Veja se dão com ele estas árias. Que a gente, quando sai de sua casa, não sabe o que lhe há-de suceder. Ele, que não quis pôr Senhora em solfa, nem quis fazer pazes com a consumição maior. Como se haveria com tigres investindo, e leões lambendo? Que em Bruto não há que fiar.

Aí temos outra ária em prosa, de côncavo tão espaçoso, que os montes, campos e cidades que há nela, não cabem no côncavo da Lua.

Mas vamos depressa, que a ária que se segue está com uma dor, e se for de parir, é necessário acodir-lhe. Diz assim

 

Cintila a esperança

entre ais, e disvelos,

privai-me da vida

girando com dor Etc.

 

A esperança que cintila, lá quer dizer alguma coisa que está para vir a lume, e os ais, e disvelos, indicam alguém que está de parto. Mas o privar girando com dor, já me parece mais aborto, que parto. Se me

lembro que, no nosso Bairro, e defronte das suas janelas, vejo cada hora tantos aflitos que, girando com dor, dão mil voltas, até pôr em público a causa da sua necessidade.

Vossa mercê perdoe a expressão, que este poeta faz lembrar coisas que ninguém quer tomar na boca.

E porque não escorregue a pena em mais porquidades, basta de reflexões. Vossa mercê verá muito à sua vontade todo o Libreto que remeto da minha crítica à sua censura.

Vai também dentro nele um

papelinho que se despegou de um frasco de água da Rainha de Hungria, o qual dá certas advertências que, ainda que corre em auto separado, é o apenso a estes bons feitos. Eu satisfazia-me com bula, sem escrito. Porém não quiseram que eu deixasse de lucrar todas as indulgências desta obra pia.

Ora, Senhor, perdoe a matraca, e aceite a oferta. Que quem dá o que tem, não é a mais obrigado.

Veja os recitativos, que são notáveis, porque têm muito que notar. Veja vossa mercê se a minha inutilidade pode

servir-lhe de alguma coisa nesta terra que em tudo o hei-de servir, como devo.

De minha mulher e filha, criadas suas, aceite vossa mercê uma reverente lembrança.

Deus guarde a Vossa mercê como desejo e necessito.

Lisboa, 23 de Janeiro de 1755.

  

De Vossa mercê

Maior amigo e menor servo

 

A .A. de L.
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Carta
familiar, e noticioza;
e principalm.te
critica
sobre a má digestão da armonia
da Opera dos Bonecos
que por esse tempo se reprezentava
na Caza do Devertim.to do Bairro Alto

                     Escrita de Lisboa

A Pedro Jozé da Sylva Botelho
criado, e goarda roupa, q. foi da Fidelissima
Magest.e do Snôr Rey D. Jozé = 1.º
achando se auzente da corte
em Janr.º de 1755 =

S.r Pedro Jozé da Sylva Botelho

 

Meu am.º, e meu Snôr. De=

zejo, que o rigoroso frio, que nesta

Terra se experimenta, não lhe fassa

a vm.ce tanta impressão, a beneficio de

esquentadores, perfumadores, tambores,

e mais Instromentos Belicos; porq.

fazem guerra á frialdade do tempo;

e por serem tudo coizas, que se qué=

rem m.to em quente. Eu aqui

vou padecendo as minhas continuas
                                             con=


convulçôens; pois estes abalos, parecem

mais tremer de medo, que teritar de

frio: porem, ainda que me acho

morto quando me sinto frio; o mesmo

sentir, me assegura o não morrer.

