- Sumário
- Carta de Carl Israel Ruders sobre a peça Giannina e Bernardone (24 Janeiro de 1801)
- Ano
- 1801
- Comentário
Tradução de Portugisisk Resa, beskrifven i bref till vänner, 3 vols., Stockholm, 1805-1809, publicada pela primeira vez no Diário de Notícias de 1908.
Há cópia manuscrita do drama, um autógrafo do copista António José de Oliveira.
- Impresso
- Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal, 1798-1802, trad. de António Feijó, pref. e notas de Castelo Branco Chaves, Lisboa, Biblioteca Nacional («Série Portugal e os Estrangeiros»), 1981, pp. 169-172
[Carl Israel Ruders]
Carta XVI
24 de Janeiro de 1801
O inverno é a estação em que os empresários de teatro recolhem as mais óptimas colheitas, embora em Lisboa tenham de partilhar uma boa parte dos lucros com certas figuras da companhia, muitas das quais conservam o ano inteiro todos os seus vencimentos.
Os italianos, durante o ano findo, reforçaram consideravelmente o seu pessoal, tanto para a representação como para a dança.
No dia 14 de Outubro foi de novo posta em cena uma das mais velhas peças do reportório, intitulada Giannina e Bernardone.
É uma comédia baseada principalmente nos ciúmes dum homem casado.
Debutaram nela duas novas actrizes, madame Bariassina (não precisamente bela, nem excelente cantora, mas suportável como mulher e engraçada como buffa) e mademoiselle Bedotti (velha e feia, má cantora e má actriz).
A peça é, do começo ao fim, bastante divertida e tem música muito bonita.
Entre [os] artistas são dignos de nota Bariassina e a mulher, Tavani como oficial de hussares húngaros, e Praunn como suposto amante.
As duas árias de Praunn são muito belas e costumam ser sempre bisadas pela plateia. Esta peça representa-se muitas vezes consecutivamente, e sempre com aplausos. Os teatros estiveram contudo fechados durante alguns dias em virtude dos actos de penitência que foram decretados para afastar do país a peste e a febre amarela.
O dia do nascimento da rainha, que cai a 17 de Dezembro, foi celebrado em todas as casas de espectáculos de Portugal. A tribuna real abre-se nesse dia de par em par, e tanto ela como os outros camarotes, aparecem iluminados com gosto.
Em geral, nestas ocasiões é costume dar alguma peça nova. Os empresários tinham uma nova ópera em preparação, mas o Intendente da polícia, que se quer salientar pelo zelo no serviço, proibiu a sua representação. Os trocistas, que aqui são bastantes, riem-se abertamente do seu critério, tanto mais que todas estas proibições são feitas sempre à última hora, deixando os interessados nas mais sérias dificuldades para substituir o espectáculo. Além disto, todos têm a certeza de que a proibição se não mantém, cessando sempre ao cabo de algum tempo.
Em tais ordens não se descobre outro motivo se não o desejo do Sr. Manique mostrar de tempos a tempos o seu poder aos habitantes da cidade, sem o que eles poderiam esquecer-se, pela falta de serviços policiais, de que a capital na sua pessoa deve respeitar o intendente.
Deu-se por isso nessa noite Alessandro nell'India, mas os empresários não perderam nada porque todos os bilhetes estavam vendidos. Ao subir o pano Tavani cantou uma ária em louvor da rainha.
A proibição do intendente da polícia contra a nova ópera não durou mais de quatro dias, porque já no dia 21 de Dezembro a ópera Adrasto Ré d'Egitto subia à cena, embora os exemplares impressos não possam ainda expor-se à venda.
O autor que é um oficial chamado Gamera, foi quem inventou toda a fábula; Adrasto não é nenhum verdadeiro personagem histórico. A música para esta ópera foi composta pelo Sr. Portugal, que durante muitos anos esteve em Itália, onde educou o seu espírito segundo o gosto italiano. Essa música é geralmente elogiada.
A abertura obteve grandes aplausos, e o Sr. Portugal, no seu benefício em 22 de Dezembro, deve ter ganho 2000 riksdalers. Com o meu pobre poder expressivo, não posso dar uma ideia exacta do admirável cenário desta ópera. A minha descrição seria pálida.
