- Sumário
- Artigo para o Jornal Enciclopédico sobre a técnica do actor trágico e do actor cómico (1789)
- Ano
- 1789
- Biblioteca/Arquivo
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- Cota
- Real Mesa Censória, caixa 460
Jornal Enciclopedico
Artigo 4º
Sobre a Representação Teatral
Tão persuadidas estão todas as nações civilizadas de que os teatros, quando a honestidade e decência os qualifica, são, de todos os divertimentos, o mais útil e deleitável, que cada uma concorre quanto pode para a perfeição deste belo invento da sociedade humana. Prescindindo, porém, da disputa sobre a inocência e utilidade destes teatros, o que se deve cuidar é
que se premeiem os melhores dramas, sobre o que já insistimos no Jornal de (…), e sempre de boa mente insistiremos em ocasiões oportunas. É a Academia Real das Ciências de Lisboa mui digna de louvor por ter destinado nos seus programas prémios para a melhor comédia e tragédia nacional, contudo, desejaríamos nós, a poder ser
que houvesse, sim, avultadíssimo prémio para aquela composição que desempenha-se dignamente o desígnio desta sábia sociedade , mas também se deveriam premiar todas as mais que tivessem concorrido, ainda que alguns defeitos seus fossem palpáveis; porque assentamos que é este o único meio de se animar este género de composição. Com bem desprazer nosso, lemos em todos os jornais estrangeiros milhares de comédias e tragédias dadas à luz, entre as quais muitas há de grande merecimento, quando entre nós, a não serem algumas traduções, são raríssimas as que aparecem, e essas bem ordinárias. Como, porém, os prémios sejam o melhor estímulo para que cada um se abalance a qualquer empresa, esforçando-se em desempenhá-la o melhor que lhe é possível, desejaríamos que se premiassem todos os dramas que à Academia se oferecessem, à proporção do seu merecimento.
até que se difundisse o gosto deste género de poesia e que achassem os estrangeiros no nosso Jornal tantas composições quantas nós admiramos nos seus excelentes papéis periódicos.
É a forma dramática o vestido mais vistoso e que melhor assenta na moral; e podemos afirmar que de todos os géneros da literatura o mais interessante e o mais útil, é aquele em que se nos pintam as ridículas extravagâncias da socieda, os perigos das paixões violentas e a estimável beleza da virtude. Nada como o drama desempenha fielmente tudo isto, porque os mais sólidos preceitos da moral, introduzidos em algum discurso ou poema, fazem pela maior parte bem fraca impressão; e a razão é porque não são bem disfarçadas. A História, sim, parece mais instrutiva, porém, as suas lições nem sempre são convenientes à nossa situação, nem apropriadas ao nosso uso
Mais se aproximaria o romance aos nossos costumes, se ele se contivesse nos limites da verosimilhança; e, porém, uma certa graça lhe falta, que dá alma e vida a toda a ficção, qual é o diálogo. Eis aqui, pois, o motivo por que Richardson, que aperfeiçoou ou talvez criou o romance moral, fez quase sempre falar as suas personagens e bem podemos dizer que são os seus romances verdadeiros dramas. Como, porém, a sua extensão e imensos episódios anojem, algumas vezes, a vivacidade do leitor impaciente, são logo as comédias e tragédias as que retratam ao vivo a imagem da vida humana, a ocultando, debaixo do véu de uma intriga divertida, a de uma acção que excite a nossa sensibilidade, excelentes princípios próprios para instruir as pessoas de todas as idades, e de todos os estados.
Não basta, porém, que hajam excelentes dramas, preciso se nos faz ainda que para satisfazerem completamente ao fim a que se destinam, igualmente se formem cómicos perfeitos. O presente ensaio servirá ao menos para que o público, que os admira, saiba dar-lhes o seu verdadeiro valor.
Vendo Aristóteles com grande penetração e agudeza de engenho, tirado às regras da poesia que a nós nos transmitiu, assim dos perfeitos modelos da antiguidade como da singela natureza, e tendo-nos igualmente ensinado o como dever-se-iam pintar as personagens nas tragédias a respeito dos costumes, acções, caracteres e situações teatrais, ou já movendo a compaixão, ou já excitando o terror nos circunstantes, dá um excelente preceito ao poeta que quiser com brio sobressair naquele género de composição: o poeta, diz o filósofo, pro-
procurará com o maior esforço imaginável, figurar-se, revestir-se e comover-se daqueles mesmos afectos que pretende excitar nos seus ouvintes e, movendo-se a si próprio, do mesmo modo moverá a todos os mais. Daqui nasce o sobressalto[s] e perturbação que sentimos, vendo e q. q.r cercado de sustos e aflições, e [e] irarmo-nos, vendo a alguém enfurecido e encolerizando-se . Segue-se, pois, que a Poesia não é só própria de grandes talentos e fecundos engenhos, mas também dos que se acham inspirados de entusiasmo e furor divino: aqueles inventam com facilidade e agudeza, estes elevam-se como arrebatados sobre si mesmos.
Compreendendo este preceito, assim o poeta, como a personagem dramática, por uma bem deduzida consequência, estender-se-á também ao imitador ou representan-
tante no teatro. Não poderá o poeta formar uma personagem aflita ou irada se, antecipadamente, não tiver formado em si, com o seu talento, a mesma personagem, dando-lhe o correspondente afecto de que se acha agitado e as mesmas expressões, ou palavras que excitem aquela ideia; do mesmo modo esta personagem, assim condecorada no teatro, mal expressará a força do poeta, carácter e afectos com que o revestiu se o representante se não transformar naquela ocasião em poeta e personagem. Deve logo o poeta, quando compõe, transformar-se em personagem e cómico; e o cómico, quando representar, em poeta e personagem.
