Sumário
Arenga ou relação fiel das Festas que se fizeram na Cidade de Évora no prazo do casamento do príncipe D. Afonso, filho do senhor rei D. João II, fielmente apanhada do seu antigo original (1490)
Ano
1490
Localização
Biblioteca Nacional de Portugal (L. 3378 P.; http://purl.pt/5636)
Comentário
Os diferentes momentos dos festejos do casamento do príncipe Dom Afonso (descrição da sala de madeira; descrição de um banquete com representações de um rei da Guiné; descrição do segundo banquete; fala do rei da Guiné; descrição das justas realizadas; letras e cimeiras dos justadores; descrição dos momos) são também descritos no Cancioneiro geral (1516), Vida e Feitos del rei D. João II (1545) e Miscelânea e variedades de histórias (1554), todos de Garcia de Resende.
Impresso
Obras inéditas de Aires Teles de Meneses e de Estevão Rodrigues de Castro, e de outros anónimos dos mais esclarecidos da literatura portuguesa, dadas à luz fielmente trasladadas dos seus antigos originais, por António Lourenço Caminha (tomo II), Lisboa, oficina de Filipe José da França e Liz, 1792
Menções

Teófilo Braga, História da Literatura Portuguesa. Gil Vicente e as Origens do Teatro Nacional, Porto, Chardron-Lello, 1898, pp. 63-66

Luiz Francisco Rebello, O Primitivo Teatro Português, Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977 (2ª ed. 1984), pp. 91-94

Arenga ou relação fiel das Festas que se fizeram na Cidade de Évora no prazo do casamento do príncipe D. Afonso, filho do senhor rei D. João II, fielmente apanhada do seu antigo original, atribuída a Aires Teles de Meneses

 

I

 

Eu canto às futuras gentes

(qu' então houverem ser nadas)

maravilhas altas, ingentes,

talvez não acreditadas.

 

II

 

Da majestade os efectos

do bom Joan segundo

cujas manhas reis selectos

anhelarão ter no mundo.

 

III

 

Ele foi sábio e guerreiro

mestre de governança

nos grandes feitos parceiro

na guerra Marte em jusança.

 


IV

 

Querendo fazer patente

quanto o prezou seu filho

tais cousas fez que inda a gente

não viu na terra tal trilho.

 

V

 

Ao longo do Norte e Sul

de forte madeiramento

ocupa ingente paul

com nobre e rico aposento.

 

VI

 

De Tróia a soberba mole

(que dano foi dos troianos)

por certo que não engole

mais enxames, mais humanos.

 

VII

 

Ricas tapacerias

de cores várias e infindas

formam belas simetrias

todas alegres e lindas.

 

VIII

 

Portão soberbo se alçava

Após ingentes estrados,

Aonde a vista enxergava

Mil heróis assinalados.

 


IX

 

Arcos aparatosos

Ornados de tangedores,

Que com sons harmoniosos

Tocavam mil atambores.

 

X

 

Trombetas também bastardas,

desvairados instrumentos

com vozes prestes e tardas

os ares ferem, os ventos.

 

XI

 

Ingente copeira alçada

após disto logo estava

de infinda prata honorada

como ninguém recontava.

 

XII

 

E logo noutros estrados

estavam grandes senhores

de altas raças derivados

de alongados redores.

 

XIII

 

Todos bem ataviados

de ricas sedas e panos

qu'os nobres lusos pasmados

deixavam e os estranos.

 


XIV

 

Logo disto após se viam

mesas com mil primores

e em torno delas serviam

mil famosos servidores.

 

XV

 

Per grãos pelões pendurados

ingentes lumes cintilam

e mil gaitas acordadas

nos altos tectos sibilam.

 

XVI

 

Confusa cópia de Mouros

E também de Mouras vieram

(Longe de ritos e agouros)

Que varias danças teceram.

 

XVII

 

Vieram lusos brigosos

Com suas damas louçãs,

Que com seus bailes famosos

Fizeram pasmar mil cãs.

 

XVIII

 

Torneios, justas também

Nas praças se concertaram,

Onde d’áquem e d’além

Grãos duelos se travaram.

