Sumário
Carta de Vicente de Sousa Coutinho para Luís da Cunha com informação sobre Goldoni (24 de Maio de 1765)
Ano
1765
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
Ministério dos Negócios Estrangeiros, Livro 674, pp. 58-60
Menções
Sousa Viterbo, «Carlo Goldoni e a Ópera na corte de D. José», in Arte e Artistas em Portugal: Contribuições para a história das artes e indústrias portuguesas, Lisboa, Ferreira, 1892
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor,

Sua Majestade veio pernoitar quarta-feira a Saint Hubert, aonde estará até 25 do corrente. Toda a mais família real se recolheu a Versalhes, no dia em que sairam de Marly. Poucos antes tinha Sua Majestade visto e aprovado a estátua que se lhe deve colocar na Praça de Rheims, cujo monumento é obra de Pigalle, um dos mais célebres escultores deste século.
Insinuando o Conde de S. Horentin ao Arcebispo de Paris que nomeasse, em seu lugar, o Bispo de Chartres seu sufragâneo, para assistir na assemblea geral do clero, e não o podendo persuadir

a que delegasse o seu poder, lhe escreveu no dia seguinte, notificando-lhe que Sua Majestade lhe proibia absolutamente entrar na sobredita Assemblea. Este Prelado é tão ignorante e tão turbulento, que condenou, na gazeta literária, por erroneaes várias preposições tão inocentes, como a de que na grande população consistia uma das felicidades da república.
Ontem li uma carta do punho de el rei de Prússia, na qual dizia não havia consentido a introdução da Bula de Sua Santidade, que aprova o Instituto dos Jesuítas, acrescentando que cedo ou tarde tomaria a mesma resolução que Portugal e França, por purgar
o[s] seus Estados de gente tão nociva.
Antes da última guerra os navios franceses e ingleses que crusavam nas costas das Ilhas do Vento, S. Domingos e Jamaica, se
julgavam reciprocamente de contrabando. Feita a par de 1763, e cedida a Ilha Dominica aos ingleses, até então pertencente aos Caraibes, é dificultoso aos franceses ter comunicação entre a Guadaloupe e Martinica, sem passar perto dela, e por este motivo procuram que a antiga lei seja abolida. Inglaterra consente, contanto que se lhes permita a mesma liberdade, pelo que respeita às Ilhas do Vento. Porém, França não tem convindo até agora, reconhecendo lhe causaria mais prejuízo que utilidade.

O Comandante de Rochefort prendeu, por ordem de Sua Majestade, o Governador da Ilha de Gorea apenas desembarcou naque[le] porto. Ainda se não sabe o motivo da sua desgraça. O Governador da Guadalupe, chamado Nadau, que havia sido degradado de nobreza, do serviço Militar, e da Cruz de S. Luís, culpado na entrega daquella Ilha, foi reabilitado a todas as suas honras, cuja cerimónia fez o Marechal de Noalhes, na casa dos Inválidos, presentes vários oficiais da mesma patente.
Corre a voz que o Parlamento de Tolosa, duvidando, como já disse a Vossa Excelência, registrar o édito que anula a sentença de Calaz, torna a examinar o processo, onde certamente não pode ver senão testemunhos da sua injustiça e do seu fanatismo.
Na carta inclusa de Goldoni, verá Vossa Excelência o motivo de haver dilatado tanto a remessa da Ópera. Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Paris, 24 de Maio de 1765.
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Luís da Cunha
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Ill.mo e Ex.mo Snr.

S. Mag.e veio prenoitar quarta feira a Saint Hubert,
aonde estará até 25 do Corrente. Toda a mais Familia Real se reco-
lheo a Versalhes, no dia em que sahirão de Marly. Poucos antes tinha
S. Mag.e visto e approvado a Estatua, que se lhe deve collocar na Praça
de Rheims; cujo monumento he obra de Pigalle, hum dos mais celebres
Esculptores deste Seculo.
Insinuando o Conde de S. Horentin ao Arcebispo de
Paris, que nomeasse em seo lugar, o Bispo de Chartres seo sufraga-
neo, para assistir na Assemblea geral do Clero, e não o podendo persua-

dir a que delegasse o seo poder, lhe escreveo no dia seguinte, notifican-
do-lhe que S. Mag.e lhe prohibia absolutamente entrar na sobredita
Assemblea. Este Prelado he tão ignorante, e tão turbulento, que conden-
nou na gazeta literaria por erroneaes varias preposiçoens tão innocentes
como a de que na grande população consistia hua das felicidades da
Republica.
Hontem li hua Carta do punho de El Rey de Prussia, na
qual dizia não havia consentido a introducção da Bulla de S. Sanctida-
de, que approva o Instituto dos Jesuitas, acrescentando que cedo ou
tarde tomaria a mesma resolução, que Portugal e França, por purgar
o seos Estados de gente tão nociva.
Antes da ultima guerra os Navios Francezes e Inglezes
que crusavão nas costas das Ilhas do Vento, S. Domingos e Jamaica, se
julgavão reciprocamente de contrabando: Feita a par de 1763, e cedi-
da a Ilha Dominica a os Inglezes, até então pertencente a os Carai-
bes, he difficultozo a os Francezes ter comunicação entre a Guadalou-
pe e Martinica sem passar perto della, e por este motivo procurão que
a antiga Ley seja abolida: Inglaterra consente, com tanto que se lhes
permitta a mesma liberdade, pelo que respeita ás Ilhas do Vento; porèm
França, não tem convindo até agora, reconhecendo lhe causaria mais
prejuizo, que utilidade.

O Comandante de Rochefort, prendeo por ordem de S. Mag.e
o Governador da Ilha de Gorea apenas desembarcou naque porto: a-
inda se não sabe o motivo da sua desgraça.
O Governador da Guadalupe, chamado Nadau, que havia
sido degradado de nobresa, do serviço Militar, e da Cruz de S. Luiz,
culpado na entrega daquella Ilha, foi reabilitado a todas as suas hon-
ras, cuja ceremonia fez o Marechal de Noalhes, na casa dos Invali-
dos, presentes varios officiaes da mesma patente.
Corre a voz, que o Parlamento de Tolosa, duvidando, como
já disse a V. Ex.ª registrar o Edicto que annulla a sentença de Calaz,
torna a examinar o Processo, onde certamente não póde ver senão teste-
munhos da sua injustiça e do seo fanatismo.
Na carta inclusa de Goldoni, verá V. Ex.ª o motivo de ha-
ver dilatado tanto a remessa da Opera. Deos guarde a V. Ex.ª m.s ann.s
Paris 24 de Mayo de 1765.
Ill.mo e Ex.mo Snr.
D. Luiz da Cunha