Duas são as partes principais que contem a acção dramática a respeito do cómico: a voz e o gesto ou, para melhor dizer, a expressão vocal e o bem ordenado movimento de todo o corpo.
Para uma e outra coisa, primeiramente se requer o que dá a natureza, que é boa voz e o corpo bem figurado e esbelto. Sobre este requisito concorre a arte para ajudar e aperfeiçoar a expressão e os movimentos, cujo fim é a imitação própria, digna, e decorosa, ou a representação com propriedade, dignidade e decoro.
Antes que o cómico aspire a este emprego, conheça primeiro ou consulte se a sua voz é suave, sonora, clara, cheia, forte, flexível, doce; bom o peito, cara, corpo, figura, soltura e graça de membros, acomodados à personagem, ou papel que vai representar: de outra sorte, ou para nada servir os concorrentes somente se poderá empregar em ridículas figuras. Como psebos X Das combinações destas qualidades de vozes resultará ser o cómico mais ou menos idóneo para certos papéis; por exemplo uma voz, suave, flexível, doce, é mais
própria para se nela expressar o amor de um primeiro galã, quando a voz forte, cheia ligeira, servirá para o segundo X, terceiro galã. Se a voz, porém, for grave, pausada X para um pai ancião. Em todos estes, porém, deve sempre a voz ser limpa, sonora, clara, nunca fanhosa e escura.
O gesto da cara, mais ou menos robustez de corpo, mais ou menos altura, mais ou menos delicadeza no movimento dos braços, pés, X, pode constituir diferentes figuras. Não se deveria enfim admitir no número de uma boa companhia representante figura alguma principal que não tivesse caracteres por todos aprovados, como os mais idóneos aos papéis a que se destina. Pelo contrario, sucede muitas vezes, que o primeiro galã é mais apto para terceiro, e o terceiro para segundo. Tu-
-do o que até aqui temos dito dever-se-á também aplicar proporcionadamente
às Damas * Julgará alguém que isto
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*Se as mulheres formam o delicioso, e amável ornamento das sociedades, muito principalmente o são elas dos teatros; pois não cedem este lugar a pessoa alguma e pretendem com sobeja razão ter a primazia no divertimento o mais útil e mais honesto que entre homens civilizados inventou a arte humana. São as mulheres, geralmente falando, as mais próprias para desempenharem o carácter que lhes compete sobre os teatros e que sabem expressar e contrafazer os afectos e as paixões que formam a alma dos nossos dramas.
A notável diferença que estabeleceu a Natureza nas proporções do corpo em ambos
são supérfluas miudezas, mas nós sus-
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os sexos argúi talvez outra ainda maior na[s] do espírito. Um corpo bem-feito, e robusto, músculos representados com aspereza, o contorno dos membros desenhados fortemente, feições da cara as bem assinaladas, formam a figurado homem; tudo é mais redondo nas mulheres, as feições são mais delicadas e os seus modos muito mais suaves. Seja embora natural ao homem a força e a majestade, as mulheres sempre terão em dote as graças e a beleza. A sua sensibilidade é excessiva; tudo o que for claro, vivo, natural e ajuizado agradar-lhes-á à primeira vista. O que for, porém, escuro lânguido, constrangido, e embaraçado desgostá-las-á infinitamente. Podemos certamente dizer que elas são competentes árbitras das belezas essenciais da eloquência e da poesia, cujo fim é mover e agradar; e pois a impressão
tentaremos que elas são tão necessárias aos representantes, que faltando-lhes estas
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é a verdadeira pedra de toque do merecimento das obras de engenho, quem, como
elas, que são excessivamente sensíveis por natureza as poderia dignamente julgar e avaliar.
Bem desgraçadas serão as obras deste género que não arrancarem a sua aprovação. Como todas as paixões são movimentos da alma, e a maior parte relativas às impressões dos sentidos, as mulheres, sem dificuldade as sentem pela disposição da sua sensibilidade, quando os homens, forcejando para as quererem imitar, e saindo da sua esfera, arruínam, muitas vezes os melhores dramas. Países há na Europa, e assas iluminados, que entre as vidas das mulheres de raro merecimento colocam com bom gosto as d’ as mais célebres cómicas
prendas para saberem bem imitar, nem
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e isto não deve admirar a quem conhece a dificuldade que há em desempenhar com acerto todos os preceitos da admirável arte da representação. Ainda mais, sucede muitas vezes entre nações estrangeiras não aparecerem excelentes dramas nos teatros por faltar uma cómica que represente com desempenho tal, ou tal papel: tão delicado anda isso lá por fora! Não se formam de um dia para outro grandes talentos de um e outro sexo: esperam-se de séculos em séculos aquelas almas grandes que com repetidos prémios venham animar as artes e as ciências e honrar aos que as cultivam. Luís XIV não animava só aos homens, as mulheres também figuravam excessivamente no seu reinado, distinguindo-se nas sociedades pela nobreza d’alma
toda a arte, nem todo o exercício os pode
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elevação de sentimentos, cultura e graças do espírito. Sendo a maior parte delas muito instruídas, não naquelas ciências sublimes, que não tocam no coração, e que não têm influência alguma sobre os costumes, mas na Historia, na Moral, na Literatura, o que bem confirma a prodigiosa quantidade de obras agradáveis que temos das mulheres desse tempo. Mas que desgraça! Entre nos tão pouco se cuida na educação das mulheres! Feliz virá a ser aquele século em que os pais de famílias sejam obrigados pelo Estado a mandarem educar seus filhos e filhas em escolas públicas para que os diferentes sexos aprendam aqueles conhecimentos que nos conduzem à felicidade temporal e eterna.
-rão nunca aperfeiçoar.