 


XIX

 

Com grande invenção e siso

D’Avis antre as altas portas,

Estava um Paraíso,

Que as gentes deixava absortas.

 

XX

 

Todalas ordens do Céu

Estavam n’elle ordenadas,

E por final do troféu

As bandeiras recamadas.

 

XXI

 

Aqui as Fadas estavam

(Segundo lhe coube em sorte)

Que a Princesa fadavam,

Cada qual de sua sorte.

 

XXII

 

Entrou depois na cidade

A grão Prole realenga,

E n’ella com novidade

Dita lhe foi sábia arenga.

 

XXIII

 

Depois ledos tangedores

À vinda da Princesa

Fizeram fortes rumores,

Espanto da natureza.

 


XXIV

 

Barcas e Loas fizeram

E outras representações,

Que a todos grão prazer deram

Conforme suas Tenções.

 

XXV

 

Depois sob pálio alçado

(Por principais regedores)

De grandes franjões orlado

Se viram Reis e senhores.

 

XXVI

 

As ruas s'acobertaram

de ricos panos e sedas

qu' os raios de Sol vedaram

e as faziam mais ledas.

 

XXVII

 

Pelas portas e janelas

estava infindo ouro

estavam as damas belas

por entre ramos de louro.

 

XXVIII

 

Da mesa logo ao começo

Dourada carroça veio,

(Cousa de grande preço)

Com roçagante arreio.

 


XXIX

 

Possantes dois bois assados

Por ela vinham tirando,

C’os cornos, mãos, pés dourados,

Ser vivos representando;

 

XXX

 

Moço loução diante

Com aguilhada na mão,

E com passo elegante

Pisava da sala o chão;

 

XXXI

 

O qual com siso e presteza

Guiando foi a carroça

‘Té onde estava a Princesa,

A qual de tudo se apossa;

 

XXXII

 

Depois da sala saindo

Ao Povo entregue a deixa,

O qual quebrando e partindo,

Come, espedaça e enfeixa.

 

XXXIII

 

Ingente avundança d'aves

inteiros pavões vieram

inda com as penas graves

que ledice e prazer deram.

 


XXXIV

 

De Guiné veio um grão Rei

Com três Gigantes membrudos,

De vê-los grão medo hei,

Tanto eram carrancudos.

 

XXXV

 

A gente deixa absorta

A grão companha que traz,

Onde Mourisca retorta

Vinha com alto torcaz.

 

XXXVI

 

Muitos Negros bailadores

De manilhas de ouro ornados,

E também grãos Tangedores

Com seus cascavéis dourados.

 

XXXVII

 

No centro um grande Castelo

De chapitéus e bandeiras,

Estava formoso e belo

Feito de várias madeiras.

 

XXXVIII

 

Em torno depois se viam

Trinta Tendas marciais,

Que ricas telas teciam

Pavezes, Elmos reais.

 


XXXIX

 

Depois dos Banquetes findos,

Galantes Mômos houveram,

E Antremezes infindos,

Que a todos bem aprougueram.

 

XL

 

Teia na praça se alçou

toldada de finos panos

que o rico mortal ornou

com soberbos pelicanos.

 

XLI

 

Viam-se tremulando

reais bandeiras bordadas

a todos prazer mandando

com as armas recamadas.

 

XLII

 

Baixéis de vária invenção

Bombardas mil despedindo,

Com grande e soberbo afão

Galhardetes desferindo.

 

XLIII

 

El Rei também por grandeza

A festa coroa e arreia,

E cheio de ardideza

Entra de tarde na teia

 


XLIV

 

E quando Febo deixou

a nossa ametade escura

no castelo se albergou

cheio de glória e ventura.

 

XLV

 

Cingido de matedores

ao povo seu se amostra

de seus bélicos ardores

a todos os que o vêem faz mostra.

 

XLVI

 

Dele logo após sairam

infindos aventureiros

que o mundo todo admiram

com arneses e letreiros.

 

XLVII

 

Também alguns justadores

de várias partes trazidos

em soberbos corredores

entram no campo atrevidos.