Eu sabado busquei ao S.r

Sebastião Jozé; a tempo que Elle se

recolhia a caza, vindo de São Vicente;

e entre a Turba que o esperava, per=

tendi falar-lhe; mas ao dizer-lhe

eu: que tambem o esperava: Elle

me respondeu = Sim = (que não he

tão pouco dar hum sim a h? Per=

tendente) E logo me arrebatáram

da vista trezentas Aves de Rapina,

que como Nevoeyro, o enconbriram aos

meus olhos; fazendo misterio da mi=

nha fé o que éra objecto da minha

esperansa: mas por não faltar

a terceira virtude, assim me quiz

a Fortuna fazer a Caridade. Se

vm.ce o vir sem nublado, digalhe cla=

ramente da minha parte, que = se

quem tem hum olho só = não tem

mais que huma Menina = ainda q.

lhe falte hum olho, bem póde ter

duas Capellas; e que não queira

S. Ex.ª, que perdendo a esperansa

dellas, perca de todo a vista; porq.

he huma coiza em que se me vão

os olhos.

                                               He

He razão, qe eu dê

a vm.ce noticia das novidades da Ter=

ra; e como a Opera dos Bonecos do

Bairro Alto, he coisa tão nova:

quero-lhe dár, não só parte della;

mas toda inteiramente lhe envio.

Veja-a vm.ce; e dê grassas a Deos,

de se verem os Poetas outra vez re=

duzidos ao estado da innocencia.

Toda ella he falada em fraze

de escada abaixo. Aquilo sim que

he falar = pão por pão, queijo por queijo!

Não há Mây, que esteja ensinando

a Doutrina Christân ás suas Meninas,

que se explique com termos mais cazeiros!

A traducção, está feita muito ao pé

da Letra: mas nem tão calvo, que

lhe aparessam os miolos. Os Reci=

tativos, deixo inteyramente ao juizo

de vm.ce. Porem as Arias, hey de

julgalas; pois para ellas não há ou=

tro dia do juizo.

Passemos o Coro, que pela

sua extensão, haverá tempo em q.to

elle se canta, para criar Adão, e Eva,

e todos os Animaes; e vamos a fazer

alguma reflexão sobre as Arias, ou

Diarias: porque todas são huma fe=

bre maligna, de q. Deos nos livre.

Veja vm.ce a Aria pri=

meira, como tem o sentido claro, e a

gramatica certa.

 

Ingrato, não te inflamas

no Amor: ou se em ty há amor,

por mim paz interior

te dá disgosto. &.ª

 

A garcinha da = paz interior! O

certo he, que o Autor deve de ser al=

gum páz-d’alma, e quer espirituali=

zar a Muzica, e a Poezia, para intro=

duzir a reforma dos costumes pelo ca=

minho das Operas.

                                                           A-

A segunda Aria, não

me cheira bem; porque o Autor pôz

nella trez privadas nos primeiros

quatro versos: e quando chega á

segunda parte, ha de ser bem deficil

a compozissão da Muzica para a boa

expressão destes dous versos =

 

O poder de huns olhos, neste

vil trage me tem, confesso &.ª

 

O sentido dos versos, he passento; por

que pássa de hum a outro: e he

só proprio para o papel, que nos

vendem agora.

                                               A=

A Aria, que diz = Hum

Rayos se escurece &.ª =, como he couza

que não entendo, passo-a em claro; por-

que o seu sentido he p.ª mim escuro.

Ségue-se a quarta Aria;

a qual he feita em proza, apezar dos

consoantes. Parecem palavras de huma

Abbadessa velha, dando reprehençõens ás

suas Freyras por se queixarem do Go=

verno Perlacial.

Ponha vm.ce os olhos na

Cavata n.º 5; que pello dezatado, pa=

rece huma cantiga de = Dozentos Gale=

gos =; e não tendo consoantes, ainda

são outros quinhentos.

Passe vm.ce de largo pela

Aria, que diz =

 

Assim depois de horrores

o Ceo se muda todo &.ª

 

Onde he o menos, ter o ultimo verso

da primeira parte, mais da marca.

Mas o = depois de horrores =, he como

quem diz = Depois de festa, boas sam

mangas = E veja ésta Aria, em

que diz o Pay á Filha:

 

Teu pejo comprehendo &.ª

 

Onde se póde extender a gr.de mágoa

que elle teria de ver a Filha pejada:

                                                           q.

que he muito boa nova para o Pay

da Criansa. Tambem diz na se=

gunda parte = que não sofra =: que he

hum conselho de amigo.