Tem a voz em si tantas modulações, quantas são as combinações que entram na expressão de cada afecto maior ou menor, mais ou menos aguda, mais ou menos grave, mais ou menos apressada ou vagarosa, porque todas têm a sua mediania: sobre estas diferenças surge o modo de dizer mais, ou menos suave, mais ou menos áspero, contraído, ou difuso, com a respiração continuada, ou interrompida, quebrantada e cortada com um soido decadente, aspirado, animado ou médio entre todos estes extremos. A paixão pois da ira usa de uma expressão aguda estimulada e levemente cortada; a compaixão e a tristeza, flexível, cheia, interrompida, chorosa; o medo, extenuada, baixa, titubeante, duvidosa, a força ou violência, ameaçadora, veemente, e
apressada; o regozijo suave, terna, abundante, gostosa, nem muito alta nem muito baixa; desenfado ou desdém grave, sem brandura, cheia e continuada com pouca interrupção. Tem a representação lugar em todas estas diferenças, e pode por meio da
arte ser muito bem dirigidas, e governada.
Assim como a voz e os modos de falar, que temos insinuado, explicam os movimentos e afectos da alma, do mesmo modo o semblante tem certas modificações, que por si mesmas explicam as paixões, ou dão outro tanto realce à expressão vocal, e que explicam assas a bondade dos actores trágicos e cómicos. Dotou a natureza o rosto do homem de tantos músculos e configurações, e tanta ligeireza no manifestar o interior, ou animar
a sua fala, que se não pode reflectir sobre isto sem confessar com assombro as maravilhas do criador. Tem os olhos, entre estas, o primeiro lugar com todas as partes que lhe são anexas, como as sobrancelhas, testa, faces, nariz. X Todos estes movimentos são compostos e quase nada fazem sem os olhos, que são, como se costuma dizer, as janelas da alma.
A cólera e ira figuram-se com o pescoço levantado, os olhos fortemente vibrados para o objecto, mas sombrios pela contracção da testa e das sobrancelhas, a que vulgarmente chamamos carranca. Participam alguma coisa deste movimento o desprezo, e ódio com a diferença de se voltar a cabeça alguma coisa do objecto, seguindo o mesmo movimento os olhos baixos, e algum tanto torcidos. O zelo participa da figura de ambos.
Faz a tristeza que a cabeça se
incline um pouco para baixo, caída a um dos lados, os olhos baixos, e meios fechados, a testa e as sobrancelhas na sua natural disposição, e sem contracção alguma, aberta hum pouco a boca nas interrupções da fala. O abatimento e desconsolação aumentam esta figura, e tem de mais a curvatura do corpo, e outras expressões de pranto, levada a mão à testa ou aos olhos. A dor excessiva figura-se com uma inteira alienação dos sentidos, a cabeça levada ao alto caída, porém, a um dos ombros, os olhos levantados, e quase escondidos nas pálpebras; a testa um quase nada contraída, a boca meio aberta, o beiço debaixo naturalmente caído. Alguns suspiros sufocados concorrem e ajudam a todos estes movimentos.
Faz o medo com que a cabeça e costas
se inclinem algum tanto, pescoço encolhido, olhos tristes, espantados, movediços, votados frequentemente para trás, ou para o objecto que causa o terror, a boca meio aberta, e os beiços puxados para trás nas interrupções da fala, o beiço de cima levantado até o nariz, e este levado a cima pelos músculos das faces e da testa. Aumentam estas figuras o espanto e o terror; o horror, porém, carrega mais as figuras do ódio, da ira e do espanto.
Indicando a compaixão, dor, e sentimento das alheias misérias, tem os movimentos do amor, a saber, tristeza, e dor, com a diferença de dirigir os olhos, a atenção ao objecto miserável, e digno de lástima; outros muitos movimentos ajudam este afecto, resultando deles a ira, o horror, o ódio do objecto, que causa as misérias no objecto aflito, perseguido, miserável, e digno de compaixão, que é o fim a q’ se dirige a tragédia.
Bastará o pouco que temos dito respeito das configurações do rosto, e movimento dos olhos X para mostrarmos quanto é necessário e importante para o teatro o conhecimento destes sinais extremos para que, por meio deles, tenham as paixões todo o seu efeito, principalmente na tragédia.
Quanto, porém, aos movimentos dos braços e mãos, e mais partes do corpo, bem fácil é de conhecer o muito que ajudam à expressão, por exemplo, um passo feito para diante dirigido para o objecto que se vitupera ou a quem irritado se repreende, os braços arqueados, e levantados até o peito, e voltadas as palmas das mãos para o objecto alternando o seu movimento para fora ou para os lados. Dirige o ódio a mesma postura dos braços, mais levantados, porém, até o rosto, alternadas as palmas das mãos, o semblante voltado e meio corpo a um lado, um passo, ou dois atrás, desviando-se do objecto que se aborrece, ou de que
se tem horror. O amor, veneração, respeito, ou estima dirigem os braços arqueados ao peito, uma, ou as duas mãos levadas ao coração, um passo para diante, a cabeça inclinada com atenção para o objecto, o semblante risonho. A súplica, porém, exprime-se com os braços abertos, o rosto levantada ao alto, a postura direita X manifestando que implora com confiança o favor do céu. Deve-se ter tanto cuidado sobre o modo de se apresentar a figura no
teatro, por exemplo, no andar, sair, parar, ocupar o seu lugar, entrar X que um representante, por mais agradável voz que tenha, não sabendo executar bem estas funções, parecerá uma estatua; e, pelo contrário, uma representação expressiva e decorosa nos seus movimentos suprirá os defeitos da voz.
Pouco uso faz dos afectos o género cómico e, ainda que
alguma coisa participe dos insinuados ultimamente, deve-os contudo empregar com moderação. São, na comédia, principiais o prazer, a alegria, o escárnio, o ridículo, o amor, a atenção, a tranquilidade e todas as paixões mais vulgares e pequenas; e por isso se devem distinguir ambos os géneros na expressão vocal, no gesto e nas acções, conforme o carácter de cada um.
