Sumário
Carta de João Piaggio para João António Pinto da Silva sobre compra e pagamento de tecidos para figurinos e partituras para instrumentistas (5 de Setembro de 1774)
Ano
1774
Biblioteca/Arquivo
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Cota
AHMF - Casa Real, XX / Z / 77 (11) - caixa 7092, s.f.
Comentário
Conservaram-se os italianismos da redacção. Quando a leitura é por eles prejudicada, indica-se entre [ ] a forma portuguesa.
Ilustríssimo Senhor Dom João António Pinto da Silva,

 

Estimadíssimo Senhor,

 

Tenho presente o favor de duas estimadíssimas cartas de Vossa Senhoria, a primeira de 18 de Julho, que já lhe acusei o recibo, a segunda de 8 Agosto, recebida neste correio, a ambas respondo agradecendo-lhe infinitamente a continuação de tantos favores que a grande sua bondade me comparte. Desejo em todo o tempo poder corresponder com o fraco meu préstimo com a frequência dos seus estimadíssimos mandamentos.

Muito gostei de ouvir a boa chegada a essa Corte dos dois navios Maria Teresa, Despacho,


ingleses, e que de ambos, em força dos respectivos conhecimentos, Vossa Senhoria fosse servido mandar procurar todas as fazendas que de sua encomenda lhe remeti para uso do régio teatro, e que todo achasse conforme as facturas distintas da [por] mim enviadas a Vossa Senhoria.

Tomo, pois, por efeito da grande sua sinceridade, os sábios advertimentos que Vossa Senhoria me dá para meu governo em outras ocasiões. Porém, não deixam de causar em mim um grande desprazer, porque faço quanto me é possível para bem acontecer em todo que pertence ao real serviço, de qualquer forma me consolo que não falto de diligência, e sendo o discurso


sobre das fazendas de seda que custam caras, estas são da melhor acreditada fábrica de Florença, onde é costume de fazer as ditas fazendas da maior perfeição, bom corpo e vivas cores, e lá é proibido vender roupa com mofo. Depois, é impossível que se ache fazendas de seda avariadas e que conservem colores vivazes, conforme Vossa Senhoria me recomendou na encomenda. Disse a Vossa Senhoria que o preço notado na sua factura era só a seu governo. É preciso ver, para fazer uma conta justa, o benefício da medida que darão tantas braças de Florença a essa de côvados, que só este benefício é o motivo que parece que aí pelos mercadores se vendem mais barato.


Depois, é preciso meter ao confronto uma qualidade com a outra, e ver quem é melhor e mais barato, ou o mais caro. Vossa Senhoria me responderá que não importava fossem de tão boa qualidade, conforme a sua carta de 28 Dezembro próximo passado, mas na mesma tenho também observado que se me recomendava de executá-la com a maior brevidade. Para fazer compra de roupas avariadas era preciso um tempo infinito, convém esperar que se dê o caso que qualquer peça venha das fábricas com algum defeito, este sempre um caso é, porque nas fábricas sempre procuram fazer fazendas capaz e de bom conceito. Na Itália estas fazendas avariadas, para que não se queimem ao fogo, conforme as leis,


se vendem escondidamente aos Judeus. Em Florença, pela grande actividade e diligência, poucas delas saem fora; algumas mais pode ser aqui em Génova, e para fazer uma experiência, faço estar em diligência um prático que logo de achar uma ou duas peças as compre, e por uma amostra as remeterei a Vossa Senhoria, observará se poderão servir, e assim poderei continuar nesta diligência de comprar de ditas fazendas de sedas quando se oferecem, mas nunca mais será possível efectuar uma inteira factura com fazendas de pouco crédito.

Pelas outras fazendas que não há queixas para não achar-se aí das mesmas, Vossa Senhoria fique certo e descansado que os meus amigos hão a maior premura e empenho de procurar a mais grande vantagem e diminuto preço.


Pela nova encomenda que Vossa Senhoria me tem feito de oitocentas braças de véu de Bolonha Lavrado, chamado garça, de várias qualidades, logo o cometi ao meu amigo de dita cidade, me responde que primeiro, para não tomar erro, lhe é preciso saber a medida de dito véu lavrado, largura e comprido, e de lhe mandar a seu governo uma amostra. Assim rogo a sua bondade de me a enviar com primeiro navio, debaixo do meu sobrescrito, que logo no instante da chegada a recebo. Entretanto, escrevi ao dito meu de mandar-me uma peça para poupar tempo, e eu logo a enviarei a Vossa Senhoria pelo primeiro navio, a qual servirá de mostra, se for de gosto e agrado.