Ségue-se a Aria de = Não

sofro Amantes = não quero Amores &.ª

que em bom Portuguez, quer dizer

= Bem me queres, mal me queres = Ou

= T? que véz, e tu que vêns =

A Aria, que diz = Quizera

responderte =, vay com hum estupôr,

porque leva a boca á banda.

A Aria, que diz = Quem já

mais vio tâo querida &.ª, me faz lembrar

aquella cantiga, que dizia = Quem

se vio como eu me vi: tâo amada,

e tâo querida = Lembrame minha

Avó, que a cantava tâo mavioza, q.

fazia chorar as pedras.

Ségue-se hum Aria, que

he da Freguezia do socorro, como cons=

ta da primr.ª, e segunda parte; e

póde constar por certidão do mesmo

Parrocho.

A Aria, que diz = Essa

rebelde induze &.ª =, tem bom princi=

pio: mas o fim he muito melhor;

                                               e se

e se não veja =

 

Dis-lhe, que amor meu peyto

de Rey, e Pay abrassa,

que a seu Pay satisfassa,

ou obedessa a El Rey.

 

A contracção = Dis-lhe =, he m.to nova.

Porem, ácerca do Pay, e Rey: m.to me=

lhor ficava assim =

 

Vay levarlhe este recado

á cachopa: avia, vay:

Se não obedece ao Pay,

prêza da parte de El Rey.

 

Agora passe vm.ce de largo por

éstas duas Arias, que são como as-

cazas dos Bixos em Bellem; aonde

há Tifres, e Leõens. São dous Coviz

de Animaes ferozes; e deixando os-

Tigres, que são atraissoados: vamos

ao Leão, q. he generozo. O ultimo

verso desta Aria, diz assim =

 

Docil se vê lamber.

 

Eu tomára, que o amigo Pedro An=

tonio, me dissera como se poem = Lam=

ber = por solfa? Que se não for pello

tom do Lamba, eu não sey como póde

ser. Grandes dous lambazes se =

rão compozitor, e Poeta; pois como

tal obra, querem lamber os aplauzos

do bom gosto: como dous Golozos, q.

                                                           em

em o mesmo parto, estão com as lingoas

de palmo preparando-se para as ra=

paduras. Lamber! Os homêns

devem de ser Lambareiros em fórma.

Lamber! E se a obra for huma

porcaria: como ficam aquellas lin=

goas? Eu entendo, que a não fazem

limpa. Hora veja, se o Muzico

faz huma passagem de Lamber, e

lhe fica a lingoa atravessada na

garganta: quem poderá tragar a

cantilena, sem que lhe seja precizo

quanto lambedor tem a Botica

da Portagem para se curar o deflu=

xo da lambedela muzical!

Mas goarda de diante,

que he chegado o Bando, que manda

afastar a gente, dizendo =

 

Afastaivos: fogi: longe, longe &.ª

 

Como quiz diz = vade retro =: O que

eu digo tambem ao dito Coro; que

he bello para se cantar por Capu=

chos fanhozos em Dia de Trevas.

A cantina de Aquiles,

que comessa, e nunca acaba, di=

zendo =

 

Se hum peito enlassas,

se huma alma acendes,

que não pertendes

tirano Amor &.ª

 

                                               me=

me faz saudades de dous Minuetes

do meu tempo: hum, que diz =

 

Tirano Amor,

porque és cruel &.ª

 

E outro =

 

Pertende Amor,

quando pertende,

que Amor emmende

tanto rigor &.ª

 

Enfim: as modas novas, sempre

vem a dar em coizas velhas. Vamos

adiante. Ahi vem outro recado

em abreviatura =

 

Dislhe, que se console,

que me-áme em toda a parte &.ª

Esta contracção = que m’ame = quan=

do o Amante diz a Dama, que =m’ame

em toda a parte =: tambem quer di=

zer: que vá mamar num Burro;

que he m.to boa consolação p.ª a pobre

Dama. Pois, não lhe digo nada

da energia da segd.ª p.te, aonde diz =

 

Que amor foy meu constante,

que o meu amor será  &.ª

 

Veja vm.ce o sentido, que se póde dar

a estes versos; que eu o não alcanso:

e o Poeta não deve ser pobre, porque

não se vê alcansado.