No repetir os versos deve haver grande cuidado, por exemplo
o tom com que se deve principiar, seguir, suspender, acabar, variar, X de sorte que se não siga uma monotonia, ou pancada de versos em prejuízo dos sentidos, e que senão ligue tanto a este, que destrua inteiramente a harmonia da oração medida. Estas circunstâncias, porém, deve antecipadamente ter o autor, sabendo ler os poemas para segundo elas moldar
os tons dos afectos. As vozes, ou as expressões, são como as cordas estendidas de um instrumento, que correspondem ao toque ou movimento da alma, que as fere, por exemplo, agudas, graves, prontas, tardias, grandes, pequenas, com a mediania, que também se acha nestes extremos. Os demais movimentos do semblante, e do corpo são uníssonos ou baixos que as acompanham. O representante é imitador da verdade, assim como pintor que anima com as suas cores, e dá força, e vigor ao objecto imitado; e são as cores do representante, com que anima e varia as suas personagens, a expressão, gesto e movimento decoroso e a situação do seu corpo. O vulgo ignorante, sem instrução alguma dos primores da arte ou preocupado a favor daquilo a que está costumado a ouvir, passa por alto estes
mesmos primores, ignorando o verdadeiro merecimento da instrução, da propriedade e destreza, estranha-o como alheio. Ele está afeito a aplaudir as extravagâncias de um bobo, que faz muitas vezes rir em lances sérios e graves; está costumado a ouvir elogiar muito ao cómico, que grita muito e acciona furiosamente, e por isso não gosta de movimentos moderados e artificiosos.
Se voltarmos, porém, os olhos para o bosquejo que temos feito de tantas e tão dificultosas prendas e circunstâncias de que necessita o representante para que se chegue e aproxime à ideia da perfeição, a respeito da expressão, gesto e movimento, poderemos logo afirmar que o vulgo ignorante, sem este prévio conhecimento, mal poderá decidir quem é bom cómico ou má cómica. Dirá al-
guém que aquilo que ele aplaude é do que gosta e que é indício de ser bom. Primeiramente o gosto do vulgo, quando este não é já bem-educado, não se funda em delicadeza e juízo, antes pelo contrário aplaude o ridículo, extravagante ou mau e vitupera o bom ou porque o não entende, ou porque se preocupa com a autoridade de outro, como ele de gosto estragado e outras vezes com partido, tenacidade e malícia. Três classes de pessoas se devem distinguir entre os concorrentes e espectadores do teatro. ConXA primeira é de poucos, esta é a dos entendidos; a segunda é a dos desapaixonados, ainda que entendidos não sejam como os primeiros; a terceira dos ignorantes, confundidos com os preocupados com algum partido. Os primeiros conhecem o verdadeiro merecimento da representação do cómico ou cómica. X Os segundos,
livres de paixão, divisam melhor os afectos e as mais perfeições conforme a sua
capacidade e tino: os terceiros, enfim, vêem o que se lhes representa, conforme as suas falsas ideias, e estes são os que costumam aplaudir com vivas e aclamações, não sabendo, infelizmente, nem o que aplaudem nem o que vituperam.
Imprima-se e volte a conferir. Mesa, 27 de Julho de 1789.
X X X
Artigo 4º
Jornal Enci-
clopedico
Tão persuadidas estão todas as nações civilizadas
de que os teatros, q.do a honestidade e decencia os qua
lifica são de todos os divertim.tos o mais útil e delei-
tavel; q’ cada huma concorre q.to pode p.a aperfei-
ção deste bello invento da sociedade humana.
Mas Persindindo porem da disputa sobre a inocencia e
utilid.e destes teatros, o q’ se deve cuidar he
a representaçao theatral
Sobre a arte de repre-
sentar nos thea-
tros
[De todos os divertim.tos nenhum ha ma-
-is innocente, nem mais útil do q’ o dos
theatros. Tão persuadidas estão todas as
nações civilisadas desta verd.e, que cada hu-
ma concorre .to pode p.a a perfeição des-
-ta bella invenção da socied.e humana. Já
hoje enjoam-se os estomagos delicados com
a disputa sobre a innocencia e utilid.e dos
theatros ,] o q’ se deve cuidar he q’ se preme-
em os melhores dramas , sobre o q’ já insis-
-timos no Jornal de … , e sempre de
boa mente vontade insistiremos em occasiões op-
portunas. M.to Louvamos à nossa Hé a Aca-
-demia real das SCiencias de Lisboa mui digna de louvorpor
ter destinado nos seus programmas, pre-
mios p.a a melhor comedia , e Tragedia nacio-
2 3 1 a poder
nal, dezejariamos nos contudo a |se pode ser|
q’ houvesse sim avultadissimo premio p.a
aquella composição q’ devem dezempenhase dignam.te o de-
sociedade 1
signio desta sabia corporação , mas tão-
bem se deveriam premiar todas as mais
q’ tivessem concorrido, ainda q’ alguns de
feitos seus fossem palpáveis; por q’ assenta-
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-mos q’ este he o unico meio de se anima-
-r este genero de composição. Com
bem desprazer nosso lemos em todos os
jornais estrangeiros milhares de comedias
e tragedias dadas à luz, entre as quais
m.tas há de g.de merecim.to, q.do entre nós
a não serem algumas traduções, são rari-
-ssimas as q’ aparecem, e essas bem ordi-
-narias. Como porem os premios sejam
o melhor estimulo p.a q’ cada hum se abalan-
ce à q. q.r empresa, esforçando se em de-
sempenhala o melhor que q’ lhe he possível;
por isso dezejariamos, q’ se premiassem
offerecessem
todos os drammas, q’ a Academia se pré-
-sentassem, à proporção do seu merecim.to
até q’ se difundisse o gosto deste género
achassem
de poesia, e q’ lessem os Estrangeiros
no nosso Jornal tantas composições, q.tas
nos admiramos nos seus excellentes papeis
periódicos.
