- Sumário
- Carta de Vicente de Sousa Coutinho para Luís da Cunha, sobre Goldoni (18 de Março de 1765)
- Ano
- 1765
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Ministério dos Negócios Estrangeiros, Livro 674, ff. 32 e 33
- Menções
- Sousa Viterbo, «Carlo Goldoni e a Ópera na corte de D. José», in Arte e Artistas em Portugal: Contribuições para a história das artes e indústrias portuguesas, Lisboa, Ferreira, 1892, pp. 219-220
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor,
Recebi a carta que Vossa Excelência fez a honra de escrever-me, datada de 18 de Fevereiro, e fico muito satisfeito de saber qual é, nesta parte, a sua vontade, para me conformar com ela escrupulosamente. Igual favor me faria Vossa Excelência mandando-me uma instrução, para que eu viesse no conhecimento do modo por que devia escrever as minhas relações, dignas de chegarem à presença de el rei nosso senhor, pois estando coberto de trevas, temo ou ser demasiadamente difuso, ou muito sucinto. Não li algum dos ofícios dos meus antecessores nesta Corte, e cada sombra me parece um fantasma. É verdade que tenho notícia do que escreveram os mais célebres Ministros Estrangeiros, mas a prática das Secretarias é tão vária, que não sofre regras gerais. Também não refiro, nos meus ofícios, muitas particulari[da]des, pois não tendo relação alguma com os negócios da Europa, nem ainda do Estado, julgo indecente fazê-lo, sem as cobrir ao menos de um véu que, ainda que se rompa, inculca o melindre com que se deve falar das acções mais indiferentes dos príncipes. Finalmente pertence a Vossa Excelência o insinuar-me qual é a vontade de el rei nosso senhor. Aqui esteve Goldoni, que se acha mestre da língua italiana da senhora Adelaide, havendo largado a pensão da comédia. Eu concorri muito com o conselho para esta fortuna, pois me causava lástima ver um homem, único no
No mesmo dia me prometeu de expedir em poucos a ópera, e farei tudo que Vossa Excelência me ordena neste particular.
Estimarei que Suas Majestades e altezas chegassem de Salvaterra com a saúde que lhes desejamos e havemos mister. Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos. Paris, 18 de Março de 1765.
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor.
D. Luís da Cunha.
Recebi a carta que V. Ex.ª fez a honra de escrever-
me dattada de 18 de Fevereiro, e fico muito satisfeito de saber qu=
al he nesta parte a sua vontade, para me comformar com ella es-
crupolosamente. Igual favor me faria V. Ex.ª mandando-me hua
Instrucção para que eu viesse no conhecimento do modo por que de-
via escrever as minhas relaçoens, dignas de chegarem à presença de
El Rey Nosso Senhor, pois estando coberto de trevas, temo ou ser
demasiadamente difuso, ou muito succinto. Não li algum dos Officios
dos meos Antecessores nesta Corte, e cada sombra me parece hum
phantasma. He verdade que tenho noticia do que escreverão os
mais celebres Ministros Estrangeiros, mas a pratica das Secretari-
as he tão varia, que não soffre regras geraes. Tãobem não refiro nos
meos Officios muitas particularides, pois não tendo relação algua com
os negocios da Europa, nem ainda do Estado, julgo indecente fazelo,
sem as cobrir ao menos de hum veo, que ainda que se rompa, incul-
ca o melindre com que se deve fallar das acçoens mais indifferentes
dos Princepes. Finalmente pertence a V. Ex.ª o insinuar-me qual he
a vontade de El Rey Nosso Senhor. Aqui esteve Goldoni, que se
acha Mestre da Lingua Italiana da Senhora Adelaide, havendo lar
gado a penssão da Comedia: Eu concorri muito com o conselho pa-
ra esta fortuna, pois me causava lastima ver hum homem, unico no
mesmo dia me prometteo de expedir em poucos a Opera, e farei tudo
que V. Ex.ª me ordena neste particular.
Estimarei que S. Mag.es e Altezas, chegassem de Salvarer-
ra com a saude que lhes desejamos e havemos mister Deos guarde
a V. Ex.ª m.s ann.s Paris 18 de Março de 1765.
Ill.mo e Ex.mo Snr.
D. Luiz da Cunha.