 

XLVIII

 

Todos estes que justaram

colares de ouro tiveram

segundo valor mostraram

e seu nome enobreceram.

 


XLXIX

 

Afora destes também

quantos aqui vieram

assi daquém e dalém

infindos dons receberam.

 

L

 

Porém por que postimeiras

contas vos dê das festas

aqui tendes as cimeiras,

as suas letras são estas:

 

LI

 

Estes liam de maneira

que jamais pode quebrar

quem co’eles navegar.

 

LII

 

No es menor mi pensamiento

mas ha quebrado tristura

las alas de mi ventura.

 

LIII

 

Acordaos de mis pasiones

ánimas descansaréis

de cuantas penas tenéis.

 

LIV

 

Aquesta guarda sus armas

mas a mí que amor enciende

nunca dellas me defiende.

 


LV

 

Guardas tú mas no tan cierto

como yo siempre guardé

la fe del bien que cobré.

 

LVI

 

Quien me tocare naquesta

 yo le romperé la testa.

 

LVII

 

Es tan dulce mi prisión

que debe para matarme

no prenderme mas soltarme.

 

LVIII

 

Cuanto más oye alegría

quien no alcanza ventura

tanto más siente tristura.

 

LIX

 

Más quiero morir tras él

sus peligros esperando

que la muerte recelando.

 

LX

 

Aventureiros:

 

El consejo que he tomado

deste muy antiguo dios

es dejar a mí por vos.

 

LXI

 

Sobre todos resplandesce

mi dolor

porque es él qu’es mayor.

 


LXII

 

Si esta gracia y hermosura

puede darla

de vos tiene de tomarla.

 

LXIII

 

Ante la luz de su lumbre

de vuestra gran claridad

es la desta escuridad.

 

LXIV

 

No hay saber ni descreción

al que os mira

porque viendoos se le tira.

 

LXV

 

La vitoria que de aqueste

he recebido

es verme de vos vencido.

 

LXVI

 

Aqueste suele dar vida

al que más servir se halla

y vos al vuestro quitarla.

 

LXVII

 

En el mar de mi deseo

viendo su lumbre seguí

a ella y dejé a mí.

 

LXVIII

 

La vida pierde dormiendo

el que muerde este animal

y yo callando mi mal.

 


LXIX

 

Este sona mi servicio

ser con vos

tan cierto como con Dios.

 

LXX

 

Cuando sanan de un dolor

los que como yo padecen

siete dele recrecen.

 

LXXI

 

Ha descubierto mi vida

desde aquí

gran descanso para mí.

 

LXXII

 

Éstas sueltan las prisiones

de que muchos han salido

y a mí han más prendido.

 

LXXIII

 

Cien mil déstas desfojé

mas fue mi ventura tal

que siempre quedó en el mal.

 

LXXIV

 

Van buscando mis servicios

el galardón que cayó

donde nunca pareció.

 

LXXV

 

Si a mi gran querer y fe

galardón tiene defesa

tudo lo pesa.

 


LXXVI

 

Es tan baja mi ventura

y tan alto el edificio

que no basta mi servicio.

 

LXXVII

Con sus fuerzas y mi fe

todos mis males dobré.

 

LXXVIII

 

Vuestra vida desbarata

más do qu’éste roba y mata.

 

LXXIX

 

Las minguadas son mis bienes

y por ser mi dicha tal

las llenas son de mi mal.

 

LXXX

 

Neste remedio de vida

tengo la mía perdida.

 

LXXXI

 

Nam t’espantes do que faça

sigue-me bem e verás

e eu te matarei a caça

e tu a depenarás.

 

LXXXII

 

En el comienzo de aquestos

comencé

y en ellos acabé.

 


LXXXIII

 

No puede ser compasada

la fe que os tengo dada.

 

LXXXIV

 

Es descanso de mi mal

ser en aquesta celada

toda mi vida gastada.

 

LXXXV

 

Que venga toda fortuna

jamás sueltan vez ninguna.

 

LXXXVI

 

Porém já é ingente erro

camanha arenga seguir

não abasta voz de ferro

a quem avante quer ir.

 

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