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A forma dramatica he o ves-
tido mais vistoso, e q’ melhor assenta na
Moral; e podemos affirmar q’ de todos os
generos da Litteratura o mais interes-
sante, e o mais util, hé aquelle em q’
se nos pintam as rediculas extravagancias
da socied.e, os perigos das paixões violentas,
e a estimavel belleza da virtude: nada co-
mo o drama desempenha fielm.te tudo is-
to, porq’ os mais solidos preceitos da Mo-
-ral introdusidos em algum discurso, ou
Poema, fazem pela maior p.te bem fraca
impressão ; e a razão hé, porq’ não são bem
disfarçadas. A Historia sim parece
mais instructiva, porem as suas lições
nem sempre são convenientes à nossa
situação, nem apropriadas ao nosso uso
va se aproximaria
Avisinhase Mmais o romance aos nossos
costumes, se elle se contivesse nos limites da
1 2 3
verosimilhança; falta lhe e porem húa
4 5
certa graça lhe falta q’ dá alma, e vida à toda
a ficção, qual he ella o dialogo. Eis aqui pois o mo-
-tivo por q’ Richardson, q’ aperfeiçoou ou
talvez criou o romance moral, fez quasi
sempre fallar as suas personagens e bem
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podemos dizer q’ os seus romances são ver-
5
-dadeiros dramas. Como porem a sua
anojem
extenção, e os immensos episodios en-
fastiem algumas vezes a vivacid.e do lei-
-tor impaciente, são logo as comedias
vivo
e Tragedias, as q’ retratam ao natural
a imagem da vida humana, ou a occultando debaixo
do veo de huma intriga divertida, ou a
de uma acção q’ excite a nossa sensibild.e,
excellentes principios proprio-
os p.a instruir as pessoas de todas as
idades, e de todos os estados.
Não bastam porem q’ hajam
excellentes Dramas, preciso se nos faz ainda q’ p.a
satisfazerem completam.te ao fim a q’ se
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destinam, se formem-se iguálm.te comicos
perfeitos. O presente ensaio servirá ao
menos p.a q’ o publico, q’ os admira, sai-
-ba dar-lhes o seu verdadeiro valor.
Vendo Aristoteles com g.de penetração, e agu-
-deza de ingenho, tirado as regras da Poe-
-sia q’ a nos nos transmittio, assim dos perfeitos
modelos da antiguid.e, como da singella
natureza, e tendo-nos igualm.te encinado
o como dever-se-hiam pintar as persona
-gens nas tragédias a resp.o dos costumes,
acções, caracteres, e situações teatraes, ou ja
movendo a compaixão, ou já excitando o
terror nos circunstantes, dá hum excel-
-lente preceito ao Poeta q’ quizerse com re-
brio
putação sobre sahir naquelle genero de
Composição: o Poeta, diz o filosofo, pro-
procurará com o maior esforço imagina
-vel, figurarse, revestirse e comoverse da
-quelles mesmos affectos, q’ pertende ex-
-citar nos seus ouvintes, e movendose a
si próprio, do mesmo modo moverá a to-
mais
-dos os outros. Daqui nasce o sobresal-
tos
-temo nos, e a perturbamosção q’ sentimos –nos, vendo
É q. q.r cercado de sustos e aflicções, e
-e irar-mos-nos, vendo a alguem enfurecer ido
se, e encolerizar-se do. Seguese pois q’ a Poe-
-sia não hé só propria de g.des talentos
e fecundos ingenhos, mas tãobem dos q.’
se acham inspirados de enthusiasmo
e furor divino: aquelles inventam com
facilid.e e agudeza; e estes se elevamse co-
-mo arrebatados, sobre si mesmos.
Compre-
-hendendo este preceito assim o Poeta, como
a personagem dramática, por húa bem
deduzida consequencia, estender-se-ha
tãobem ao Imitador, ou representan-
tante no theatro. Se o Não poderá o Poeta jamais pode
formar húa personagem aflicta,
ou irada, se anticipadam.te não tiver for-
mado em si, com o seu talento, a mesma
personagem, dandolhe o correspondente
affecto, de q’se acha agitado, e as mesmas
expressões, ou palavras, q’ excitem aquel-
-la idea; do mesmo modo esta personagem
assim condecorada no Teatro mal expres-
-sará a força do Poeta, caracter, e affe-
-ctos com q’ o revestio, se o representante
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não se transformar naquella ocasião em
Poeta, e personagem. Deve Logo o Poeta
q.do compoem, transformarse em Personagé
e Comico; e o cómico q.do representar em
Poeta, e Personagem.
Duas são as p.es
principaes, q’ contem a acção dramática
a resp.o do cómico, a voz e o gesto ou
p.a melhor dizer a expressão vocal e o
bem ordenado movim.to de todo o corpo
P.a huma, e outra cousa primeiram.te
se requer o q’ dá a Natureza, q’ he boa
voz e o corpo bem feito: figurado e esbelto Sobre este requisi-
-to concorre a arte p.a ajudar e aper-
-feiçoar a expressão, e os movim.tos , cujo
fim hé a imitação propria, digna, e
decorosa, ou a representação com pro-
-pried.e, dignid.e, e decoro.