A Aria que se ségue, tem

                                                           na=

na segunda parte = copia = por con=

soante de = propria =. Lembra-me

o Entremez do Poeta., aonde se diz =

 

una letra nó és precepto

porq. haya de perderse ûn buen concepto.

 

Aqui se conhece ser o Autor sogeito

de Letras; por que o percebello, tem

ff., e RR.

A ultima Aria com que a

Opera está dando fios á teya, tem m.to

sal; porque comessa com = grassa =: mas

he a grassa com que o primeiro verso

reparte o sentido com o segundo; que

não tem nada e sôfregos os deste

Poeta; e isto não tem grassa para

o Compozitor. Eu exclamo outra

vez pello meu Pedro Antonio. Veja

se dão com elle estas Arias: que a

gente quando say de sua caza, nam

sabe o que lhe ha de succeder. Elle,

que não quiz pôr Senhora em solfa;

nem quiz fazer pazes com a consu=

missão mayor: como se haveria com

Tigres investindo, e Leoens lambendo?

que em Bruto não há que fiar.

Ahi temos outra Aria

em proza, de cóncavo tão espaçozo;

que os Montes, Campos, e Cidades, q.

há nella, não cabem no cóncavo

da Lua.

                                                           Mas-

Mas vamos depréssa; que

a Aria que se ségue, esta com huma

dor; e se for de parir, he nescessario

acodir-lhe. Diz assim =

 

Cintila a esperansa

entre ays, e disvelos,

privaime da vida

girando com dôr &.ª

 

A esperansa que cintila, lá quer

dizer alguma coiza, que está p.ª vir

a lume; e os ays, e disvelos, indicam

alguem que está de parto: mas o

privar girando com dor, já me pa=

rece mais aborto, que parto: se me

lembro, que no nosso Bairro, e de=

fronte das suas janellas, vejo cada

hora tantos Aflictos, que girando

com dor, dão mil voltas, athé por

em público a cauza da sua nescessi=

dade.

Vm.ce perdoe a expressão;

que este Poeta faz lembrar coizas,

que ninguem quer tomar na boca.

E porque não escorregue a penna

em mais porquidades: basta de re=

flezõens. Vm.ce verá muito á

sua vont.e, todo o Livreto q. remeto

da minha critica a sua Censura.

Vay tambem dentro nelle, hum

                                                pape-

papelinho, que se despegou de hum

frasco de Agoa da Raynha de Ungria;

o qual dá certas advertencias; que ain=

da que corre em auto separado, he o

Appenso a estes bôns feytos. Eu sa=

tisfazia-me com Bula, sem Escripto:

porem não quizeram, que eu deixasse

de lucrar todas as indulgencias desta

Obra pia.

Hora, Senhor, perdoe a ma=

traca; e aceite a oferta: que quem dá

o que tem, não he a mais obrigado.

Veja os recitativos; que são notaveis,

porque tem m.to que notar. Veja

vm.ce se a minha inutilidade póde

servir-lhe de algûa coiza nesta Terra;

que em tudo o hey de servir, como devo.

De minha Mulher, e Filha, criadas suas,

Aceite vm.ce hûa reverente lembransa.

D.s Gd.e a Vm.ce como dezejo, e nescessito.

Lix.ª 23 de Janr.º de 1755.

 

De Vm.ce
Mayor Am.º, e menor Servo
A.A. de L.