- Sumário
- Carta de Carl Israel Ruders sobre uma companhia espanhola (13 Agosto 1800)
- Ano
- 1800
- Comentário
- Tradução de Portugisisk Resa, beskrifven i bref till vänner, 3 vols., Stockholm, 1805-1809, publicada pela primeira vez no Diário de Notícias de 1908
- Impresso
- Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal, 1798-1802, trad. de António Feijó, pref. e notas de Castelo Branco Chaves, Lisboa, Biblioteca Nacional («Série Portugal e os Estrangeiros»), 1981, pp. 113-118
[Carl Israel Ruders]
Carta X
13 de Agosto de 1800
(...) prometi dar notícias, de tempos a tempos, do movimento teatral nesta cidade. Chegou o momento de cumprir a minha promessa, começando por falar dos espanhóis - uma companhia ambulante sem mulheres, é claro - que chegou aqui pelo S. João e que obteve licença para dar espectáculos no Teatro do Salitre. Durante a minha estada em Setúbal, por ocasião da Páscoa, já tinha ouvido falar desses espanhóis, mas não assisti, então, a nenhuma das suas representações. Agora vieram tentar fortuna à capital e, após cinco ou seis espectáculos, viram-se obrigados a empacotar todas as suas magnificências e partir. Além de diversas comédias, cujo assunto era, provavelmente, tirado de algum velho livro de contos infantis, tinham no reportório um drama, que os cartazes anunciavam como uma maravilha. Intitulava-se A Fidelidade Recompensada. Ao subir do pano, via-se o rei Frederico, o Grande, da Prússia, sentado e envolto numa capa à espanhola vermelha, ouvindo um velho general contar-lhe passadas aventuras guerreiras. Inútil dizer que as façanhas do general eram o assunto da narração. Mais além não posso eu levar o resumo da peça, porque, nesta altura, saí do teatro aborrecidíssimo e nunca mais lá voltei.
Ouvi depois contar que também os portugueses se mostraram descontentes, tanto com esse desfigurado Fritz, como com o seu general, e que ambos foram pateados. Depois disso, como ninguém mais ia ao teatro, quer se representassem peças alegres ou sérias, quer se dançassem fandangos ou boleros; e como os raros espectadores que lá apareciam não cessavam de patear - os pobres espanhóis puseram termo aos espectáculos e abandonaram, a toda a pressa, esta ingrata Lisboa.
O teatro português da rua dos Condes, depois da minha referida carta, passou por diversas fases.
O teatro, como disse, tinha então escriturado uma actriz e esperava-se, nessa época, que seria concedida permissão para mais. Essa esperança, porém, desvaneceu-se subitamente, recebendo os empresários, justamente no momento em que os teatros iam abrir, ordem para não exibirem mulheres em cena. Depois de alguns dias de demora, os espectáculos começaram por fim, mas todos os papéis de mulher eram desempenhados por homens.
Esta deliberação não podia, de forma nenhuma, agradar aos portugueses já habituados a ver mulheres autênticas no teatro. Quando a princesa do Brasil, no mês de Abril, deu à luz uma infanta, os empresários puseram-se em campo para obter a revogação dessa ordem e, durante esse tempo, iam dando peças em honra do regente, como A Nação Ditosa, A Desordem na Romaria e outras no mesmo género.
Cantavam-se, também, versos alusivos ao feliz acontecimento, mas até ao Espírito Santo nenhuma actriz foi admitida; só homens. Então apareceu em cena, pela primeira vez, Ana Isabel Reuter, sobrinha de um compatriota nosso, Kerrulf, católica e aqui residente.
Esta actriz tem uma figura linda e fina, canta bem, sem, contudo, ter uma grande voz, e não deixa de possuir uma certa habilidade para representar. Sucessivamente, duas novas actrizes vieram aumentar o número das mulheres de teatro, quer dizer, da mulher escriturada na Primavera, e mais uma espanhola recentemente chegada do Porto que também tem boa voz.
Esta última não serve senão para papéis de criada, mas representa-os vantajosamente, embora deixe muitas vezes os seus olhos brejeiros atear incêndios pela plateia parecendo dar mais atenção aos espectadores do que aos artistas que lhe dão a réplica.
Por causa da distância só raras vezes vou a este teatro apesar de nele trabalharem muitos actores de merecimento e que dia a dia com a prática, vão aperfeiçoando os seus talentos. Entre as melhores peças que, ultimamente, foram levadas à cena, devo notar uma que se intitula José II, Imperador da Alemanha. Todos os artistas que nela tomam parte, compreendendo os homens que fazem papéis de mulher, cumprem bem o seu dever e, em regra, não representam mal; mas aquele que desempenha o papel de Imperador é um óptimo artista. A peça é, provavelmente, uma tradução.