Antes q’ o Comico
aspire a este emprego, conheça pr.o , ou
consulte se a sua voz he suave, sonora,
clara, chea, forte, flexível, doce; bom
o peito, cara, corpo, figura, soltura, e
graça de membros, accomodados à perso-
-nagem, ou papel, q’ vai representar:
de outra sorte, ou p.a nada servir ao concurrentes ou so-
-mente p.a se poderá empregar em rediculas figuras. Como psebos X
Das combinações destas qualid.es de vozes
rezultará ser o Comico mais ou menos
idoneo p.a certos papeis; por exemplo
húa voz suave, flexível, doce, he mais
propria p.a se nella expressar o amor de
hum pr.o Galan; q.do a voz forte, chea
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g.de, ligeira, servirá p.a o Galan ter-
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-ceiro, segundo X Se a voz porem
for grave, pausada X p.a hum Pai na-
-cião. Em todos estes porem deve sem
-pre a voz ser limpa, sonora, cla-
-ra, nunca fanhosa e escura.
O gesto
da cara, mais ou menos robustez de
corpo, mais ou menos altura, mais ou
menos delicadeza no movim.to dos bra-
-ços, pes X, póde constituir differentes
figuras. Não se deveria emfim admit-
-tir no numero de húa boa companhia
representante figura algúa principal, q’ não tivesse
caracteres por todos approvados, como
os mais idoneos aos papeis a q´se des-
-tina. Pelo contrario succede m.tas
vezes, q’ o pr.o Galam he mais apto p.a
terceiro, e o terceiro p.a segundo. Tu-
-do o q’ até aqui temos dito dever-se-ha
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Tãobem applicar proporcionadamente
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às Damas * Julgarà alguém q’ isto
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*Se as mulheres formam o dilicioso, e a-
mavel ornamento das sociedades, mui
principalm.te o são ellas dos nossos Te-
-atros; Não pois não cedem ellas este lugar a
pessoa alguma, e pertendem com so-
-beja razão ter a primazia no diverti-
-m.to o mais util e mais honesto, q’ entre
homens civilizados inventou a Arte
humana. São as mulheres geralmente
fallando as mais próprias p.a desempenh-
-rem o carácter q’ lhes compete sobre os
Theatros, e q’ sabem expressar e contra-
-fazer os affectos, e as paixões, q’ formam
a alma dos nossos dramas.
A notavel
differença, q’ estabeleceo a Natureza
nas proporções do corpo em ambos
os sexos
são superfluas miudezas, mas nós sus-
------“---------“----------“--------“--------“--------
os sexos argue talvez outra inda maior nas
do espírito. Hum corpo bemfeito, e ro-
busto, músculos representados com as-
-pereza, o contorno dos membros dese-
3 4
-nhados fortemente, bem assignaladas
1 2
as feições da cara, formam a figura do
homem: tudo he mais redondo nas mu-
-lheres, as feições são mais delicadas, e
os seus modos m.to mais suaves. Seja em-
bora natural ao homem a força e a Ma-
-gestade; as mulheres sempre terão em
dote as graças e a belleza. A sua sensi-
-bilid.e hé excessiva; tudo o q’ for claro,
-vivo, natural e ajuisado agradar-lhes-
-há à pr.a vista: o q’ for porem escuro
lânguido, constrangido, e embaraçado
as desgostarálas-há infinitam.te. Podemos
certam.te dizer q’ ellas são competentes
arbitras das bellezas essenciaes da Elo-
-quencia, e da Poezia, cujo fim he mo-
-ver, e agradar; e pois q’ a impressão
tentaremos q’ ellas são tão necessárias
aos representantes, q’ faltando-lhes estas
------“-------“---------“------“-------“---------“
he a verdadeira pedra de toque do me-
-recim.to das obras de ingenho, qm como
ellas, q’ são excessivam.te sensíveis por
natureza as poderia dignam.te julgar e avaliar.
Bem desgraçadas serão as obras deste
género, q’ não arrancarem usurparem a sua appro-
-vação. Como todas as paixões são mo-
-vim.tos da Alma, e a maior p.e relati-
-vas às impressões dos sentidos, as
mulheres, sem difficuld.e as sentem apanham
pela disposição da sua sensibilidade,
q.do os homens, forcejando p. a as quererem
imitar, e saindo da sua esfera, arrui-
-nam , m.tas vezes os melhores dramas
Paizes ha na Europa e X assas illumi-
-nados, q’ nas entre as vidas das mulhe-
-res de raro merecim.to collocam com
bom gosto as d’ as mais celebres cómicas
prendas p.a saberem bem imitar, nem
-----“-----“-----“-----“-----“-----“-----“-----“
e isto não deve admirar a q.m conhece a dif-
-ficuld.e q’ há em dezempenhar com a cer-
-to todos os preceitos da admirável arte
da representação. Ainda mais, sucede
m.tas vezes entre nações estrangeiras
não aparecerem excellentes dramas nos
theatros por faltar húa cómica, q’ repre-
-sente com desempenho tal, ou tal pa-
-pel: tão delicado anda isso lá por
fora! Não se formam de hum dia p.a
outro g.des talentos de hum e outro sexo:
esperamse de séculos em séculos estas aquellas al-
-mas g.des q’ com repetidos premios ve-
-nham animar as artes e as ciencias
e honrar aos q’ as cultivam. Luiz XIV
não animava só aos homens, as mu-
-lheres tãobem figuravam excesivam.te
distinguindo-se
no seu reinado, Distinguindose ellas
nas socied.es pela nobreza d’alma
toda a arte, nem todo o exercício os pode
-----“-----“-----“-----“-----“-----“-----“-----“
elevação de
elevação de sentimentos, cultura, e
graças do espirito. Sendo a maior p.e
dellas m.to instruidas, não naquellas
Ciencias sublimes, q’ não tocam no Co-
-ração, e q’ não tem influencia alguma
sobre os costumes, mas na Historia, na
Moral, na Litteratura, o q’ bem com-
-firmar a prodigiosa quantidade
de obras agradaveis, q’ temos das mu-
-lheres desse tempo. Mas q.’ desgraça!
entre nos tão pouco se cuida na edu-
-cação das mulheres! Feliz virá a ser
aquelle seculo em q’ os Pais de famílias
sejam obrigados pelo Estado a manda-
-rem educar seus filhos, e filhas a se edu-
-carem em escolas publicas p.a q’ os
Differentes sexos apprendam aquelles conhe-
cim.tos q’ nos conduzem à felicid.e tem-
-poral, e eterna.