Imagine-se uma praça imensa, ornamentada com obeliscos e estátuas, um arco de triunfo, através do qual se avista a perspectiva de uma bela cidade; a chegada de um herói ao alto de um carro triunfal, tirado por belos cavalos, e rodeado pela multidão do povo de diversas nações; um cortejo de tropas com bandeiras e troféus, e ao fundo camelos e elefantes carregados com os despojos do inimigo; - e poderá assim fazer-se uma ideia do começo do espectáculo. O efeito do conjunto não pode no entanto ajuizar-se pelas ornamentações que de ordinário se vêem nos teatros.
É difícil descobrir-se nesta peça o motivo da proibição do Intendente da polícia; não há nela vestígios de quaisquer culpáveis opiniões políticas; ao contrário contém até traços da mais pura lealdade, como por exemplo a ária em que Lacontes jura salvar o seu Rei e amigo Learchus ou morrer.
O talento dos primeiros dançarinos e dançarinas do Teatro Italiano tem tido ensejo na presente estação de ostentar todo o seu intenso brilho em sucessivos bailados e pantomimas.
Na minha carta de 10 de Novembro referi-me ao bailado heróico, O Julgamento de Páris. Para os benefícios das primeiras figuras do corpo de baile, foram-nos proporcionados, antes do fim do ano, quatro grandes pantomimas-bailados.
Mademoiselle Monroy realizou a sua festa no dia 29 de Novembro com a pantomima-bailado intitulada Annette e Lubin. É tirada de um dos cantos de Marmontel. Para mademoiselle Hutin cujo benefício se realizou em 5 de Dezembro, compôs o mestre da dança uma outra chamada A Busca Juízo.
Esta espécie de pantomimas-bailados, não é muito do gosto do público que está habituado a assuntos heróicos. Na primeira vez, vê-se com prazer; na segunda boceja-se.
Há dois ou três anos não era eu, sem dúvida, desta opinião. Lembro-me ainda do tempo em que eu tanto gostava do bailado La Marchande de Modes, e doutros do mesmo género.
Mademoiselle Hutin é mestra na arte de lisonjear o público e de o fazer pagar os prazeres que lhe oferecem. De mãos postas, joelho em terra e olhos suplicantes, é como ela acolhe as demoradas salvas de palmas, com que é recebida às chamadas; e quando fez benefício, foi de carruagem a casa de todos os assinantes para se informar directamente se desejavam ou não ficar com os seus camarotes, recebendo ela o dinheiro em pessoa.
Além disso mandou imprimir o programa com o resumo do bailado, num folheto de 14 páginas em oitavo, com uma dedicatória à Nação Portuguesa, folheto que vendia a dois tostões, cerca de 20 schillings suecos.
Por este processo obteve uma receita consideravelmente maior que a do benefício da Monroy.
Agora diz-se que as principais figuras do corpo de baile vão partir para a Rússia, mas provavelmente é projecto que se não realiza.
É pretexto para obterem melhores escrituras que as da estação finda.
Crescentini faz todos os anos ameaças desta natureza, ele que aqui tem amontoado riquezas. Imagine-se que, além do benefício, recebe por ano 16000 cruzados (8000 riksdalers).
Mademoiselle Hutin, segundo se diz, também se não retira de cá com as mãos vazias. Foi contratada para a estação por 6000 cruzados, e obteve talvez uma soma igual com o seu benefício. E tudo isto pode [ela] economizar, porque o castrado Crescentini é quem lhe paga a casa, e quem lha montou com excelentes móveis. Além disto fez-lhe presente da baixela de prata, deixa-a servir-se da sua carruagem e dá-lhe ainda para o resto das suas despesas 100$000 réis por mês, com cuja soma ela e a mãe podem perfeitamente viver. O castrado Crescentini é o único indivíduo, que eu saiba, que aqui se permite ter uma maîtresse déclarée.
Não sei se mademoiselle Hutin pode com razão considerar o seu viver íntimo com castrados mais honesto do que com os outros, mas aqui há muita gente que não leva o caso a bem. Entre Crescentini e madame Vinci a inimizade aumenta, porque esta última continua a considerar como indignas as propostas amorosas de um castrado.
Afirma-se que ela, na Primavera, será forçada a abandonar o Teatro Italiano.