Há nela um papel de cego que, na minha opinião, é magistralmente representado.
O Teatro Italiano, depois da minha anterior notícia, também experimentou fortuna vária.
Como no Teatro do Salitre, justamente quando os espectáculos iam principiar, os empresários, à falta de actores para desempenharem os papéis de mulher, viram-se na mesma dura necessidade de adiar a abertura do teatro por tempo indeterminado. (...)
em resultado da proibição do governo, não houve espectáculo no Teatro Italiano durante três semanas. O castrado Caporalini, que vai muito bem nos papéis de mulher, tinha partido do país descontente com a pateada a que me referi, na minha notícia anterior sobre teatros.
Por fim, ao cabo de muitos trabalhos, Luigia Gerbini recebeu nova permissão de representar e os espectáculos começaram com Giulietta e Romeo.
Na primeira récita, Crescentini cantou alguns versos em louvor do príncipe regente, a propósito do nascimento da infanta. Numa outra récita foram também lançados versos para a plateia, compostos, como os anteriores, pelo poeta Caravita, contratado este ano pelo teatro, e cliente do castrado Crescentini. Os versos foram impressos com autorização dos censores. (...)
Diz-se que foi o próprio Crescentini quem pagou as despesas da impressão...
O Teatro conservou-se assim até ao fim de Junho, nesta espécie de abjecção.
Nenhuma actriz, excepto Luigia Gerbini; nenhuma dançarina, nenhuma peça nova. Havia três espectáculos por semana, alternando-se a Giulietta e Romeo com Dona Inês de Castro, e mais duas velhas peças. Mas no dia de S. João, deu-se, pela primeira vez, um drama lírico heróico, intitulado Alessandro nell'Indie - um dentre os melhores imortais trabalhos do grande Metastasio. O drama teve 18 representações seguidas, mais de quatro por semana, o que pode considerar-se como o mais alto e extraordinário êxito.
De hoje em diante continuará a representar-se, de quando em quando, alternadamente com outras peças, mas sempre indubitavelmente, com os mesmos aplausos.
A música deste drama é de Caruso, mas diversas árias e coros foram acrescentados pelo director da orquestra do teatro, Federici. Cenário e guarda-roupa são completamente novos. O anterior costumier do teatro foi despedido, no fim da última época e para o substituir veio de França o Sr. Gera. (...)
No dia 15 de Julho subiu à cena, de novo, uma tragédia lírica, chamada A Morte de Cleópatra.
Estreou-se nela Mariana Vinci. Esta actriz tem uma voz linda, clara e forte.
Nunca vi mulher nenhuma cantar com tanta expressão como ela, sobretudo em certos dias. Um deles foi quando Crescentini, por doença ou por despeito, não conseguiu dar relevo do seu papel; nunca Mariana Vinci cantou com mais brio e frescura; também Crescentini nunca pôs em acção mais recursos e aptidões do que na noite em que ela se estreou.
O castrado, posto que a exceda em saber, em escola e em extensão de voz, não pode suportar ao seu lado nenhum outro talento. É por este motivo, junto talvez a outros que desconheço, que os dois artistas são já inimigos figadais.
A Signora Vinci tem uma figura bela e avantajada, um rosto cheio de encantos, apesar dos seus 30 anos já passados, e um porte majestoso; mas, no seu todo e nas suas maneiras, dá ideia de uma completa Preciosa. Por esse motivo não conseguiu agradar a todos os espectadores nos papéis de alta tragédia, mas dá-nos uma espécie de compensação na excelente maneira de cantar, em que ela ultrapassa Luigia Gerbini. O público recebe-a sempre com salvas de palmas. E, a seu respeito, nada mais, por hoje, visto que ela ainda pode ser considerada como hóspede neste país.
Quem, como dantes eu próprio, só pelos livros conhecer o teatro italiano - uma peça de Metastasio, dada num belo teatro, com belas e apropriadas ornamentações e com excelente música, interpretada por vozes italianas e por uma boa orquestra - deve, naturalmente, sentir-se surpreendido, sobretudo um homem do norte, que na sua pátria não houve nunca o bel-canto italiano, nem a voz de um grande cantor castrado, ou mesmo de qualquer castrado ordinário.
Por mais esforços que empregasse, não encontraria nunca palavras com que pudesse dar uma ideia do admirável canto de Crescentini! Mas as minhas impressões pessoais são sempre tão vivas que eu sinto um grande prazer em falar dos espectáculos em que ele tantas vezes nos encanta, a nós que estamos no lugar dos seus triunfos.
Em outra ocasião farei referência aos anais do corpo de baile, melhorado nesta estação.
Até lá, sou etc.