-rão nunca aperfeiçoar.
Tem a voz em si
tantas modulações, q.tas são as combinações
q’ entram na expressão de cada affecto
maior, ou menor, mais ou menos aguda,
mais, ou menos grave, mais ou menos
appressada, ou vagarosa, porq’ todas ~tem
a sua mediania: sobre estas differenças
surge o modo de dizer mais, ou menos
suave, mais ou menos áspero, contrahi-
do, ou difuso, com a respiração conti-
nuada, ou interrompida, quebrantada
e cortada com hum soido decadente, aspi-
-rado, animado ou médio entre todos estes
extremos. A paixão pois da ira usa de
huma expressão aguda estimulada,
e levem.te cortada. A compaixão e
a tristeza, flexível, chea, interrompida
chorosa: o medo, extenuada, baxa
titubeante, duvidosa, a força ou
violência, ameaçadora, vehemente, e
apressada: o regozijo suave, terna, abun-
-dante, gostosa, nem mui alta nem
mui baxa. O dezenfado ou desdém
grave, sem brandura, chea e com-
-tinuada com pouca interrupsão
Tem a representação lugar em todas
estas differenças, e pode por meio da
arte ser mui bem dirigigda, e gover-
-nada.
Assim como a voz e os mo-
-dos de fallar, q’ temos insinuado, explicam
os movim.tos e affectos da alma, do mesmo
modo o semblante tem certas modifica-
-ções, q’ por si mesmas explicam as pai-
-xões, ou dão outro tanto realce à ex-
-pressão vocal, e q’ explicam assas a
bondade dos Actores Tragicos, e Co-
-micos. Dotou a Natureza o rosto a cara
do homem de tantos músculos, e
configurações, e tanta ligeireza no
manifestar o interior, ou animar
a sua fala, q’ se não póde reflectir sobre
isto sem confessar com assombro as ma-
-ravilhas do Creador. Tem os olhos entre
estas o pr.o lugar com todas as p.es q’ lhe
são annexas, como as sobrancelhas, testa
faces, nariz. X Todos estes movimentos
são compostos; e quazi nada fazem sem
os olhos, q’ são como se costuma dizer as
Janellas da Alma.
A cólera, e ira figu-
-ramse com o pescoço levantado, os olhos
fortem.te vibrados p.a o objecto, mas som-
-brios pela contracção da testa e das so-
-brancelhas, a q’ vulgarm.te chamammos car-
-ranca. Participam alguma cousa
deste movim.to o desprezo, e odio com
a differença de se voltar a cabeça algu-
-ma cousa do objecto, seguindo o mesmo
movim.to os olhos baxos, e algum tanto
torcidos. O Zelos participam da figura
de ambos.
Faz a tristeza q’ a cabeça se
hum pouco p.a baixo
incline algum tanto p.a diante: Faz
o medo caida à hum dos lados, os o-
-lhos baixos, e meios fechados, a testa
e as sobrancelhas na sua natural
dispozição, e sem contracção alguma
aberta hum pouco a boca nas interru-
-psões da fala. O abatimento e descon-
-çolação aumentam esta figura, e tem
de mais a curvatura do corpo, e outras
expressões de pranto, levada a mão à
testa ou aos olhos. A dor exessiva
figurase com húa inteira alienação
dos sentidos, a cabeça levada ao alto
caída porem à hum dos hombros, os
olhos levantados, e quasi escondidos
nas palpebras.: a testa hum quasi na-
-da contrahida, a boca meio aberta,
o beiço debaixo naturalm.te caído
Alguns suspiros suffocados concorrem
e ajudam a todos estes movimentos.
Faz o medo com q’ a cabeça, e costas
se inclinem algum tanto, pescoço en-
colhido, ollhos tristes, espantados, move-
diços, votados frequente.te p.a traz, ou
p.a o objecto, q’ causa o terror, a boca
meio aberta, e os beiços puxados p.a
traz nas interrupsões da fala, o beiço
de cima levantado até o nariz, e este le-
-vado a cima pelos músculos das faces, e
da testa. Aumentam estas figuras o es-
-panto, e o terror; o horror porem carre-
-ga mais as figuras do ódio, da ira, e do
espanto.
Indicando a compaixão, dor, e senti
-m.to das alheias miserias, tem os movimentos
do amor, estima a saber tristeza, e dor, com a dif-
-ferença de dirigir os olhos, a attenção ao ob-
de com de lastima
-jecto miserável, e digno d’ apreço; outros m.tos
movim.tos ajudam este affecto, rezultando
delles a ira, o horror, o ódio do objecto, q’
causa as misérias no objecto afflicto, perse-
-guido, miserável, e digno de compaixão,
q’ he o fim a q’ se dirige a Tragedia. Bas-
-tará Bastará o pouco, q’ temos
dito,,”a resp.o q.to das configurações do rosto, e movi-
m.to dos olhos X p.a mostrarmos q.to he
necessário, e import.e p.a o theatro o conhe-
cim.to destes sinais extremos p.a q’ por meio
delles tenham as paixões todo o seu effeito
principalm.te na Tragedia.