Fico ciente quanto Vossa Senhoria me avisa a respeito


das árias pelo seu senhor compadre Bomtempo, que não quer composições novas, como foram algumas das remetidas, mas sim cópias de bons mestres, como serão as outras que ainda me ficam de lhe remeter.

Esquecia-me dizer a Vossa Senhoria, na execução das encomendas para uso do régio teatro, pela maior conveniência de Sua Majestade nosso real amo (que Deus guarde), todo vem comprado e pago a dinheiro de contado, várias vezes, como foi agora, acho-me em desembolso, e procuro suprir com as fracas minhas forças. É verdade que o dito augusto amo me tem feito fazer boa remessa do Ilustríssimo Senhor Dom Estevão Pinto de Morais, mas para suprir a todos os encargos que tenho, acho-me já novamente em desembolso, e agora além de um músico


basso e dois moços portugueses, que eram a Nápoles a estudar a música, devo também suprir as despesas de sete dançarinos, três dos quais com mulher, de viagem e embarque neste mês sobre do navio Cecília Maria, do Capitão SchmerKell, escriturados para o real serviço. O amigo Dom Lucas Jovine me escreve em ocasião de pedir dinheiro para suprir as ditas despesas de enterpor o seu bom meio com o augusto amo. Assim, rogo a sua bondade de falar a Sua Majestade para que seja servido ordenar de me ser feita uma nova remessa, e no próximo correio sobre deste particular escreverei ao dito Senhor Estevão Pinto, e perdoe a minha confiança.

Por fim, peço-lhe de escusar a matraca e


de me compartir a honra do seu serviço, e com o maior respeito beijo as mãos de Vossa Senhoria, que Deus guarde muitos anos.

Génova, aos 5 Setembro 1774.
De Vossa Senhoria Ilustríssima o mais respeitoso obrigadíssimo criado e fidelíssimo,

João Piaggio

 

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Ill.mo Sñr. D.m João Antonio Pinto da Silva

 

Estimadiss.º Sñr.

 

Tenho prezente o favor de duas estimadiss.as

cartas de Vossa S.ria a primeira de 18 de Julho que

ja lhe acusei o recibo, a segunda de 8 Agosto

recebida neste Correyo, a ambas respondo agrade-

cendolhe infinitam.te a continuacão de tantos favores

que a grande sua bondade me comparte, dezejo em

todo o tempo poder coresponder com o fraco meu

prestimo com a frequençia dos seus estimadissimos

mandamentos.

Muito gostei de houvir a boa chegada a Essa

Corte dos Dois Navios Maria Thereza; Despacho


Englezes, e que de ambos em força dos respectivos

conhecimentos Vossa S.ria foçe servido mandar procu-

rar todas as Fazendas que de sua encomenda lhe

remetj para uzo do Regio Theatro, e que todo achasse

conforme as Facturas distinctas da mim enviadas a

Vossa S.ria.

Tomo pois por effeito da grande sua sinceri-

dade os sabios advirtimentos que Vossa S.ria me da

para meu governo em outras occasiões: Porem não

deixão de causar em mim hum grande desprazer por

que faço quanto me he possivel para bem acontecer em

todo que pertençe ao Real Servico, de qualquer forma

me consolo que no falto de diligentia, e sendo o discurso


sobre das Fazendas de seda que custam caras:

Estas são da melhor acreditada Fabrica de Florencia,

onde he costume de fazer as ditas Fazendas da major

perfeição, bom corpo, e vivas Corres, e la he proibido

vender roupa com mofo; Depois he impossivel que se

ache fazendas de seda avariadas, e que conservem

colores vivazes conforme Vossa S.ria me recomendou na

encomenda: Disse a Vossa S.ria que o Preco notado

na sua Factura era só a seu governo: he preciso ver

para fazer hua Conta justa o beneficio da medida

que darão tantas Braças de Florencia a essa de

covados, que só este beneficio he o motivo que pareçe

que ahi pellos mercadores se vendem mais baratto:


Depois he precizo metter ao confronto hua qualidade

com a outra, e ver q.m he milhor e mais baratto, ou o mais

caro: Vossa S.ria me responderá que não importava

foçem de tão boa qualidade conforme a sua carta de

28 Dezembro pp, mas na mesma tenho tambem osser-

vado que se me recomendava de executala com a mayor

brevidade: Para fazer cumpra de roupas avariadas

era precizo hum tempo infinito convem esperar que

se de o cazo que qualquer peça venha das Fabricas

com algum defeito este sempre hum cazo he, porque

nas Fabricas sempre procurão fazer fazendas capaz e

de bom conceito: Na Italia estas Fazendas avariadas

para que não se queimem ao fogo conforme as Leys


se vendem escondidamte aos Judeos. Em Florencia pella grande

actividade e diligentia poucas dellas sahem fora: algumas

mais pode ser aquj em Genova, e para fazer hua espe-

riencia faço estar em diligentia hum Pratico que logo de

achar hua ou duas Pecas as cumpre, e por hua amostra

as remetterei a Vossa S.ria, observera se poderão servir,

e assim poderei continuar nesta diligentia de cumprar

de ditas fazendas de sedas quando se offerecem, mas nunca

mais serà possivel eiffetuar hua enteira Factura com

Fazendas de pouco credito.

Pellas outras Fazendas que não hà queixas para

não acharse ahi das mesmas; Vossa S.ria fique certo e

descancado, que os meus amigos hão a major premura e

empenho de procurar a mais grande vantagem e diminuto preço.


Pella nova encomenda que Vossa S.ria me tem

feito de outo cento Bracas de Veo de Bolonha Lavrado,

chamado garca de varias qualidades; logo o comettj

ao meu amigo de dita Cidade; me responde que

primeiro para não tomar erro lhe he precizo saber

a medida de dito Veo Lavrado, Largura, e Cumprido, e

de lhe mandar a seu governo hua amostra; assim

rogo a sua bondade de me a enviar com primeiro

Navio debaixo do meu sobrescritto que logo no istante

da chegada a recebo: Entretanto escrivi ao dito meu

de mandarme hua Peça para poupar tempo; e eu logo

a envieri a Vossa S.ria pello primeiro Navio a qual servirà

de mostra se for de gosto e agrado.

Fico sciente quanto Vossa S.ria me avisa a respeito


das arias pello seu Sñr Compadre Bom tempo, que não

quer composições novas, como forão alguas das remettidas,

mas sim Copias de bons Mestres, como serão as outras

que ainda me ficam de lhe remetter.

Esqueciame dizer a Vossa S.ria na execussão

das encomendas para uzo do Regio Theatro pella major

conveniençia de Sua Mag.de Nosso Real Amo /que

D.s G.de/ todo vem cumprado, e pago, a dinheiro de contado,

varias vezes como foy agora achome em dezembolso, e

procuro suprir com as fracas minhas forcas; He

verdade que o Dito Augusto Amo me tem feito fazer

bôa remeça do Ill.mo Sñr D.m Estevão Pinto De Morães,

mas para suprir a todos os encargos que tenho achome

jà novam.te em dezembolso, e agora alem de hum Muzico


Basso, e Dois mocos Portuguezes que eram a Napoles,

a estudar a muzica, devo tambem suprir as despezas

de sette Dancerinos tres dos quais com mulher de viagem

e embarque neste mez sobre do Navio Cecilia Maria

do Capp. m Schmerkell escriturados p.ra o Real Servico;

o amigo D.m Lucas Jovine me escreve em ocasião de

pedir Dinheiro para suprir as ditas despezas de

enterpor o seu bom meyo com o Augusto Amo; Assim

rogo a sua bondade de fallar a Sua Mag.de para que

seja servido ordenar de me ser feita hua nova re-

meça, e no proximo Correyo sobre deste particular

escreverei ao dito Sñr. Estevão Pinto e perdoe

a minha confiança.

Por fim pecolhe de excusar a matraca e de


de me compartir a honra do seu servico, e com o major

respeito bejo as mãos de Vossa S.ria que D.s G.de M.s A.s

Genova aos 5 Settembro1774.

De Vossa S.ria Ill.ma

O mais respeitoso Obrig.mo C.do e f.º

João Piaggio