Q.to porem aos
movime.tos dos braços, e mãos, e , mais p.es do
corpo, bem facil he de conhecer o m.to q’ aju-
-dam à expressão, por exemplo hum paço
feito p.a diante dirigido p.a o objecto q’ se
vitupera
impropera, ou a q.m irritado se reprehende,
os braços arqueados, e levantados até o pei-
-to, e voltadas as palmas das mãos p.a o
objecto alternando o seu movim.to p.a fora
ou p.a os lados. Dirige o ódio a mesma
postura dos braços, mais levantados po-
o rosto
-rem até a cara, alternados as palmas
semblante
das mãos, o rosto voltado, e meio corpo a hum
lado, hum passo, ou dous a traz, desvian-
-dose do objecto q’ se aborrece, ou de que
se tem horror. O amor, veneração,
resp.o, ou estima dirigem os bra-
-ços arqueados ao peito, huma, ou as
duas mãos levadas ao coração, hum
pás so p.a diante, a cabeça inclinada com
attenção p.a o objecto, o semblante riso-
-nho. A supplica porem exprimese
o rosto
com os braços abertos, a cara levantada
ao alto, a postura direita X manifestan-
-do, q’ implora com confiança o favor
do ceo. Devese ter tanto cuidado sobre
o modo de se apresentar a figura no
Teatro, por exemplo no andar, sair, pa-
-rar, occupar o seu lugar, entrar X
q’ hum representante por mais agradável
3 4 2
q’ tenha a voz, não sabendo executar
bem estas funções, parecerá húa estatua;
e pelo contrario húa representação ex-
-pressiva, e decorosa nos seus movim.tos
suprirá os defeitos da voz.
Pouco uso faz
dos affectos o genero cómico, e ainda q’
alguma cousa participe dos insinu-
empregar
-ados ultimam.te deve-os contudo usar
com moderação. São na comedia prin-
-cipaes o prazer, a alegria, o escarneo, o
rediculo, o amor, a attenção, a tranquilid.e
e todas as paixões mais vulgares, e pe-
-quenas; e por isso se devem distinguir
ambos os géneros na expressão vocal,
no gesto, e nas acções, conforme o cara-
-cter de cada um.
No repetir os versos
deve haver g.de cuid.o, por exemplo
o tom com q’ se deve principiar, seguir,
-suspender, acabar, variar. X
de sorte q’ se não siga huma mono-
-tonia, ou pancada deos versos em
prejuízo dos sentidos, e q’ senão ligue tan-
-to a este, q’ destrua inteiram.te a har-
-monia da oração medida. Estas
circunstancias porem deve antici-
-padam.te ter o Autor, sabendo
segunda formar
Ler os Poemas p.a sobre ellas edificar
Moldar
os tons dos affectos. As vozes, ou as ex-
-pressões são como as cordas estendidas
de hum instrum.to q’ correspondem
toque
ao golpe, ou movim.to da Alma, q’ as fe-
-re por exemplo agudas, graves, prontas,
tardias, g.des, pequenas, com a mediania,
q’ tãobem se acha nestes extremos. Os de-
-mais movim.tos do semblante, e do cor-
-po são unisonos, ou baixos q’ as acom-
-panham. O repr. 2
O Representante he imita-
-dor da verd.e, he assimcomo o Pintor, q’ ani-
-ma com as suas cores, e dá força, e vi-
1 3 4
-gor ao objecto imitado; e as cores do re-
-presentante com q’ anima, e varia a
2
sua personagem são, a expressão, gesto,
e movim.to decoroso, e a situação do seu
corpo. O vulgo ignorante, sem instruc-
-ção alguma dos primores da Arte
daquilo a que
ou preocupado a favor do q’ esta costu-
-mado a ouvir, passa por alto estes
mesmos primores, ignorando o verdadei-
-ro merecim.to da instrucção da propri-
ed.e e destreza, estranha-o como alheio.
2 1
Esta ellae xos affeita à aplaudir as extra-
-vagancias de hum bobo, q’ faz m.tas
vezes rir em lances sérios, e graves
está costumado a ver ouvir elogiar
m.to ao cómico, q’ grita m.to, e acciona
furiosam.te, e por isso não gosta m.to
de movim.tos moderados, e artificiosos.
Se voltarmos porem os olhos p.a o
2 1
bosquejo, q’ feito temos de tantas, e tão
difficultosas prendas, e circunstancias
de q’ necessita o representante p.a q’
se chegue, e approxime a idea doa per-
-feitação, a resp.o da expressão, gesto, e movi-
-m.to, poderemos logo affirmar, q’ o vul-
-go ignorante sem este prévio conheci-
m.to mal poderá decidir q.m he bom
Comico, ou má cómica. Dirá al-
-guem q’ aquillo q’ elle applaude he
do q’ gostoa eq’ hé indicio de ser bom
Primeiram.te o gosto do vulgo, q.do este
não he já bem educado, não se funda
em delicadeza e juízo, antes pelo contra-
-rio applaude o rediculo, e extravagante
ou mao, e vitupera o bom ou porq’ o
não entende, ou porq’ se preocupa com
3 4
a autorid.e de outros de gosto estragado,
1 2
Como elles, e outras vezes com partido, e
tenacid.e e malícia. Tres classes de pes-
-soas se devem-se distinguir entre os Com-
-currentes, e espectadores do teatro. ConXA
2
pr.a he de poucos, esta he a dos Eenten-
didos; a seg.da he a dos desapaixonados
inda q’ entendidos não sejam como os
pr.os; a terceira dos ignorantes, com-
-fundidos com os preoccupados com al-
-gum partido. Os pr.os conhecem o ver-
-dadeiro merecim.to da representação
do Comico, ou Comica. X Os seg.dos
Livres de paixão divisam melhor os affectos;
e as mais perfeições.
Conforme a sua
capacid.e e tino: os terceiros enfim vem
o q’ se lhes representa, conforme as suas
2 1
ideas falças; e estes são os q’ costumam
applaudir com vivas, e acclamações, e
não sabendo infelizm.te nem sabem o q’ applaudem,
nem o q’ vituperam.
Imprimase e volte
a conferir. Meza
27 de Julho de 1789.
X X X